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ExpoCristã é cancelada. De novo

Anna Virginia Balloussier, na Folha de S.Pauloexpo_crista

A ExpoCristã, que por mais de uma década se manteve como maior feira gospel de negócios do Brasil, foi cancelada. De novo.

A Expo prometia voltar “com força total” para sua 12ª edição, que aconteceria em julho no Expo Center Norte, em São Paulo. O site ainda convida fiéis a serem um “líder de caravana” do “evento mais completo para cristãos”.

Entre apoios já anunciados, o banco Bradesco, a universidade Mackenzie, a seguradora Mapfre e a Universal Music Christian Group.

Marcas como Quinta da Glória (moda gospel) e Bom Pastor (editora) também estavam no barco.

Em 2013, a casa caiu após a feira ser despejada no pavilhão do Anhembi, com uma dívida de quase meio milhão de reais.

Neste ano, a ExpoCristã estava sob nova direção: Leo Ganem, ex-CEO de duas empresas da Globo (seis anos na Som Livre e três na Geo Eventos).

A organização diz, em nota à imprensa, que o evento não acontecerá neste ano “devido às dificuldades impostas pelo calendário, com Copa e Eleições”.

Um mapa das contradições na Bíblia

mapa-inconsistencias-biblia-838x502Cesar Grossmann, no HypeScience

A Bíblia moderna, adotada pela maioria das religiões cristãs, é uma coleção de livros escritos por diversos autores no período entre o século 8 aC e o século 1 dC. O cânon moderno compreende 45 livros no Antigo Testamento (no caso do adotado pela Igreja Católica, o adotado pelas igrejas protestantes tem menos livros), e 27 livros no Novo Testamento, reunindo o trabalho atribuído a cerca de 40 autores (existem mais autores ocultos, considerando o que o estudo do texto permite deduzir).

Tendo sido escrito por tantos autores diferentes e por um período de tempo tão longo, é natural que ocorram incoerências e inconsistências no texto bíblico. E é exatamente disto que trata o site BibViz – das contradições bíblicas.

Compilado a partir de coleções de contradições dos sites Skeptic’s Annotated Bible Contradictions (SAB), Infidels e EvilBible, o BibViz apresenta 63.779 referências cruzadas de diferentes versículos incoerentes entre si, como versículos dizendo que Deus pode fazer qualquer coisa, e passagens em que ele não consegue vencer habitantes de um vale porque eles tinham carruagens de ferro.

Além das contradições, também alguns temas polêmicos estão anotados, como afirmações cientificamente absurdas ou historicamente incorretas, por exemplo, em Levíticos 11:5-6, que afirma que coelhos e lebres são ruminantes. Entre estas coletâneas, estão as passagens que apresentam personagens bíblicos praticando crueldade e violência, misoginia, preconceito contra homossexuais, e outros assuntos que interessam mais do que quantos homens exatamente os capitães de Davi mataram (300 segundo as Crônicas 11:11, 800 segundo 2 Samuel 23:8).

As fontes para as contradições bíblicas são todas de sites ateus. Sites cristãos normalmente negam ou minimizam as contradições, mesmo considerando que existem compilações de inconsistências feitas por teólogos cristãos, como o estudioso Bruce Manning Metzger, que trabalhou na Sociedade Bíblica Americana e Sociedades Bíblicas Unidas.

BibleNetworksmallO site BibViz também fala sobre uma distância moral e ética que há entre o nosso século e o tempo em que foram escritos os textos bíblicos, uma época em que o genocídio, a misoginia, a violência contra mulheres, a intolerância religiosa, a intolerância contra homossexuais e a escravidão eram encarados como moralmente aceitáveis – em alguns casos eram até mesmo incentivados -, enquanto hoje são considerados crimes hediondos.

