Menina posta trote no Twitter e quase vira alvo do FBI

Sarah tem 14 anos. No Twitter, ela fingiu ser um terrorista afegão e ameaçou a American Airlines. Em resposta, a empresa aérea disse que ia por o FBI atrás dela

American Airlines

Saulo Guimarães, na EXAME

Por dia, cerca de 500 milhões de mensagens são publicadas no Twitter. Ontem, uma delas parece ter custado uma enorme dor de cabeça a uma usuária americana de 14 anos.

Eram 10h37 quando a jovem Sarah escreveu a seguinte mensagem em @QueenDemetriax_, sua conta no Twitter:

“Olá, @americanairlines meu nome é Ibrahim e sou do Afeganistão. Sou da Al Qaida e em 1º de junho eu vou fazer um grande estrago”.

Seis minutos depois, a empresa aérea American Airlines usou seu perfil no site para responder a mensagem: “Sarah, nós tomamos estas ameaças muito a sério. Seu endereço IP e outros detalhes serão encaminhados para segurança e o FBI”.

Tarde demais

Quando percebeu o que havia feito, Sarah tentou reparar seu erro. Atribuiu o problemático tuíte a uma amiga e pediu desculpas pelo mal-entendido. Mas aí, já era tarde demais.

Entre outras mensagens, Sarah chegou a publicar a seguinte: “Sempre quis ser famosa, mas como a Demi Lovato – não como o Osama Bin Laden”. Demi Lovato é uma cantora americana famosa entre adolescentes. Bin Laden, o terrorista responsável pelos ataques de 11 de setembro.

Hoje, quem tentar visitar o perfil de Sarah no Twitter vai descobrir que sua conta foi suspensa. Na página da American Airlines no site, também já não consta a resposta à menina.

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Entretanto, comentários sobre o caso ainda estão na rede social. Um exemplo é o tuíte publicado por Nu Wexler, funcionário responsável pelas relações públicas do Twitter. Segundo ele, a American Airlines não tem como ter acesso ao IP ou outros detalhes relativos à Sarah.

É bom lembrar que este não é o primeiro caso de mensagens envolvendo terrorismo que termina mal no Twitter. Em fevereiro, uma espanhola foi condenada a um ano de prisão por apologia a um grupo armado de esquerda que matou dezenas de pessoas no país nas décadas de 1970 e 1980.

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‘Desvalorização’ do parto normal torna o Brasil líder mundial de cesáreas

Brasil é líder de cesáreas; no parto normal, bebê vai direto para o colo da mãe (foto: BBC)

Brasil é líder de cesáreas; no parto normal, bebê vai direto para o colo da mãe (foto: BBC)

Publicado por BBC Brasil [via Folha de S.Paulo]

Quando a fotógrafa Daniela Toviansky, de 35 anos, ficou grávida, passou a frequentar aulas de hidroginástica com outras gestantes em estágios próximos de gravidez. Ela lembra que, entre uma aula e outra, todas manifestavam um desejo em comum: ter filhos por parto normal. “Todas acabaram fazendo cesárea”, conta Daniela, que se tornou a exceção. Seu bebê, Sebastião, nasceu após 40 semanas de gestação e da forma como ela queria.

O que aconteceu com as colegas da fotógrafa é uma amostra fiel da situação vivida por muitas grávidas no Brasil hoje, especialmente entre as classes mais altas, em um processo que muitos especialistas vêm chamando de “a indústria da cesárea brasileira”.

Com 52% dos partos feitos por cesarianas – enquanto o índice recomendado pela OMS é de 15% -, o Brasil é o país recordista desse tipo de parto no mundo. Na rede privada, o índice sobe para 83%, chegando a mais de 90% em algumas maternidades. A intervenção deixou de ser um recurso para salvar vidas e passou, na prática, a ser regra.

Um caso extremo chamou a atenção há três semanas, quando a gaúcha Adelir Lemos de Goes, uma mãe de 29 anos de Torres (RS), foi obrigada por liminar da Justiça a ter seu bebê por cesárea. Ela foi levada à força ao hospital quando já estava em trabalho de parto, provocando debates acalorados sobre até onde a mãe o poder de decisão sobre o próprio parto.

