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Dias em que me dou bom dia no espelho

Tom Fernandes, no Pequenos Dramas

No mais dos dias me dou bom dia no espelho.

Tem dias que gostaria de ser sábio como advogam os sábios à minha volta.

Tem dias que gostaria de ter ouvidos para ouvir quem me adverte a “não ajudar escorpiões a atravessar o lago”.

Tem dias que gostaria de ter ouvidos para ouvir quem me adverte a “não tirar o espinho da pata do leão faminto”.

Tem dias que gostaria de ter ouvidos para ouvir quem me adverte a “não dar a outra face a quem é campeão em esbofetear as faces que lhe voltam atenção”.

Tem dias que gostaria de ter ouvidos para ouvir quem me adverte a “não andar a segunda milha com quem logo vai montar em minhas costas”.

Tem dias que gostaria de não aceitar o abraço de gente movediça, cuja existência caminha para sugar quem chegue perto.

Tem dias que gostaria de não aceitar o beijo de dentes longos de gente que beija para ferir, que afaga para machucar e alisa para marcar o lugar onde cravará seu punhal.

No mais dos dias sigo sendo esta cavalgadura que vos fala.

11 coisas (ou pessoas) que você adoraria mandar para o inferno


Eberth Vêncio, na Revista Bula

Existe uma clássica piada na qual um padre (ou pastor), durante uma pregação, pergunta aos presentes: “— Quem quer ir para o Céu?”. Sem pestanejar, todos da manada levantam as mãos trêmulas para o alto, aprovando a ideia. “— E quem quer ir hoje?”, insiste o líder. É claro: a massa dobra os cotovelos. Todo o mundo deseja ir para o Céu, mas ninguém quer morrer. Risível? Eu achei.

Mas nem sempre a lógica e a clareza parecem tão explícitas. Há vários anos um guru tresloucado chamado Jim Jones induziu centenas de seguidores a um suicídio coletivo (918 pessoas, de mamando a caducando), num dos episódios de fanatismo religioso mais estúpido que se tem notícia desde que Caim matou Abel a porretadas. Portanto, cuidado com líderes religiosos exaltados.

Mas este texto não foi escrito para enaltecer o Céu, e sim, lucubrar a respeito dos infernos nossos de cada dia. Falemos, então, desde ambiente enigmático e eternamente repelido pelo ser humano, até pelos crápulas mais desprezíveis.

O que mais se encontram na internet são listas. Infindáveis listas de preferência. Os 10 mais. Os 30 menos. Os 50 piores. Os 69 mais picantes. Os 100 indispensáveis. Os 1000 essenciais. E por aí vai.

Entrando nesta seara das listas com ranqueamentos descartáveis, fazendo alusão ao roqueiro Raul Seixas, “eu também vou ranquear”. Conclamo os valorosos leitores a um exercício, uma dinâmica em grupo engendrada individualmente (?), nalgum lugar do ciberespaço, cada qual no seu quadrado.

Imaginem-se sentados numa confortável poltrona de veludo, como se fossem um deus, um juiz, uma espécie de carrasco experimentado. A sua frente, uma enorme redoma de vidro por meio da qual vocês enxergam perfeitamente quem (ou o que) está dentro dela, embora a recíproca não seja verdadeira. Ou seja, há uma completa privacidade que os fazem se sentir deveras poderosos e confiantes, como se vocês fossem um senador da república votando secretamente contra os interesses do eleitorado, entendem? Ninguém irá pegá-los. Não há câmeras escondidas, nem escutas arapongas nas redomas imaginárias.

Prossigamos neste devaneio supervisionado. À sua direita, um botão vermelho cuja tarja identifica: “Go to the hell” (brasileiro que se preza tem complexo de inferioridade e adora gastar o velho inglês, ainda que chulo). Suponham que o universo, inclusive o seu misterioso criador e o exterminador de pragas urbanas aprovassem o seu tribunal particular de extermínios essenciais.

Munidos com tanto poder, quem (ou o que) vocês, desprovidos da pressão de escrúpulos ou remorsos, enviariam para o quinto dos infernos (Adendo muito relevante: a expressão “quinto dos infernos” advém dos tempos de Brasil Colônia, período em que 20% do que se produzia por aqui ia parar no tesouro de Portugal. Nos dias de hoje, estamos livres das ventosas portuguesas, contudo, judiados pelos 27,5% do Imposto de Renda, isto sem considerar o que se paga a contragosto de propina nas negociações de bastidores entabuladas entre gestores desonestos, políticos corruptos e empresários sanguessugas muito bem sucedidos).

Mas, continuemos, pois esta crônica tem limite de caracteres, de paciência, e carece ter um fim. Portanto, que coisa (ou gente), por meio de um suave toque do fura-bolo num rubro botão, vocês mandariam para o inferno, caso ele realmente existisse, se, de fato, houvesse nalgum espaço universal um antro caótico, um expurgo ainda mais sofrível que o planeta no qual caminhamos, deixando pegadas na areia e rastros de maldade?