Para quem for navegar pelo BibViz, é interessante notar que ele é anglo-cêntrico, ou seja, utiliza traduções da Bíblia para o inglês, como a versão “King James”. Estão excluídos, portanto, alguns livros que são exclusivos da Igreja Católica, além de alguns versículos estarem traduzidos diferentes, como o Levíticos 11:20, que na tradução Kingt James fala em “four-legged fowls” (que poderia ser traduzido para o português como “aves de quatro patas” – morcegos?) e na tradução do padre Almeida, usada no Brasil, fala de “insetos com quatro patas” (que é uma coisa que não existe). [Friendly Atheist, BibViz]

‘Estudos mostram que Jesus existiu. Se ele fez milagres, é outra história’

"A Anunciação", de Tintoretto (1518-1594)

“A Anunciação”, de Tintoretto (1518-1594)

título original: Desculpaí, mas Jesus existiu: um preâmbulo

Reinaldo José Lopes, no blog Darwin e Deus

Em plena Semana Santa, achei que seria o caso de abordar a fundo aqui no blog a questão da historicidade do personagem central destes sete dias: Jesus de Nazaré, é claro. Como o papo é complicadíssimo e o tempo de todo mundo (principalmente o meu, hehehe) é limitado, o único jeito é “quebrar” a discussão em vários posts. Este, portanto, é o preâmbulo — a ideia é publicar mais um post por dia até a Sexta-Feira Santa. Allons-y (como diria um certo doutor)!

Primeiro de tudo:

POR QUE MEXER NESSE VESPEIRO?

Como o título da série de posts deixa claro, a ideia é defender que algum sujeito chamado Jesus de fato nasceu em Nazaré (ou nasceu em Belém e cresceu em Nazaré, como queiram), andou pelas estradas da Galileia e da Judeia pregando e foi crucificado em Jerusalém lá pela terceira década do século 1º d.C. A questão é que, embora a esmagadora maioria dos historiadores sérios, tanto religiosos quanto agnósticos ou ateus, defenda que esse personagem existiu, há uma pequena minoria de amadores, e um ou outro historiador sério (em geral não especialista na análise das fontes bíblicas como documentos históricos), que diz que Jesus é basicamente um mito, inventado por Paulo ou por outros membros da primeira geração de cristãos. É claro que as afirmações desse pequeno grupo se tornaram populares, viraram “virais” na internet e seduziram boa parte das pessoas que, com bons ou maus motivos, querem dar umas porradas na crença cristã tradicional.

Bem, meu objetivo é demonstrar que essa ideia, desculpaí, beira a pseudociência. Se você usar os critérios SECULARES, “não religiosos”, que todos os historiadores usam para estudar o resto da Antiguidade clássica, e for honesto e equilibrado com os dados, a tendência esmagadora da lógica é aceitar a historicidade básica de Jesus de Nazaré.

MAS DIZEM QUE O CARA ANDOU SOBRE AS ÁGUAS E VOLTOU DOS MORTOS! COMO ISSO PODE SER HISTÓRICO?

Calma, calma, não criemos pânico. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Quando digo “historicidade básica”, quero dizer exatamente isso: os documentos históricos que chegaram até nós da Antiguidade são suficientes pra estabelecer que um sujeito chamado Jesus de Nazaré existiu, morreu lá pelo ano 30 d.C. e fez algumas coisas interessantes, como atuar como pregador, reunir discípulos e se indispor com as autoridades em Jerusalém. Usar esses documentos pra “provar” que ele tinha poderes sobrenaturais é outra história, completamente diferente — aliás, não é história, é teologia. O ponto central desta série de posts é tão somente demonstrar que não é razoável negar a existência histórica da figura. O resto está aberto à discussão.

É FÁCIL PRA VOCÊ FALAR, AFINAL VOCÊ É CATÓLICO, MANÉ!

