A gentileza nossa de cada dia

Imagem: Internet
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“Porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor” (Vinícius de Morais em “Para uma menina com uma flor”)

Raquel Carvalho, no Mulher 7×7

Belo Horizonte tornou-se uma cidade turística por muitas coisas. Pelas montanhas ao redor, pelo Circuito Cultural da Praça da Liberdade, pela proximidade com Inhotim, pelos botecos, pelo Mercado Central, pelo pão de queijo e… pelas mulheres bonitas. Muitas. Centenas. Simpáticas, bonitas e boa parte delas… solteiras. Como me disse um paulista recentemente: Belo Horizonte está para os homens assim como a Avenida Paulista está para as mulheres. Ok, entendi.

Há quem diga que, por isso, os esforços masculinos andam tão reduzidos nessas paragens. Fico pensando se essa é mais uma das generalizações burras que mulheres adoramos fazer para sobrevivência da espécie. Ou se realmente é algo localizado geograficamente na capital mineira. Ou se não estamos diante de uma característica hoje em dia presente em determinadas gerações (por exemplo, 25 a 55 anos). Ou, pior, se esse movimento já não superou idade e território, não importando onde você mora ou o ano em que nasceu.

Olhando para o lado, percebo a falta de delicadeza. Maridos não compram nem um cartão na papelaria da esquina no aniversário, natal ou comemoração de 10 anos de união. Noivos passam dias sem um telefonema para dar notícia ou dizer carinhosamente “pensei em você agora”. Namorados não levam nem uma flor roubada do jardim do prédio, depois de anos praticamente morando e dormindo na casa dela. Solteiros não ligam para agradecer o jantar da noite anterior, nem na semana seguinte, apavorados com o risco da mulher começar a ouvir sinos da igreja. A falta de delicadeza chegou a níveis intoleráveis, para meus femininos padrões.

Não venham me dizer que os homens estão apavorados ou são todos uns cafajestes egoístas, nem que as mulheres são umas mercenárias interesseiras. Respostinha fácil demais e, como a maioria dessa categoria, errada em boa parte dos casos. Os exemplos que dei acima, só para constar, são de mulheres que se lixam para grana ou para o valor do presente. Nenhuma delas espera ser sustentada pelo companheiro, nem coberta de joias a cada aniversário. Acham justo dividir a conta, querem caminhar em cima das próprias pernas e são boas em apoiar quem está ao lado. Fazem um jantarzinho gostoso de vez em quando, baixam as músicas preferidas dele para colocar no som do carro e evitam reclamar demais (desafio e tanto). Isso não significa que não esperam, de vez em quando, ter alguém em que se apoiar, nem que dispensam um mínimo de carinho e consideração. Até porque são mulheres carinhosas que sabem direitinho trocar afeto.

Vamos concretizar ideias vagas como “apoio”, “carinho” e “afeto”. Pedir a sogra ou a vizinha para ficar com os filhos e surpreender sua mulher, no aniversário dela ou de casamento de vocês, com uma saída especial que termine de um jeito especial não é tão difícil assim. Mandar um torpedo para sua noiva dizendo que “é por ‘isso’ (adeque o ‘isso’ a ela) que quero passar o resto da vida ao seu lado” é medida de baixo custo e eficiente. Levar uma flor ou um bombom no meio do expediente da sua namorada, uma vez no ano, é demonstração de afeto inesquecível. E ligar para agradecer o jantar, dois dias depois, é o mínimo que a educação admite, mesmo que tenha descoberto da pior forma um baita chulé na noite que passaram juntos.

Você pode até morar numa cidade que tenha dez mulheres para um homem, com metade delas belíssimas, disponíveis para qualquer tipo de mau tratamento. Mas é melhor não matar a galinha dos ovos de ouro. Baixa autoestima tem cura. Um comportamento generalizado de grosseria e/ou descaso masculino pode fazer surgir um movimento de intolerância à falta de gentileza. Tem umas mulheres bem estranhas por aí que, depois de várias tentativas com conversas, incentivos e dicas de mudanças possíveis, estão desistindo de relações que não lhes fazem felizes. Sem estandarlhaço, com um bocado de sofrimento e frustrações, estão colocando pontos finais, recomeçando, se descobrindo, buscando e encontrando novos amores. O requisito fundamental das novas paixões? Delicadeza. Elas querem, acima de tudo, homens generosos no amor cotidiano.

