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Se foi, o João

Publicado por Fabricio Cunha

Ontem acordei cedo.

Eu acordo cedo (quase) todos os dias. Por ofício, não por gosto.

Ontem acordei mais cedo.

Era um burburinho incômodo. Falavam baixo, mas bastante e ao mesmo tempo, todas ao mesmo tempo. O sexo feminino é assim.

Lembrei do verso do Byron, que decorei para impressionar meu professor mais erudito, que escrevia poesias (devia ter decorado pra impressionar as meninas da época): “entre a noite e a manhã, sobre a fímbria do horizonte, a vida paira como uma estrela”. Tristemente, não era a vida que pairava no assunto.

Fiquei atento ao que diziam, ou melhor, a quem eram.

Eram as palavras, conversando entre si.

Citavam e recitavam o João Ubaldo. O conheço bem. Li dezenas de suas crônicas. O palavreado sergipano/nordestino, a malandragem carioca, a velocidade baiana, todas colocadas num liquidificador, temperadas com beleza e o requinte da baixa erudição, – uma erudição latente, que se mostra discretamente presente, o suficiente para sabermos que o escritor é um erudito, mas que aquilo que escreve é vivo, entendível, assimilável e, até, aplicável – resultando em histórias inventadas, de personagens vivos, que podem ser eu ou você, ou um amigo, ou um inimigo, com o texto mais leve e corrente nossa literatura já produziu.

Pois então… As palavras estavam perdidas. Estavam ali, mas confusas, feito sindicalistas sem líder, microfone e carro de som.

Prestei mais atenção, tentando entender o que se passava. Já haviam me acordado mesmo, então, que me deixassem saber o porquê.

João havia partido. Dessa vez, de verdade. Já tentara partir uma ou duas vezes, entretanto, homem de letras, fora seguro aqui na terra por elas. Amante de um pouquinho de uísque e das madrugadas, ao assustar-se com a possibilidade de migrar dessa vida para a outra, desconhecida, adquiriu hábitos mais benfazejos, como acordar bem cedo, caminhar no calçadão do Leblon, uma ida e uma vinda, resistindo à tentação de fazer a volta antes do latão de lixo que delimitava exatamente a metade do caminho.

Ao vê-lo mais saudável e determinado, as palavras deram-lhe uma folga. Creram em sua notável mudança e resiliência em continuar por aqui mesmo, nesta terra estranha.

E não é que foi exatamente num desses interlúdios, “entre a noite e manhã, sobre a orla do horizonte”, que ele decidiu partir?!

Partiu, como parte a brisa, quando chega o Sol.

As palavras nem perceberam.

Foi-se o João Ubaldo Ribeiro. Homem da vida e das letras. Pastor vagabundo das palavras. E elas, perdidas, me acordaram mais cedo do que eu precisava (acordo cedo por ofício, não por gosto, que fique claro) e, acordado, fui caminhar no calçadão do Leblon, uma ida e uma vinda, resistindo à tentação de fazer a volta antes do latão de lixo que delimitava exatamente a metade do caminho, esperando, talvez, encontrá-lo para saudá-lo ainda uma vez mais, derradeira agora, por aqui, por esta terra estranha.

 

Quintessência

quintessc3aanciaYago Licarião, no Retalhos e Frestas

Poesia é a pobre maneira de traduzir em palavras os mistérios da vida e da morte. Estupefatos, reduzimos a letras o incompreensível. Ora, toda palavra é mera fração, fragmento, sempre incompletas, nunca acabadas. Incapazes de abarcar as revelações sensoriais, nos contentamos com ínfimas definições, sentenciamos o inefável. Todo poeta soçobra em angústia, decai em descontentamento. Nem seus olhos, boca e mãos se mostram suficientes para compreender, seja a flor que desabrocha em meio à aridez, seja a onda avassaladora de concreto. Inexplicavelmente, o artista há de conviver com o tormento de ser e não conseguir dizer tudo aquilo que é e não deixará de ser.

Toda pena é pouca para descrever o que está posto. Vocabulários infinitos não dariam conta de traduzir a inexorável pequenez da humanidade perante o universo. Filosofias e tecnologias caducam antes de deduzir a fórmula dos porquês. Nem matemáticos nem teólogos equacionarão a questão fundamental da vida, do universo, e tudo mais. Teoremas e rotulações cairão por terra sempre que tentarem encaixotar a liberdade do vento que sopra. As ciências, muito altivas, hão de desistir de segmentar as incertezas, as mutações e os desdobramentos tão presentes na inconstante existência. Empobrecidos, imperfeitos, cientistas recorrerão aos artistas para alimentar nossa sede de beleza.

Reafirmo: a poesia da vida, holística, não se resume à conjunções ortográficas e predefinições estéticas, assaz herméticas. Métricas e rimas, por mais rígidas e tecnicamente montadas, não transmitirão com perfeição a mensagem sussurrada à sensibilidade do escritor. Pincel e tinta não construirão, em tela, o que nem os olhos são capazes de enxergar. Não vislumbraremos esculturas, afrescos, poemas, canções nem películas mais transcendentais que as presentes nas imanências obscuras, encobertas, encavernadas do coração. Nem o sopro, nem as ondas, nem os picos, nem o pôr-do-sol, nem mesmo o romper do casulo a surgir borboleta, serão comunicados pelas mãos dos pobres e atormentados artistas.