Nunca escondi de ninguém e já abordei diversas vezes aqui no blog a minha crença religiosa. É claro que isso cria um viés, ainda que inconsciente, em favor de “acreditar em Jesus” — do ponto de vista da fé, bem entendido. Minha pergunta é: E DAÍ? Se eu fosse ateu, não é improvável (ainda que não fosse garantido) que existisse um viés contrário para “desacreditar”. Viés é que nem bumbum, gente: todo mundo tem o seu. A questão não é fazer com que os vieses inexistam — isso é impossível! –, mas sim fazer todo o esforço para “colocá-los entre parênteses” (ou colchetes!), para tentar, como metodologia, enxergar os dados que temos em mãos da maneira mais desapaixonada possível, deixando as evidências falarem, em vez de torturá-las para que elas digam o que queremos que elas digam.

Só pra constar: embora seja cristão, eu sei — e não tenho problemas pra aceitar — que um sem número de narrativas da Bíblia (a Criação, o Dilúvio, o Êxodo, muito do que se diz sobre David e Salomão etc.) não tem como ser história “real” no sentido como a entendemos hoje. O caso de Jesus, porém, é diferente DO PONTO DE VISTA HISTÓRICO — e não apenas do ponto de vista da fé.

A QUESTÃO DA “INVISIBILIDADE ARQUEOLÓGICA”

É claro que, em tese, todo o debate sobre a (in-)existência do Nazareno poderia ser resolvido de uma tacada só. Bastaria que alguma escavação em Jerusalém — digamos, na área da antiga Fortaleza Antônia, a praça-forte do poderio romano na Cidade Santa — achasse uma ordem de execução assinada por Pôncio Pilatos para um certo galileu. Ou que achassem a tumba com os restos mortais do dito cujo, o que, de quebra, enterraria o “mito da Ressurreição” (não, a tal “tumba de Jesus” que acharam e puseram em documentários de TV a cabo muito provavelmente não é a dele, mas isso é tema pra outro post).

Infelizmente, a chance de uma descoberta dessas acontecer é próxima de zero. Explico.

O fato, brava gente, é que boa parte das pessoas comuns do Império Romano, em especial os camponeses de uma população conquistada como os judeus da Galileia e da Judeia, são virtualmente invisíveis para nós com base na arqueologia. Sabemos um bocado sobre suas casas, seus instrumentos de trabalho, suas sinagogas e seus utensílios de cozinha, mas não conseguimos “colocar um rosto” nesse povo todo: não sabemos seus nomes, as histórias que contavam em volta da fogueira, o que pensavam, nada — a começar pelo fato de que quase todos, se não todos, devem ter sido analfabetos. É verdade que temos monumentos funerários de padeiros, açougueiros e ex-escravos romanos, que contam um pouco da história dessas pessoas, mas é preciso lembrar que esse é o povo “que deu certo”: gente que veio de baixo e acabou conseguindo uma posição econômica de destaque, e/ou tinha patronos com mais dinheiro e poder do que eles — fazer um monumento funerário era caro, pra começar.

Nada disso parece ter sido o caso de Jesus, de sua família ou de seus discípulos, oriundos, como eram, de um vilarejo de 200 pessoas nas colinas da Galileia. É natural que eles tenham sido “invisíveis” — ou, melhor dizendo, só tenham se tornado visíveis por meio de documentos literários, criados décadas depois da morte de Jesus por discípulos que tinham nível educacional e econômico mais elevado. É, aliás, o que acontece com todos os outros camponeses da Antiguidade: suas caras e suas vozes só aparecem quando são registradas — e, inevitavelmente, alteradas — pelos textos de gente que não pertencia à camada social deles.

O fato de que os Evangelhos retratam Jesus como alguém que arrebanhou milhares de seguidores antes de ser crucificado não refresca muito as coisas. Primeiro, é claro que os Evangelhos podem estar exagerando (até sem má intenção, apenas por distância cronológica) o número de seguidores de Jesus. Mas, fora isso, é importante lembrar que profetas, pregadores e milagreiros eram um fenômeno comum na Palestina do século 1º d.C. Entre a ascensão de Herodes, por volta de 40 a.C., e a revolta judaica contra Roma em 66 d.C. — um século, portanto — há pelo menos uns dez casos registrados de rebeldes messiânicos ou profetas que bagunçaram o coreto na região. Nada indica que, para aquele momento inicial, Jesus era mais importante do que esses sujeitos.

