Silas Malafaia é criticado por internautas por comparar Aécio a Jesus Cristo

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Publicado no Extra

Grande opositor do PT, o pastor Silas Mafalaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, gerou mais uma polêmica nas redes sociais e despertou a indignação de fieis e internautas, que consideraram que o evangélico comparou Aécio Neves (PSDB) a Jesus Cristo.
Inconformado com a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), o pastor fez uma analogia com um texto bíblico citado nos evangelhos, no qual o povo pede que Pilatos liberte o ladrão Barrabás e crucifique Jesus.

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A reação dos internautas onsatisfeitos com o comentário foi imediata. “Não acredito que o senhor está comparando Aécio com Jesus. Me poupe o senhor, que diz ser um homem de Deus. Sinto vergonha de um dia ter admirado a sua pessoa!”, escreveu uma mulher.

Outra internauta considerou que “É até falta bom senso e respeito comparar o Aécio a JESUS CRISTO que é santo e misericordioso! Pegou pesado, hein”.

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Evangélicos que seguem o pastor pastor no Facebook usaram a própria Bíblia para repelir o comentário de Malafaia. “Toda a autoridade é instituída por Deus, sabia pastor?”, lembrou um internauta, em referência ao versículo de Romanos 13:1.

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A Igreja Universal e o custo da megalomania

Publicado em O Globo

A porta está sempre aberta àqueles interessados em conhecer a principal igreja neopentecostal do Brasil. Pode-se chegar praticamente a qualquer hora para ouvir uma palavra de incentivo. Os cultos acontecem cinco ou até seis vezes por dia em templos hoje espaçosos e confortáveis – frutos do rápido crescimento desde sua criação, em 1977, até o fim dos anos 1980, quando sua expansão chegou a atingir 2.600% em uma década. Hoje, são 757 locais de culto somente no Estado do Rio. A Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) conquistou milhões de pessoas e, na Terra, transformou-se em um império celestial, econômico, midiático. E político.

Embora oficialmente independente e composto por políticos de diferentes origens, o Partido Republicano Brasileiro (PRB), criado há apenas nove anos, tem sua liderança e base majoritariamente formadas por integrantes da Iurd. De oito deputados federais eleitos em 2010, passou para 21 nesta eleição e, no Rio, a legenda está a poucos passos do paraíso: tem chances reais de conquistar uma inédita cadeira no Poder Executivo e eleger governador o senador Marcelo Crivella, bispo licenciado da igreja.

Os dois lados se esforçam para dissociar publicamente suas ligações. Mas a chegada surpreendente de Crivella ao segundo turno deixou em evidência a denominação que é alvo de controvérsias no próprio meio evangélico pela adoção de táticas mercantilistas extremas. Os interessados em se aventurar pela instituição fundada pelo bispo Edir Macedo, um ex-adepto de religiões de matriz africana, devem saber que a programação é temática, conforme o dia da semana. Às segundas-feiras ocorrem as “reuniões da prosperidade” para atrair a bonança. Todas as terças, na “sessão do descarrego”, é dada ao fiel a oportunidade de exorcizar os demônios que lhe travam o sucesso na vida. As quintas são dedicadas à “terapia do amor”, e aos domingos, “o encontro com Deus” fortalece os vínculos familiares.

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A entrada da Catedral da Fé em Del Castilho: Igreja Universal vê seus megatemplos mais vazios – Guito Moreto / O Globo

SOLUÇÕES IMEDIATAS E EVANGELIZAÇÃO ELETRÔNICA

A Iurd tem duas estratégias centrais para atrair fiéis. Uma é a oferta de soluções mágicas e imediatas para problemas pontuais do cotidiano. A outra, a evangelização eletrônica. Programas de rádio e TV são usados para falar às massas, transmitir conversões e testemunhos, capazes de tornar plausível à doutrina da igreja. Trata-se de difundir a ideia de que há uma guerra cósmica entre Deus e o diabo na qual estão todos envolvidos – e somente através do sacrifício as bênçãos serão recebidas. Afinal, lá, ao contrário de outras religiões, como o catolicismo e até o judaísmo, a salvação é oferecida ao fiel ainda nesta vida e não em um desconhecido mundo vindouro.