Segue abaixo a minha lista. Nem que seja para aliviar o azedume cotidiano da bile, convido-os a fazerem também as suas listas de condenados virtuais. Não vale o auto-extermínio, pois não sou nenhuma espécie de Jim Jones tupiniquim. Como a um time de futebol, façam as suas próprias escalações para o corredor de todo esquecimento. Tenham juízo: só valem 11 itens.

1 — O dinheiro. Porque ele nos desumaniza.

2 — O medo (a insegurança). Porque ele (a) me humaniza sobremaneira e eu preferiria ter nascido nuvem passageira.

3 — Pedroso, o Professor de Ciências do colégio. Porque ele um dia disse que a masturbação era pecado, uma espécie de depravação que certamente provocava câncer, loucura, e impotência sexual. Hoje eu sei que sexo gera prazer, filhos, verrugas genitais, compêndios maravilhosos sobre o comportamento humano, e — eventualmente — uma nesga de rancor. Anos mais tarde eu soube que Pedro, além de terrorista da palavra, era pedófilo. Portanto, às cucuias tudo o que gera danos à sexualidade de uma pessoa!

4 — O rancor. Porque é cancerígeno e entope as coronárias.

5 — A mentira. Porque mentir não é pecado, Pedro, mas um atributo normal extremamente humano, como amar ou matar alguém.

6 — O verbo Amar. Porque é difícil para eu conjugá-lo. Por mais que eu me esforce, só consigo verbos mais brandos e comedidos como Gostar, Admirar e Posso Te Pagar Um Sorvete.

7 — Matadores de aluguel. Porque são umas das criaturas mais abjetas que se tem notícia. Em termos de excelência em desprezo, só perdem para os que matam de graça, pois o fazem apenas para apreciarem o tombo.

8 — A corrupção (propinas, chantagens, mimos e cafezinhos). Porque faz faltar bandeide nos hospitais públicos, azeda a merenda escolar e deixa as estradas brasileiras esburacadas.

9 — Torturadores de todas as épocas. Porque me fazem supor que Deus teria errado a mão ao criar o Homem a sua imagem e semelhança.

10 — Seitas e religiões. Porque a simples leitura atenta da História da Humanidade já as desmoraliza.

11 — Academias literárias. Porque ninguém merece tantos imortais escrevendo por aí.

NASA revela mais evidências de que a vida na Terra pode ter vindo de cometas

Publicado originalmente por Terra

Estudo sugere que o choque de meteoros teria oferecido as condições ideais para a evolução química que originou a vida.

Cometa Holmes (Fonte da imagem: Reprodução/Wikipedia )

A forma como a vida se originou em nosso planeta é uma pergunta que continua sem resposta, pois não havia ninguém aqui para presenciar o acontecimento. Entretanto, podemos considerar que tudo começou a partir de reações químicas entre elementos presentes na atmosfera, nas águas dos oceanos e assim por diante. Contudo, existe um componente em especial que teria sido indispensável para que a vida surgisse, os aminoácidos.

Como os aminoácidos chegaram à Terra é um tema muito discutido, e uma das teorias sugere que eles teriam chegado até nós transportados por meteoros que se chocaram contra o nosso planeta. Mas como os aminoácidos sobreviveriam à viagem, já que a entrada de cometas e outros corpos em nossa atmosfera é extremamente acidentada?

Novas evidências

A NASA divulgou um estudo, liderado pela Dra. Jennifer Blank, que demonstraria que os aminoácidos não só sobreviveram à viagem, como também teriam sido eles os responsáveis por originar a vida em nosso planeta. De acordo com a pesquisadora, essas moléculas poderiam ter viajado em meteoroides — pequenos fragmentos de materiais que vagam pelo espaço — que se fragmentam ao entrar na atmosfera, dando origem aos meteoritos.

Simulações supersônicas

Os cientistas simularam a viagem que os aminoácidos teriam realizado através da nossa atmosfera, atingindo-os com uma espécie de pistola, que dispara gás em alta pressão e em velocidades supersônicas. Essas moléculas se encontrariam a salvo por estarem no interior dos cometas, e as adversidades da viagem — calor extremo, pressão, impacto etc. — não seriam suficientes para rompê-las.

Aliás, os pesquisadores descobriram que a pressão do impacto serviria para contrabalançar o calor extremo, e que inclusive geraria a energia necessária para que os aminoácidos começassem a formar as ligações peptídicas que resultam na formação de proteínas. Ou seja, o fato de que tenham se chocado, na verdade, teria oferecido todas as condições necessárias para que se iniciassem as transformações químicas que podem ter culminado na origem da vida.