O caso também levou centenas de pessoas a saírem às ruas, em cidades do Brasil e do exterior, para protestar na última sexta-feira. A manifestação foi batizada de “Somos Todas Adelir – Meu Corpo, Minhas Regras.”

Mas por que e desde quando o Brasil começou a mergulhar nesta verdadeira epidemia de cesáreas? Falhas profundas na regulamentação do sistema de saúde do país e uma lógica perversa na gestão de profissionais e obstetras que, por questões financeiras, acabaram perdendo o hábito de fazer partos normais são algumas das causas, agravadas principalmente pela falta de informação que cerca o assunto.

DESINFORMAÇÃO

Uma pesquisa feita pela Fiocruz (“Trajetória das mulheres na definição pelo parto cesáreo”) acompanhou 437 mães que deram à luz no Rio, na saúde suplementar. No início do pré-natal, 70% delas não tinham a cesárea como preferência. Mas 90% acabaram tendo seus filhos e filha assim – em 92% dos casos, a cirurgia foi realizada antes de a mulher entrar em trabalho de parto.

O levantamento dá a medida de que, em algum estágio dos nove meses de gestação, algo fez a mulher mudar de ideia. As pesquisas da Fiocruz mostram a “baixa informação recebida pelas mulheres em relação às vantagens e desvantagens dos diferentes tipos de parto e a baixa participação do médico como fonte desta informação”.

O estudo e os profissionais de saúde ouvidos pela BBC apontam que as grávidas, de todas as classes sociais, estão longe de estarem bem informadas.

Poucas mães e futuras mães sabem, por exemplo, que as cesáreas aumentam o risco de um bebê nascer prematuro (com menos de 37 semanas de gestação). Isso porque muitos partos são marcados para essa idade gestacional e, como há possibilidade de erro de até uma semana, o bebê pode ser ainda mais novo. A esmagadora maioria destas intervenções não é feita de forma emergencial, mas, sim, programada.

Além de ser a causa de mais da metade das mortes de crianças no país, a prematuridade pode trazer uma série de riscos para o bebê, especialmente doenças respiratórias e dificuldade de mamar. Eles também não se beneficiam do fato de entrar em contato com hormônios benéficos, liberados apenas em certos estágios do trabalho de parto.

No Brasil, 15 milhões dos bebês nascidos em 2010 eram prematuros, o equivalente a 11,7%, segundo uma pesquisa conjunta feita pelo governo e o Unicef. O índice, que coloca o Brasil na décima posição entre os países com mais prematuridade, é mais alto nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste – justamente as que têm mais cesarianas, o que pode indicar uma relação entre os dois fatores.

Além disso, a falta de informação no pré-natal faz com que não haja espaço para esclarecimentos de como a mulher pode lidar com a dor ou outros aspectos, como o que exatamente vai acontecer no parto e como se preparar.

“Muitas vezes, o médico não explica questões sexuais para a grávida, por exemplo”, conta Etelvino Trindade, presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). “Então elas vão se informar com a vizinha, a avó, a prima… e elas sempre têm uma história sobre o parto normal, seja ela escabrosa ou apenas mentirosa. É bastante arraigada a noção de que o parto normal vai deixar a mulher ‘larga’ e, assim, sexualmente inadequada. A cesárea é uma alternativa à esse medo. Mas isso acontece porque há um tabu em se falar sobre esses temas e porque hoje o médico é muito técnico. É um curador, não um cuidador.”

FALHAS NO SISTEMA DE SAÚDE

Segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, a “indústria da cesárea” começou a se formar há 40 anos. “A epidemia de cesarianas começa na década de 70, quando ela começou a ser vendida como solução (de cirurgia única) para a esterilização definitiva, a laqueadura das trompas”, explica a obstetriz Ana Cristina Duarte, uma das principais vozes do movimento de humanização do parto no país.

O ginecologista Etelvino Trindade, presidente da Febrasgo, acrescenta outro fator ocorrido naquela época, decorrente da criação de instâncias do INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), que passaram a determinar que um médico só recebia se participasse efetivamente do parto.