Nos últimos anos, a Iurd também trava uma batalha por mais espaços no rádio e na TV. Além da Record, a igreja transmite sua programação religiosa na TV aberta em canais como Bandeirantes, RedeTV! e CNT – esta última, inclusive, é investigada pelo Ministério Público por arrendar 22 horas diárias de sua grade em algumas praças, 92% da programação, à Universal, contrariando as regras de concessão da Anatel. Nessa batalha pelas telas, a aposta iurdiana é oferecer pagamentos mais generosos para retirar do ar outras denominações evangélicas. Entrar em mais lares e conquistar novos adeptos.

– A estratégia de TV é basicamente dizer ‘vá ao templo’. Não se pede dinheiro na TV, ao contrário de outras igrejas. O objetivo é levar ao templo, e lá, a história é outra. As redes sociais, muito bem usadas, são importantes para atingir novos públicos, como a classe média e os jovens – conta o especialista em Comunicação Religiosa da UFRJ Eduardo Refkalefsky.

Segundo ele, a história da Universal pode ser dividida em dois momentos. No início, posicionava-se contra as religiões de matriz africana de olho nas classes mais baixas. Com a proliferação de templos concorrentes, criados por pastores dissidentes, a Iurd se viu obrigada a ampliar a base de fiéis. Passou a investir também na classe média e a relaxar alguns códigos conservadores de conduta, como a vestimenta. E essa mudança teve impacto direto nos cultos.

– A Universal passou a trabalhar em oposição à Igreja Católica, a fazer cultos voltados à classe média, promover encontros com empresários. Quando lidava com classes mais baixas, o foco era exorcismo e cura. Agora, é na prosperidade. A Universal encontrou um nicho, aproveitando a ascensão da classe C. Antes, captava recursos com muita gente em uma estratégia de massa. Hoje, consegue também de pessoas com mais recursos – avalia o professor.

Dinheiro, aliás, é um ponto-chave. Por isso, a doutrina centrada unicamente na chamada Teologia da Prosperidade é criticada até por outras vertentes evangélicas. Pesquisas acadêmicas indicam que a estrutura interna da Iurd assemelha-se à empresarial. A ascensão depende de resultados: o pastor que arrecada mais é promovido a um templo maior. Inicia-se na hierarquia eclesiástica como obreiro, um voluntário. Depois, pode ser promovido a diácono, uma espécie de intermediário entre o obreiro e o pastor.

– Em vez de falar das próprias qualidades, eles apontam os defeitos dos adversários, que seriam a umbanda, o candomblé e o catolicismo – explica Refkalefsky.

CENSO: RETRAÇÃO DE 10,8% NO NÚMERO DE FIÉIS

A organização estrutural é incontestável. Mas, na contramão de toda a influência política ascendente, é justamente nos altares onde a Iurd vem perdendo fôlego. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o crescimento da igreja desacelerou, em parte, devido à proliferação de novas denominações neopentecostais. Se os dados do Censo de 2010 indicam que a população evangélica cresceu de 15,4% para 22,2%, chegando a 42,3 milhões de brasileiros, os números revelam, ainda, que a Universal assistiu a uma retração de 10,8% em seu rebanho, passando de 2.101.884 para 1.873.243 adeptos num período de dez anos. Pesquisadores como Ricardo Mariano, do Departamento de Sociologia da USP, alertam que esses números absolutos podem ser enganosos, mas revelam uma tendência:

– Desconfio dos dados do Censo 2010. No resultado, apareceram 9,2 milhões de evangélicos sem vínculo congregacional porque no formulário só há uma pergunta: ‘qual a sua religião?’. Não consta a pergunta ‘de que igreja?’. Ou seja, se a pessoa respondeu apenas ‘evangélico’, não há como saber a que congregação ela pertence. Trata-se de uma falha do próprio Censo. A Iurd certamente teve uma redução de seu crescimento, mas isso não significa regressão em termos do número absoluto de fiéis – alerta ele.

