O tempo, como invenção do homem

Mino Carta

Questão levantada por Dilma Rousseff no debate de domingo 10 na Band merece reflexão. Observou a candidata que a campanha eleitoral tucana estimulou um sentimento insólito no Brasil, o ódio. Há brasileiros e brasileiros. Os privilegiados e seus reservas, e os desvalidos em estágios diversos. As diferenças sociais são ainda profundas, a despeito de alguns avanços realizados à sombra de Lula.

A maioria brasileira não é capaz de ódio, mas sua característica mais pronunciada é a resignação. Já o ódio tem ibope elevado na minoria, aquele resistentemente alimentado em relação à maioria. O sulista feliz da vida enquanto mantém sua primazia e o remediado confiante em um futuro favorável à moda dos atuais privilegiados odeiam o nortista pobre. Incluam-se os miseráveis em qualquer latitude.

A frequentação da internet nestes dias ilumina a respeito, embora cause devastação na zona miasmática situada entre o fígado e a alma dos cidadãos conscientes e responsáveis. Colidimos com ferozes manifestações de ódio, insufladas pela mídia nativa, movida ela própria, ela antes dos seus leitores, ouvintes, espectadores, a puro ódio. Em outros tempos, chamava-se ódio de classe. Mas hoje os tempos são outros.

Há inúmeras décadas a mídia nativa, instrumento nas mãos da chamada elite (elite?) porta-se da mesma maneira. Desembainha os mesmos argumentos. Desde a oposição a Getúlio Vargas democraticamente eleito, a resistência à posse de Juscelino, a manipulação constitucional para que João Goulart substituísse o renunciatário Jânio ao aceitar a imposição do parlamentarismo, enfim, o golpe de 1964 e o golpe dentro do golpe de 1968. Até a rejeição da campanha das Diretas Já, a eleição indireta de 1985, a posse anticonstitucional de José Sarney, a eleição de Fernando Collor no seu papel de antídoto ao Sapo Barbudo.

Sempre e sempre, a mesma peroração, a favor das mesmas inaceitáveis razões, frequentemente em apoio de quem, em nome das conveniências, foi elevado aos altares da glória e hoje é atirado à poeira. É um festival de acusações sem prova, de omissões oceânicas, de mentiras que envergonhariam o bugiardo de Goldoni ou o tartufo de Molière. (mais…)

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O Hitchens ateu X o Hitchens cristão

Os irmãos Christopher e Peter Hitchens conversam publicamente sobre Deus, a morte, e a fé

Isso aconteceu durante um evento promovido pelo Fórum Pew de Religião e Vida Pública. Tratava-se de uma conversa entre os irmãos e a imprensa. Não era um debate onde se podia esperar um vencedor.

Christopher Hitchens parou um pouco em meio às consultas médicas para o tratamento do câncer de esôfago que ameaça sua vida e sentou-se para uma conversa sobre Deus com seu irmão, Peter. (conforme o vídeo acima)

Christopher, um ateu famoso, lançou recentemente seu livro de memórias Hitch-22 este ano. Já Peter, menos conhecido, também lançou este ano um livro de memórias: The Rage Against God: How Atheism Led Me to Faith [A fúria contra Deus: Como o ateísmo conduziu-me à fé]. Apesar de terem grandes divergências no que se refere a Deus, os dois parecem viver uma relação afetuosa. Michael Cromartie, vice-presidente do Centro de Ética e Políticas Públicas serviu como moderador. Ele iniciou lendo uma passagem do livro de Peter sobre a reconciliação dos irmãos depois de um debate em Grand Rapids, Michigan. Christopher aplaudiu embaixo da mesa.

A partir daí, os irmãos ficaram em uma sala com 25 jornalistas durante o Fórum. Michael Gerson, um dos redatores de discursos do presidente George W. Bush (que fundou o “Escritório de fé” da Casa Branca), sentou-se do outro lado da sala enquanto Christopher dizia: “Aqueles que pensam que “fé ” é o prefixo de algo positivo terão muitas discussões em seu caminho.”

Os irmãos Hitchens, Christopher (o ateu) à esquerda e Peter ( o cristão) à direita.

Careca, e agora mais magro do que antes do tratamento, Christopher continua mentalmente ágil como sempre, usando seus argumentos e apartes secos. Ele me confessou mais tarde que não se cansa dessas conversas: “É um grande tema.” Mas ele parecia cansado de responder as perguntas sobre as pessoas que afirmavam estar orando por ele e se a experiência estremeceu seu ateísmo. Quando a repórter Barbara Bradley Hagerty perguntou sobre isso, ele respondeu: “Bem, você tem a palavra e continua insistindo, apesar da minha relutância.” “Eu lamento…. a idéia das pessoas que, de alguma maneira espera-se que, agora [que estou com câncer] eu possa estar apavorado, infeliz ou deprimido, e que certamente esse seria um bom momento para abandonar os princípios de toda uma vida “, continuou ele. “Já pensei muito sobre isso, obrigado mesmo assim.”

Peter concordou: “Acho que seria bem grotesco imaginar que alguém precisa ter câncer para poder enxergar o mérito da religião. É uma idéia absurda. ” (mais…)

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Segundo Turno

Frei Betto

Surpreendeu a  votação (quase 20 milhões de votos) recebida por Marina Silva. Votos dados a  ela e não ao PV, pois o eleitor vota em pessoas mais que em partidos. Isso  coloca algumas questões.

Muitos eleitores de  Marina se coligaram pelas redes sociais da internet. Esta funciona, sim, como  poderoso palanque virtual. Milhares de pessoas estão permanentemente  dialogando através da web. E isso ajuda a formar  opinião.

Curioso é  constatar que a militância virtual cresce na proporção em que se reduz a do  corpo a corpo, do militante que, voluntariamente, saía às ruas, panfletava,  pichava muros, distribuía santinhos e vendia brindes para arrecadar fundos de  campanha. É lamentável observar a ausência de militância voluntária em eventos  eleitorais, substituída por pessoas remuneradas que, por vezes, nada sabem do  candidato que propagam.

Ao contrário do que, até  agora, supunham PT e PSDB, o tema da preservação ambiental interessa sim ao  eleitor. Já não é pauta “apenas dos verdes”. A sociedade, como um todo, está  preocupada com o aquecimento global, o desmatamento da Amazônia, a construção  de hidrelétricas poluidoras.

Marina Silva se afirmou  politicamente como representante de importantes demandas da sociedade que  ainda não foram devidamente assumidas pelo PT e o PSDB. Parafraseando  Shakespeare, há mais coisas entre a esquerda e a direita do que supõem os  atuais caciques partidários. Criou-se, assim, uma fissura, quebrando a  polarização bipartidária. E, para muitos, abriu-se uma nova janela de  esperança.

A  candidatura de Marina Silva ajudou a bloquear o suposto caráter plebiscitário  do primeiro turno. Agora, Dilma e Serra têm que, obrigatoriamente, debater  propostas e programas de governo. O eleitor não quer saber se FHC ou Lula foi  melhor presidente. Interessa-lhe o futuro: como promover o desenvolvimento  sustentável? Como o Estado pode oferecer mais eficientes segurança pública e  sistemas de educação e saúde? Como a Amazônia e as nossas florestas serão  preservadas? (mais…)

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