Todavia, há de se reconhecer seu valor. O que nos falta em capacidade para transportar a perfeição, nos sobra em criatividade para inundar a alma. Só o poeta, será capaz de fornecer, ainda que pouco, o bálsamo cicatrizante dos nossos abismos. Quando a ciência e as racionalizações falharem em saciar nossa fome de formosura, só os poetas preencherão nossas frestas com o lírio da vida. Ao fugirmos do cartesiano, do gueto, do hermético, e destruirmos as muralhas da razão, encontraremos abrigo no doce som emitido pela sensibilidade inerente à pena. Ainda que em forma de retalhos, a salvação para a feiúra escorre nas entrelinhas do escrito, no subentendido das metáforas, na interpretação das parábolas.

Quem almeja alcançar o píncaro da transcendência há de se deixar levar pelo fluir das águas de Vinícius, Chico, Noel e Jobim. Da corrente de Saramago, Tolkien, Lewis, Tolstoi, Drummond e Virgílio. Do conduzir de Michelangelo, Rafael, Da Vinci, Renoir, Rembrandt, Dalí e Van Gogh. Da incomensurável levitação de Bach, Mozart, Beethovem e Villa-Lobos. Dos igualmente transportadores Shakespeare, Lispector, Austen, Gabo, Augusto dos Anjos e Machado de Assis. Dos exemplos de Mandela, Madre Teresa, Gandhi, Luther King Jr., Zumbi e Tutu. Nas imagens reveladoras de Cartier-Bresson, Irving Penn e João Bittar.

Nas mãos desses, aceito a imperfeição como melhor caminho para a salvação.

Deixaram a porta aberta e Deus fugiu da igreja

igreja-620x400Eberth Vêncio, na Revista Bula

A regra é rubra; os dogmas, claros. Abre aspas:  “É vedado aos crentes solteiros desta igreja, não somente se afeiçoarem aos crentes de outras agremiações religiosas que também concorrem a Pimenta-do-Reino dos Céus, assim como contrair com os mesmos chato, bubão ou matrimônio.

É vedado aos casais fazerem amor sobre o harmônio antes do culto, principalmente com as luzes dos castiçais acesas. Se a música e a fantasia libertam, com certeza deve ser pecado.

Cada um no seu quadrado: é vedado às fiéis casadas — sob alegação contribuírem com seus amos para a amortização das despesas domiciliares — trabalharem fora do lar, a não ser para varrerem o terreiro, catarem o coco do cachorro ou dependurarem as roupas no varal. Vão rezar, ó submissas!

Essa vocês vão ter que engolir: é vedado comer a hóstia antes da missa, conquanto ela seja nada mais nada menos que uma abençoada porção de farinha de rosca prensada numa máquina de fazer doidos sob a forma de moedas de cinquenta centavos com a logomarca do Vaticano.

É vedado ao médico, mesmo que ele seja cubano, mesmo investido do sacerdotal labor hipocrático, injetar quéti-chupe nas veias de um crente anêmico moribundo com um pé na cova e o outro no coágulo de sangue. Dizem as escrituras: Não dirigirás uma só palavra a Deus após tomar uma taça de Sangue de Boi.

Quem escreveu eu confesso que não sei quem fui, mas está explícito em letras garrafais num dos infinitos provérbios de Pronomes: é vedado às mulheres depilarem as axilas, as virilhas, o monte de Vênus ou quaisquer outros acidentes geográficos do corpo humano que induzam os varões a flutuarem no mundo da lua, a cobiçarem fazer sexo por mero divertimento, descomprometidos com as sacrossantas finalidades procriadoras de um coito.

É vedado aos crentes desta igreja fazerem o quadradinho de oito sob o pretexto de comemorarem feriados, mortes e aniversários, além de curtirem sozinhos à lapidação com pedras renais de um escriba ateu em praça pública.

É vedado colocar em dúvida o conteúdo dessas escrituras, sob pena de enlouquecer de razão”. Fecha aspas.

Com o apoio de prepostos aqui na Terra, Deus arrebanhou mais uma ovelha para o seu rebanho, e eu perdi um amigo. Vejam vocês, carneirada: era um dia quente de verão nos cafundós de Buraco Azul, quando eu me deparei com o sujeito num ponto de ônibus. Seus sovacos estavam ensopados de suor, e ele tagarelava mais que uma mulher naqueles dias, ao ponto de espumar pelos cantos da boca de tanto salvar o mundo, a pregar vergalhões inúteis no couro duro dos cidadãos que só queriam chegar logo em casa, pregar a bunda no sofá, e acompanharem pela TV o inédito beijo gay entre um ator sem talento e um dramaturgo efeminado da novela das oito. A corrida pela audiência não economiza sensacionalismo: espera-se para os próximos capítulos o incrível parto de um transexual dentro de um aquário.