A desaceleração evidencia um dos pontos fracos da entidade: projetos megalomaníacos dificultam a tarefa de fidelizar adeptos. A Iurd é uma reunião de superlativos. Seus templos têm decoração simples, mas exalam imponência pelo tamanho. Normalmente, são construídos para abrigar de muitas centenas a milhares de fiéis. E tanta grandeza tem um preço. Apesar de conseguir atrair as massas, esses megaespaços são pouco acolhedores, dificultam a criação de um senso comunitário. Nessas construções gigantes, não é tão fácil se aproximar, estabelecer elos sociais e produzir amizades que extrapolem os limites do culto.

– Há uma clientela flutuante muito grande por causa da pregação eletrônica. Como são muitas pessoas chegando, você não sabe quem está sentado do seu lado. É comum, por exemplo, quando o pastor convoca as pessoas a irem ao altar, dizer ‘tragam seus pertences’ porque acontecem muitos furtos. Por um lado, isso dá uma liberdade muito grande a quem chega, mas, por outro, não estabelece vínculos comunitários. É como entrar numa megaloja de departamento em um shopping center. Você entra e o vendedor não vai perguntar se precisa de ajuda – compara Mariano.

A inclinação da Universal para empreitadas gigantescas também se traduz em um projeto de inserção na vida política e na mídia. A expansão nessas áreas desencadeou, na opinião do antropólogo Ari Pedro Oro, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), um movimento similar ao das chamadas igrejas-clone, congregações neopentecostais como a Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada pelo ex-bispo da Iurd Valdemiro Santiago, e a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário R.R.Soares.

– O modelo que a Universal implantou produziu um mimetismo de conduta. Muitas igrejas perceberam que poderiam usar os mesmos métodos para obter sucesso na política e marcar presença na mídia, com rádios e compra de espaços na televisão. Por isso mesmo, o campo evangélico apresentou-se como força política na última década. E não apenas pelo crescimento do número de fiéis, mas também pelo aumento de sua importância enquanto eleitores, ainda que os evangélicos formem um grupo heterogêneo – analisa Oro.

No mês passado, a Assembleia de Deus começou a coletar assinaturas para criar seu próprio partido. E o fenômeno de segmentação política baseada em correntes do meio evangélico, reconhecido pelo conservadorismo, já divide pesquisadores. Trata-se, afinal, do voto de um bloco heterogêneo, mas que representa quase um quarto da população brasileira – cerca de 50 milhões de pessoas.

– O problema da Universal é ter um partido político por trás dela. Isso contradiz o ideário republicano de separação entre Estado e religião. Uma coisa é um partido de orientação cristã, outra é um partido que representa uma igreja. Eu não diria que é o fim dos tempos, mas outras igrejas podem fazer o mesmo. É um fenômeno crescente. Eles poderão bloquear qualquer legislação de orientação liberal – adverte Ricardo Mariano, com uma ressalva: – Boa parte dos evangélicos discorda dos objetivos políticos de suas denominações. É importante lembrar que os fiéis não têm nenhum objetivo escuso.

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A Iurd está presente em mais de 174 países. As maiores bases são Argentina, EUA, Portugal, África do Sul, Japão, e mais recentemente, Moçambique – Arte

O cientista político Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diverge e diz que é cedo para alarmismos diante da influência política da Iurd. Ele cita países europeus, por exemplo, como a Alemanha, onde partidos de orientação cristã, como a CDU da chanceler federal Angela Merkel, são perfeitamente legais e aceitáveis.

– A Constituição estipula que partidos políticos não incitem ódio e racismo. Esses partidos mais conservadores não necessariamente defendem princípios religiosos. Ter a ideologia de uma igreja por trás de uma legenda é a mesma coisa que ter um sindicato por trás de outra. Não há como impedir. É o eleitor quem vai fazer suas escolhas. Acho, agora, que essa é uma questão marginal para a democracia brasileira – pondera.

Controvérsias à parte, a expansão da Iurd para instâncias de poder, além de sua internacionalização, é considerada um divisor de águas no cenário nacional, como define Oro:

– A Universal ampliou a concepção de igreja e religião, abriu tentáculos para esferas que antes não eram atingidas pelas congregações. As igrejas sempre se organizaram enquanto templo e assistência social. Mas esta igreja que se organiza de forma empresarial, que busca se expandir além das fronteiras, que se insere na política de forma pensada, com estudo de capital político entre os fiéis, isso tudo é próprio da Universal, ainda que haja dissidentes e concorrentes.