JESUS DE NAZARÉ E LEÔNIDAS DE ESPARTA: UM ESTUDO DE CASO

Queria, agora, chegar ao cerne do nosso papo de hoje. O fato é que, se formos usar a escassez de indícios arqueológicos diretos e a falta de fontes propriamente contemporâneas, escritas por “testemunhas oculares da história”, para rejeitar a historicidade de Jesus, teríamos de rejeitar a historicidade de… bem, de uns 70% dos personagens da Antiguidade clássica, ou talvez mais. Ficaríamos só com os monarcas e os membros da alta nobreza. E olhe lá: pra quem assistiu os dois filmes “300″, é bom lembrar que não daria pra aceitar a historicidade de ninguém menos que Leônidas, um dos reis de Esparta, o sujeito que morreu defendendo a Grécia da invasão persa em 480 a.C.

Vejamos: qual a primeira e mais confiável fonte documental histórica sobre a vida de Leônidas? Os textos do historiador grego Heródoto, que escreveu sobre as guerras entre gregos e persas por volta de 440 a.C., 40 anos depois da morte de Leônidas (coincidência ou não, Marcos, o mais antigo Evangelho, foi escrito uns 40 anos depois da morte de Jesus). Parece que Heródoto entrevistou alguns dos ex-combatentes dos dois lados, mas muito do que escreve tem algum cheiro de invenção épica ou de convenção literária, como o relato sobre a luta desesperada dos espartanos para proteger o corpo de seu rei depois que ele tombou.

Tem alguma evidência arqueológica contemporânea sobre a existência do hómi? Um túmulo, um epitáfio, moedas com a cara dele? Nada. Zero. Depois de Heródoto, temos apenas os textos do historiador grego Éforo (que só chegaram até nós por fragmentos), que escreveu mais de um século depois das Termópilas, por volta de 350 a.C. E, muito mais tarde, textos da época romana, produzidos por gente como Diodoro Sículo e Plutarco.

Dá para fazer o mesmo exercício que fiz com Leônidas com uma série de personagens da Antiguidade clássica. Sob esse ponto de vista, Jesus é um personagem histórico muito mais bem documentado do que Leônidas, já que há fontes independentes cristãs, judaicas e pagãs, todas compostas de algumas décadas a um século depois da morte dele, a respeito do Nazareno.

Meu próximo post começa a abordar essas fontes, partindo de Flávio Josefo, um historiador judeu cujos textos parecem ter sido alterados por copistas cristãos posteriores — mas, ao que tudo indica, não de maneira irreparável. Até lá!

Projeto que propõe distribuição de kit bíblico em escolas gera polêmica nas redes sociais

Autor da proposta, deputado Kennedy Nunes (PSD) não vê problema em falar de religiosidade em salas de aula

Pricilla Back, no Diário Catarinense

Com um longo caminho a percorrer até ser votado no plenário da Assembleia Legislativa, o projeto de lei do deputado estadual Kennedy Nunes (PSD) que prevê a distribuição de um kit bíblico aos alunos da rede estadual já causa polêmica. Na sexta-feira, a proposta gerou debate nas redes sociais. Houve quem apoiasse e criticasse a ideia.

De acordo com a proposta, a intenção é enviar aos estudantes com idades entre seis e 12 anos kits contendo uma Bíblia que, garante o parlamentar, será escolhida de acordo com a religião do aluno.

— Vamos contemplar todas as religiões, sem exceção. E as Bíblias poderão ser escolhidas, por exemplo, em versões católicas ou evangélicas — alega Kennedy.

