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Usuários de crack conseguem deixar a droga com a ajuda da fé

Rafael Garcia: livre do crack com a ajuda de projeto da Igreja Batista
Rafael Garcia: livre do crack com a ajuda de projeto da Igreja Batista

Carolina Heringer e Herculano Barreto Filho, no Extra

Até abril deste ano, Rafael Henrique Garcia era mais um entre centenas de usuários de crack amontoados pelos becos e trilhos em Manguinhos e no Jacarezinho. Três meses depois, voltou às favelas usando camisa amarela com “Jesus” estampado no peito. Desta vez, para livrar pessoas do vício. Reabilitado pela fé, Rafael foi mero espectador da ocupação policial no último dia 14, nas comunidades onde era consumido pelo vício.

Fumava crack na linha do trem. Uma vez, após comprar duas pedras, caiu num valão com água podre. Assustado, ergueu os braços. Saiu de lá sujo, mas se achando vitorioso por salvar a droga.

Em Manguinhos, ouvia histórias de traficantes, que intimidavam os usuários com histórias sobre porcos alimentados com carne humana. Devedores e X-9 — informantes da polícia — viravam comida de porco, diziam.

Educadoras conduzem uma usuária de crack em Madureira
Educadoras conduzem uma usuária de crack em Madureira

Rafael perambulava entre o abrigo da prefeitura em Paciência, na Zona Oeste, e as cracolândias quando foi preso, em abril, por roubar um pote de creme cosmético. Voltou às ruas em 8 de junho. Dois dias depois, aceitou um convite de missionários da Cristolândia, programa da Igreja Batista para recuperar viciados. Entrou na igreja com uma camisa suja, uma bermuda feminina e chinelo em apenas um pé.

Rafael havia sido expulso da casa dos pais, em Penápolis, São Paulo, aos 16 anos, ao assumir sua homossexualidade. Depois, se prostituiu, travestido, e usou todo tipo de droga. Só mudou de vida aos 33, a idade de Cristo.

— Você acredita que um abraço mudou a minha história? Jesus me aceitou do jeito que eu era. Senti que poderia ser útil — conta.

O mesmo poder da fé que resgatou Rafael livrou Carlos Eduardo Jorge da Rosa, 43 anos, do vício de mais de duas décadas. Nascido no Paraná e criado em São Paulo, experimentou o crack em 1989 e nunca mais parou. Depois de 30 recaídas, Carlos está limpo há cinco meses na Cristolândia.

— Precisava me afastar de São Paulo para conseguir. É difícil, mas está dando certo. Dia após dia — comemora.

Funcionário da secretaria observa uma jovem acolhida em Madureira
Funcionário da secretaria observa uma jovem acolhida em Madureira

A ocupação do Jacarezinho e Manguinhos trouxe à tona a realidade das cracolândias. Para os educadores da Secretaria municipal de Asistência Social, que têm a missão de levar os usuários para abrigos, a mazela é velha conhecida. Há dez anos, a assistente social Mara Ruth, de 40, percorre as ruas da cidade.

Após acompanhar a epidemia da cola e solvente, entre 2000 e 2009, há um ano convive com a dura realidade do crack. Conhecida nas ruas, tem facilidade de se aproximar dos usuários.

Funcionário da Secretaria de Assistência Social com um usuário de crack
Funcionário da Secretaria de Assistência Social com um usuário de crack

— Muitos, inclusive, já me procuram pedindo ajuda. Crio um vínculo para passar confiança — revela.

O educador Thiago Correia, de 27 anos, está há dois anos nas ruas. Mas, descolado, facilmente se integra aos usuários, na tentativa de convencê-los a serem acolhidos:

— Para cada situação que encontramos, é uma estratégia. Não tem jeito certo de abordar. Há pessoas que só querem um abraço. Esse trabalho é uma escola de vida.

fotos: Fabiano Rocha / Extra

Pai, você é mesmo ateu?

