Criador do kit macho muda de tática depois de advertência do partido

Matheus Sathler, candidato a deputado federal pelo PSDB, é convencido pela sigla a retirar proposta de cartilha que ensina homem a gostar só de mulher. Mas, segundo ele, o discurso vai continuar a ser feito na campanha de rua

Sathler em campanha: propostas a "favor da família" vão deixar a televisão e o rádio, mas continuam nas ruas
Sathler em campanha: propostas a “favor da família” vão deixar a televisão e o rádio, mas continuam nas ruas

Almiro Marcos, no Correio Braziliense

Um dia depois de aparecer no horário eleitoral gratuito no rádio e na tevê propondo a criação do kit macho — para ensinar homem a gostar somente de mulher — e de causar reações contrárias e a favor da posição, o candidato a deputado federal Matheus Sathler (PSDB) disse que não se arrepende. “É a minha opinião e continuo pensando assim. Menino gostar de menino é antinatural”, resumiu. Enquadrado pelo partido, ele pretende começar a falar sobre temas menos polêmicos nas propagandas. “Também defendo a redução na carga tributária e nos gastos públicos”, acrescentou. O PSDB do Distrito Federal decidiu determinar a retirada do material do ar. Um candidato do PSol, ativista gay, entrou com uma representação contra o tucano no Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

Nas redes sociais, as opiniões foram exaltadas e divergentes. O tucano evangélico foi atacado por ativistas e chamado de homofóbico, preconceituoso e gayzista, mas também foi parabenizado pela iniciativa. Até as 19 horas de ontem, o post com a reportagem sobre o assunto, na página do Correio Braziliense em uma rede social, tinha mais de 500 compartilhamentos e milhares de curtidas e comentários.

A propaganda polêmica foi ao ar duas vezes na televisão (tarde e noite) e duas vezes no rádio (manhã e tarde) na última quinta-feira. Nela, Matheus Sathler fala da distribuição de cartilhas contrárias ao homossexualismo e a favor do que ele considera normal (homem gostar de mulher). O PSDB chegou a afirmar que o material não tinha sido divulgado, mas depois admitiu a publicidade. De acordo com o partido, não houve tempo para que a produtora fizesse a substituição, mas que a propaganda não voltaria a ser exibida até que a situação fosse discutida entre a direção partidária e o candidato.

Ontem, enquanto fazia uma caminhada pelo Recanto das Emas à tarde, Matheus Sathler recebeu uma ligação do presidente da legenda no DF, Eduardo Jorge. “Ele não chegou a me censurar. Apenas pediu que eu passe a apresentar outras propostas no horário eleitoral. Concordei com isso, pois tenho outros pontos a debater. Mas a minha posição a favor da família continuará a ser mostrada na minha campanha de rua. Não tenho nada a me esconder e nem por que me envergonhar ou temer.”

dica do Gerson Caceres

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Asneira criacionista: Darwin inspirou Hitler

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Maurício Tuffani, na Folha de S.Paulo

Em mais um lamentável capítulo do vale-tudo contra a teoria da seleção natural dos seres vivos, acaba de ser requentada uma das mais estúpidas asneiras criacionistas de todos os tempos. Richard Weikart, professor de história da Universidade do Estado da Califórnia em Stanislaus, decidiu recentemente dar uma turbinada na página que mantinha desde 2004 para divulgar seu livro “De Darwin a Hitler”, transformando-a em um repositório de todos os seus trabalhos.

Já com nova cara, o site passou a ser divulgado nas últimas semanas pela entidade criacionista Instituto Discovery, dos Estados Unidos, e se tornou um “hit” no aquecimento do repertório argumentativo do esforço negacionista contra a seleção natural.

Para se ter uma ideia das justificativas de Weikart para sua ridícula tese, basta dar uma olhada em seu artigo “Hitler usou o termo ‘evolução’ em ‘Mein Kampf’?”, publicado em 2012 no site “Evolution News and Views”, desse instituto. Nesse texto, ele relaciona seis traduções para o inglês do livro doutrinário do nacional-socialismo, escrito por Adolf Hitler, e afirma que os respectivos tradutores empregaram a palavra “evolution” no lugar do termo original alemão “Entwicklung”.