“Até então, o bebê nascia com a obstetriz e o obstetra supervisionava, entrava se houvesse alguma intercorrência, como acontece em países europeus até hoje”, diz Trindade. “Mas as regras mudaram e ele passou a precisar estar sempre na sala de parto (para receber). E, assim, o quadro começou a mudar.”

Já na década de 80, segundo Ana Cristina, acontece a dicotomização das taxas de cesárea diferenciadas no setor público e privado. “É nessa década que as taxas do setor público aumentam um pouco, porém a do setor privado salta para níveis alarmantes. Nas décadas seguintes, cada vez mais brasileiros têm aderido ao setor privado, fazendo as taxas globais brasileiras saltarem para os níveis atuais.”

Braulio Zorzella, ginecologista defensor do parto normal e pesquisador da área, diz que “a grande vilã, o carro-chefe dos culpados, é a ANS”. A Agência Nacional de Saúde é a reguladora dos planos de saúde do Brasil.

Segundo ele, quando a agência hierarquizou os procedimentos, acabou chancelando uma tabela já em vigor que remunerava de maneira discutível o parto – regras mantidas até hoje.

“Todos os valores foram sendo achatados e, em um determinado momento, não valia mais a pena para um médico fazer parto normal, financeiramente falando.”

Apesar de na rede pública o obstetra ganhar um pouco a mais pela cesárea e, na privada, um pouco a mais pelo parto normal, a diferença de valores é mínima. Ou seja, um profissional recebe quase a mesma coisa para fazer uma cesárea, que dura cerca de 3 horas, e um parto normal, que pode muito bem passar das 12 horas.

“Se você paga R$600 por um parto [na rede privada], o médico prefere fazer uma cesárea e ganhar quase o mesmo do que passar a noite trabalhando”, diz Renato Sá, ginecologista e obstetra, Vice-Presidente da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado do Rio de Janeiro (Sgorj).

Para Ana Cristina, o cenário faz com que a cesariana marcada com antecedência seja mais vantajosa, por conta da imprevisibilidade do parto normal. “[Com a cesárea marcada], não só o médico não perde tempo, como ele também não precisa desmarcar compromissos, consultas no consultórios, viagens, etc”.

Questionada duas vezes pela BBC sobre as pequenas diferenças pagas aos médicos em partos normais e cesarianas, a ANS respondeu que “recentemente, ocorreram diversos avanços na política do setor no que diz respeito a esse tema, como, por exemplo, a criação do Comitê de Incentivo às Boas Práticas entre Operadoras e Prestadores.” Continue lendo

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Jimmy Carter: ‘Jesus Cristo era o campeão dos direitos das mulheres’

Ex-presidente americano, que acaba de lançar mais um livro, fala de agressão às mulheres, racismo, republicanos e da atração fatal dos EUA pela guerra

título original: Carter abre o jogo

David Daley, no SALON [via Estadão]

'Nossas universidades inibem as estudantes de denunciar estupros' (foto: Navesh Chitrakar/Reuters)

‘Nossas universidades inibem as estudantes de denunciar estupros’ (foto: Navesh Chitrakar/Reuters)

O novo livro de Jimmy Carter, A Call to Action, é uma adição corajosa à biblioteca de aproximadamente duas dezenas de livros que o ex-presidente dos EUA escreveu após seus anos na Casa Branca. O livro tem por subtítulo Women, Religion, Violence and Power, e Carter aborda sem medo os assuntos mais polêmicos: agressão sexual em câmpus universitários e meios militares; líderes religiosos que usam textos sagrados para justificar a opressão; penas de prisão punitivas contra pobres e minorias sociais; guerras com drones e operações militares intermináveis americanas.