Foto de Alberto Jacob

Tom Fernandes, no blog Pequenos Dramas

Pai, você é mesmo ateu? A pergunta sai espremida no fim de um longo abraço de boa noite. Uai, Daniel, de onde vem essa pergunta agora? É? Eu? Não, não sou, mas de onde veio essa dúvida? O pai da Ana, ele disse umas semanas atrás que você era um bom homem, mas era uma pena ter virado ateu. O Rodrigo disse isso?, pergunta enquanto ajeita o travesseiro do Daniel. Bom saber que seu tio me acha um bom homem, né? É, mas ser ateu é muito feio, pai. E o que é ser ateu, você sabe me explicar, Daniel?

Enquanto Daniel dorme, depois de ter dado de ombros pra pergunta, Gustavo rememora sua amizade com Rodrigo, os anos de faculdade, os acampamentos de mocidade, o compromisso de que iriam ganhar o país. Com o fim do seminário, Gustavo foi embora. Rodrigo ficou e com os anos acabou substituindo o pároco. Quando voltou do Chile, Gustavo trazia seu pequeno Daniel na bagagem. Rodrigo havia se casado e teve quatro filhos, a linda Ana Flávia era da mesma idade de Daniel.

O abraço espremido de Gustavo no aeroporto parecia ter incomodado Rodrigo. Antes ficavam no abraço até um dos dois ter perdido o fôlego. Ficou bem de colarinho, Rodrigo! Queria poder dizer o mesmo desse seu cabelo desgrenhado, Gustavo. O olhar de Rodrigo era diferente, mas devia ser estranhamento dos dez anos que ficaram sem se ver. Só notícias de fim de ano. Gustavo voltava ao Brasil para dar aulas numa universidade. Rodrigo fizera a antiga paróquia de seu bairro dobrar de tamanho. Em comum, a viuvez. Rodrigo perdera a mulher no quinto parto, o bebê também não sobrevivera às complicações.

Gustavo perdera a esposa no terremoto ocorrido no Chile. O tom cinza dos cabelos denunciava que havia sofrido bastante. Fiquei sabendo que você perdeu a fé, Gustavo? Isso não é verdade, Rodrigo, ou melhor, é! Ante o olhar espantado do amigo, Gustavo completa: mas ela me achou de volta. Mas e as coisas que você andou escrevendo e publicando? São apenas as coisas que andei escrevendo. Rodrigo, o que te importa é que estou aqui, neste restaurante aqui no Brasil, tomando um chope com meu melhor amigo nesta vida! Brindemos! Ou melhor, Garçom, traz mais dois pra gente que precisamos brindar! Acho melhor não, Gustavo! Tenho uma reputação agora, não posso ser visto me embriagando com você? Embriagado ou comigo?

Alguns meses depois e Daniel vem com a pergunta, plantada pelo Rodrigo. Como não perder a fé num jantar daqueles? Como não perder a fé numa tragédia como aquela no Chile. Rodrigo alisa inconscientemente a aliança no dedo direito, sinal mais aparente de sua viuvez. Foi a mulher de sua vida que morreu naquele hospital humanitário, naquela ala de queimados, cuidando de gente excluída. Daniel se remexe na cama e Gustavo lembra do motivo de ter reencontrado a fé, o amor contido nas pequenas mãos de Daniel no funeral: Papai, chora não. Eu fiquei aqui pra tomar conta de você.

(Escrito ao som de Hallellujah, de Rufus Wainwright)

Os mais devotos questionam mais Deus

Bernardo Staut, no Hype Science

Questionar Deus e a religião são coisas comuns no mundo moderno. Mas agora, surpreendentemente, uma pesquisa revela que os que mais questionam são também os mais devotos.

No geral, as pessoas que são muito religiosas têm mais tendência a dizer que não é certo estar bravo com Deus. Mas aqueles que descrevem sua relação com Deus como próxima e resistente à adversidades (um devoto, no sentido estrito), são os que aceitam melhor reclamações e questionamentos direcionados a Deus.

“Ter esse tipo de atitude mostrou-se associado com uma relação segura, próxima e boa”, comenta a pesquisadora Julie Exline. A descoberta é interessante porque muitas pessoas se sentem mal ao questionar Deus.