De acordo com Blank, os cometas realmente podem ter sido os meios de transporte ideais para trazer os ingredientes necessários para a evolução química que originou a vida, e gostamos do cenário oferecido por esta teoria, pois ele apresenta todos os ingredientes necessários: aminoácidos, água e energia.

dica do João Flores

Primeira travesti a fazer doutorado no Brasil defende tese sobre discriminação

Luma Andrade descreve o preconceito sofrido por travestis na rede pública de ensino e aponta lacunas na formação de professores; defesa será em julho

Publicado originalmente no iG

Antes de se tornar supervisora regional de 26 escolas públicas e ingressar no doutorado em Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luma Andrade assinou o nome João por 30 anos, foi rejeitada pelos pais na infância, discriminada na escola e, mais tarde, no trabalho.

Na tese de quase 400 páginas que irá defender em três meses, a primeira travesti a cursar um doutorado no Brasil relata a discriminação sofrida por pessoas como ela na rede pública de ensino. Ela também aponta lacunas na formação dos professores.

Criança nos anos de 1970, no município de Morada Nova, a 170 quilômetros de Fortaleza, o único filho homem de um casal de agricultores, era João, mas já se sentia Luma. Em casa, escondia-se para evitar ser confrontada. Na escola, apanhava dos meninos por querer parecer uma menina. Em uma das vezes que foi espancada, aos nove anos, queixou-se com a professora e, ao invés de apoio, ouviu que tinha culpa por ser daquele jeito.

Mais tarde, já com cabelos longos e roupa feminina, sofria de segunda a sexta-feira na chamada dos alunos, ao ser tratada pelo nome de batismo. Não se reconhecia no uniforme masculino que era obrigada a usar. Evitava ao máximo usar o banheiro. Aturava em silêncio as piadas que os colegas insistiam em fazer. “Se a travesti não se sujeitar e resistir, acaba sucumbindo”, lamenta.

Luma se concentrou nos estudos e evitou os confrontos. “Tem momento que a gente quer desistir. Eu não ia ao banheiro urinar, porque eu queria usar o feminino, mas não podia. Então eu me continha e, às vezes, era insuportável”, relembra. Mas ela concluiu o ensino médio e, aos 18 anos, entrou na universidade. Quando se formou aos 22, já dava aulas e resolveu assumir a homossexualidade. Quando contou que tinha um namorado, foi expulsa de casa.

Em 2003, já com o título de mestre, prestou concurso para lecionar biologia. Eram quatro vagas para uma escola estadual do município de Aracati, a 153 quilômetros de Fortaleza. Apenas ela passou. Contudo, o diretor da escola não a aceitou. Luma pediu a intervenção da Secretaria de Educação do Estado e conseguiu assumir o posto.

“Eu não era tida como um bom exemplo”. Durante o período de estágio probatório, tentaram sabotar sua permanência na escola. “Uma coordenadora denunciou que eu estava mostrando os seios para os alunos na aula”. Luma havia acabado de fazer o implante de proteses de silicone. “Eu já previa isso e passei a usar bata para me proteger, esconder. Eu tinha certeza que isso ia acontecer”.

Anos depois, Luma assumiu um cargo na Coordenadoria Regional de Desenvolvimento de Educação de Russas, justamente a região onde nasceu. Como supervisora das escolas estaduais de diversos municípios, passou a interceder em casos de agressões semelhantes ao que ela viveu quando era estudante.

“Uma diretora de escola fez uma lista de alunos que, para ela, eram homossexuais. E aí mandou chamar os pais, pedindo para que eles tomassem providências”. A providência, segundo ela, foi “muito surra”. “O primeiro que foi espancado me procurou”, lembra. Luma procurou a escola. Todos os gestores e professores passaram por uma capacitação para aprender como lidar com a sexualidade dos estudantes.

Um ano depois, em 2008, Luma se tornou a primeira travesti a ingressar em um doutorado no Brasil. Ela começou a pesquisar a situação de travestis que estudam na rede pública de ensino e constatou que o caso da diretora que levou um aluno a ser espancado pelos pais e todas as outras agressões sofridas por homossexuais tinham mesma a origem.

“Comecei o levantamento das travestis nas escolas públicas. Eu pedia para que os gestores informassem. Quando ia averiguar a existência real do travesti, os diretores diziam: ‘tem aquele ali, mas não é assumido’. Percebi que estavam falando de gays”, relata.

A partir desse contato, Luma trata em sua tese de que as travestis não podem esboçar reações a ataques homofóbicos para concluir os estudos.

Mas também sugere que os cursos de graduação em licenciatura formem profissionais mais preparados não apenas para tratar da homossexualidade no currículo escolar, mas também como lidar com as especificidades de cada pessoa e fazer da escola um lugar sem preconceitos.

“Cada pessoa tem uma forma de viver. Conforme ela se apresenta, vai se comunicar e interagir. O gay tem uma forma de interagir diferente de uma travesti ou de uma transexual. O não reconhecimento dessas singularidades provoca uma padronização. A ideia de que todo mundo é ‘veado’”.

A tese de Luma já passou por duas qualificações. Ela está em fase final, corrigindo alguns detalhes e vai defendê-la em julho, na UFC, em Fortaleza.