Daqui, fico pensando que um mínimo de cuidado dispensaria um bocado de sofrimento. A vida seria menos turbulenta. Talvez até melhor pra todo mundo.

Então tenho uma novidade para os rapazes: essa pode ser uma boa hora para trocar o dinheiro do cafezinho por uma flor. Iniciativa, queridos. A sensação de que “o serviço está feito e o resultado garantido” é falsa, acreditem. Minha sugestão é: levantem dessas cadeiras, desliguem o computador e marchem em direção ao Don Juan que há dentro de vocês. Para os da capital mineira, toda sexta-feira tem Feira de Flores em frente o Colégio Arnaldo. Abaixo tem uma citação linda disponível. No Google, outras milhares. Satisfação garantida ou sua reclamação nos comentários de volta.

“E, sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena;

é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, ‘Minha namorada’, a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.”

(Vinicius de Morais em “Para uma menina com uma flor”)

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Abra a porta para 2013 e permita que as mudanças fluam

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Ana Celia Aschenbach, no Mulher 7×7

Aproveite o início de um novo ano para dar uma sacudida na vida. Afinal, o que tira a gente do conforto faz pensar, refletir e definir caminhos.

Na hora de fazer os pedidos de ano novo nem sempre nos lembramos de que, para os desejos se realizarem, precisamos dar nossa dose de contribuição.  Se quisermos mudar qualquer coisa, necessitamos sair do conhecido e aventurarmo-nos no desconhecido. Claro, isso implica em correr riscos e muitas vezes não fazemos ideia se seremos capazes de controlar a situação. Por isso a tendência natural é nos acomodarmos na velha e conhecida zona de conforto, ou seja, tudo aquilo com o qual estamos acostumados a fazer, pensar ou sentir.

Já ouviu falar que se a gente não muda, vem a vida e, de repente, não mais que de repente, muda tudo?

Um ótimo exemplo dessa mudança está na natureza, que muda o tempo todo, a toda hora, toda estação. Na filosofia indiana, essa mudança também é sentida nos períodos em que o universo é criado, se mantém durante certo tempo, depois é destruído. Brahman, o deus absoluto, é quem atua criando o universo, depois vem Vishnu que o mantém e Shiva que o destrói. Depois, Brahman se manifesta, o universo começa a surgir novamente, iniciando-se um novo ciclo.

Muitas vezes quando as mudanças acontecem na nossa vida, temos vontade de praguejar Shiva. Como esse cara vem e desfaz as coisas assim? Estava tudo tão bom, tão certinho, tudo tão dentro dos conformes?! Claro, ninguém quer sair da zona de conforto. Mudanças induzidas em ritmo acelerado exigem muito foco e “fé” no nosso interior. Com ou sem Shiva ajudando a destruir a nossa zona de conforto, o medo pressentido é o da destruição.

Mas até chegarmos a isso, as nossas birras internas, os nossos bloqueios, medos e, principalmente, a nossa autossabotagem criam um escudo que não nos deixa enxergar o quão bom pode ser essa virada impulsionada pela vida, por Shiva. Por isso sempre acabamos por correr para a nossa zona de conforto, onde não existe qualquer possibilidade de mudança.

Hellooooo, já pensou que o Universo vive em mutação? E, de novo, se você não mudar, o Universo muda você. Simples assim. A vida é essencialmente dinâmica. Por isso é preciso adaptar-se continuamente às mudanças que ocorrem. Tudo é impermanente. Para cada existência, a verdade básica é que tudo muda. Ninguém pode negar essa verdade e todo o ensinamento do budismo está condensado nela.

Para dar uma forcinha, que tal praticar o ritual do desapego? Pode ser um bom começo para aceitar a lei da impermanência, essa arte de dizer adeus com elegância, fazer as pazes com o mundo e se preparar para 2013. Escreva num papel tudo o que você não quer mais para a sua vida: ideias, sentimentos, pessoas… Tudo o que você quer deixar ir embora. Faça uma oração e queime esse papel. Depois escreva em outro papel tudo o que você deseja para o ano que vai entrar. E repita o ritual da queima.

Feliz 2013, feliz impermanência, feliz renascer, feliz novo ciclo.

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