“Eu penso que é importante para as pessoas enxergarem que uma boa relação com Deus tem espaço para isso, como um casamento, onde há lugar para questionamentos e desavenças”, comenta Exline.

Raiva divina

Em um estudo anterior, Exline descobriu que a raiva contra Deus não é incomum – cerca de 87% dos estudantes de um colégio disseram sentir raiva contra Deus após problemas pessoais. O próximo passo era explorar se sentir raiva era aceitável.

Usando duas amostragens – uma de 358 universitários e outra de 471 adultos, Exline perguntou se era moralmente aceitável questionar, reclamar, ficar com raiva, ou até virar as costas para Deus, tornando-se um ateu. Cerca de 39% dos participantes eram protestantes, 30% era católicos e 5% eram judeus. O restante era formado por hindus, muçulmanos, budistas, espiritualizados sem religião e outros credos.

Todos acreditavam em Deus de alguma maneira. Exline acabou descobrindo que aqueles que possuíam uma relação mais próxima e resiliente eram fortemente contra a ideia de virar as costas para Deus. Mas esse tipo de relacionamento também gerava uma aceitação maior para as reclamações e eventos negativos com relação a Deus.

Você concorda com essa pesquisa? [LiveScience]

Somos programados para acreditar em Deus?

Dalane Santos, na hypescience

Algumas habilidades humanas, tais como a música, são tratadas como dons: alguns parecem “ter nascido para a música”. No entanto, tarefas como andar e falar são comuns a todas as pessoas saudáveis, todos fomos “nascidos para andar” ou para falar. Será que é possível incluir a tendência de crer em Deus em um destes dois grupos? Acreditar em uma divindade é algo que vem naturalmente com o ser humano ou não?

Um autor norte-americano, Justin Barrett, acredita que sim. Ao analisar pesquisas antropológicas de várias universidades americanas, ele defende que quase todos nós nascemos naturalmente “crentes em Deus”.

Isso significa que, usando a lógica do andar ou falar, estamos naturalizados com a religião e a crença tão logo ela nos é apresentada, ainda na primeira infância. Seria uma tendência incluída na mente desde o nascimento.

Um estudo psicológico com bebês de 9 meses de idade, conduzido pela Universidade Emory (Atlanta, EUA), fez experimentos cognitivos. Os pesquisadores observaram que o cérebro das crianças, para entender o mundo, faz associações a partir de “agentes” (qualquer fator de ação ao seu redor, não necessariamente uma pessoa), e de como podem interagir com eles.

Naturalmente, os bebês sabem que tais agentes têm uma finalidade, ainda que seja desconhecida, e que os agentes podem existir mesmo que não possam ser vistos (é por isso, por exemplo, que filhotes de animais buscam se proteger de predadores mesmo que não os tenham visto).

Essa tendência, segundo o autor, facilita que se acredite em Deus. Não nos causa estranheza atribuir determinados fenômenos a um ente desconhecido: nosso cérebro pode lidar com isso sem problemas.

Outra pesquisa, da Universidade Calvin, em Grand Rapids (Michigan, EUA) vai ainda além: não apenas temos naturalidade com a ideia de um agente invisível, como somos diretamente propensos a este pensamento. Além disso, tais tendências não desaparecem na infância, se prolongando pela vida adulta na maioria dos casos.

Desde a infância, somos condicionados a acreditar que todas as coisas têm um propósito fixo. Uma terceira faculdade americana, Universidade de Boston (Massachussets, EUA), estudou crianças de 5 anos que visitavam um zoológico e olhavam para a jaula dos tigres.

Os pesquisadores descobriram que as crianças são mais propensas a acreditar que “os tigres foram feitos para andar, comer e serem vistos no zoológico”, do que “ainda que possam comer, andar e serem vistos, não é para isso que foram feitos”.

Temos dificuldade em não saber a razão da existência de algo, por isso recorremos a divindades. Este ente superior, por deter uma resposta que o ser humano não pode descobrir, recebe naturalmente atribuições de onisciência, onipresença e imortalidade, pois nosso cérebro tende a depositar todo o universo desconhecido em tal entidade.

