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A empresa que faz vídeos sobre depressão e apoia quem precisa de ajuda

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PARCERIA
Ana Saad e Geison Luz, em São Paulo. Com problemas de infância parecidos, eles filmam histórias difíceis de vida (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Publicado na Revista Época

Ana Maria Saad e Geison Ferreira Luz têm muito em comum. Além de ter passado por transtornos emocionais na infância, têm grande paixão pelo cinema. Juntos, fundaram a Pensamentos Filmados, que conta histórias de pessoas que, como eles, viveram em meio a tabus, como suicídio e depressão.

Ana, formada em hotelaria, sofria de depressão desde os 8 anos. Aos 23, a doen­ça lhe deu uma trégua e ela foi para Londres, onde durante um ano e meio estudou cinema. Quando voltou ao Brasil, os sintomas reapareceram. “Como não tratava a causa, tive uma recaída”, diz. Foi nessas condições, em 2006, que começou um curso de atuação. Lá conheceu Geison. Nascido em Jaboatão, interior de Pernambuco, ele não se sentia emocionalmente confortável. “Cresci num ambiente sem estímulos para me desenvolver. Era uma família religiosa, um presídio”, afirma ele. Em 1994, aos 12 anos, veio para São Paulo com sua mãe. No Sudeste fez teatro e, num dos cursos que frequentava, se encontrou com Ana. Como perceberam que tinham histórias de vida parecidas, em 2008 resolveram criar um projeto audiovisual. Assim nasceu a primeira obra, V.I.D.A., um curta-metragem que mostra a depressão do ponto de vista de quem sofre da doença. Inspirado na vida de Ana, o filme chamou a atenção. “Foi enviado no primeiro corte para o Festival de Brasília. Lá a sala teve lotação máxima. Aos poucos nos demos conta do tamanho do filme”, afirma Geison. Com o sucesso, a ideia de desenvolver um projeto social ganhou força. “Ana e eu entendemos que cinema não é algo que você coloca na prateleira.

É uma ferramenta para abrir o diálogo com as pessoas, sobre questões que incomodam.”
A partir daí, a Pensamentos Filmados começou a se moldar e a produzir outros filmes, tratando de outros temas delicados. O curta-metragem Solo fala sobre a solidão. Jogatina discute a psicopatia. Todos estão na internet, no site do projeto.

Para pagar os filmes, os fundadores da Pensamentos usaram o próprio dinheiro. “Fomos tentar pela Lei Rouanet e não conseguimos. Fui atrás de editais, não tive resposta. Não consegui apoio de empresas, mas muitas pessoas físicas ajudaram, ainda que de forma tímida”, afirma Ana. Ela faz bicos para conseguir o dinheiro. Os trabalhos vão de coaching para atores a aulas de inglês. Geison trabalha como caixa de um restaurante em São Paulo. “Para fazer nosso último projeto, tive de colocar R$ 1.000 do meu bolso, o Geison mais R$ 500, e todos os que trabalharam ali foram voluntários.”

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FILMES E CAUSAS
Capas dos DVDs da Pensamentos Filmados. Entre os temas: solidão, depressão, psicopatia e superação (Foto: Reprodução)

A ação trouxe resultados, principalmente entre quem sofre com os problemas retratados nas obras do projeto. Com os celulares disponíveis no site do projeto, os fundadores acabam se tornando orientadores de muitos que não sabem a quem recorrer. “Todo dia falo com gente que me procura nas redes sociais. Vou atrás de terapeutas e indico lugares que atendem de graça”, diz Ana. Uma ferramenta mais lúdica, como os vídeos, para disseminar conhecimento sobre temas tabus é bem-vinda. “Toda vez que alguém foge do normal das coisas e quer mostrar um outro lado, deve ser incentivado”, diz Adriana Rizzo, voluntária membro da comissão nacional de divulgação do Centro de Valorização da Vida (CVV).

Mesmo com as dificuldades financeiras, há planos de crescer. Para o futuro, a Pensamentos planeja embarcar em esquetes de humor para internet que transmitam alguma mensagem positiva. O plano é arrecadar dinheiro com a publicidade da exibição dos filmes no YouTube. “Serão temas de comportamento abordados de maneira cômica, trazendo uma reflexão”, afirma Geison. “Acredito que podemos mudar o mundo. Principalmente começando por nosso próprio mundo”, diz Ana.