O parlamentar não explica, no entanto, se os livros sagrados de religiões não cristãs, como o islamismo e o judaísmo, seriam distribuídos da mesma maneira.

Kennedy argumenta que a ideia é criar várias opções de kits. Ainda não está definido, no entanto, qual seria o impacto financeiro da medida aos cofres do Estado. A sugestão do deputado é criar parcerias público-privadas com entidades e organizações religiosas para patrocinar a compra e a distribuição dos materiais.

“Qual o problema?”, pergunta o deputado

Na sexta-feira, após ser criticado por internautas sobre a criação do kit, Kennedy usou o Twitter para defender sua proposta. Segundo ele, a falta de religião “faz do ser humano um androide”.

— Qual o problema em falar de religiosidade nas escolas? Querem falar de sexualidade e até de gêneros e por que a religião não? — escreveu.

Para Cássia Ferri, pró-reitora de ensino da Univali e especialista em educação, este tipo de projeto causa desconforto se não forem abordadas todas as religiões existentes.

— As escolas públicas precisam aceitar toda a diversidade religiosa. A leitura dos textos bíblicos é válida, mas não pode ser a única opção aos alunos — explica Cássia.

Além dos kits, a proposta de Kennedy prevê a realização de aulas extracurriculares sobre a Bíblia. Para ser votado no plenário da Assembleia Legislativa, o projeto ainda precisa passar pelas comissões de Legislação e Justiça e de Educação, Cultura e Desporto da casa.

Projeto semelhante em São Paulo

O projeto do kit bíblico de Kennedy Nunes não é inédito. Em São Paulo, uma proposta semelhante está em tramitação na Assembleia Legislativa e serviu de inspiração para que o parlamentar trouxesse a ideia para Santa Catarina.

Ele argumenta que o objetivo do projeto é “amenizar os conflitos nos lares, nas escolas, nas ruas e na sociedade em geral”.

Sobre a polêmica, o deputado nega a existência de um doutrinamento religioso e afirma que, com essa proposta, a ideia é promover uma discussão sobre a espiritualidade.

— Estamos em uma era em que a conectividade nos afasta uns dos outros e de Deus. Se eu conseguir levantar a bandeira da espiritualidade, já é um mérito — diz.

O secretário de Educação de Santa Catarina, Eduardo Deschamps, preferiu não se manifestar antes de analisar melhor o projeto.

O que o projeto propõe

- Kits bíblicos educativos serão distribuídos nas escolas estaduais para crianças entre seis e 12 anos.
- Os alunos receberão lições que vão acontecer durante o período letivo regulamentar.
- As aulas terão um caráter extracurricular e serão ministradas em horários fora da grade curricular.
- As escolas poderão fazer parcerias com entidades religiosas, ONGs e associações para desenvolvimento dos materiais.

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Jimmy Carter: ‘Jesus Cristo era o campeão dos direitos das mulheres’

Ex-presidente americano, que acaba de lançar mais um livro, fala de agressão às mulheres, racismo, republicanos e da atração fatal dos EUA pela guerra

título original: Carter abre o jogo

David Daley, no SALON [via Estadão]

'Nossas universidades inibem as estudantes de denunciar estupros' (foto: Navesh Chitrakar/Reuters)

‘Nossas universidades inibem as estudantes de denunciar estupros’ (foto: Navesh Chitrakar/Reuters)

O novo livro de Jimmy Carter, A Call to Action, é uma adição corajosa à biblioteca de aproximadamente duas dezenas de livros que o ex-presidente dos EUA escreveu após seus anos na Casa Branca. O livro tem por subtítulo Women, Religion, Violence and Power, e Carter aborda sem medo os assuntos mais polêmicos: agressão sexual em câmpus universitários e meios militares; líderes religiosos que usam textos sagrados para justificar a opressão; penas de prisão punitivas contra pobres e minorias sociais; guerras com drones e operações militares intermináveis americanas.