O autor ainda lança uma pergunta: se Deus é aceito pelas crianças em um mecanismo de atribuição do desconhecido, semelhante ao Papai Noel ou a Fada do Dente, porque as crenças nestes últimos morrem com a infância e a ideia de Deus tende a permanecer na vida adulta?

Isso se explica, segundo ele, porque a imagem de Deus é mais poderosa. Papai Noel sabe apenas que deve te entregar um presente no dia 25 se você se comportou, e a Fada verifica apenas se você escondeu o dente debaixo do travesseiro.

Deus, ao contrário – e desde sempre somos levados a acreditar nisso -, sabe não apenas tudo o que você faz, mas também todos os outros seres do mundo e do universo. É por isso que algumas pessoas só passam a crer em Deus depois de mais velhas, mas ninguém retoma na vida adulta uma crença no Papai Noel: isso é algo restrito ao imaginário infantil. [New Scientist]

dica do Israel Anderson

“É possível acreditar em Deus usando a razão”, afirma William Lane Craig

William Lane Craig: "Sem Deus, não é possível explicar a existência de valores e deveres morais objetivos"

Marco Túlio Pires, na Veja on-line

Quando o escritor britânico Christopher Hitchens, um dos maiores defensores do ateísmo, travou um longo debate nos Estados Unidos, em abril de 2009, com o filósofo e teólogo William Lane Craig sobre a existência de Deus, seus colegas ateus ficaram tensos. Momentos antes de subir ao palco, Hitchens — que morreu em dezembro de 2011. aos 62 anos — falou a jornalistas sobre a expectativa de enfrentar Craig.

“Posso dizer que meus colegas ateus o levam bem a sério”, disse. “Ele é considerado um adversário muito duro, rigoroso, culto e formidável”, continuou. “Normalmente as pessoas não me dizem ‘boa sorte’ ou ‘não nos decepcione’ antes de um debate — mas hoje, é o tipo de coisa que estão me dizendo”. Difícil saber se houve um vencedor do debate. O certo é que Craig se destaca pela elegância com que apresenta seus argumentos, mesmo quando submetido ao fogo cerrado.

O teólogo evangélico é considerado um dos maiores defensores da doutrina cristã na atualidade. Craig, que vive em Atlanta (EUA) com a esposa, sustenta que a existência de Deus e a ressurreição de Jesus, por exemplo, não são apenas questões de fé, mas passíveis de prova lógica e racional. Em seu currículo de debates estão o famoso químico e autor britânico Peter Atkins e o neurocientista americano Sam Harris (veja lista com vídeos legendados de Craig). Basta uma rápida procura no Youtube para encontrar uma vastidão de debates travados entre Craig e diversos estudiosos. Richard Dawkins, um dos maiores críticos do teísmo, ainda se recusa a discutir com Craig sobre a existência de Deus.

Em artigo publicado no jornal inglês The Guardian, Dawkins afirma que Craig faz apologia ao genocídio, por defender passagens da Bíblia que justificam a morte de homens, mulheres e crianças por meio de ordens divinas. “Vocês apertariam a mão de um homem que escreve esse tipo de coisa? Vocês compartilhariam o mesmo palco que ele? Eu não, eu me recuso”, escreveu. Na entrevista abaixo, Craig fala sobre o assunto.

Autor de diversos livros —  entre eles Em Guarda – Defenda a fé cristã com razão e precisão (Ed. Vida Nova), lançado no fim de 2011 no Brasil, — Craig é doutor em filosofia pela Universidade de Birmingham, na Inglaterra, e em teologia pela Universidade de Munique, Alemanha. O filósofo esteve no Brasil para o 8º Congresso de Teologia da Editora Vida Nova, em Águas de Lindóia, entre 13 e 16 de março. Durante o simpósio, Craig deu palestras e dedicou a última apresentação a atacar, ponto a ponto, os argumentos de Richard Dawkins sobre a inexistência de Deus.