Fuck the poor: Publicidade expõe máscara de egoísmo

Sergio da Motta e Albuquerque, no Observatório de Imprensa

Parte de uma campanha publicitária criativa e ousada foi publicada no site da revista de marketing e mídia The Drum (7/4), que tem sedes em Edimburgo e Londres e vive um momento de grande crescimento. Contrataram jornalistas, investiram em pessoal especializado, mantiveram o investimento em toda a linha, enquanto as competidoras continuam a sair do mercado. O editor premiado ano passado e em 2014, Gordon Young, afirma que The Drum é o “maior site de marketing do Reino Unido por suas visões únicas”, e não é apenas um site de marketing: é “um vasto ecossistema de informação e conhecimento”.

O vídeo chamou a atenção da mídia e tornou-se a nova sensação da internet: mais de 170 mil visualizações em 24 horas no YouTube, publicou o tabloide inglês The Mirror (8/4). A propaganda mostrava um rapaz caminhando em uma rua de pedestres em Londres. Ele trazia pendurado no pescoço um cartaz onde se lia: “Fuck the poor”. E panfletava entre a gente da capital britânica, sempre com o mesmo bordão: “F****-se os pobres”.

Não demorou muito para aparecerem os primeiros protestos e contestações. Pessoas de todas as extrações estavam ali, indignadas com a fleuma de um jovem que, com muita gentileza e educação, provocava a população apressada da grande metrópole como se estivesse prestando um serviço público essencial. A bronca do povo foi grande: jovens, senhores idosos, mendigos, gente pobre, estudantes e alguns tipos mal-encarados não aceitaram o que até então parecia uma grande barbaridade. O sujeito só não apanhou ali na rua por que atrás dele havia uma equipe de filmagem e olhos inquietos de policiais. E das ubíquas câmeras de controle urbano de Londres.

De súbito, o jovem virou o cartaz ao avesso. A frase que ele anunciava agora era outra: “Ajude os pobres”. A reação popular mudou radicalmente: a turma indignada desapareceu e a rua ficou novamente cheia de gente apressada, que passava pelo cartaz com a mesma indiferença que a população sempre dedicou aos miseráveis nas ruas das grandes metrópoles: eles estão ali para não serem vistos. São parte da paisagem urbana no dia a dia, e não são mais vistos como gente.

Os limites da solidariedade

O que foi feito de toda aquela repulsa contra o xingamento dos necessitados? Para onde foram os protetores dos pobres?

Muitos voltaram às suas massacrantes rotinas. Outros foram trabalhar para ganhar a vida e escapar da pobreza. Temem um futuro inseguro, onde a penúria paira sobre todas as cabeças da gente trabalhadora. Foram atrás do dinheiro para não morrerem desprovidos ou desamparados. Muitos continuarão a perambular pelas ruas de Londres à procura de trabalho. Qualquer trabalho. O medo da pobreza submete as pessoas a ponto de as tornar desumanas e insensíveis. O dinheiro na era digital não é mais apenas um meio universal para trocas de serviços e bens materiais: é uma muralha que as pessoas usam para se apartarem da miséria do mundo.

Não foi piedade que provocou a reação nas pessoas em Londres. Nem compaixão. Foi o pavor compreensível de gente comum diante de um mundo que não oferece estabilidade ou segurança a ninguém que precise trabalhar para viver. Apesar de todo o nosso progresso tecnológico se insinuar como panaceia, a solução para problemas sociais não virá das cabeças pensantes do Vale do Silício. A “revolução digital” não vai redimir a sociedade da desigualdade e da pobreza. Precisamos de mais soluções low-tech de baixo custo para ajudar milhões de pessoas ao redor do globo a viverem dentro de condições dignas. E de muita colaboração ativa.

O jovem que xingava os pobres na realidade era parte de um experimento social, um sóciodrama elaborado pela Publicis, uma das três maiores firmas de publicidade do mundo, para a Pilion Trust, uma organização de caridade londrina que cuida dos casos mais graves de pobreza e miséria na cidade e no país. O trabalho deles é emergencial, e tem pedido ajuda do governo e de doadores particulares. Eles fazem caridade voluntária, e isso no mundo de hoje em dia é algo fora do lugar. Coisa de religiosos e gente “atrasada” de “mentalidade paroquiana”. A campanha produziu um vídeo comovente e revelador: expôs a indiferença da sociedade com a pobreza sem maniqueísmo, e mostrou que o pavor diante de um futuro incerto supera a iniciativa de ajudar a quem precisa. “Nós sabemos que você se importa. Importe-se o suficiente para dar”, é a mensagem da campanha. Um bom exemplo de publicidade a serviço de uma causa social básica. Pobreza não é mais privilégio dos não-europeus. O mundo mudou.