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Ministro do TSE manda tirar vídeo de Malafaia na internet contra Dilma

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Publicado no G1

O ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Herman Benjamin determinou nesta sexta-feira (3) que um vídeo publicado na internet pelo pastor Silas Malafaia seja retirado imediatamente do ar por degradar a imagem da presidente da República Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT.

O vídeo insinua que a petista apoiaria ações de grupos terroristas islâmicos com o objetivo de assassinar cristãos. O pastor se refere às críticas da presidente à operação dos Estados Unidos contra o grupo Estado Islâmico na Síria. A intervenção bélica liderada por Washington resultou na morte de 70 pessoas. Dilma disse lamentar “enormemente” o fato. Depois, em discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no último dia 24, reiterou a posição ao condenar o uso de intervenções militares para tentar solucionar conflitos bélicos.

“Lamento a omissão da fala da Presidente Dilma com os assassinatos em massas de cristãos em 2013, que morreram 115 mil, e agora um grupo terrorista facínora que ‘tá’ cometendo massacres a Presidente diz que deve haver diálogo (sic)”, diz Malafaia no vídeo.

Segundo o ministro, o vídeo traz “imagens violentíssimas de verdadeiros atos de guerra praticados por supostos grupos extremistas”.
Na representação, a coligação Com a Força do Povo, liderada por Dilma, sustenta que as manifestações do pastor configuram abuso do direito de liberdade e ofendem direitos fundamentais.

Em decisão individual, o ministro concluiu que, ao tentar vincular a declaração da candidata a um suposto apoio a grupos islâmicos terroristas, Malafaia degrada a imagem de Dilma e incita hostilidade entre grupos de religiões diferentes.

“Há grande distância entre o uso informativo, para fins eleitorais, de falas e discursos de pessoas, algo mais do que legítimo, e a distorção ou infidelidade proposital às palavras e ao pensamento de quem se ataca, algo ilegítimo e ilegal”, destacou o ministro no seu voto.
A decisão determina que o Google suspenda imediatamente a veiculação do vídeo.

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Culto vira comício e igreja faz até “pesquisa eleitoral”

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Publicado no Terra

Já passa das 17h45, e o Culto da Família começa em mais um domingo na Assembleia de Deus do Brás – Ministério Madureira (ADBrás), na zona leste de São Paulo. Do lado de fora, muita gente ainda chegando: homens, mulheres, idosos, crianças. Depois de subir as escadas, já dentro do templo, uma funcionária faz um sinal com a mão e diz: “Posso fazer uma pesquisa com você? Em quem você vai votar?”, pergunta, exibindo um formulário onde o fiel pode indicar suas escolhas para senador, deputado federal e deputado estadual. “É só para a gente saber como está o desempenho do pastor aqui da casa”, explica a mulher à reportagem.

O candidato a quem ela se refere é o pastor Cezinha (Cezar Freire), que concorre a uma vaga de deputado estadual pelo DEM. Dentro da igreja, os cerca de 5 mil assentos vão ficando ocupados. Nas cadeiras vazias, junto aos envelopes de “dízimo” e “oferta”, os fiéis encontram uma espécie de cartão-postal do presidente da ADBrás, pastor Samuel Ferreira, sorridente ao lado de sua mulher, pastora Keila Ferreira. No verso, uma mensagem sobre “um momento muito importante, as eleições”: “O Cezar hoje é projeto de Deus e de nossa comunidade e precisamos dele na Assembleia Legislativa de São Paulo”, diz o texto, que continua com uma mensagem de “vote”, seguida do nome e do número do candidato.

Além de Cezinha, o santinho pede votos para o deputado federal Jorge Tadeu, também do DEM, que concorre à reeleição. “Apresento-lhe também nosso irmão Jorge Tadeu, para deputado federal. Com ele em Brasília teremos a certeza da defesa e luta pelos nossos ideais”. E então o fiel é informado sobre o número do candidato na urna, não sem antes receber uma nova mensagem do pastor Ferreira: “Peço a você que nos ajude agora com seu voto e sua influência junto aos seus familiares, amigos e conhecidos para conseguirmos mais votos” (veja reprodução do cartão no final da matéria).