Por que deveríamos acreditar em Deus? Porque os argumentos e evidências que apontam para a Sua existência são mais plausíveis do que aqueles que apontam para a negação. Vários argumentos dão força à ideia de que Deus existe. Ele é a melhor explicação para a existência de tudo a partir de um momento no passado finito, e também a para o ajuste preciso do universo, levando ao surgimento de vida inteligente. Deus também é a melhor explicação para a existência de deveres e valores morais objetivos no mundo. Com isso, quero dizer valores e deveres que existem independentemente da opinião humana.
Se Deus é bondade e justiça, por que ele não criou um universo perfeito onde todas as pessoas vivem felizes? Acho que esse é o desejo de Deus. É o que a Bíblia ensina. O fato de que o desejo de Deus não é realizado implica que os seres humanos possuem livre-arbítrio. Não concordo com os teólogos que dizem que Deus determina quem é salvo ou não. Parece-me que os próprios humanos determinam isso. A única razão pela qual algumas pessoas não são salvas é porque elas próprias rejeitam livremente a vontade de Deus de salvá-las.

Alguns cientistas argumentam que o livre-arbítrio não existe. Se esse for o caso, as pessoas poderiam ser julgadas por Deus? Não, elas não poderiam. Acredito que esses autores estão errados. É difícil entender como a concepção do determinismo pode ser racional. Se acreditarmos que tudo é determinado, então até a crença no determinismo foi determinada. Nesse contexto, não se chega a essa conclusão por reflexão racional. Ela seria tão natural e inevitável como um dente que nasce ou uma árvore que dá galhos. Penso que o determinismo, racionalmente, não passa de absurdo. Não é possível acreditar racionalmente nele. Portanto, a atitude racional é negá-lo e acreditar que existe o livre-arbítrio.

O senhor defende em seu site uma passagem do Velho Testamento em que Deus ordena a destruição da cidade de Canaã, inclusive autorizando o genocídio, argumentando que os inocentes mortos nesse massacre seriam salvos pela graça divina. Esse não é um argumento perigosamente próximo daqueles usados por terroristas motivados pela religião? A teoria ética desses terroristas não está errada. Isso, contudo, não quer dizer que eles estão certos. O problema é a crença deles no deus errado. O verdadeiro Deus não ordena atos terroristas e, portanto, eles estariam cometendo uma atrocidade moral. Quero dizer que se Deus decide tirar a vida de uma pessoa inocente, especialmente uma criança, a Sua graça se estende a ela.

Se o terrorista é cristão o ato terrorista motivado pela religião é justificável, por ele acreditar no Deus ‘certo’? Não é suficiente acreditar no deus certo. É preciso garantir que os comandos divinos estão sendo corretamente interpretados. Não acho que Deus dê esse tipo de comando hoje em dia. Os casos do Velho Testamento, como a conquista de Canaã, não representam a vontade normal de Deus.

O sr. está querendo dizer que Deus também está sujeito a variações de humor? Não é plausível esperar que pelo menos Ele seja consistente? Penso que Deus pode fazer exceções aos comandos morais que dá. O principal exemplo no Velho Testamento é a ordem que ele dá a Abraão para sacrificar seu filho Isaque. Se Abraão tivesse feito isso por iniciativa própria, isso seria uma abominação. O deus do Velho Testamento condena o sacrifício infantil. Essa foi uma das razões que o levou a ordenar a destruição das nações pagãs ao redor de Israel. Elas estavam sacrificando crianças aos seus deuses. E, no entanto, Deus dá essa ordem extraordinária a Abraão: sacrificar o próprio filho Isaque. Isso serviu para verificar a obediência e fé dele. Mas isso é a exceção que prova a regra. Não é a forma normal com que Deus conduz os assuntos humanos. Mas porque Deus é Deus, Ele tem a possibilidade de abrir exceções em alguns casos extremos, como esse.

