Nem talento nem QI bastam para fazer de alguém o máximo

“Nossos atributos emocionais, como desejo, obstinação e confiança, contribuem muito mais para o sucesso do que nossa capacidade de raciocínio”, diz Greene.

Marinete Veloso, no Valor Econômico

Greene: "O futuro pertence a quem aprender mais habilidades e for capaz de combiná-las de forma criativa"

Greene: “O futuro pertence a quem aprender mais habilidades e for capaz de combiná-las de forma criativa”

O talento natural ou o quociente de inteligência (QI) alto não explicam sucessos futuros. É isso o que Robert Greene procura demonstrar em “Maestria” (Sextante),  seu novo livro. Pessoas comuns, observa, podem ter acesso ao nível máximo de excelência, o que ele qualifica de “maestria”. “O caminho para essa conquista é a aprendizagem, baseada em motivação e tempo.”

Greene levanta a questão: “Se todos nascem com cérebros basicamente semelhantes, que apresentam mais ou menos a mesma configuração e o mesmo potencial à maestria, por que apenas alguns se sobressaem e realizam esse potencial? Como explicar que milhares de crianças se destaquem por suas habilidades e talentos excepcionais em alguma área, embora poucas acabem correspondendo às expectativas no futuro?

Existe no ser humano uma forma de poder e de inteligência que corresponde ao ápice do seu potencial, segundo Greene. Essa força em geral é efêmera: ocorre em momentos de tensão, diante de um prazo prestes a expirar, da necessidade urgente de resolver um problema, ou de crises de toda espécie. “Nesses momentos, as pessoas tornam-se inspiradas e criativas.” Mas são apenas momentos. “Se para a maioria dos seres humanos essa sensação é experimentada por pouco tempo, para os grandes mestres é um estilo de vida, sua forma de ver o mundo.”

O processo de aprendizagem que capacita as pessoas a atingirem esse objetivo passa por três etapas. A primeira é a da observação profunda. Greene a compara à iniciação ao piano ou a chegada a um novo emprego, quando é preciso desenvolver habilidades. “No começo, somos estranhos à nova realidade. No caso do teclado, parece intimidador. No novo emprego, desconhecemos as regras e procedimentos. Estamos inseguros, porque o conhecimento de que precisamos em ambos os casos ainda é inacessível.” Essa primeira fase é de conduta passiva, de aprender regras básicas.

imagem.dllCom o passar do tempo, há uma evolução. Os conhecimentos se expandem. Entra a segunda fase: a da aquisição de habilidades. “Em vez de aprendermos com os outros, contribuímos com nosso próprio estilo e individualidade. Através de muita prática e imersão, ampliamos nossa compreensão do assunto. Adquirimos um novo poder, a capacidade de atuar criativamente.”

Na terceira fase, da experimentação, “à medida que perseveramos no processo, entendemos tudo com absoluta clareza e aí se realiza o salto para a maestria. Assimilamos tão bem as regras, que agora podemos reescrevê-las ou transgredi-las”. É o momento em que o artista capta algo que compõe a essência de sua arte, o cientista faz suas descobertas e o empreendedor criativo realiza algo que ninguém imaginara.

Nessa caminhada, necessariamente longa, é preciso não sucumbir à insegurança ou aos conflitos emocionais que dominarão o pensamento. Greene explica que, na trajetória da aprendizagem, o tempo é um ingrediente “mágico”, que depende da área de atuação e do talento de cada pessoa. Sugere que, para dominar um tema, são necessárias, pelo menos, 10 mil horas; para ser mestre, 20 mil horas. Observa que cada época tende a criar seu próprio modelo de aprendizagem, mais adequado ao sistema de produção vigente. “Os dias de hoje são de grande complexidade. A tecnologia assumiu as tarefas fáceis e rotineiras, deixando para os humanos as mais difíceis, que exigem cada vez mais educação e treinamento. O futuro pertence a quem aprender mais habilidades e for capaz de combiná-las de forma criativa.”