Numa conversa breve, mas abrangente, falamos sobre muitos desses tópicos – mas também sobre a guerra republicana contra as mulheres; as críticas do presidente Barack Obama que ecoam críticas de seu próprio governo; e sobre como seu neto, Jason, poderá reverter a evasão de homens sulistas brancos para o Partido Republicano. Perguntado sobre a razão para os homens brancos optarem pelos republicanos, Carter, de 89 anos, foi inequívoco: “É raça”. Sobre outros tópicos, em especial sobre a Fox News e a guerra republicana às mulheres, as repostas de Carter foram igualmente diretas, porém mais surpreendentes. Espere só para ouvir sua resposta sobre slut-shaming (expressão usada com o intuito de intimidar e perseguir mulheres de comportamento ou visual sexualmente desinibido).

O sr. diz no livro que ‘há um abismo inevitável entre os líderes que escrevem e administram as leis criminais e as pessoas que lotam as prisões’. Que papel acha que a raça desempenha na perpetuação desse abismo?

As estatísticas ainda mostram que a raça faz uma grande diferença. Afro-americanos e hispânicos não só são comparativamente mais atingidos pela pobreza como são muito mais passíveis de serem presos do que outras pessoas. Desde que saí da Casa Branca, 800% mais mulheres negras estão encarceradas. A maioria das pessoas que estão na prisão por um longo período de tempo são hispânicos, negros ou mentalmente deficientes. A conclusão é que, considerando as pessoas que escrevem as leis, administram as leis e as aplicam, as demais são excluídas de qualquer tratamento igualitário no sistema de Justiça.

Seu texto também bate duro numa cultura de agressão sexual em câmpus universitários, observando estatísticas de que 95% das estudantes sexualmente agredidas permanecem em silêncio.

É verdade. Elas não denunciam. É algo que me choca muito.

Será pela maneira como a mídia cobre a questão, a forma como o sistema judicial funciona ou o extremismo do debate político em torno do tema?

Não é extremismo. É que as mulheres são desencorajadas de denunciar. E isso é feito por bem intencionados e esclarecidos presidentes de universidades, e reitores de faculdades também. Eles não querem repercussões negativas para seus câmpus ou universidades – veja a Universidade Duke ou a Emory, onde leciono, ou Harvard ou Yale. Eles querem que a universidade tenha um atestado de saúde no que toca à agressão sexual. E advertem as garotas de que, quando a pessoa denuncia o estupro, ela será posta no banco das testemunhas e será obrigada a falar sobre as circunstâncias mais embaraçosas. “Que tipo de calcinha você usava? Você dá beijo de língua? Tem um histórico carregado de encontros com rapazes?” É muito embaraçoso. Aliás, perguntaram a uma guarda-marinha na Academia Naval no banco das testemunhas sobre a largura com que abria a boca enquanto fazia sexo oral nos jogadores de futebol americano que a estupraram. Também convencem a garota de que o rapaz, faça ele o que fizer, provavelmente não será condenado – particularmente se for branco. Ele alegará que a moça estava interessada em sexo consensual, usava roupas provocantes e parecia querer fazer sexo. Ou que estava bebendo.

O sr. é provavelmente o primeiro presidente a mencionar abertamente esse tema num livro. Está familiarizado com a expressão “slut-shaming”, que joga um papel importante na discussão sobre agressão sexual?

Já a ouvi, mas não creio que possa lhe dar uma definição exata, ou usá-la numa sentença (risos).

É um método pelo qual pessoas tentam jogar a culpa de estupro e agressão sexual na vítima. Ou uma maneira de aviltar mulheres como Sandra Fluke, que veio a público para falar em defesa da cobertura contraceptiva e saúde reprodutiva e acabou denunciada como prostituta por Rush Limbaugh no rádio, diante de toda a nação.

É o que acontece. Por isso eu menciono um relatório do Departamento de Justiça americano segundo o qual metade dos estupros em câmpus universitários é perpetrada por estupradores em série. Porque ali eles percebem que podem continuar com isso, e o fazem repetidamente. Por que alguma universidade desejaria manter esse tipo de estudante no câmpus? Eu simplesmente não compreendo. O mesmo acontece no meio militar. Estive na Marinha por muito tempo, em submarinos, por isso eu sei. Oficiais de uma companhia, de um batalhão ou de um navio não querem admitir que esse tipo de coisa ocorra sob o seu comando.

callOuvimos o ex-governador republicano Mike Huckabee falar de como as mulheres não conseguem controlar sua libido, o congressista Todd Akin falando de ‘estupro legítimo’ e o concorrente ao Senado Richard Mourdock defendendo que gravidez resultante de estupro é uma intenção de Deus. Uma posição contra a mulher parece inscrita na plataforma do Partido Republicano, é isso?