O sr. disse que não é suficiente ter o deus certo, é preciso fazer a interpretação correta dos comandos divinos. Como garantir que a sua interpretação é objetivamente correta? As coisas que digo são baseadas no que Deus nos deu a conhecer sobre si mesmo e em preceitos registrados na Bíblia, que é a palavra d’Ele. Refiro-me a determinações sobre a vida humana, como “não matarás”. Deus condena o sacrifício de crianças, Seu desejo é que amemos uns ao outros. Essa é a Sua moral geral. Seria apenas em casos excepcionalmente extremos, como o de Abraão e Isaque, que Deus mudaria isso. Se eu achar que Deus me comandou a fazer algo que é contra o Seu desejo moral geral, revelado na escritura, o mais provável é que eu tenha entendido errado. Temos a revelação do desejo moral de Deus e é assim que devemos nos comportar.

O sr. deposita grande parte da sua argumentação no conteúdo da Bíblia. Contudo, ela foi escrita por homens em um período restrito, em uma área restrita do mundo, em uma língua restrita, para um grupo específico de pessoas. Que evidência se tem de que a Bíblia é a palavra de um ser sobrenatural? A razão pela qual acreditamos na Bíblia e sua validade é porque acreditamos em Cristo. Ele considerava as escrituras hebraicas como a palavra de Deus. Seus ensinamentos são extensões do que é ensinado no Velho Testamento. Os ensinamentos de Jesus são direcionados à era da Igreja, que o sucederia. A questão, então, se torna a seguinte: temos boas razões para acreditar em Jesus? Ele é quem ele diz ser, a revelação de Deus? Acredito que sim. A ressurreição dos mortos, por exemplo, mostra que ele era quem afirmava.

Existem provas que confirmem a ressurreição de Jesus? Temos boas bases históricas. A palavra ‘prova’ pode ser enganosa porque muitos a associam com matemática. Certamente, não temos prova matemática de qualquer coisa que tenha acontecido na história do homem. Não temos provas, nesse sentido, de que Júlio César foi assassinado no senado romano, por exemplo, mas temos boas bases históricas para isso. Meu argumento é que se você considera os documentos do Novo Testamento como fontes da história antiga, — como os historiadores gregos Tácito, Heródoto ou Tucídides — o evangelho aparece como uma fonte histórica muito confiável para a vida de Jesus de Nazaré. A maioria dos historiadores do Novo Testamento concorda com os fatos fundamentais que balizam a inferência sobre a ressurreição de Cristo. Coisas como a sua execução sob autoridade romana, a descoberta das tumbas vazias por um grupo de mulheres no domingo depois da crucificação e o relato de vários indivíduos e grupos sobre os aparecimentos de Jesus vivo após sua execução. Com isso, nos resta a seguinte pergunta: qual é a melhor explicação para essa sequência de acontecimentos? Penso que a melhor explicação é aquela que os discípulos originais deram — Deus fez Jesus renascer dos mortos. Não podemos falar de uma prova, mas podemos levantar boas bases históricas para dizer que a ressurreição é a melhor explicação para os fatos. E como temos boas razões para acreditar que Cristo era quem dizia ser, portanto temos boas razões para acreditar que seus ensinamentos eram verdade. Sendo assim, podemos ver que a Bíblia não foi criação contingente de um tempo, de um lugar e de certas pessoas, mas é a palavra de Deus para a humanidade.

O textos da Bíblia passaram por diversas revisões ao longo do tempo. Como podemos ter certeza de que as informações às quais temos acesso hoje são as mesmas escritas há 2.000 anos? Além disso, como lidar com o fato de que informações podem ser perdidas durante a tradução? Você tem razão quanto a variedade de revisões e traduções. Por isso, é imperativo voltar às línguas originais nas quais esses textos foram escritos. Hoje, os críticos textuais comparam diferentes manuscritos antigos de modo a reconstruir o que os originais diziam. O Novo Testamento é o livro mais atestado da história antiga, seja em termos de manuscritos encontrados ou em termos de quão próximos eles estão da data original de escrita. Os textos já foram reconstruídos com 99% de precisão em relação aos originais. As incertezas que restam são trivialidades. Por exemplo, na Primeira Epístola de João, ele diz: “Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra”. Mas alguns manuscritos dizem: “Estas coisas vos escrevemos, para que o nosso gozo se cumpra”. Não temos certeza se o texto original diz ‘vosso’ ou ‘nosso’. Isso ilustra como esse 1% de incerteza é trivial. Alguém que realmente queira entender os textos deverá aprender grego, a língua original em que o Novo Testamento foi escrito. Contudo, as pessoas também podem comprar diferentes traduções e compará-las para perceber como o texto se comporta em diferentes versões.