Greene explica que seu propósito ao escrever o livro foi inspirar as pessoas em seus processos de transformação de vida, de descoberta de sua missão ou vocação. Para isso, apresenta estratégias de observação e aprendizado, de cultivo da inteligência social e de como decifrar códigos de comportamento político. Trata das relações vocação-trabalho-dinheiro e de como reagir aos fracassos. Dedica especial atenção ao papel de um mentor. “A vida é curta e o tempo de aprendizado e criatividade é limitado. Sem uma competente orientação, você pode desperdiçar anos valiosos na tentativa de desenvolver conhecimentos e práticas.” Mas destaca que é necessário avançar, e não ficar à sombra do mentor.

As ideias de seu livro basearam-se em ampla pesquisa no âmbito das ciências neurológicas e cognitivas, em estudos sobre criatividade, assim como na vida de grandes mestres da história, nos vários campos das artes e do conhecimento. Estão presentes biografias resumidas de Mozart, Leonardo da Vinci, Goethe, Martha Graham, John Coltrane, Glenn Gould, Einstein, Thomas Edison e Henry Ford, bem como de mestres atuais, como o neurocientista Vilayanur Ramachandran, o antropólogo e linguista Daniel Everett, o engenheiro de computação Santiago Calatrava, o piloto de caça da Força Aérea americana Cesar Rodriguez, entre muitos outros. Cada capítulo começa com a história de uma figura ilustre, que servirá de exemplo para os conceitos, análises e orientações que se seguem.

Para atingir a maestria em uma área, é indispensável sentir uma profunda conexão com ela, a ponto de transcendê-la, diz Greene. Para Einstein, não foi a física em si que o motivou, mas o fascínio pelas forças invisíveis que governam o universo. Para Coltrane, não foi a música, mas o poder de dar voz a emoções poderosas.

“Nossos atributos emocionais, como desejo, obstinação e confiança, contribuem muito mais para o sucesso do que nossa capacidade de raciocínio”, diz Greene. E lembra que o primeiro passo será sempre introspectivo, como escreveu Píndaro, poeta da Grécia Antiga, cerca de 2.600 anos atrás: “Torna-te quem és aprendendo quem és”.

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5 jeitos bizarros de medir a felicidade

happy-woman-140320Natasha Romanzoti, no HypeScience

Todos sabemos que a felicidade é subjetiva, afinal, o que faz uma pessoa pular de alegria pode mal fazer outra sorrir.

Mas o que a felicidade significa?

Cientistas tentaram resolver este problema de medir a felicidade de uma série de maneiras, perguntando às pessoas sobre os seus humores e momentos felizes em relação a satisfação com a vida em geral, e outros fatores “maiores” que poderiam influenciar este sentimento. Outras tentativas de investigar a felicidade foram mais criativas e, por vezes, estranhas.

Confira algumas delas:

1. Tweets felizes

Usuários de mídia social geralmente expressam seus sentimentos online. Assim, os pesquisadores da Universidade de Vermont resolveram usar o Twitter para descobrir quais os lugares mais felizes nos Estados Unidos.

Em um artigo publicado em maio de 2013 na revista PLoS ONE, os cientistas analisaram mais de 80 milhões de palavras digitadas em tweets em 2011, todas com informações de localização.

Ao analisar a positividade e negatividade nas palavras usadas, os pesquisadores descobriram que o estado americano mais feliz (ou pelo menos o estado com o maior número de usuários do Twitter alegres) era o Havaí, seguido por Maine, Nevada, Utah e Vermont. O estado mais triste foi Louisiana, seguido de Mississippi, Maryland, Delaware e Geórgia.

Outro estudo, liderado por Peter Dodds, que analisou bilhões de tweets entre setembro de 2008 e meados de setembro de 2011, observou que a felicidade, depois de uma tendência gradual para cima (de janeiro a abril de 2009), começou a cair, acelerando ligeiramente ao longo do primeiro semestre de 2011. Os cientistas citam exemplos de grandes quedas de felicidade em certas épocas nos tweets, como durante a quebra do sistema financeiro dos EUA em 2008, e a pandemia da gripe H1N1 em 2009.