Apesar de haver extremistas nos dois lados, eu não gostaria de afirmar que os democratas são pela proteção das mulheres e os republicanos não.

Em geral, não se ouve esse tipo de conversa do lado democrata.

Há maridos democratas que abusam de suas mulheres e há presidentes de empresas democratas que pagam às mulheres 23% menos do que pagam aos homens. De modo que há abusos em ambos os lados.

O sr. claramente condena a rapidez com que os EUA recorrem à ação militar. Escreve que, ‘mais do que qualquer nação no mundo, os EUA estiveram envolvidos em conflitos armados e usaram a guerra como meio para resolver disputas’.

Isso é fato, e eu enumero algumas das guerras. Menciono 10 ou 15, mas poderia citar mais 10 ou 15.

O sr. é especialmente crítico de nossas guerras com drones, e com o fato de pessoas inocentes serem mortas quase como danos colaterais. Será que nós americanos nos vemos como realmente somos? E como o resto do mundo nos percebe?

O restante do mundo, quase unanimemente, vê os EUA como o militarista-mor. Recorremos ao conflito armado num piscar de olhos – e com muita frequência isso não só é desejado pelos líderes de nosso país como também é apoiado pelo povo americano. Também retrocedemos para um grau terrível de punição de nosso povo em vez de trazê-lo de volta à vida. E isso significa que temos 7,5 vezes mais pessoas presas do que quando deixei o governo. Somos o único país entre os membros da Otan que tem a pena de morte; e isso é mais uma mancha sobre nós no que diz respeito à violência injustificável, desnecessária e contraproducente.

John Kerry foi ao programa Meet the Press depois das ações russas na Crimeia e disseque ‘este é o século 21, não se pode mais simplesmente invadir outro país’. Penso que muitos de nós disseram que foi exatamente isso que fizemos no Iraque em pleno século 21…

Correto, Fizemos. Fazemos isso o tempo todo. Isso é Washington. Infelizmente.

Uma das críticas ao presidente Obama é também algo que foi dito com frequência sobre o governo do sr.: que ele não ‘socializa’ o suficiente em Washington, que republicanos não são convidados para coquetéis na Casa Branca, etc. As coisas seriam realmente diferentes para o presidente Obama se ele tivesse republicanos na Casa Branca?

Não creio que alguém tenha colocado mais republicanos na Casa Branca do que eu – talvez não para coquetéis, mas para ajudar a rascunhar leis, preparar ações congressionais úteis e convencê-los a votar em meus projetos de lei. Aliás, tive melhor média de resultados positivos com o Congresso, tanto democrata como republicano, do que qualquer presidente desde a 2ª Guerra, exceto Lyndon Johnson. Foi preciso um esforço heroico de minha parte para conseguir que dois terços do Senado votassem pelo tratado do Canal do Panamá. Foi a votação mais corajosa que o Senado já fez.

O sr. foi eleito governador e presidente como um democrata sulista branco, segmento da população que desertou do Partido Democrata. Em alguns Estados sulistas deve haver atualmente 30% de homens com esse perfil apoiando os democratas. É com isso que seu neto Jason lida agora, ao concorrer para governador da Geórgia. A economia se agrava, a desigualdade só piora e a resposta de homens brancos no Sul é apoiar o ‘partido do 1%’. A questão é raça? Gênero? Medo?