É possível explicar a existência de Deus apenas com a razão? Qual o papel da ciência na explicação das causas do universo? A razão é muito mais ampla do que a ciência. A ciência é uma exploração do mundo físico e natural. A razão, por outro lado, inclui elementos como a lógica, a matemática, a metafísica, a ética, a psicologia e assim por diante. Parte da cegueira de cientistas naturalistas, como Richard Dawkins, é que eles são culpados de algo chamado ‘cientismo’. Como se a ciência fosse a única fonte da verdade. Não acho que podemos explicar Deus em sua plenitude, mas a razão é suficiente para justificar a conclusão de que um criador transcendente do universo existe e é a fonte absoluta de bondade moral.

Por que o cristianismo deveria ser mais importante do que outras religiões que ensinam as mesmas questões fundamentais, como o amor e a caridade? As pessoas não entendem o que é o cristianismo. É por isso que alguns ficam tão ofendidos quando se prega que Jesus é a única forma de salvação. Elas pensam que ser cristão é seguir os ensinamentos éticos de Jesus, como amar ao próximo como a si mesmo. É claro que não é preciso acreditar em Jesus para se fazer isso. Isso não é o cristianismo. O evangelho diz que somos moralmente culpados perante Deus. Espiritualmente, somos separados d’Ele. É por isso que precisamos experimentar Seu perdão e graça. Para isso, é preciso ter um substituto que pague a pena dos nossos pecados. Jesus ofereceu a própria vida como sacrifício por nós. Ao aceitar o que ele fez em nosso nome, podemos ter o perdão de Deus e a limpeza moral. A partir disso, nossa relação com Deus pode ser restaurada. Isso evidencia por que acreditar em Cristo é tão importante. Repudiá-lo é rejeitar a graça de Deus e permanecer espiritualmente separado d’Ele. Se você morre nessa condição você ficará eternamente separado de Deus. Outras religiões não ensinam a mesma coisa.

A crença em Deus é necessária para trazer qualidade de vida e felicidade? Penso que a crença em Deus ajuda, mas não é necessária. Ela pode lhe dar uma fundação para valores morais, propósito de vida e esperança para o futuro. Contudo, se você quiser viver inconsistentemente, é possível ser um ateu feliz, contanto que não se pense nas implicações do ateísmo. Em última análise, o ateísmo prega que não existem valores morais objetivos, que tudo é uma ilusão, que não há propósito e significado para a vida e que somos um subproduto do acaso.

Por que importa se acreditamos no deus do cristianismo ou na ‘mãe natureza’ se na prática as pessoas podem seguir, fundamentalmente, os mesmos ensinamentos? Deveríamos acreditar em uma mentira se isso for bom para a sociedade? As pessoas devem acreditar em uma falsa teoria, só por causa dos benefícios sociais? Eu acho que não. Isso seria uma alucinação. Algumas pessoas passam a acreditar na religião por esse motivo. Já que a religião traz benefícios para a sociedade, mesmo que o indivíduo pense que ela não passa de um ‘conto de fadas’, ele passa a acreditar. Digo que não. Se você acha que a religião é um conto de fadas, não acredite. Mas se o cristianismo é a verdade — como penso que é — temos que acreditar nele independente das consequências. É o que as pessoas racionais fazem, elas acreditam na verdade. A  via contrária é o pragmatismo. “Isso Funciona?”, perguntam elas. “Não importa se é verdade, quero saber se funciona”. Não estou preocupado se na Suécia alguns são felizes sem acreditar em Deus ou se há alguma vantagem em acreditar n’Ele. Como filósofo, estou interessado no que é verdade e me parece que a existência desse ser transcendente que criou e projetou o universo, fonte dos valores morais, é a verdade.