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Jesus e judeus são irmanados na mesma história de predestinação

Marilia de Camargo Cesar, no Valor OnLine

Bonder mostra em Jesus um modelo do que seria feito aos judeus na história

Os judeus ainda olham para Jesus como um profeta que fundou um movimento responsável por um legado de violência e tentativa de conversões forçadas de seu povo durante um período longo e cinzento da história. É um olhar de temor e de desconfiança. Mas já existe na consciência do judaísmo moderno um espaço para acolher uma compreensão diferente desse incômodo personagem. “Quisemos revisitar essa questão por acreditar que há maior tolerância e maturidade nas relações entre as religiões. Toda vez que um tabu é abordado, favorece o entendimento e dissipa tensões e forças ocultas que alimentam desconfiança e estranhamento”, afirma o rabino Nilton Bonder, autor de 21 livros – alguns best-sellers -, entre eles o que inspirou a peça “A Alma Imoral”, monólogo com a atriz Clarice Niskier, que levou pela interpretação o Prêmio Shell de melhor atriz em 2007. Bonder traz para São Paulo neste mês o curso “Jesus – Um Olhar Judaico”, no Centro de Cultura Judaica (22 e 29 de maio e 5 de junho).

O evento está sendo realizado na Midrash Centro Cultural do Rio, neste mês. Com inscrições esgotadas, o curso está sendo frequentado majoritariamente por judeus interessados em conhecer a figura histórica e os acontecimentos em torno dela, e por 40% de não judeus que desejam compreender a visão judaica sobre o tema. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Valor: Qual o significado de Jesus para os judeus?

Nilton Bonder: Jesus se transformou num tabu para os judeus. Por um lado ele toca numa ferida milenar, gerando temor; por outro sugere algo proibido, suspeito de promover o proselitismo sobre os judeus. Há muita razão para estes dois sentimentos: perseguições e também tentativas de conversão forçada dos judeus no passado. Mas a história de Jesus é parte da história judaica e nos ajuda a compreender o período rico e complexo do primeiro século, que não apenas produziu o universo cristão, mas também forjou a tradição rabínica enraizada nos mesmos eventos espírito-psico-políticos desse período.

Valor: Existe uma percepção de que a figura de Jesus é desprezada pela tradição judaica, como um lunático que disse coisas absurdas, como por exemplo, “eu e o Pai somos um”. Essa percepção é correta?

Bonder: Existem dois “Jesus” para os judeus. O primeiro era um personagem típico da escola profética judaica – reverenciado por um grupo e motivo de chacota de outro. Profetas eram idiossincráticos e não era incomum que fossem tratados como utópicos, sem senso de realidade ou até mesmo pela palavra “meshuga” – lunático. Quando eram inofensivos à estabilidade social eram tolerados, mesmo quando questionavam os interesses de grupos privilegiados. Mas aqueles eram tempos de grande instabilidade política, que se traduzia pela conotação apocalíptica das sublevações ao domínio romano sobre os judeus, e que obrigava a elite política e clerical a “pisar em ovos” na tentativa de resguardar suas regalias e prerrogativas junto ao invasor. Nesse contexto, Jesus é um profeta em tempos muito perversos e ele participa da fragmentação de um povo que só não estava em guerra civil porque tinha um inimigo em comum – o invasor romano. Continue lendo

Nilton Bonder: um rabino por inteiro

Marília César

Conta-se de um rabino que andava louco de vontade para provar uma daquelas comidas proibidas pela tradição judaica. Ele vai para o subúrbio, entra num pequeno restaurante, senta-se na última mesa, chama o garçom e pede um leitão completo. O presidente da sinagoga, que passava pelo bairro, avista o rabino pela janela e entra. “Como vai, o que faz por aqui?” O rabino transgressor começa a suar frio quando vê aproximar-se o garçom com o leitão assado, imponente, enfeitado com uma maçã na boca. O presidente da sinagoga olha para o prato e pergunta: “Mas o que é isso?” E o rabino responde: “Como eles são sofisticados, você pede uma maçã e olha como vem!”
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O rabino Nilton Bonder tenta viver de um jeito diferente de seu “colega” na anedota. Não só evita o mal, mas a aparência do mal. Bonder leva um susto, mais ou menos como o presidente da sinagoga da piada, ao reparar que a Salada da Chef escolhida como entrada pela repórter veio coberta de finas lascas de bacon. “Mas isto aqui é bacon?”
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Bonder pede, gentilmente, à fotógrafa Ana Paula Paiva que, se possível, não seja fotografado em tão má companhia. “Uma imagem diz muito. Se alguém da minha comunidade vir a foto do rabino ao lado de uma salada com bacon, vai achar que estava comendo bacon.” Assim como Oscar Wilde, ele parece acreditar que só as pessoas rasas não julgam os outros pelas aparências.
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A conversa com esse jovem senhor de 53 anos, gaúcho de nascimento, mas carioca por adoção, autor de 21 livros – entre eles vários best-sellers traduzidos para uma dezena de línguas -, desfaz o estereótipo de líder religioso judeu e flui sem que se note a chegada da incômoda salada. Ela aterrissa com as “brusquetas” de tâmara (feitas com gorgonzola e nozes caramelizadas), pedidas por Bonder como entrada para a refeição no ak/vila, o local escolhido por ele para este “À Mesa com o Valor”. É um restaurante despretensioso na Vila Madalena, em São Paulo, de cozinha internacional, pilotado pela chef Andrea Kaufmann – que o define como “uma cozinha sem fronteiras”, onde se pode encontrar alguns itens da culinária judaica.
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Alimentar o corpo enquanto a alma já está sendo preenchida por um diálogo de perspectivas metafísicas pode parecer um exercício menor, mas a conversa é interrompida a certa altura pelo rabino, que sinaliza apetite: “Não estamos comendo nada!” Continue lendo