É raça. Raça. Isso vem prevalecendo no Sul, exceto que, quando concorri, eu consegui cada Estado sulista, menos a Virgínia. Desde que Nixon concorreu, os republicanos solidificaram seu domínio ali. E mesmo este ano, como deve saber, os republicanos fizeram uma proposta para instituir uma placa de carro da Geórgia exibindo uma bandeira confederada. É esse tipo de coisa: o apelo para pessoas mais ricas, que são quase sempre brancas, e o aviltamento das pessoas que recebem cupons de alimentação, com muita frequência pessoas pobres. Mais a alegação de que as pessoas que vão para a cadeia são simplesmente culpadas, quando elas são principalmente negras, hispânicas e mentalmente doentes. Esse tipo de coisa só exalta a classe superior, que são os brancos. Eles traçam uma linha divisória racial sutil, porém muito efetiva, por todo o Sul do país.

Que papel acha que a Fox News desempenhou na exacerbação das divisões políticas, em prejuízo de nossa capacidade de chegar a um consenso nessas questões complicadas sobre as quais o senhor falou? A Fox instiga o medo ou a animosidade racial?

A CNN foi fundada quando eu era presidente e achei que ela era a proposta mais satisfatória para o mundo todo. Agora penso que a mídia noticiosa está fragmentada. Acho que a Fox News pende muito para o lado republicano e conservador, e que a MSNBC pende muito para o outro lado – o que está muito bem para mim. Cada um assiste ao que quer. Creio que a CNN tenta ocupar uma posição intermediária e muitas vezes sofre financeiramente por isso. Mas não tenho críticas: a imprensa é livre.

E os líderes religiosos que o sr. discute, de todas as fés, que interpretam textos religiosos de maneira a encorajar a submissão e a opressão das mulheres? Acredita que essa seja uma leitura deliberadamente enganosa dos textos por parte deles ou eles chegam honestamente a essas interpretações?

Eles realmente encontram esses versículos na Bíblia. Como sabe, se percorrer o Novo Testamento, o que faço todos os domingos, posso encontrar versículos escritos por Paulo que dizem às mulheres que não deveriam falar na igreja, não deveriam ir enfeitadas à igreja, e assim por diante. Mas também encontro versículos do mesmo Paulo dizendo que todas as pessoas são iguais aos olhos de Deus. Que homens e mulheres são o mesmo: amos e escravos são o mesmo; e judeus e gentios são o mesmo. Não há diferença entre pessoas aos olhos de Deus. E também sei que Paulo escreveu o 16º capítulo de Romanos para aquela igreja e apontou cerca de 25 pessoas que haviam sido heroicas em cada igreja primitiva – e cerca da metade delas eram mulheres. Portanto, é possível encontrar versículos de vários lados, mas no que trata de Jesus Cristo, ele era unanimemente e sempre o campeão dos direitos das mulheres. Na verdade, ele foi o mais destacado defensor dos direitos humanos que viveu em seu tempo e acho que não houve ninguém mais comprometido com esse ideal do que ele.

Quando olha para o mundo e para a história, para guerras que foram travadas em nome da religião, e da subjugação e violência que continuam hoje, pesando também os heroicos líderes de direitos humanos, muitos deles figuras religiosas transformadoras, a religião tem sido, no conjunto, positiva ou negativa para o mundo?

Acredito que tem sido positiva, porque religiões básicas como islamismo, cristianismo, judaísmo e também budismo e hinduísmo, todas têm uma premissa primordial de paz, justiça, compaixão, amor, etc. Se nos prendermos a esses princípios básicos, penso que a religião é benéfica.

dica da Karen Souza

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‘O Deus de Israel não gosta de covardes’

noe-2014título original: Nôach

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

O Deus de Israel não gosta de covardes. Homem, mulher, criança, todos são chamados à coragem, à dor e a tomar decisões difíceis.

Noé (Nôach), foi um desses heróis. Erich Auerbach, no seu “Mímesis”, afirma que Deus testa seus heróis e heroínas, levando-os ao limite do insuportável, para que, sobrevivendo ao teste, descubram por que foram eleitos. Deus funda, assim, a ideia de autoconhecimento na literatura ocidental.

“E os que vieram, macho e fêmea, de toda criatura vieram, como Deus lhe havia ordenado; e o Eterno o fechou para protegê-lo. E foi o dilúvio quarenta dias sobre a terra, e multiplicaram-se as águas, e alcançaram a arca, e levantou-se de sobre a terra” (Gênesis, 7; 16-17, edição hebraica).