De fato, o substantivo feminino alemão “Entwicklung”, que é traduzido principalmente por “desenvolvimento”, também o pode ser para “alargamento”, “revelação”, “desdobramento e até “evolução”. Acontece que a teoria da evolução é usualmente designada em alemão por “Theorie der Evolution” e, sobretudo, por “Evolutionstheorie”.

Independentemente dessa forçada de barra, vale observar que, na verdade, no pensamento de Hitler a suposta superioridade ariana não era fruto de algo como a seleção natural, como ele próprio afirmou em um famoso trecho do capítulo 1 da segunda parte de “Mein Kampf”. Nessa passagem, o líder nazista apontou a suposta rada ariana como “Maravilha do Criador”.

Em outras palavras, apesar de todo o tempo que dedicou a comparar a seleção natural com o nazismo, Weikart não entende o que é uma coisa nem a outra. A explicação para isso foi dada há anos por Millôr Fernandes: “O pior cego é aquele que quer ver”.

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Em abertura do Templo de Salomão, fiéis podem pagar no crédito ou no débito

Fiéis da Universal não puderam entrar com máquinas fotográficas

Inaugurado em julho deste ano, o templo de Salomão fica no bairro do Brás, em São Paulo (foto: Marcos Alves / Agência O Globo)
Inaugurado em julho deste ano, o templo de Salomão fica no bairro do Brás, em São Paulo (foto: Marcos Alves / Agência O Globo)

Renato Onofre, em O Globo

SÃO PAULO – O Templo de Salomão abriu nesta sexta-feira pela primeira vez suas portas ao público. Um forte esquema de segurança foi montado para não deixar ninguém entrar na nave principal, onde ocorrem os cultos, com celulares ou máquinas fotográficas. Com 126 metros de comprimento e 104 metros de largura, dimensões que superam as medidas de um campo de futebol oficial, o templo construído pela Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) virou uma atração turística no Brás, na Região Central de São Paulo.

Para conseguir ultrapassar as grades e conhecer os mais de 100 mil metros de área construída com pedras importadas de Israel, oliveiras uruguaias e muitos objetos dourados, é necessário fazer um cadastro no bando de dados da Universal e conseguir uma credencial. Antes de qualquer passeio, todos sempre acompanhados por pastores e seguranças particulares, é necessário passar por uma revista. Na área externa é permitido fotografar. Dentro das construções, não.

No terreno do templo, a loja oficial da Universal vende restos das pedras importadas para a construção do templo gravadas com o nome da igreja por até R$ 100. Símbolos do judaísmo e até um quipá – um tipo de chapéu redondo usado por judeus – camuflado escrito “exército de Israel”.

– Está sendo um dia abençoado – afirmou o serralheiro Francisco Muriel de Souza, de 49 anos, que viajou de Montes Claros, em Minas Gerais, a São Paulo, de ônibus, para conhecer o templo.

Do lado de fora, centenas de fiéis e curiosos fizeram fila no primeiro dia em que a Iurd abriu sua maior casa à comunidade. Dentro da nave central, as imagens judaicas, adornos dourados e os efeitos de luzes dão o tom do maior templo evangélico já construído no Brasil. São 200 estrelas de Davi e 12 candelabros gigantes de sete braços – conhecidos como menorah. A iluminação é toda feita com LED e o som possui a qualidade dos melhores cinemas. Ambos ajudam a ditar o ritmo das orações.

Os fiéis começaram a chegar por volta das 8h para o culto. Antes de entrar, era necessário passar por pelo menos duas revistas. Quem fosse flagrado com celular ou equipamento capaz de captar imagens, era levado para o subsolo do templo. Lá, era obrigado a deixar todos os pertences num armário e, novamente, era revistado. Liberado, só assim ele podia procurar um lugar para sentar. O GLOBO flagrou uma pessoa sendo retirada da nave principal quando tentava fotografar a reunião.

O culto iniciou pontualmente às 10h e durou cerca de duas horas. O primeiro cântico de louvor foi seguido também pelo primeiro pedido de oferta feito pelo bispo Márcio Carotti aos fiéis. Por toda a nave central, que tem 75 mil metros quadrados com capacidade para receber até 10 mil pessoas, cerca de 50 obreiros – colaboradores da igreja – e pastores se posicionavam com sacolas vermelhas com fios dourados e máquinas de cartão de crédito. O dízimo pode ser parcelado no cartão sem juros.