Numa conversa breve, mas abrangente, falamos sobre muitos desses tópicos – mas também sobre a guerra republicana contra as mulheres; as críticas do presidente Barack Obama que ecoam críticas de seu próprio governo; e sobre como seu neto, Jason, poderá reverter a evasão de homens sulistas brancos para o Partido Republicano. Perguntado sobre a razão para os homens brancos optarem pelos republicanos, Carter, de 89 anos, foi inequívoco: “É raça”. Sobre outros tópicos, em especial sobre a Fox News e a guerra republicana às mulheres, as repostas de Carter foram igualmente diretas, porém mais surpreendentes. Espere só para ouvir sua resposta sobre slut-shaming (expressão usada com o intuito de intimidar e perseguir mulheres de comportamento ou visual sexualmente desinibido).

O sr. diz no livro que ‘há um abismo inevitável entre os líderes que escrevem e administram as leis criminais e as pessoas que lotam as prisões’. Que papel acha que a raça desempenha na perpetuação desse abismo?

As estatísticas ainda mostram que a raça faz uma grande diferença. Afro-americanos e hispânicos não só são comparativamente mais atingidos pela pobreza como são muito mais passíveis de serem presos do que outras pessoas. Desde que saí da Casa Branca, 800% mais mulheres negras estão encarceradas. A maioria das pessoas que estão na prisão por um longo período de tempo são hispânicos, negros ou mentalmente deficientes. A conclusão é que, considerando as pessoas que escrevem as leis, administram as leis e as aplicam, as demais são excluídas de qualquer tratamento igualitário no sistema de Justiça.

Seu texto também bate duro numa cultura de agressão sexual em câmpus universitários, observando estatísticas de que 95% das estudantes sexualmente agredidas permanecem em silêncio.

É verdade. Elas não denunciam. É algo que me choca muito.

Será pela maneira como a mídia cobre a questão, a forma como o sistema judicial funciona ou o extremismo do debate político em torno do tema?

Não é extremismo. É que as mulheres são desencorajadas de denunciar. E isso é feito por bem intencionados e esclarecidos presidentes de universidades, e reitores de faculdades também. Eles não querem repercussões negativas para seus câmpus ou universidades – veja a Universidade Duke ou a Emory, onde leciono, ou Harvard ou Yale. Eles querem que a universidade tenha um atestado de saúde no que toca à agressão sexual. E advertem as garotas de que, quando a pessoa denuncia o estupro, ela será posta no banco das testemunhas e será obrigada a falar sobre as circunstâncias mais embaraçosas. “Que tipo de calcinha você usava? Você dá beijo de língua? Tem um histórico carregado de encontros com rapazes?” É muito embaraçoso. Aliás, perguntaram a uma guarda-marinha na Academia Naval no banco das testemunhas sobre a largura com que abria a boca enquanto fazia sexo oral nos jogadores de futebol americano que a estupraram. Também convencem a garota de que o rapaz, faça ele o que fizer, provavelmente não será condenado – particularmente se for branco. Ele alegará que a moça estava interessada em sexo consensual, usava roupas provocantes e parecia querer fazer sexo. Ou que estava bebendo.

O sr. é provavelmente o primeiro presidente a mencionar abertamente esse tema num livro. Está familiarizado com a expressão “slut-shaming”, que joga um papel importante na discussão sobre agressão sexual?

Já a ouvi, mas não creio que possa lhe dar uma definição exata, ou usá-la numa sentença (risos).

É um método pelo qual pessoas tentam jogar a culpa de estupro e agressão sexual na vítima. Ou uma maneira de aviltar mulheres como Sandra Fluke, que veio a público para falar em defesa da cobertura contraceptiva e saúde reprodutiva e acabou denunciada como prostituta por Rush Limbaugh no rádio, diante de toda a nação.