O filme “Noé”, de Darren Aronofsky, é sobre eleição. “Eleição” é um conceito, muitas vezes, pouco compreendido pelo mundo contemporâneo, maníaco por felicidade “projetos do self” e sucesso.

Os eleitos pelo Deus de Israel só têm problemas; a solidão os assola, o medo e o sofrimento os persegue. Erich Auerbach entende muito mais de “eleição” na literatura israelita do que muito rabino, pastor e padre por aí, obcecados por vender autoajuda espiritual. “Dificilmente, um deles não sofre, como Adão, a mais profunda humilhação…”, afirma Auerbach.

O diretor do filme, faz licenças poéticas, e algumas delas (não tenho como saber o quão consciente ele estava quando as fez) muito sofisticadas, levando em conta a “dramaturgia” do Velho Testamento, como falam os cristãos quando se referem à Bíblia hebraica.

Uma delas, muito pontual, é o uso da pequena tira de couro que o pai de Noé, e depois o próprio, enrola no braço: uma referência direta ao “tefilin” (filactério). A palavra hebraica tem sua raiz em “tefilá”, que significa prece. Hoje, ela “virou” um cordão de couro ligado a duas caixinhas que o judeu amarra daquele jeito e também na cabeça (é bem maior do que mostra o filme).

Uma das preces ali contidas é o famoso “Shemá Israel”, a qual lembra aos judeus que Deus é um só: “Shemá Israel, Adonai eloheinu, Adonai echad” (Ouve Israel, Adonai é nosso D’us, Adonai é Um”), na tradução feita pelo movimento religioso judaico Chabab.

Outra liberdade de roteiro está na longa discussão acerca das mulheres e da infertilidade da personagem que casará com Sem, filho mais velho de Noé. Na narrativa bíblica sobre o dilúvio não existe esta controvérsia que domina o filme. Sem, Cam e Jafé, filhos de Noé, já entram na arca com suas mulheres.

Mas, se para o homem bíblico o drama é o coração reto que serve a Deus, para a mulher, o drama é a fertilidade. Muitos criticam esse enfoque porque entendem que o homem tem um drama moral acerca da liberdade da vontade (tema muito bem trabalhado no filme) e a mulher tem um drama “fisiológico”, portanto, alheio à liberdade.

Mas, ao enfrentar o mal da infertilidade e ao ser objeto de milagre (como no filme e em vários casos na Bíblia), a mulher revela sua vocação de ser a (desesperada) terra (in)fértil onde Deus deixa sua marca.

O medo da infertilidade no mundo semítico antigo acompanha muitas heroínas, como Sara, mulher de Abraão, e Rachel, mulher preferida de Jacó (mais tarde, chamado Israel, pai das 12 tribos).

O profeta Isaías, 54:1-55:5, compara as agonias e posteriores alegrias da mulher infértil (ou desamparada ou solitária) às águas de Noé: “Canta, ó estéril que não deste à luz; rompe em cânticos, e clama com alegria, tu que não tiveste dores de parto; porque mais serão os filhos da mulher solitária do que os da casada, diz o Eterno”.

Adiante, o profeta compara a promessa de Deus a Noé, de que não mais lançará águas sobre a face da terra, com a promessa feita à infeliz de que Ele não terá mais ira contra sua revolta nem a repreenderá.

Sabe-se que Deus escolhe Rachel como a que “amolece” Seu coração, quando Ele fica irritado com o povo israelita. Está aí o mistério da dor feminina que encanta até o Eterno.

Quando você ouvir alguém dizer que a Bíblia é um livro bobo, saiba que você está diante de um ignorante. Boa semana.

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Assédio sexual em vagão vira fetiche em Tóquio e dá prisão em NY

Tóquio tem metrô com vagão exclusivo para mulheres nos horários de pico (foto: Kenji Suzuki-Sankei/Reuters)

Tóquio tem metrô com vagão exclusivo para mulheres nos horários de pico (foto: Kenji Suzuki-Sankei/Reuters)

Alexandre Porto, Isabel Fleck, Leandro Colon e Lígia Mesquita, na Folha de S.Paulo

O assédio sexual a passageiros ocorre em São Paulo e repete-se nos vagões de outras metrópoles. Em Tóquio, o ato é comum e virou fetiche. Há motéis com suítes que imitam o ambiente do metrô.

