Sou da opinião de que o artista deve se abrir para a troca, principalmente em artes coletivas, caso do cinema e do teatro

Adriana Abujamra, no Valor Econômico
O ator Wagner Moura já combateu o crime na pele do Capitão Nascimento e enfrentou o fantasma do pai em “Hamlet”, mas acaba de ser nocauteado por uma gripe. Das brabas. É com os olhos lacrimejando que abre a porta do quarto do hotel onde está hospedado em São Paulo. Abaixa o volume da televisão e aumenta o da voz, um tanto rouca. “Melhor colocar uma camisa de botão”, diz, ao ver a fotógrafa, numa mistura sutil de sotaques baiano e carioca.
Moura está na cidade por causa de “A Busca”, filme de Luciano Moura, em que vive Theo, médico que cai na estrada em busca do filho adolescente que sumiu. Só neste ano, o ator, que aos 36 anos é um dos mais cobiçados do cinema nacional, poderá ser visto em mais três longas: “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz; “Serra Pelada”, de Heitor Dhalia; e “Elysium”, do sul-africano Neill Blomkamp. Bastante, não? Pois tem mais. Moura se prepara para protagonizar “Fellini Black and White”, de Henry Bromell, que será rodado nos Estados Unidos.
A porta que separa o dormitório da sala se abre e o ator volta com uma camisa marrom, quase do mesmo tom da cortina. O figurino bem mais formal que a camiseta do início é simpaticamente quebrado pelo detalhe dos pés, que dispensam os sapatos e descansam em meias. Já sentados à mesa, ele conta, entre acessos de tosse, que foi um adolescente “esquisito”. Seu apelido na escola era Ovni, andava sozinho e não se sentia parte da turma. Esse “cara meio estranho” já sabia que queria fazer teatro, mas vivia imerso em dúvidas, não sabia quem era, tampouco para onde ia.
Certo dia foi assistir a uma apresentação de “Zumbi dos Palmares” – encenada pelo Bando de Teatro Olodum – e seus olhos grudaram em um “um menino no palco, que ficava dançando lá no fundo”. “Ele tinha um axé, uma luz. Pirei nele.” Ao fim do espetáculo, Moura fez questão de ir até o camarim cumprimentar aquele talento. “Falei assim: ‘Ei, cara, quero ser seu amigo’.” O tal “cara” era o ator Lázaro Ramos.
Amizade selada, os conterrâneos passaram a se falar com frequência. Era comum Ramos consultá-lo antes de aceitar novos convites de trabalho. Moura tem apenas dois anos a mais que o amigo, o suficiente para botar pancas de irmão mais velho. “Lázaro brinca que sou de outra geração”, diz, com uma sonora risada que só não é mais comprida porque engolida pela tosse. Insistente. Como acalmar a danada? Levanta-se, vai até o frigobar e pega uma garrafa de água. Aproveitamos para pedir um “brunch” por telefone: pães, frutas, frios, suco de laranja, bolo e um item que não faz parte do pacote: chá de gengibre com mel e limão para ajudá-lo a enfrentar a gripe e dar conta da agenda lotada.
Enquanto gira a tampinha da garrafa de água, relembra os papéis inusitados que encarou no início de carreira. Já interpretou um “coração” – aparecia em cena metido numa roupa de espuma bem grande e fofa. Numa outra ocasião coube a ele o desafio de interpretar uma “brisa”. Compenetrado, Moura surgia no fundo da plateia, descia correndo a escadaria, enquanto chacoalhava fitas coloridas que trazia nas mãos. Seus fiéis amigos – Lázaro Ramos e Vladimir Brichta – batiam ponto na plateia e se acabavam de tanto rir. “Fui altamente sacaneado por Lázaro e Vlad. Eles iam assistir só pra isso.”

Moura em “Tropa de Elite”: treinamento no Bope não foi brincadeira
Sua estreia no cinema foi em “Sabor da Paixão”, coprodução Estados Unidos/Brasil estrelada por Penélope Cruz e Murilo Benício. Ramos atuou ao seu lado. Fizeram o teste juntos e em inglês, língua do longa e idioma do qual Ramos sabia lhufas. Nada que uma aula expressa – ali mesmo nos bastidores e ministrada por Moura – não desse conta. Uma semana depois, Ramos ligou. “Nós passamos no teste”, comunicou em pânico. “Que ótimo”, comemorou Moura. “Ótimo? Ótimo??? Eles mandaram o roteiro e tem fala pra cacete. Tudo em inglês”, desesperou-se o outro.
Ensaiaram exaustivamente até ter o texto na ponta da língua e foram se encontrar com Fina Torres, diretora do filme. Antes que eles pudessem mostrar como estavam afiados na língua do Tio Sam, Fina encasquetou que modificaria os diálogos. Como assim? Ramos arregalou os olhos em estado de choque. Correram para o banheiro e Moura pôde ajudar o amigo a decorar o novo texto em inglês. “Lázaro é f…, um ator genial. Até falando tudo errado ele é bom.”
Acatando ordens, chegavam pontualmente às 5 horas, passavam o dia metidos em figurinos aguardando para entrar em cena. Só tarde da noite descobriam que a espera tinha sido em vão. “Ninguém dava explicações.” A dupla era chamada aos berros por “Ralph and Max!” – nome de seus personagens. “Saí desse filme achando que não queria mais fazer cinema. As pessoas maltratavam muito a gente.”
Moura lembra-se de uma cena embaraçosa. Era hora da refeição e todas as mesas estavam ocupadas. Aos vira-latas “Ralph e Max” restava comer em pé, equilibrando pratos e cansaço. Já Penélope Cruz reinava sozinha em uma mesa, ninguém se atrevia a sentar ao seu lado. “Eu vou”, anunciou Lázaro Ramos todo prosa. “Não faça isso, não sente lá”, disse Moura, numa fala mansa. O amigo deu de ombros e anunciou todo confiante: “Penélope é nossa colega de trabalho”. Fazer o quê? A Wagner Moura restou assistir à cena de longe. Foi Ramos sentar-se para a estrela espanhola levantar-se na mesma hora. “Eu perturbei muito ele com essa história.”
Hoje Moura é tratado a pão de ló. Cadeira e mesa não faltam para o ator nos sets de filmagem, tampouco aqui no quarto. Já a comida que pedimos há algum tempo, neca. O assessor de Moura liga à recepção para checar o motivo da demora. Enquanto as guloseimas não vêm, Moura nos serve mais uma porção de prosa.
Logo o ator foi convidado para participar da peça “A Máquina”, dirigida por João Falcão. Assim que pôde, sugeriu o nome de Ramos para completar o elenco. O amigo recusou. “Falei: ‘Velho, puta coisa maneira de se fazer’. Ele chorava, dizia que estava comprometido com o Bando de Teatro Olodum. Eu dizia: ‘Pô, bicho, passei um mês convencendo o diretor a te chamar e agora você vai fazer essa desfeita?’” O amigo acabou por acatar seu conselho. Continue lendo →