É o que acontece. Por isso eu menciono um relatório do Departamento de Justiça americano segundo o qual metade dos estupros em câmpus universitários é perpetrada por estupradores em série. Porque ali eles percebem que podem continuar com isso, e o fazem repetidamente. Por que alguma universidade desejaria manter esse tipo de estudante no câmpus? Eu simplesmente não compreendo. O mesmo acontece no meio militar. Estive na Marinha por muito tempo, em submarinos, por isso eu sei. Oficiais de uma companhia, de um batalhão ou de um navio não querem admitir que esse tipo de coisa ocorra sob o seu comando.

callOuvimos o ex-governador republicano Mike Huckabee falar de como as mulheres não conseguem controlar sua libido, o congressista Todd Akin falando de ‘estupro legítimo’ e o concorrente ao Senado Richard Mourdock defendendo que gravidez resultante de estupro é uma intenção de Deus. Uma posição contra a mulher parece inscrita na plataforma do Partido Republicano, é isso?

Apesar de haver extremistas nos dois lados, eu não gostaria de afirmar que os democratas são pela proteção das mulheres e os republicanos não.

Em geral, não se ouve esse tipo de conversa do lado democrata.

Há maridos democratas que abusam de suas mulheres e há presidentes de empresas democratas que pagam às mulheres 23% menos do que pagam aos homens. De modo que há abusos em ambos os lados.

O sr. claramente condena a rapidez com que os EUA recorrem à ação militar. Escreve que, ‘mais do que qualquer nação no mundo, os EUA estiveram envolvidos em conflitos armados e usaram a guerra como meio para resolver disputas’.

Isso é fato, e eu enumero algumas das guerras. Menciono 10 ou 15, mas poderia citar mais 10 ou 15.

O sr. é especialmente crítico de nossas guerras com drones, e com o fato de pessoas inocentes serem mortas quase como danos colaterais. Será que nós americanos nos vemos como realmente somos? E como o resto do mundo nos percebe?

O restante do mundo, quase unanimemente, vê os EUA como o militarista-mor. Recorremos ao conflito armado num piscar de olhos – e com muita frequência isso não só é desejado pelos líderes de nosso país como também é apoiado pelo povo americano. Também retrocedemos para um grau terrível de punição de nosso povo em vez de trazê-lo de volta à vida. E isso significa que temos 7,5 vezes mais pessoas presas do que quando deixei o governo. Somos o único país entre os membros da Otan que tem a pena de morte; e isso é mais uma mancha sobre nós no que diz respeito à violência injustificável, desnecessária e contraproducente.

John Kerry foi ao programa Meet the Press depois das ações russas na Crimeia e disseque ‘este é o século 21, não se pode mais simplesmente invadir outro país’. Penso que muitos de nós disseram que foi exatamente isso que fizemos no Iraque em pleno século 21…

Correto, Fizemos. Fazemos isso o tempo todo. Isso é Washington. Infelizmente.

Uma das críticas ao presidente Obama é também algo que foi dito com frequência sobre o governo do sr.: que ele não ‘socializa’ o suficiente em Washington, que republicanos não são convidados para coquetéis na Casa Branca, etc. As coisas seriam realmente diferentes para o presidente Obama se ele tivesse republicanos na Casa Branca?

Não creio que alguém tenha colocado mais republicanos na Casa Branca do que eu – talvez não para coquetéis, mas para ajudar a rascunhar leis, preparar ações congressionais úteis e convencê-los a votar em meus projetos de lei. Aliás, tive melhor média de resultados positivos com o Congresso, tanto democrata como republicano, do que qualquer presidente desde a 2ª Guerra, exceto Lyndon Johnson. Foi preciso um esforço heroico de minha parte para conseguir que dois terços do Senado votassem pelo tratado do Canal do Panamá. Foi a votação mais corajosa que o Senado já fez.