2. A felicidade no Facebook

Os pesquisadores também checaram como os usuários expressam felicidade no gigante da mídia social, Facebook. Um dos resultados mais interessantes vistos em pesquisas de felicidade no Facebook é que mensagens felizes geram mais mensagens felizes.

Recentemente, a rede social adicionou a capacidade dos usuários incluírem um emoticon e um sentimento a um status, permitindo que a empresa Data Team investigasse como as emoções dos usuários estão mudando.

Em 17 de março de 2014, a equipe analisou as emoções em resposta a mudança para o horário de verão no hemisfério norte, e descobriu que as queixas de cansaço aumentaram 25% na manhã de segunda-feira após a mudança de tempo, em comparação com a semana anterior. Mas os usuários do Facebook também viram um aumento no humor: o uso de palavras positivas, como “maravilhoso” e “ótimo”, também aumentou cerca de 20%. Os status também foram mais positivos na segunda-feira à noite, talvez por causa da hora extra de sol após um dia de trabalho.

3. Sorrisos brasileiros no Instagram

Enquanto isso, no Instagram, o Brasil está recebendo o seu devido reconhecimento como o país mais feliz do mundo, pelo menos com base em quantos sorrisos nossos aparecem no site de fotos.

A empresa Jetpac City Guides analisou expressões faciais nas imagens da rede, selecionando os maiores sorrisos (claro que não é possível saber se eles eram genuínos, bem como a pesquisa não levou a conta a cultura de se mostrar os dentes em fotografias – sorrisos podem ser menos usuais em certos países).

O Brasil trouxe para casa a maior pontuação em sorrisos, enquanto o Japão e a Cidade do Vaticano ficaram no fim da lista. Na América do Norte, a Nicarágua foi o pais mais alegre, e os Estados Unidos ficaram em oitavo, batendo somente o Canadá e as Bahamas.

4. Felicidade Nacional Bruta

Passando de mídia social a política social, o pequeno país do Butão é um campeão em medir o progresso nacional, não só através do Produto Interno Bruto (PIB), como os economistas normalmente fazem, mas também a Felicidade Nacional Bruta.

O governo do Butão acompanha a felicidade dos seus cidadãos desde 1971. Para isso, as pesquisas incidem sobre o bem-estar psicológico, saúde, educação, padrões de vida, etc. Eles acompanham também a diversidade cultural, a resiliência cultural, a qualidade da governação, a vitalidade da comunidade e a diversidade ecológica.

Segundo dados de 2010, os resultados mais recentes disponíveis, 41% dos butaneses são felizes, e 59% ainda não preencheram seu potencial para a felicidade plena.

5. A história da felicidade

Outra forma de entender a felicidade pode ser segui-la no tempo. Pesquisadores da Universidade da Virgínia (EUA), em um estudo publicado na revista Personality and Social Psychology Bulletin em 2013, fizeram exatamente isso.

Eles analisaram as definições de felicidade de 30 nações, incluindo definições de dicionários de 1850 até os tempos modernos. Também acompanharam o uso da palavra “felicidade” em livros de 1800-2008, dentre outas análises.

Os resultados revelaram que as antigas definições de felicidade focavam em boa sorte e em condições externas benevolentes. O conceito moderno, no entanto, mostra a felicidade como um estado interno. [LiveScience]

 

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10 razões para não ter saudades da ditadura

O general e presidente do Brasil Ernesto Geisel (Arena) recebe cumprimentos em forma de continência de militar, no Rio de Janeiro. (foto: Manoel Pires/Folhapress)

O general e presidente do Brasil Ernesto Geisel (Arena) recebe cumprimentos em forma de continência de militar, no Rio de Janeiro. (foto: Manoel Pires/Folhapress)

Carlos Madeiro, no UOL

1. Tortura e ausência de direitos humanos

foto: José Nascimento/Folhapress

foto: José Nascimento/Folhapress

As torturas e assassinatos foram a marca mais violenta do período da ditadura. Pensar em direitos humanos era apenas um sonho. Havia até um manual de como os militares deveriam  torturar para extrair confissões, com práticas como choques, afogamentos e sufocamentos.

Os direitos humanos não prosperavam, já que tudo ocorria nos porões das unidades do Exército.

“As restrições às liberdades e à participação política reduziram a capacidade cidadã de atuar na esfera pública e empobreceram a circulação de ideias no país”, diz o diretor-executivo da Anistia Internacional Brasil, Atila Roque.

Sem os direitos humanos, as torturas contra os opositores ao regime prosperaram. Até hoje a Comissão Nacional de Verdade busca dados e números exatos de vítimas do regime.

“Os agentes da ditadura perpetraram crimes contra a humanidade –tortura, estupro, assassinato, desaparecimento– que vitimaram opositores do regime e implantaram um clima de terror que marcou profundamente a geração que viveu o período mais duro do regime militar”, afirma.

Para Roque, o Brasil ainda convive com um legado de “violência e impunidade” deixado pela militarização. “Isso persiste em algumas esferas do Estado, muito especialmente nos campos da justiça e da segurança pública, onde tortura e execuções ainda fazem parte dos problemas graves que enfrentamos”, complementa.

2. Censura e ataque à imprensa

foto: Acervo UH/Folhapress

foto: Acervo UH/Folhapress

Uma das marcas mais conhecidas da ditadura foi a censura. Ela atingiu a produção artística e controlou com pulso firme a imprensa.

Os militares criaram o “Conselho Superior de Censura”, que fiscalizava e enviava ao Tribunal da Censura os jornalistas e meios de comunicação que burlassem as regras. Os que não seguissem as regras e ousassem fazer críticas ao país, sofriam retaliação –cunhou-se até o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o.”

Não são raras histórias de jornalistas que viveram problemas no período. “Numa visita do presidente (Ernesto) Geisel a Alagoas, achamos de colocar as manchetes no jornalismo da TV: ‘Geisel chega a Maceió; Ratos invadem a Pajuçara’. Telefonaram da polícia para o Pedro Collor [então diretor do grupo] e ele nos chamou na sala dele e tivemos que engolir o afastamento do jornalista Joaquim Alves, que havia feito a matéria dos ratos”, conta o jornalista Iremar Marinho, citando que as redações eram visitadas quase que diariamente por policiais federais.

Para cercear o direito dos jornalistas, foi criada, em 1967, a Lei de Imprensa. Ela previa multas pesadas e até fechamento de veículos e prisão para os profissionais. A lei só foi revogada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2009.

Muitos jornalistas sofreram processos com base na lei mesmo após a redemocratização. ”Fui processado em 1999 porque publiquei declaração de Fulano contra Beltrano. A Lei de Imprensa da Ditadura permitia isso: punir o mensageiro, que é o jornalista”, conta o jornalista e blogueiro do UOL, Mário Magalhães.

3. Amazônia e índios sob risco 

foto: memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br / Arquivo Nacional

foto: memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br / Arquivo Nacional

No governo militar, teve início um processo amplo de devastação da Amazônia. O general Castelo Branco disse, certa vez, que era preciso “integrar para não entregar” a Amazônia. A partir dali, começou o desmatamento e muitos dos que se opuseram morreram.

“Ribeirinhos, índios e quilombolas foram duramente reprimidos tanto ou mais que os moradores das grandes cidades”, diz a jornalista paraense e pesquisadora do tema, Helena Palmquist.

A ideia dos militares era que Amazônia era “terra sem homens”, e deveria ser ocupada por “homens sem terra do Nordeste.” Obras como as usinas hidrelétricas de Tucuruí e Balbina também não tiveram impactos ambientais ou sociais previamente analisados, nem houve compensação aos moradores que deixaram as áreas alagadas. Até hoje, milhares que saíram para dar lugar às usinas não foram indenizados.

A luta pela terra foi sangrenta. ”Os Panarás, conhecidos como índios gigantes, perderam dois terços de sua população com a construção da BR-163 –que liga Cuiabá a Santarém (PA). Dois mil Waimiri-Atroaris, do Amazonas, foram assassinados e desaparecidos pelo regime militar para as obras da BR-174. Nove aldeias desse povo desapareceram e há relatos de que pelo menos uma foi bombardeada com gás letal por homens do Exército”, afirma.

4. Baixa representação política e sindical

dita4Um dos primeiros direitos outorgados aos militares na ditadura foi a possibilidade do governo suspender os direitos políticos do cidadão. Em outubro de 1965, o Ato Institucional número 2 acabou com o multipartidarismo e autorizou a existência de apenas dois: a Arena, dos governistas, e o MDB, da oposição.

O problema é que existiam diversas siglas, que tiveram de ser aglutinadas em um único bloco, o que fragilizou a oposição. “Foi uma camisa-de-força que inibiu, proibiu e dificultou a expressão político-partidária. A oposição ficou muito mal acomodada, e as forças tiveram que conviver com grandes contradições”, diz o cientista político da Universidade Federal de Pernambuco, Michael Zaidan.

As representações sindicais também foram duramente atingidas por serem controladas com pulso forte pelo Ministério do Trabalho. Isso gerou um enfraquecimento dos sindicatos, especialmente na primeira metade do período de repressão.

“Existiam as leis trabalhistas, mas para que elas sejam cumpridas, com os reajustes, é absolutamente necessário que os sindicatos judicializem, intervenham para que os patrões respeitem. Essas liberdades foram reprimidas à época. Os sindicatos eram compostos mais por agentes do governo que trabalhadores”, lembra Zaidan.

5. Saúde pública fragilizada

foto: Folhapress

foto: Folhapress

Se a saúde pública hoje está longe do ideal, ela ainda era mais restrita no regime militar. O Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) era responsável pelo atendimento, com seus hospitais, mas era exclusivo aos trabalhadores formais.

“A imensa maioria da população não tinha acesso”, conta o cardiologista e sindicalista Mário Fernando Lins, que atuou na época da ditadura. Surgiu então a prestação de serviço pago, com hospitais e clínicas privadas.

“Somente após 1988 é que foi adotado o SUS (Sistema Único de Saúde), que hoje atende a uma parcela de 80% da população”, diz Lins.

Em 1976, quase 98% das internações eram feitas em hospitais privados. Além disso, o modelo hospitalar adotado fez com a que a assistência primária fosse relegada a um segundo plano. Não existiam planos de saúde, e o saneamento básico chegava a poucas localidades. “As doenças infectocontagiosas, como tuberculose, eram fonte de constante preocupação dos médicos”, afirma Lins.

Segundo estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), “entre 1965/1970 reduz-se significativamente a velocidade da queda [da mortalidade infantil], refletindo, por certo, a crise social econômica vivenciada pelo país”. Continue lendo

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Carta ao amigo que se suicidou

AA034249Ricardo Gondim

Por que morreste?

Quisera dar-te, amigo, as coragens que me fizeram um menino ousado na conquista da primeira namorada. Dar-te-ia também os medos que frearam a ensandecida ladeira por onde eu podia despencar na irresponsabilidade juvenil. Se pudesse, cortaria um pedaço do coração, transplantaria para teu peito a felicidade do beijo que desvirginou os meus lábios. Eu te diria que o amor resiste ao tempo e que as boas memórias que carregamos transformam qualquer tristeza em alegria. Eu te diria que tua vida ainda seria brindada por coragens e medos, alegrias e tristezas.

Quisera poder te chamar para pedalar ao meu lado até a mangueira grande e discreta, onde, solitário, confidenciei em solilóquios intermináveis alguns sonhos impossíveis. Lá veríamos juntos que, se todos os sonhos não se cumprem, persegui-los dá algum sentido à nossa vida banal.

Quisera dar-te, amigo, todos os questionamentos e descobertas que fiz sobre o mistério de Deus. Eu te convidaria a assistir ao meu primeiro rasgo de conversão. Tu serias testemunha de como, hesitante, desejei a verdade – a mesma verdade que insiste em distanciar-se de mim sempre que imagino tê-la em meus braços.

Quisera fazer-te parceiro de minha Primeira Comunhão católica em Londrina. Depois eu te chamaria para presenciar a noite de minha Profissão de Fé presbiteriana. Tu me acompanharias à vigília de oração onde recebi o Batismo no Espírito Santo pentecostal. Daí eu gostaria de conversar contigo sobre minhas recentes aberturas para uma espiritualidade existencial, comprometida com o aqui e agora.

Quisera poder falar contigo sobre a jornada em direção ao Divino, nem sempre ascendente, mas repleta de altos e baixos. Repartiríamos assim entusiasmos e tristezas. Trançaríamos nossa amizade espiritual parecida com a corda de muitos fios.

Quisera dar-te, amigo, os instantes magros em que contabilizei fracassos, derrotas, perdas – instantes que forjaram em mim o dever de perseverar. Na derrota aprendi que muitos de meus ideais não nasciam da esperança. Eu estava engolido por um quixotismo bobo. Achava que alcançaria qualquer projeto faraônico. Aprender a caminhar pelos vales, cabisbaixo e sem arrogância, nunca é fracasso.

Quando me achava onipotente fui simplório. Ingênuo, tapei buracos enormes para não ter que lidar com a des-ilusão. Mal sabia que é melhor a dura realidade do que viver escondido sob a mentira da ilusão. Para preservar instituições falidas, relevei decepções. Eu havia me convencido de que horrores éticos, que me afrontavam, não passavam de mal-entendidos. Saí da alucinação de minha prepotência para salvar a alma. Presentear-te com os meus desapontamentos seria um jeito de te pedir: não desista; não vire o tablado do jogo. A vida é assim mesmo, dura. Nem todas pessoas são confiáveis – inclusive nós mesmos. Mas vale a pena continuar. Está escrito: “Seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso”.

Quisera dar-te, amigo, meu ouvido discreto, meu olhar atento, meu abraço silencioso. Partiste sem me dar a chance de te acolher. Eu faria tudo para te salvar da loucura de sair da vida antes do tempo. Para evitar a tua tragédia, fico com o ímpeto, se possível, de me colocar na trajetória da bala, na frente do trem, no olho do furacão, no meio do terremoto. Para te poupar, estaria disposto a ser antídoto, escudo, parapeito, boia, escada, paraquedas. Para te ajudar, faria qualquer coisa: massagem cardíaca, respiração boca a boca, transfusão de sangue.

Por que não me consideraste teu psicanalista, confessor, saco de pancada? Eu não te condenaria. Não te cobraria. Não te rejeitaria. Só pediria: não jogue a toalha.

Amigo, saber que segaste a vida por conta própria foi um duro golpe. Acordei desolado. O mundo ficou árido. Agora vejo que não te conhecia bem.

Carregarei a sensação de que poderia ter sido um amigo mais achegado que irmão. Não fui. Todos perdemos. Mas ao contrário de ti, não desistirei. Sei que ainda posso ser amigo de outro.

(Faz pouco tempo. Ainda dói)

 Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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Girafa dá beijo de despedida em funcionário de zoo com doença terminal

Assim que Mário se aproximou do viveiro, as girafas foram em sua direção e lhe deram um beijo

Assim que Mário se aproximou do viveiro, as girafas foram em sua direção e lhe deram um beijo

Publicado no UOL

Um funcionário do zoológico de Diergaarde Blijdorp, em Roterdã (Holanda), que sofre com câncer em estágio terminal pediu para ser levado até o viveiro das girafas, para que pudesse se despedir, e ganhou um beijo de um dos animais, de acordo com reportagem do jornal “The Independent”.

Mário (que não teve o sobrenome divulgado), 54, passou a maior parte de sua vida adulta limpando os cercados dos animais. Assim que se aproximou das girafas, elas vieram em sua direção e uma delas começou a beijá-lo.

Kees Veldboer, presidente da fundação Ambulância do Desejo (que realiza pedidos de doentes terminais), responsável por levar o paciente até o zoológico, afirmou que “os animais o reconheceram e perceberam que havia algo errado com ele. Foi um momento muito especial”.

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