A legislação eleitoral proíbe “a veiculação de propaganda de qualquer natureza” em “bens de uso comum” (estádios de futebol, bares, restaurantes, cinemas e igrejas, por exemplo), e o desrespeito à lei pode gerar multa de R$ 2 mil a R$ 8 mil. Para especialistas em direito eleitoral, o material assinado pelo pastor Ferreira configura propaganda irregular.

“O pastor não pode colocar a igreja a serviço da campanha eleitoral de ninguém. Quem está sujeito à multa, neste caso, é o pastor. Se ficar comprovado que os candidatos tinham conhecimento, todos devem pagar”, diz o advogado Arthur Rollo. “Além disso, vão para o inferno”, brinca.

Quanto à pesquisa de intenção de voto, o advogado Guilherme Gonçalves afirma que, como se trata de um “levantamento informal”, não há problema do ponto de vista legal. Já o advogado Arthur Rollo sustenta que a enquete é “uma forma de tutelar o voto do fiel”. “Não é o tipo de conduta saudável à democracia. É como se fizesse lavagem cerebral e quisesse ver se a lavagem cerebral está surtindo efeito”, afirma.

Comício velado
Por volta das 19h, o pastor Samuel Ferreira, que conduz o Culto da Família, diz aos fiéis que quer apresentar “um cara muito simpático, de uma família tradicional, filho de um desembargador do Tribunal de Justiça, que ajuda a igreja em momentos de dificuldade”, e então convida Guilherme Sartori para se juntar a ele. O jovem se levanta de uma cadeira no próprio palco, onde estava sentado com a noiva e a mãe, e ouve com atenção tudo de bom que o pastor tem a dizer a respeito dele e de sua família.

Feito o discurso, o pastor pede para que os presentes agradeçam e orem pela família do desembargador e convida os fiéis a repetirem “Família Sartori”. Depois, conclama o rebanho a gritar em uníssono: “Guilherme Sartori”. Obedientes, os fiéis repetem o nome de Guilherme várias vezes, com os braços erguidos.

“Quem é esse rapaz?”, pergunta a reportagem para uma fiel que repetia o nome de Sartori. “Não sei direito. Filho de juiz, né?” Em um acesso rápido ao Google, a explicação: Guilherme Sartori é candidato a deputado federal pelo PTB.

Em nenhum momento o pastor Ferreira ou o próprio Sartori contaram aos fiéis que quem estava ali era um candidato. Depois de ser apresentado pelo pastor, Sartori afirma, em discurso, que se coloca à disposição da igreja e dos fiéis porque “quando a gente está na Justiça a gente ajuda a família brasileira”

Dias depois, em entrevista por telefone, Sartori disse que ver os fiéis repetindo seu nome não lhe causa constrangimento algum. “Constrangimento por quê? Ele (pastor) é meu amigo, fui apresentado como amigo. Sou uma pessoa boa, que quer ajudar as pessoas, ajudar o País. Não tem constrangimento nenhum”, declara. “Não pedi voto, não fiz panfletagem. Isso é antiético, não se pode fazer isso (na igreja)”, continua, para então admitir o objetivo eleitoreiro da visita. “Como eu sou jovem, tenho que ir (ao culto) para fazer o meu nome ser conhecido. A gente é muito ético. Fica difícil concorrer com esses candidatos que têm muito dinheiro”, encerra Sartori.

Para o advogado Guilherme Gonçalves, o episódio em que o pastor convida os fiéis a repetirem o nome do candidato em uma espécie de mensagem subliminar pode ser interpretado como propaganda eleitoral irregular. “É uma estratégia para fixar o nome do candidato, é uma forma de propaganda”, diz o advogado. Já Arthur Rollo entende que “não é vedado, mas antiético”. “É um fato atípico, porque não tem material. Mas é claro que fazem isso com o objetivo de conseguir votos. Então não configura ilícito do ponto de vista eleitoral, mas, do ponto de vista ético, é absolutamente condenável. E do ponto de vista religioso também”, conclui.