Para o primeiro dia, a Universal escolheu para abrir os trabalhos no Templo de Salomão o “Clamor da Reivindicação”. A pregação feita por Carotti baseou-se na oferta para receber no futuro. Por pelo menos três momentos, o bispo reafirmou a necessidade para doar a Iurd. No meio do culto, imagens do ônibus que bateu esta semana na grade externa do templo foi usada para reforçar o pedido de oferta. Para o pastor, o acidente é “culpa de Satanás”.

– Quem foi que causou este acidente? – indagou o bispo respondendo junto com o público que assistia a pregação:

– Foi Satanás!

Após acusar “Satanás”, o bispo afirmou que o acidente custou à Universal R$ 150 mil. Na madrugada de terça-feira, um ônibus desgovernado invadiu a calçada quebrando parte do piso e um pedaço de dez metros da grade de ferro externa. Ele ressaltou o quanto a doação iria representar:

– Vamos ver Satanás envergonhado da nossa oferta – pregou o pastor.

Nos momentos de maior comoção do publico, que não chegou a lotar a nave principal, vozes de pessoas gritando como se estivessem com dor ecoavam dos gravadores e a alternância de momentos de escuridão total com luzes vermelhas iluminando os doze candelabros.

No final do culto, o bispo pediu para que os fiéis pegassem um envelope dourado que estava posicionado em frente as poltronas – importadas da Espanha – escrito “Sexta-Feira: Vitória Total 7 profetas”. Ele pediu para que no dia 5 de setembro, quem voltasse trouxesse uma contribuição financeira, o dízimo, e encerrou a pregação afirmando:

– Quem guarda o melhor para si não honra a Deus.

A Justiça ainda não acolheu o pedido do Ministério Público de São Paulo que pede a anulação a licença de eventos que a prefeitura de São Paulo forneceu à Universal para abrir o templo. O Templo não tem o alvará pleno para funcionamento e foi inaugurado no último dia 31 com um alvará de evento – utilizado para festivais de músicas e eventos esportivos.

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Ministério Público investiga locação de horários na TV

Keila Jimenez, na Folha de S.Paulo

O Ministério Público Federal começou a investigar a locação de horários em rádios e TV para programas religiosos e televendas. O anúncio foi feito nesta semana pelo MP em audiência pública na Câmara dos Deputados, para debater justamente a terceirização da grade de programação de TV.

O Ministério Público pretende apurar casos envolvendo canais que alugam quase toda a sua programação para entidades religiosas. Na mira do órgão estão emissoras como o 21, do Grupo Bandeirantes, que tem mais de 20 horas alugadas, e a rede CNT, que possui mais de 90% de sua grade tomada por atrações religiosas.

Para integrantes do MP, a fiscalização do Ministério das Comunicação é falha, pois não atua quando se trata da venda de espaços nas emissoras.

A Câmara realizou audiência pública para debater a locação de horários na TV, que, segundo alguns especialistas, é ilegal.

Eles alegam que a comercialização desses espaços contraria a Constituição, uma vez que os canais de rádio e TV são concessões públicas.

Representantes das emissoras dizem que a locação não fere a lei, pois é a única forma de sobrevivência daquelas que não recebem publicidade suficiente dos grandes anunciantes.

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Bíblia obrigatória em bibliotecas e escolas

Projetos de lei pedem inclusão do livro nos acervos de instituições públicas do país, contrariando preceito constitucional do Estado laico

A Bíblia Sagrada aparece em destaque em uma prateleira da Biblioteca Parque Estadual, no Rio de Janeiro: obrigatoriedade questionada (foto: Adriana Lorete)
A Bíblia Sagrada aparece em destaque em uma prateleira da Biblioteca Parque Estadual, no Rio de Janeiro: obrigatoriedade questionada (foto: Adriana Lorete)

Leonardo Vieira, em O Globo

RIO – Bibliotecas públicas de todo o país estão mais próximas de serem obrigadas a manter pelo menos uma Bíblia disponível aos leitores. Em mais um avanço da bancada evangélica no Congresso Nacional, o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 16/2009 que inclui o livro religioso nos acervos entrou na pauta de votações da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. De lá, ele vai a plenário, de onde pode sair para a sanção da presidente Dilma Rousseff, caso aprovado. Mas este é apenas mais um exemplo dos projetos semelhantes propostos Brasil afora que visam incluir por força de lei o livro em acervos de bibliotecas e escolas públicas.