Dizem que as amizades da infância são as mais longevas. Fiquei tão feliz em reencontrar aquele cara que não hesitei em interromper a sua palestra no deserto, e convidá-lo para um café com palavras numa lanchonete ali perto. Ele declinou, disse que também estava naqueles dias, ou seja, jejuando e cumprindo a inoxidável missão de capturar ovelhas desgarradas, evangelizar transeuntes nas paradas de ônibus e OVNI. Com os olhos vidrados de tanta fé (até porque ele tinha uma bola de gude enorme enfiada num dos cavos orbitários, pois um olho secara de tanto chorar), ele fez uma rápida retrospectiva da sua vida, do quanto teve uma infância cruel regada a maus tratos.

Desde o dia em que ameaçou furar as tripas do próprio pai com a faquinha da manteigueira, porquanto o sujeito não parava de esbofetear a esposa na cara, quase tudo mudou: ele, as irmãos abusadas e a mãe agredida enxotaram o bêbado valentão de casa e se converteram a uma das religiões mais conservadoras e reacionárias que se tem notícia nesse hospício. Antes de tomarmos o último porre de “laranja mecânica” da nossa juventude (um coquetel feito com água de bateria e Crush), meu amigo me chamou de lagartixa, me prensou contra a parede e perguntou: “Você não ouviu o chamado?”. Juro que fiz de tudo para ouvir o tal chamado, até porque amava aquele sujeito como a um irmão.

Então, nunca mais nos vimos, até aquela tarde modorrenta em Buraco Azul. Como diria Dona Genoveta, a passadeira: os anos e as malas de roupas se passaram. Acho que meu coração ficou velho antes do tempo. Será? Que nada. Bobagem. Hoje, aos 48 anos, meu miocárdio está tão usado quanto o fígado e a vesícula, só que mais amargo, apesar de não bombear a bile.

O cérebro, não. Dependendo do sujeito, o cérebro pode ser o primeiro órgão do corpo humano perfeito a se tornar imperfeito, a definhar, pois ele é o sítio onde a amargura cria limo, o cárcere ideal cuja complexa rede de teias, traças e sinapses resulta, ora em euforia, ora em desterro, com uma evidente tendência à tragédia, como é o meu caso. Então é só isso: de certo modo, os meus neurônios se amarram numa melancolia. Ai, como dói perder um amigo.

Nada me faltará

Arte de Eduardo Nasi

Arte de Eduardo Nasi

Publicado por Fabrício Carpinejar

Qual a maior alegria de pobre? Ver sua despensa cheia. Preparar um rancho mensal. Tomar as estantes da cozinha com produtos. Não sobrar uma fresta de vazio, uma nesga de espaço. Enfileirar feijão, criar um exército de arroz, formar paredões de creme de leite.

Falo com conhecimento de casa. Pobre mesmo se contenta em forrar o futuro. Como se uma guerra fosse começar e ele estivesse a salvo. Como se não precisasse sair nos próximos dias. Estará despreocupado, salvo da inconstância, protegido da instabilidade.

Transforma sua residência em abrigo antiaéreo. Num minimercado. Num almoxarifado.

Os mantimentos são um investimento. Suas ações na bolsa. Sua bolsa pesada. Sua carteira preenchida.

Tanto que não recebe a visita pela porta da sala, e sim quando abre as portas da despensa.

Provar que pode alimentar a família e amigos é seu maior contentamento. Despensa repleta significa o antídoto contra a fome, esperança contra a carestia, vingança a qualquer penúria ancestral.

A despensa é a geladeira a seco. É a avó do freezer.

Pobre mesmo não gosta de comprar todo dia, mas de fazer estoque.

Pobre mesmo não gosta de novela, mas de comercial.

Pobre mesmo oferece festa na segunda-feira.

Pobre mesmo somente se satisfaz duplicando produtos, criando berçários de gêmeos no alto dos seus armários.

A cozinha transbordando é sua euforia eleitoral. Sua eleição ganha. Presenteia a si mesmo com cestas básicas.

Só realizando mercado a longo prazo que produz a sensação de comando da vida. É aquele momento imperioso que manda no mês e não sofre com juros.

Alegria de pobre não dura pouco — porque ele não cansa de reparti-la. Quer ter para mostrar e dividir. Diferente do rico, que pretende ter para esconder.

Alegria em conta-gotas

Gota-love-562358Ricardo Gondim

Alegria é pepita descoberta depois do vendaval.
Ela nasce do instante; sua pouca duração é causa do arrepio.
Como clarão na madrugada invernal,
A alma não foge de encarar qualquer desafio.

Alegria é elétron que espalha energia pelo corpo.
Na soma de cores o espírito avança.
O choro perde força.
Sorrateiras lágrimas somem frente à calma mansa.

Alegria serve de torniquete,
para estancar a sangria que desperdiça felicidade.

Alegria é implante divino.
Deus se importa com a memória dolorida.
O Espírito se derrama na casa ferida.
Ele quer ser motivo para o sorriso feminino.

A viúva transforma o espelho do quarto em retrovisor.
Na noite escura, enxerga o rosto feliz do amado que se foi.
Com uma nesga de alegria, transforma a trágica saudade em vontade de viver.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim