Bobas, sonhadoras, essenciais

Por que o romantismo desvairado das mulheres faz o mundo rodar sobre seu eixo

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Ivan Martins, na Época

As mulheres são bobas. Sonham demais, põem a carroça na frente dos bois, se apaixonam com um sonho de valsa. São elas mesmas que dizem. Basta um chope na calçada para imaginarem cenas de casamento. Um beijo na boca e já pensam como seria ter uma filha com aqueles lábios. Diante da possibilidade do amor, suspiram e se agitam como virgens do século XIX – embora seus horizontes pessoais sejam mais amplos que os de qualquer heroína das irmãs Brontë.

Suspeito que as mulheres sejam graciosamente antiquadas.

Décadas de liberdade, emancipação e sexo mais ou menos livre não foram suficientes para apagar o software afetivo do tempo dos espartilhos. Diante de um homem que pareça o cara certo, ressurgem velhos modelos e sensações. Não acontece com todas as mulheres, nem acontece sempre, mas a maioria já experimentou o sentimento. Assim como boa parte dos homens. Ninguém está livre de fantasias românticas selvagens. A diferença é que as mulheres parecem ser especialistas.

Mesmo tendo assistido a desilusões cavalares, ainda acho essa ingenuidade positiva. Ela é a argamassa invisível com que se constroem milhões de relacionamentos. Permite que, num mundo de egoísmos e receios, alguém dê um passo, estenda a mão e chame o outro. É como uma estrada que faz com que as coisas avancem, quando poderiam empacar e perecer. A gratuidade do amor feminino é uma dádiva. Faz o mundo girar sobre o seu eixo.

Homens também são assim, às vezes. Podem olhar para uma mulher comum que compra absorventes na farmácia e apaixonar-se, como num filme argentino. Querem casar, ter filhos, viver com ela num fiorde dinamarquês. Às vezes, contam isso a ela, que segura a cestinha perplexa, sem saber que o carequinha gaguejante diante de si é o homem da sua vida. Ou poderia ser. Acontece. Mas com as mulheres é mais frequente. Elas constroem mansões imaginárias. Sonham meticulosamente o futuro, sem o qual o presente é só um passado envelhecendo.

Pode ser apenas ilusão minha. Vai ver que o romantismo das mulheres foi substituído por prazer físico e pragmatismo existencial. Sonhar talvez tenha virado coisa de trouxas, e o mundo pertença agora às bruxas elegantes. Pode ser. Mas simpatizo com as bobas sonhadoras que sofrem de forma monumental. Elas fazem coisas que de outra forma não seriam feitas. Como memórias, poemas e famílias.

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Xico Sá pede demissão da Folha após ser censurado por apoiar Dilma

Xico Sá pede demissão da Folha de S.Paulo depois de ter um artigo censurado pelo jornal. No texto, o jornalista e escritor declarava voto em Dilma neste 2º turno e explicava as suas razões

Xico Sá afirmou ainda que a grande mídia do Brasil só tem interesse em atacar e denunciar um lado (Edição: Pragmatismo Político)
Xico Sá afirmou ainda que a grande mídia do Brasil só tem interesse em atacar e denunciar um lado (Edição: Pragmatismo Político)

Publicado no Pragmatismo Político

O jornalista e escritor Xico Sá pediu demissão da Folha de S. Paulo depois de ter tido um artigo vetado pelo jornal. Na coluna, que seria publicada no sábado 11, no caderno Esporte, ele declarava seu voto na presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição.

No sábado, Xico Sá disparou ataques contra o que chamou de “imprensa burguesa” e contra o candidato Aécio Neves (PSDB) em sua página no Twitter. Ele também declarou seu voto em Dilma na rede social.

“Foda-se o PT, a merda é q ñ há a mínima manchete contra os outros. Aí tá a putaria jornalística e eu, lá de dentro, sei como funciona”, escreveu Xico Sá no Twitter. “Amo encher a boca e dizer IMPRENSA BURGUESA. É q só há um lado a foder, nisso é desonesta, escrota, fdp. Pq ñ investigar todos?”, questionou em seguida.

“Nego acha q por trabalhar na imprensa burguesa desde os 18 anos ñ posso ser contra a orientação política dos chefes. Oxe, aí q devo ser mesmo. Um dia ainda vou contar tudo q a imprensa ñ deixa sair se for contra a orientação política dos grandes jornais. Só podem os reinaldões etc”, ameaçou, citando o colunista Reinaldo Azevedo, de Veja.

Sobre as eleições, publicou: “Façam bonito, vcs são do jogo, mas o governo brasileiro foi muito importante para o meu povo e eu estou com meu povo. Dilma é foda!!!”. E ainda: “se fosse votar por vcs burgueses era Aécio até o talo; mas como prefiro votar pelo meu povo da porra e q necessita, é Dilma, carajo”. Xico Sá criticou Aécio e perguntou: “na boa, do fundo del corazón, como alguém pode votar em Aécio? juro q não vou julgá-lo por nenhuma das 50 escrotidões q poderia julgá-lo”.

Xico ainda fez restrições sobre a cobertura eleitoral: “lindo qdo um menino d hj fala no roubo do PT, sobre o qual há dúvida, e mal sabe q fui repórter d política e provei muitos roubos do PSDB”.

Caso Maria Rita Kehl

O episódio de Xico Sá, em certa medida, lembra o ocorrido há pouco mais de quatro anos, em 6 de outubro de 2010, com a psicanalista Maria Rita Kehl. Ela foi demitida do jornal O Estado de S. Paulo depois de escrever um artigo, publicado na véspera, sobre “desqualificação” dos votos das pessoas pobres. Na ocasião, deu entrevista ao repórter Bob Fernandes, no portal Terra Magazine, e disse ter sido dispensada por um “delito” de opinião.

O artigo, intitulado Dois Pesos…, terminava assim: “Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do país, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos”.

Na entrevista, Maria Rita chegou a declarar que considerava um “erro estratégico” do governo queixar-se da imprensa, mas também não conhecia nenhuma ação concreta do governo para cercear a mídia. Por outro lado, acrescentou: “A imprensa, que tem seus interesses econômicos, partidários, demite alguém, demite a mim, pelo que considera um ‘delito’ de opinião”.

 

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Hannah Arendt, Freud, Lacan: conheça os pensadores que fazem a cabeça de Marina Silva

Candidata lança mão de filósofos, psicanalistas, escritores e dramaturgos para justificar escolhas políticas e pessoais

Marina Silva na Bienal do Livro SP (foto:  Alexandre Cassiano / Agência O Globo)
Marina Silva na Bienal do Livro SP (foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo)

Mariana Sanches, em O Globo

Hannah Arendt, Freud, Lacan, Edgar Morin, Zygmund Bauman, Shakespeare. Todos eles sobem ao palanque junto com Marina Silva. Cotidianamente, a candidata do PSB lança mão de conceitos de grandes pensadores para justificar suas escolhas políticas e trajetória pessoal.

Para explicar como Eduardo Campos passou de ilustre desconhecido das massas a uma morte chorada nacionalmente em poucas horas, por exemplo, Marina aplica o conceito de “sentido” do psicanalista francês Jacques Lacan. Para Lacan, o significante surge muito antes do sentido. E o sentido surge antes da compreensão:

— As pessoas só foram conhecer as ideias de Eduardo depois que ele estava morto — diz Marina, concluindo a analogia entre a realidade e a psicanálise.

Ela define sua candidatura à Presidência a partir de uma citação do escritor francês Victor Hugo: “Nada mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou”. E explica os termos de sua oposição a Dilma e Aécio apoiando-se em Shakespeare:

— Shakespeare disse que o contrário de injustiça não é justiça, é amor. Porque toda justiça que não se faz por amor é vingança. Ser oposição, ter uma candidatura concorrente, não é combate, é debate.

De Hannah Arendt, a autora do conceito de “banalização do mal” em análise do comportamento dos alemães no regime nazista, Marina toma de empréstimo a noção da vida feita em ciclos para justificar suas decisões de sair do PT e de tomar um remédio experimental, que poderia matá-la, para tratar sua contaminação por metais pesados. Em um artigo sobre a filósofa alemã de origem judia, Marina escreveu ano passado: “Hannah nos sussurra a coragem de seguir a nossa consciência sem nos deixar ensurdecer pelos que profetizam a ausência de futuro e nos querem fazer acreditar que a história termina neles. ‘A Condição Humana’, expressa sua esperança, nosso legado: ‘Os homens, ainda que devam morrer, não nasceram para morrer, mas para recomeçar.’

— A Marina adquire palavras, ela gosta de construções sintáticas, das frases — explica Jane Vilas-Boas, assessora da candidata há 16 anos.

Marina é descrita por aliados como workaholic. Não desgruda dos livros nos voos (até porque a distraem do medo de voar). Para ler na cama sem prejudicar a coluna, mandou fazer uma almofada especial. É comum que passe a noite acordada.

— Aconteceu várias vezes de eu chegar para buscá-la às 7 da manhã e ela perguntar: ‘Já amanheceu?’ — diz Jane.

Depois que aprendeu a ler, aos 16 anos, Marina não parou mais. Chegou a burlar as ordens da madre superiora do convento onde passou pouco mais de um ano da juventude para ficar acordada até tarde com seus livros.

O teatro lhe trouxe o primeiro substrato teórico de esquerda, com o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, Morte e Vida Severina, do João Cabral de Melo Neto, além de várias obras do dramaturgo alemão marxista Bertold (sic) Brecht.

Aos 22 anos, quando entrou no curso de História, na Universidade Federal do Acre, teve que se esforçar para superar a defasagem de sua Educação, feita no Mobral e no supletivo. Em conversa recente com empreendedores, Marina contou que ficava até altas horas da noite tentando entender o conflito epistemológico entre Marx e Hegel, com um filho no colo, e na companhia do amigo Binho Marques. Segundo Binho, ex-governador do Acre, Marx ganhou o conflito na cabeça dos dois e serviu para justificar o engajamento político de ambos.

Sua militância marxista, no entanto, seria continuamente suavizada até que ela rejeitasse a bipolarização social entre proletários e proprietários, excluídos e incluídos, no fim da década de 1990. Para tanto, ideias do francês Edgar Morin, com quem ela cultiva relação pessoal, foram fundamentais.

Morin cunhou as noções de “Pensamento Complexo” e de “Diálogo dos Saberes” para explicar que é preciso reagrupar os conhecimentos e as pessoas para entender o universo. O pensador procura se distanciar da divisão do mundo em classes ou em noções maniqueístas, recusa oposições clássicas. São essas ideias que permitem a Marina dizer que Chico Mendes, sindicalista e seringueiro de origem humilde, também é elite e congregar, em um mesmo programa de governo, ideias de economistas de polos ideológicos opostos, como Eduardo Gianetti e José Eli da Veiga.

Depois de sua conversão, além da Bíblia, Marina passou a ler o best-seller americano Philip Yancey. Com 14 milhões de cópias vendidas e obras traduzidas para 25 idiomas, Yancey é um hit entre os evangélicos com seus livros “Decepcionado com Deus” e “Maravilhosa Graça”, já incluídos entre os cerca de cinco mil livros que compõem a biblioteca de Marina, em Brasília.

Quando não lê, Marina escreve. Em 2007, em uma visita a um museu na Noruega, se impressionou com o clássico de Edvard Munch, “O Grito”. Gastou aquela madrugada escrevendo um poema sobre ele.

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Triste balneário

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Gregorio Duvivier, na Folha de S.Paulo

Vim fazer um filme em São Paulo. Aluguei um apê no Copan. Com o preço do aluguel, compraria uma esfiha no Rio. Acordo todo dia às 6h da manhã com gosto. Posso ver a cidade inteira amanhecendo. No apartamento, tem uma bicicleta em perfeito estado. Ligo pro dono, ele diz que é só encher o pneu. No Rio, teria cobrado uma taxa extra: 700 esfihas.

Aqui, ando de bicicleta pela cidade inteira. A cada dia surge uma nova ciclovia. No Rio, a prefeitura acha que bicicleta é uma espécie de pedalinho —uma ótima maneira de se passar o domingo. Em São Paulo, ela está sendo tratada como um meio real de transporte. Até 2015 vai ter ciclovia na Paulista.

Clarice reparou que, quando alguém te recomenda alguma coisa em São Paulo, a coisa geralmente é boa de verdade. No Rio, as pessoas gostam de gostar ironicamente. “Você tem que comer aquela pizza ruim. É tão ruim que é boa.” Carioca se apega ao péssimo. Gosta porque gosta da ideia de gostar —não tem nada a ver com qualidade. A prova disso é que a pizzaria Guanabara segue de vento em popa.