Bancada evangélica
O voto evangélico é cobiçado. De acordo com o último Censo, divulgado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 42,3 milhões de brasileiros se dizem evangélicos, o que representa 22,2% da população. O percentual de adeptos às religiões evangélicas foi, por sinal, o que mais cresceu: de 15,4% em 2000, para 22,2% em 2010. Em contrapartida, o percentual de católicos caiu de 73,6% para 64,6%.

Ao mesmo tempo em que cresce o número de evangélicos, cresce também o número de representantes dessa parcela do eleitorado no Congresso Nacional. No pleito de 2010, a bancada evangélica passou de 47 para 74 parlamentares (71 deputados e 3 senadores), segundo dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).

Para a próxima legislatura, a Frente Parlamentar Evangélica da Câmara espera chegar a, no mínimo, 90 deputados, de acordo com estimativa do deputado João Campos (PSDB-GO), vice-presidente da Frente. Campos, que concorre à reeleição, é pastor da Assembleia de Deus – Ministério Vila Nova, de Goiânia, e autor do projeto que ficou conhecido como “cura gay”. Também são fiéis da Assembleia de Deus o deputado pastor Marco Feliciano (PSC-SP) e os presidenciáveis pastor Everaldo (PSC) e Marina Silva (PSB), além do pastor Silas Malafaia.

Para o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo de Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o fundamentalismo da bancada evangélica é algo que cresce na medida em que crescem as divergências culturais na sociedade. “Quanto mais essa população se sente à margem do debate político e cultural, maior é a tendência da bancada em se fechar em questões fundamentalistas, o que dificulta o diálogo”, afirma.

Outro lado
Procurados, a Assembleia de Deus e o candidato pastor Cezinha não respoderam à reportagem. Já a assessoria de Jorge Tadeu informou que o deputado “desconhece qualquer prática de propaganda eleitoral irregular em sua campanha”, mas que “tomará as providências cabíveis” caso encontre alguma irregularidade.

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Em Nome de Deus

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Publicado na Rolling Stone

Temidos e, ao mesmo tempo, cobiçados. Os evangélicos brasileiros estão prestes a protagonizar um momento-chave nas eleições deste ano, com a força de aproximadamente 23 milhões de eleitores. Cerca de 22% da população (42 milhões de pessoas, ou quase um em cada quatro brasileiros) se declarou evangélica no último censo, realizado em 2010. Conectados às redes sociais e abastecidos por uma máquina midiática poderosa, os políticos que representam essa massa sabem que, nas igrejas, têm mais do que um rebanho de fiéis – têm possibilidade de votos. Se parte dos brasileiros ainda não sabe se segue em direção à esquerda ou à direita, os eleitores da bancada evangélica parecem ter em mente exatamente para onde ir e em quem votar.

Em 2010, por exemplo, foram eleitos 70 deputados federais e três senadores que levantaram a bandeira da religião na hora de arregimentar votos. Se fossem todos do mesmo partido, seriam tão fortes quanto gigantes como o PT e o PMDB. Apesar de defenderem interesses comuns, na política e fora dela os evangélicos compõem uma massa heterogênea, dividida em diversos outros grupos. Há pelo menos três grandes ramificações: os evangélicos tradicionais (que podem ser batistas, presbiterianos, protestantes, luteranos ou metodistas), os pentecostais (Assembleia de Deus, Deus é Amor, Igreja do Evangelho Quadrangular) e os neopentecostais (Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo). Este último grupo é o que mais cresce no Brasil, e se diferencia dos pentecostais por adotar, segundo eles, hábitos mais “liberais”, e acreditar na chamada Teologia da Prosperidade, que enfatiza o caráter abençoado da riqueza.

A participação de religiosos na política brasileira não é novidade e os católicos foram os pioneiros. Mas, ao longo das últimas décadas, a Igreja Católica mudou seu modo de atuação, preferindo os bastidores. Os evangélicos, por sua vez, passaram a disputar eleições em números cada vez maiores: em 2014, pelo menos 270 pastores vão concorrer a cargos eletivos, segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). “Antes, representantes religiosos não se envolviam em disputas eleitorais ou políticas porque isso fazia parte da estrutura de pensamento deles à época”, diz o filósofo Roberto Romano, um dos maiores especialistas brasileiros na relação entre religião e política. “A separação da esfera do sagrado e do secular era um elemento importante.”

O chamado mais claro para que os evangélicos saíssem do isolamento político parece ter vindo de um velho conhecido do público: o bispo Edir Macedo, fundador e dirigente da Igreja Universal do Reino de Deus. No livro Plano de Poder (editora Thomas Nelson Brasil, 2008), Macedo conclama os fiéis a participar da vida política e a pôr em prática um projeto que é “de Deus”. Parecendo ter tirado inspiração de clássicos como O Príncipe, de Maquiavel, e de passagens bíblicas, Macedo é didático: “Mobilização é poder”. Para especialistas, o crescimento da bancada evangélica no Congresso acontece dentro de uma intrincada combinação de fatores, entre os quais estão o crescimento da população evangélica no Brasil, que triplicou entre 1980 e 2010; a dubiedade do Estado laico brasileiro; e o desgaste do velho debate político entre esquerda e direita. “A Constituição diz que o Brasil é laico, mas pede a proteção de Deus. Isso é muito irônico”, afirma Romano. Christina Vital, socióloga e professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), enfatiza que o debate entre esquerda e direita perdeu o sentido para algumas pessoas. “Hoje, a forma de mobilização social mais forte no Brasil e em vários países do mundo não se dá mais em torno de partidos ou sindicatos. Hoje ela é religiosa”, constata.

Para o pastor Everaldo Pereira, candidato do PSC à Presidência da República, a divisão entre direita e esquerda “é ultrapassada”. “O Brasil é um país diferente. Talvez isso fizesse algum sentido na Europa, quando começou, mas o país é hoje uma mistura de coisas”, ele acredita. Pereira é pastor da Igreja Assembleia de Deus do Rio de Janeiro e, durante o governo de Anthony Garotinho (1999-2002), foi subchefe da Casa Civil. Pesquisas recentes lhe dão em torno de 3% das intenções de voto. Parece pouco, mas o candidato conta com aliados poderosos – ao que indica a força de alguns de seus apoiadores, ele poderá surpreender. Em julho deste ano, Silas Malafaia, um dos mais midiáticos pastores do Brasil, divulgou um vídeo apoiando Pereira. O aval de Malafaia é um dos mais desejados entre os políticos evangélicos. Presente sobretudo na TV e na internet, ele não tem o menor pudor em indicar e criticar políticos. Foi Malafaia quem protagonizou um duelo com a jornalista Marília Gabriela durante o programa de entrevistas De Frente com Gabi, em fevereiro do ano passado, no qual disse amar os gays “da mesma forma que ama os bandidos”. Mas não só Everaldo Pereira está disposto a olhar para eleitores evangélicos – os principais candidatos à Presidência já deram início a tentativas de abocanhar fiéis em um jogo de xadrez no qual os “bispos” é que são as peças mais importantes. Todos atrás de um eleitorado que, segundo pesquisa do Datafolha, é três vezes mais propenso a votar em candidatos indicados pela igreja do que os católicos.

Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência, vem mantendo conversas com líderes da Assembleia de Deus no Rio de Janeiro e em outros estados. Em 2010, parte dos representantes da Assembleia, uma das mais poderosas igrejas entre as pentecostais, seguiu com o então candidato José Serra (PSDB). O time de Dilma Rousseff (PT) também se articula para buscar votos nessa esfera. Em 2010, a então candidata obteve o apoio da Igreja Universal do Reino de Deus. Um dos principais líderes da IURD, Marcelo Crivella (PRB-RJ), foi alçado ao cargo de Ministro da Pesca e hoje é um dos principais candidatos ao governo do Rio de Janeiro. “Os principais candidatos dialogam, e muito, com esse segmento”, explica Christina Vital. “Eles procuram as lideranças, porque sabem que elas podem influenciar o voto, ainda que seja ingênuo imaginar que os fiéis votem o tempo todo da forma como o pastor indica.”

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