Em Nova York, um decisão da Justiça estabeleceu prisão de até um ano para “encoxadores”. Já em Londres, há operações para detê-los. Em Buenos Aires, os assediadores trocavam “dicas” num blog para cometer o crime e, no Rio, o público masculino insiste em desrespeitar o vagão exclusivo para mulheres.

Saiba mais sobre cada metrópole abaixo.

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Tóquio

Fetiche do metrô

No metrô de Tóquio, assédio sexual é comum. Segundo as autoridades, dois terços das passageiras entre 20 e 30 anos já foram vítimas. O chikan —como é conhecido no Japão— ocorre mais frequentemente pela manhã, em linhas com grandes distâncias entre as paradas. Cartazes de advertência contra o abuso estão em todas as estações e há vagões exclusivos para mulheres nos horários de pico.

A cultura machista japonesa, no entanto, procura transformar abuso em fetiche. Em alguns motéis, há suítes temáticas com a aparência de um vagão de metrô, para a prática do chikan como fantasia sexual.

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Nova York

Prisão para abuso

Uma decisão tomada em fevereiro pela mais alta corte do Estado de Nova York estabeleceu que “encoxadores” em metrôs poderão ser acusados criminalmente e receber penas de até um ano de prisão.

A decisão se refere a um caso de 2009, em que um homem foi preso após esfregar seu órgão genital em um rapaz numa estação de metrô de Nova York. A medida foi considerada uma vitória por grupos que defendem punições mais rigorosas para esse tipo de abuso. O Departamento de Polícia de Nova York registrou, em 2012, cerca de mil denúncias de contatos forçados ou exposição pública.

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Londres

Guardião do trem

Criado há um ano, o “Guardian”, programa de prevenção e combate ao assédio sexual no transporte público em Londres, dá resultados práticos. Numa operação no mês passado, 16 homens foram detidos sob suspeita de praticar algum tipo de assédio. O projeto foi criado depois de uma pesquisa mostrar que 15% das mulheres sofreram algum tipo de abordagem sexual em meios de transporte. Mas 90% delas nunca haviam informado as autoridades. A polícia de Londres diz que o combate ao assédio sexual é importante por ter “efeito desproporcional na confiança das pessoas em viajar, sobretudo as mulheres”.

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Buenos Aires

Blog do assédio

O Programa das Vítimas contra as Violências do Ministério da Justiça registrou 1.139 denúncias em 2012. Desse total, 6% (68 casos) ocorreram em ônibus, metrô, trens e táxis. Entre janeiro e maio de 2013, 18 dos 418 casos se deram em meios de transporte.

Em Buenos Aires, onde o metrô costuma estar lotado, não há vagão exclusivo para as mulheres. A Agência Nacional de Notícias Jurídicas do país denunciou, em 2013, um blog no qual homens que assediavam mulheres em trens e ônibus da capital trocavam “dicas” para cometer o crime. A página foi retirada do ar.

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Rio de Janeiro

Vagão para elas

O vagão exclusivo para mulheres nos trens e no metrô do Rio de Janeiro completa neste mês oito anos de existência. De segunda a sexta, das 6h às 9h e entre 17h e 20h, sempre há o espaço destinado para elas. A medida, aprovada em lei, surgiu para evitar que homens se aproveitassem da superlotação para assediar as passageiras.

Hoje, alguns homens ainda ignoram a regra. Segundo a SuperVia, que administra os trens, a lei não dá autonomia para que agentes possam expulsá-los. Na manhã da última terça-feira, um dos infratores ejaculou num dos vagões femininos. Ele acabou preso por violação sexual.

Justiça do Estado de Nova York definiu pena de até um ano para "encoxadores" (foto: AFP)

Justiça do Estado de Nova York definiu pena de até um ano para “encoxadores” (foto: AFP)

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