Eduardo Paes importou a lei Cidade Limpa —paulistana. Tirou todos os outdoors da cidade. Muito legal. Proibiu também os cartazes na fachada do teatro. Menos legal. Fiquei meses em cartaz, ironicamente, sem cartaz.

Para piorar: no lugar dos cartazes, o prefeito espalhou autopropaganda. Agora, nas eleições, degringolou. A cidade está abarrotada de cavaletes políticos irregulares —inclusive e principalmente dos cúmplices do prefeito que se vangloria de ter feito o tal choque de ordem. Em São Paulo, a prefeitura proibiu o outdoor. No Rio, ela garantiu o monopólio.

Enquanto em SP a polarização se dá entre PT e PSDB, no Rio é entre o tráfico e a milícia. O carioca vota num candidato para evitar que outro se eleja. “Vou votar no pastor pra não ganhar o miliciano.” “Vou votar no traficante pra não ganhar o homicida.” Já vi gente discutindo qual candidato era menos assassino. “A diferença é que seu candidato mata. O meu é diferente. Ele só manda matar.”

Resumindo a tragédia, a disputa atual se dá entre um candidato chamado Pezão e outro chamado Garotinho. Não, não é uma história infantil de péssimo gosto. É terror da pior espécie.

O Haiti não é mais aqui. Ao contrário do Rio, o país mais pobre da América já saiu da guerra civil e está passando por um processo civilizatório. Já o Rio tem se transformado num califado ultrarreligioso governado ora por traficantes, ora por milicianos —onde um cafezinho ruim pode custar R$ 8.

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Só tem mulher no Face de madrugada

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título original: Mulher não dorme, mulher dá um tempo

Mariliz Pereira Jorge, na Folha de S.Paulo

Perdi o sono às 4h da manhã e só consegui dormir novamente às 8h, quando seria hora de acordar. Fiquei num mau humor do cão, distribuindo grosserias pra quem estivesse em volta, com raiva da noite mal dormida, do dia cheio que tinha pela frente, do mundo que não parou pra que eu pudesse dormir.

Ansiedade, aqui me tens de regresso. Falta ar, dá palpitação, a cabeça gira com cenas repetidas, trechos de uma música irritante qualquer, diálogos imaginários, sem lógica, sem conclusão, o cérebro em pleno colapso. Um buraco no estômago que progride para gastrite. A mandíbula amanhece trincada. É bruxismo. Taí, só pode ser. É macumba. Colocaram meu nome na boca do sapo, mataram uma galinha, beberam o sangue.

Certeza que é isso. Vou pegar um galho de arruda, tomar um banho de mar, pedir pra que São Longuinho afaste esses urubus que atrapalham meu sono e minha vida. São Longuinho não tem nada a ver com isso? Mas não é ele o santo que encontra coisas perdidas? Perdi meu sono, minha paz, estão desaparecidos há dias.

Tenho poucas invejas na vida. Meu olho fica gordo em quem tira férias quatro vezes por ano, em quem tem cabelo bonito, em quem não roi unha e em quem dorme. Mas tenho mais inveja de quem dorme.

Mulher não dorme, mulher dá um tempo. A gente fecha os olhos, mas a vida continua. Quero encontrar no escuro respostas para os problemas que não tive a clareza de resolver durante o dia.

Entro no Facebook de madrugada. Só tem mulher. Todas reclamando da insônia. Não há chá de camomila e Rivotril no mundo que de conta de tanta mulher acordada.

Homem, não. Homem dorme. Brigo com meu marido, ele vira para o lado e apaga. Eu quero conversar, fazer as pazes, me atirar do 19º andar de insônia, e ele no 20º sono.

A bolsa caiu, o cara vira de lado e dorme. Levou um pé na bunda, vira para o outro lado e dorme. Foi demitido, dorme de roncar. Onde fica o maldito botão do desliga que funciona tão bem com eles?

A gente perde o sono por tudo. E se sabe que precisa dormir, daí é que não prega os olhos. Acorda parecendo um urso panda de tanta olheira. Não durmo quando estou muito triste, muito feliz, com muita cólica, muito preocupada, muito excitada, cansada demais. Basicamente, nunca. Sempre tem alguma coisa que extrapola o razoável. Rezo por dias de calmaria.

Dia desses alguém disse: passo o dia morrendo de sono e quando chega à noite tenho vontade de fazer um churrasco e sambar até amanhecer. Era mulher, claro, igualzinha a mim. Formô.

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