O vídeo produzido para a instituição de caridade inglesa mostrou exatamente onde estão os limites da solidariedade em uma grande metrópole: nos bolsos e nas mentes preocupadas das pessoas estressadas que não têm tempo para aqueles que eles imaginam estar além de qualquer tipo de ajuda.

Ursinho de brinquedo leva mensagem da família para crianças internadas

Elielson Ferreira Matos, 5, ouve mensagem em seu ursinho

Elielson Ferreira Matos, 5, ouve mensagem em seu ursinho

Cláudia Collucci, na Folha de S.Paulo

Ao apertar a mão do ursinho, Elielson, 5, sorri: dali sai a voz carinhosa da madrinha Imia dizendo que sente saudade e que deseja que ele melhore e volte logo para casa.

Diagnosticado com leucemia aos 47 dias de nascimento, o menino já passou por várias internações. Ele recebeu transplante de medula óssea em fevereiro, contraiu infecção e segue internado.

Elielson é uma das crianças internadas no Hospital Amaral Carvalho, em Jaú (SP), referência em oncologia infantil, que ganharam ursinhos especiais. Eles receberam um equipamento que recebe mensagens de áudio, mandadas via WhatsApp, e caixas de som. Um mecanismo liga a mão dos bichinhos ao dispositivo, liberando as mensagens armazenadas.

Cada criança tem um número, passado aos familiares. Foi por meio dele que Elielson conversou com a madrinha, que mora em São Luís.

“Ele adora o ursinho, não larga por nada. Toda hora ouve as mensagens”, diz a mãe, Cleudiana Ferreira, 33, que deixou outros dois filhos, de 7 e 14 anos, no Maranhão aos cuidados de familiares.

Segundo a oncologista pediátrica Claudia Teresa de Oliveira, chefe da pediatria do hospital, a ideia do ursinho “high tech” surgiu como forma de diminuir a solidão das crianças internadas, que ficam isoladas do resto da família durante o tratamento.

“Recebemos muitas crianças de outros Estados. São famílias carentes, que não têm acesso à tecnologia. Para elas, o ursinho alegra o dia, ameniza o efeito hospital.”

Com o projeto, o hospital incentiva que familiares e amigos enviem mensagens. “O carinho faz uma enorme diferença na recuperação da criança. Não conseguimos medir em números, mas a melhoria do bem-estar delas é visível”, diz a médica.

No Instituto da Criança do HC da USP, as crianças se conectam com os familiares por meio do Facebook, nos computadores existentes nas cinco brinquedotecas.

O instituto ainda ampliou o horário de visitas até a noite. “Nos próximos meses, vamos liberar para que o familiar venha a hora que quiser”, diz a coordenadora de humanização, Jaqueline Lara.

Duas vezes por mês, as crianças recebem a visita de cães. “Uma criança viu pela primeira vez um cão aqui. Ela nasceu na maternidade e ficou quatro anos internada.”

No Hospital de Câncer de Barretos também há várias ações para amenizar o sofrimento dos pequenos, como a quimioteca, que oferece jogos e brinquedos durante as sessões de quimioterapia.

O hospital também é pioneiro no modelo de atender a criança e acolher a família. “O paciente fica no apartamento com um parente e a família se hospeda nos alojamentos no entorno do hospital”, afirma Henrique Prata, presidente da instituição.

No caso de crianças em fase de cuidados paliativos, toda a família fica hospedada em apartamentos na unidade infanto-juvenil. “Não importa se a família é grande ou pequena. Hospedamos todos, pai, mãe e filhos”, afirma.

Junto com a mãe, Andreia Aparecida Silva Rocha, Francisco, grava mensagem para o irmão que está internado

Junto com a mãe, Andreia Aparecida Silva Rocha, Francisco, grava mensagem para o irmão que está internado

LIGA, RONILDO
O ursinho distribuído a 30 crianças no Hospital Amaral Carvalho foi criado em parceria com a FOM, fabricante de travesseiros, almofadas e brinquedos antialérgicos.

Ele recebeu o nome de “Elo”–por ter a função de ligar as crianças às pessoas que mais amam. Mas nem sempre atinge esse objetivo.

Ao final da entrevista, Cleudiana, mãe de Elielson, manda um recado para o pai do garoto: “Ronildo, liga para saber do teu filho. Ele está com saudade, pergunta onde você está”. Ela não tem notícias do ex-marido desde fevereiro.

Veja o vídeo das crianças com o urso Elo:

Brasileira homenageia pai morto com vídeo de viagem planejada pelos dois

Ela pediu que anônimos pelo mundo falassem o nome de seu pai.
Vídeos vieram de países que eles queriam visitar antes de ele ter câncer.

Paula Arnoso com seu pai, Emanuel, que morreu de câncer (foto: Arquivo pessoal/Paula Arnoso)

Paula Arnoso com seu pai, Emanuel, que morreu de câncer (foto: Arquivo pessoal/Paula Arnoso)

Flávia Mantovani, no G1

No ano passado, Paula Arnoso e seu pai, Emanuel, fizeram uma lista dos 18 países para onde gostariam de viajar juntos. Mas um câncer descoberto por Emanuel já na fase terminal – e que o levou à morte em menos de um mês – interrompeu os planos dos dois em fevereiro deste ano.

Paula resolveu, então, realizar o sonho deles de uma forma diferente. Com a ajuda de desconhecidos, a profissional de marketing de 23 anos fez um vídeo reunindo pessoas em vários países falando a mesma frase, em seu idioma natal: “Manu, estou aqui” (Manu era o apelido de seu pai).

Para chegar a essas pessoas, Paula contou com a ajuda de amigos que viajam frequentemente ou que moram fora do país. Também escreveu para desconhecidos que encontrava em redes sociais, moradores dos países de sua lista, pedindo uma colaboração.

Em uma semana, chegaram 80 vídeos. “Fiquei surpresa de ver que tanta gente ajudou mesmo sem me conhecer. Muita gente se emocionou e me escreveu”, disse ela ao G1.

‘Sonhos na gaveta’

Gerente em uma empresa de telefonia aposentado, Emanuel descobriu o câncer já na fase de metástase, aos 63 anos, no dia 27 janeiro deste ano. Vinte e três dias depois, morreu.

Apesar de se interessar por vários lugares do mundo, tinha muito medo de voar de avião e só havia saído do país uma vez, para ir ao Paraguai. “Ele tinha medo de se arriscar, não tinha coragem de fazer as viagens. Morei em Londres em 2012 e só minha mãe foi me visitar, ele não conseguiu ir”, conta Paula.

A ideia de fazer o vídeo veio com a dica de uma amiga, que sugeriu que ela participasse de um concurso sobre vídeos inspiradores. Devido ao prazo do concurso, foi tudo feito em duas semanas.

Dos 18 lugares da lista, ela só não conseguiu vídeos na Antártica. “Mas consegui colaborações de lugares como Madagascar, Trinidad e Tobago… Não achei que conseguiria tanto material”, diz ela.

Trechos do vídeo em que desconhecidos homenageiam Manu, o pai de Paula Arnoso (foto: Reprodução/Youtube/Paula Arnoso)

Trechos do vídeo em que desconhecidos homenageiam Manu, o pai de Paula Arnoso (foto: Reprodução/Youtube/Paula Arnoso)

Segundo Paula, além de homenagear o pai, a ideia é incentivar as pessoas a realizarem seus desejos. “Quero mostrar que os sonhos não podem ficar guardados na gaveta, que as pessoas deveriam viver seus planos, como meu pai não teve tempo de viver”, diz.

Cheia em Rondônia: a única coisa que a chuva não levou foi a fé

Pastor que faz trabalho humanitário relata drama das famílias

Casas de famílias ribeirinhas estão completamente debaixo d'água

Casas de famílias ribeirinhas estão completamente debaixo d’água

Louise Rodrigues, no Jornal do Brasil

Mais de 18 mil desabrigados, fome, doenças e pressa: esse é o quadro que muitas famílias do Estado de Rondônia têm enfrentado todos os dias diante da maior enchente da história na região. A ajuda só chega de avião ou de barco. Quando chega. Na parte alta das cidades, a água ainda não chegou, mas as populações ribeirinhas não escaparam da tragédia. O Rio Madeira subiu e levou embora casas, eletrodomésticos e a terra cultivada por famílias que vivem da agricultura, principalmente plantando banana e mandioca. A fome é aplacada com carne de peixe e, quando é possível encontrar, outros animais. A água contaminada causa doenças e as crianças e idosos são os que mais sofrem. O ribeirinho tem pressa para que a chuva chegue ao fim e ele possa reconstruir sua vida. A única coisa que a chuva não levou foi a fé.

Essa é a pior enchente da história de Rondônia, batendo o recorde de 1997. O Estado convive com a chuva há mais de um mês. Em meio a um quadro desolador, a população conta com a ajuda e solidariedade de quem pode contribuir. Motivado a reunir esforços em prol daqueles que perderam tudo, o pastor José Valamatos, que realiza trabalhos voluntários nessas comunidades, desabafa: “Estamos lutando para minimizar o sofrimento causado pela tragédia”.

Ajuda chega apenas de barco ou avião, estradas estão interditadas

Ajuda chega apenas de barco ou avião, estradas estão interditadas

Valamatos conta que recebeu 50 cestas básicas como doação de uma Igreja em Manaus. Os mantimentos chegaram de barco. “Ficamos muito felizes com a ajuda que recebemos e já distribuímos os alimentos. Só que, infelizmente, não dá para todos”. A alimentação dos atingidos pela chuva é um dos pontos que mais preocupam o pastor. “As pessoas estão comendo praticamente peixe, mas não é só de peixe que se sustenta uma alimentação adequada. Às vezes eles saem para caçar animais e a alimentação acaba sendo basicamente carne”. O grande problema é a escassez dos itens da cesta básica, principalmente, arroz, feijão, sal, açúcar, farinha e café. Valamatos também relata que faltam equipamentos capazes de levar o socorro para todos, deixando muitas famílias sem a ajuda necessária.

Outra preocupação do pastor é com o futuro das famílias que vivem à beira dos rios e igarapés. “Quando as águas baixarem, vai ser uma calamidade. Agora, eles podem pegar uma canoa e fugir para a cidade ou para lugares altos. Só que as águas vão baixar e tudo vai começar do zero: sem casa, sem móveis, sem nada. O solo não vai estar mais próprio para agricultura e o ribeirinho vai ficar praticamente um ano sem produzir sua subsistência”, justifica.

Muitos moradores perderam suas casas com a enchente

Muitos moradores perderam suas casas com a enchente

Ainda segundo Valamatos, as famílias conseguiram subir terras altas e agora aguardam a chuva baixar. Enquanto isso, devido às cheias, elas não podem se sustentar, uma vez que vivem da agricultura. “Essas pessoas perderam tudo, mas o tempo vai ajudar a recuperar o que foi levado”, diz o pastor. Valamatos contou que dez casas estão sendo construídas para abrigar as famílias que precisam. Seis já foram construídas. “Se nós pudermos ajudar de alguma forma, nós vamos ajudar”, afirma.

Além de tudo que já estão sofrendo, os ribeirinhos ainda têm mais uma questão para se preocuparem: a saúde. Devido à contaminação das águas, muitas pessoas, principalmente crianças, vêm apresentando quadros de diarreia, dores no corpo e na cabeça, além de otite, leptospirose, desnutrição e disenteria. “Estamos preocupados com a cólera. Embora ainda não tenham sido registrados casos, pessoas estão doentes e sem acesso total à higiene ou a cuidados”, conta Valamatos.

Para o pastor, a Defesa Civil e o governo do Estado de Rondônia estão conseguindo agir, dentro dos limites estipulados pela tragédia. “Trata-se de uma questão da natureza, uma calamidade ambiental. Não adianta culpar ninguém agora”, afirma Valamatos. No dia 15 de março, a presidente Dilma Rousseff sobrevoou as regiões atingidas pela chuva e mostrou-se preocupada. Na ocasião, a presidente declarou: “Estamos em um momento de fenômenos naturais bem sérios no Brasil. Vamos discuti-los sim”.

No município do Humaitá, onde está o pastor Valamatos, a ajuda chega com um pouco mais de facilidade, devido à localização estratégia entre Manaus e Porto Velho. Ainda assim, a situação é preocupante. Em localidades mais distantes, famílias inteiras estão isoladas, cercadas pela água, longe de suas casas e dependendo da chegada de mantimentos. Estradas estão interditadas, impedindo que caminhões prossigam levando água, alimentos e combustível. Os aviões muitas vezes não encontram lugares para pousar e os barcos, muitas vezes, precisam enfrentar a correnteza para chegarem ao destino final. Diante de um quadro cada vez mais desolador, o pastor Valamatos não perdeu a esperança: “É preciso ter fé”.

dica do Ailsom Heringer