A principal acusação contra iniciativas dessa natureza seria a de atentado contra o Estado laico, garantido pela Constituição federal. Embora no preâmbulo os constituintes de 1988 digam que promulgam a Carta Magna “sob a proteção de Deus”, o artigo 5º do texto garante a liberdade religiosa como direito fundamental. Já o artigo 220 confere o caráter opcional de aulas de religião em escolas públicas, determinando que o “ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”.

Mas as normas constitucionais não são levadas em conta pelos legisladores. Desde 2011, por exemplo, bibliotecas públicas em todo o estado do Rio são obrigadas a terem ao menos uma bíblia, sujeitas a multa de até R$ 4.260 em caso de descumprimento reincidente.

Em São Gonçalo, todas as escolas públicas e privadas, além de bibliotecas, devem disponibilizar a Bíblia “em local de destaque” desde janeiro deste ano. Caso as unidades públicas ainda não possuam suas cópias, a lei determina que o poder público efetuará a compra com “dotações orçamentárias próprias, ou suplementares, se necessário”.

O mesmo “espírito da lei” também baixou em Recife, Manaus e Fortaleza, onde vereadores propuseram que a Bíblia não só constasse de bibliotecas, mas também de escolas da rede municipal. Na capital cearense, o texto foi proposto em junho deste ano pelo vereador Mairton Félix. Na justificativa, o parlamentar também alega que o livro religioso serviria para estudo acadêmico, embora ele mesmo tenha postado no Facebook estar “muito feliz que as crianças vão conhecer a palavra de Deus”.

Não é bem assim. No município de Engenheiro Paulo de Frontin (RJ), um estudante judeu do 9º ano de uma escola municipal foi obrigado a rezar a oração católica do Pai-nosso. O caso revoltou os pais, que foram prestar queixa na delegacia. A prática da reza, aliás, chegou a virar lei orgânica do município de Ilhéus, mas a Justiça baiana acatou a Ação Direta de Inconstitucionalidade do Ministério Público da Bahia e suspendeu a norma em 2012.

E em um país onde o sincretismo religioso é uma das suas identidades, projetos como esses acabam revoltando representantes de outras religiões. Foi o caso de Ivanir dos Santos, babalorixá e interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. Segundo ele, a iniciativa peca ao privilegiar apenas uma confissão religiosa, em detrimento das demais religiões do povo brasileiro:

— O livro que é considerado sagrado para qualquer segmento deve estar numa biblioteca, não só Bíblia. Torá, Alcorão (também devem estar lá). Isso ninguém pode ser contra. Mas outra coisa é um grupo religioso apresentar projeto de lei que privilegia apenas a sua corrente. Se uma pessoa no Legislativo apenas advoga para seu segmento religioso, imagina o que ela faria no Executivo?

Apesar de não ser novidade na pauta dos legisladores, esta é a primeira vez que um texto dessa natureza chega tão próximo de ser aprovado em nível federal. O PLC, proposto há cinco anos pelo deputado Filipe Pereira (PSC-RJ), já foi aprovado na Câmara sem alterações. Segundo Pereira, a intenção do PLC não é privilegiar uma única confissão religiosa, já que, segundo ele, a Bíblia não é um livro religioso.

— Nossa preocupação é a manutenção, porque muitas estão com estado físico deteriorado. A Bíblia não é um livro religioso, já que faculdades de filosofia, história e sociologia também consultam. Não é apenas uma leitura religiosa. É universal, é o livro mais lido em todo o mundo.

O Brasil possui 6.060 bibliotecas públicas, distribuídas em 5.453 municípios. O Censo do IBGE/2010 mostrou 123 milhões que se declaram católicos, mas os praticantes são apenas 5%. A pesquisa também levantou a existência de 42,5 milhões de evangélicos.

Para a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não seria necessário que a presença de Bíblias em bibliotecas fosse exigida por lei. Segundo o bispo auxiliar de Brasília e secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, o ideal seria que todos os acervos já contassem não só com o livro cristão, mas também com obras representativas de outras religiões:

— A Bíblia é um instrumento de pesquisa, de cultura e um caminho de vida. Toda boa biblioteca tem que ter os livros mais importantes, com ou sem lei. E não só a Bíblia, mas também livros de outras religiões, como o Islã e o budismo.

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