O sr. foi eleito governador e presidente como um democrata sulista branco, segmento da população que desertou do Partido Democrata. Em alguns Estados sulistas deve haver atualmente 30% de homens com esse perfil apoiando os democratas. É com isso que seu neto Jason lida agora, ao concorrer para governador da Geórgia. A economia se agrava, a desigualdade só piora e a resposta de homens brancos no Sul é apoiar o ‘partido do 1%’. A questão é raça? Gênero? Medo?

É raça. Raça. Isso vem prevalecendo no Sul, exceto que, quando concorri, eu consegui cada Estado sulista, menos a Virgínia. Desde que Nixon concorreu, os republicanos solidificaram seu domínio ali. E mesmo este ano, como deve saber, os republicanos fizeram uma proposta para instituir uma placa de carro da Geórgia exibindo uma bandeira confederada. É esse tipo de coisa: o apelo para pessoas mais ricas, que são quase sempre brancas, e o aviltamento das pessoas que recebem cupons de alimentação, com muita frequência pessoas pobres. Mais a alegação de que as pessoas que vão para a cadeia são simplesmente culpadas, quando elas são principalmente negras, hispânicas e mentalmente doentes. Esse tipo de coisa só exalta a classe superior, que são os brancos. Eles traçam uma linha divisória racial sutil, porém muito efetiva, por todo o Sul do país.

Que papel acha que a Fox News desempenhou na exacerbação das divisões políticas, em prejuízo de nossa capacidade de chegar a um consenso nessas questões complicadas sobre as quais o senhor falou? A Fox instiga o medo ou a animosidade racial?

A CNN foi fundada quando eu era presidente e achei que ela era a proposta mais satisfatória para o mundo todo. Agora penso que a mídia noticiosa está fragmentada. Acho que a Fox News pende muito para o lado republicano e conservador, e que a MSNBC pende muito para o outro lado – o que está muito bem para mim. Cada um assiste ao que quer. Creio que a CNN tenta ocupar uma posição intermediária e muitas vezes sofre financeiramente por isso. Mas não tenho críticas: a imprensa é livre.

E os líderes religiosos que o sr. discute, de todas as fés, que interpretam textos religiosos de maneira a encorajar a submissão e a opressão das mulheres? Acredita que essa seja uma leitura deliberadamente enganosa dos textos por parte deles ou eles chegam honestamente a essas interpretações?

Eles realmente encontram esses versículos na Bíblia. Como sabe, se percorrer o Novo Testamento, o que faço todos os domingos, posso encontrar versículos escritos por Paulo que dizem às mulheres que não deveriam falar na igreja, não deveriam ir enfeitadas à igreja, e assim por diante. Mas também encontro versículos do mesmo Paulo dizendo que todas as pessoas são iguais aos olhos de Deus. Que homens e mulheres são o mesmo: amos e escravos são o mesmo; e judeus e gentios são o mesmo. Não há diferença entre pessoas aos olhos de Deus. E também sei que Paulo escreveu o 16º capítulo de Romanos para aquela igreja e apontou cerca de 25 pessoas que haviam sido heroicas em cada igreja primitiva – e cerca da metade delas eram mulheres. Portanto, é possível encontrar versículos de vários lados, mas no que trata de Jesus Cristo, ele era unanimemente e sempre o campeão dos direitos das mulheres. Na verdade, ele foi o mais destacado defensor dos direitos humanos que viveu em seu tempo e acho que não houve ninguém mais comprometido com esse ideal do que ele.

Quando olha para o mundo e para a história, para guerras que foram travadas em nome da religião, e da subjugação e violência que continuam hoje, pesando também os heroicos líderes de direitos humanos, muitos deles figuras religiosas transformadoras, a religião tem sido, no conjunto, positiva ou negativa para o mundo?

Acredito que tem sido positiva, porque religiões básicas como islamismo, cristianismo, judaísmo e também budismo e hinduísmo, todas têm uma premissa primordial de paz, justiça, compaixão, amor, etc. Se nos prendermos a esses princípios básicos, penso que a religião é benéfica.

dica da Karen Souza