Cuidando de quem cuida

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Sandra, no Facebook

Recebi a triste notícia do falecimento de um grande amigo.

Eu, o Guina (como era chamado por todos) e os demais integrantes da Turma Telos nos conhecemos há praticamente vinte anos e passamos três anos intensos estudando no mesmo Seminário Teológico Palavra Da Vida Atibaia.

Juntos, todos nós pudemos aprender bastante um com o outro, vivenciando momentos únicos em nossas vidas, onde pudemos crescer muito através do conhecimento (percepção) de nossas limitações (fraquezas, defeitos…) e daquilo que temos de potencial (dons, talentos…).

Lá, naquele tempo, éramos quem éramos e isso bastava. Todos, cheios de sonhos e planos, ansiosos para tornar o Mundo melhor. Em 1998, cada um seguiu seu próprio caminho.

Vinte anos se passaram desde a primeira vez que nos vimos e muitos de nós se encontram casados, com filhos, envolvidos em muitas responsabilidades, com muitas contas à pagar e provavelmente com muitos fios de cabelos brancos. A vida passou um pouquinho e neste ínterim, cada um fez suas próprias escolhas,construindo assim sua própria história.

Muitos destes amigos, hoje são pastores, missionários, professores, profissionais diversos e quem sabe até estejam desempregados. Porém, a maior parte de nós se tornou “cuidador” de pessoas, dedicando nossas vidas em ajudar o “outro”.

Porém, ser “cuidador” requer muita doação de atenção, tempo e até recursos diversos. Requer a coragem e quem sabe a humildade de se olhar como um ser que também precisa de cuidado de outros “cuidadores” que estejam dispostos a ouvir sem prejulgamentos.

Ontem, perdi um grande amigo porque ele cometeu suicídio. O que o levou a fazer isso? Por que ele fez isso? O que afligia seu coração naquele momento? Provavelmente, respostas que nunca teremos porque quem as conhecia se foi.

Chorei e continuo chorando muito porque é difícil de acreditar que um amigo tão querido, aparentemente tão feliz, tenha entrado em tamanho desespero! Porém, choro por muitos amigos e amigas que sei que também sofrem com a depressão. Choro porque alguns encontram-se tão desesperados, mas ainda escutam dos outros que é bobeira, frescura ou exagero. Choro porque a depressão tem atingido nossas igrejas, nossas escolas, nossos lares e nossa Sociedade. Choro porque ela não é uma doença visível e facilmente detectável, mas age mais cruelmente que o câncer, espalhando-se e destruindo a vida através da desesperança.

Chegou a hora da Sociedade acordar!!! Chegou a hora de nós acordarmos!!! Precisamos aprender a cuidar de quem cuida de nós, lembrando-nos que são tão humanos quanto a gente: pastores, padres, psicólogos, psiquiatras, professores… e pais.

Já passou da hora de aprendermos a cuidar de quem cuida.

 

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O problema das Santas Casas é o problema dos santos

Atirador do CinemaPublicado por Ricardo Alexandre

Que se escancare, que se puna, que se apure a questão dos 2100 hospitais sem fins lucrativos brasileiros, que acumulam uma dívida de 15 bilhões de reais, que ameaçam baixar as portas e deixar milhares de pessoas sem atendimento.

Mas há uma questão periférica no problema que convém ser lembrada, especialmente depois que o maior de todos eles, a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (foto acima), fechou temporariamente seu pronto-socorro porque seus fornecedores recrudesceram diante de uma dívida de 45 milhões de reais. É claro que, em tempos eleitoreiros, foi fogo no rastilho: onde está o repasse do governo federal, onde está o dinheiro que o governo federal disse que repassou ao governo estadual etc. Tudo importante, e tudo da maior importância.

Mas não me escapou o fato de que o agigantamento de uma Santa Casa tem muito a ver com o agigantamento das denominações religiosas, e a complexidade da questão com a velocidade de tempos em que sequer paramos para pensar no óbvio de que uma obra de filantropia (que tem todo o direito de buscar parcerias tanto na iniciativa privada quanto no governo) é, sim, um problema público, mas é um problema dos santos.

“Santos” (“separado”, “destacado”) era como os primeiros cristãos referiam-se uns aos outros nos tempos em que a palavra “cristão” ainda não havia sido cunhada. Na Bíblia, os apóstolos escreviam “aos santos de Corinto”, “aos santos de Tessalônica”etc. É por isso que a Santa Casa chama-se Santa Casa: porque foi obra de santos, gente destacada para uma missão muito específica, que buscou no governo apoio, mas que não esperou do governo o seu sustento.

A importância do cuidado com os pobres na igreja cristã primitiva era pivotal. Há um episódio na Bíblia que me espanta em particular. Conta que, um belo dia, aparece em Jerusalém um ex-oficial romano, algoz de vários cristãos, dizendo-se convertido ao cristianismo. Pior: dizendo ter encontrado o próprio Jesus Cristo ressuscitado, conversado com ele e tendo por ele próprio sido enviado para falar de sua mensagem. Em outras palavras, se dizendo tão apóstolo quanto os apóstolos originais. Depois de quebrar o gelo e se entenderem, o ex-oficial romano, hoje conhecido como São Paulo, saiu com uma única recomendação do grupo original de cristãos: que não se esquecesse dos pobres (Gálatas 2.10).

Nos séculos seguintes, a ideia de curar os doentes e cuidar dos pobres foi seguida tão a risca que logo após a descriminalização do cristianismo, os monastérios começaram a abrir suas portas para andarilhos e doentes pobres. Lá pelo século quarto, os monges já cultivavam ervas medicinais que seriam usadas para tratar os viajantes em alas chamadas “infirmitorium”, que é a raiz da palavra “enfermaria”.

Embora não seja muito correto dizer que os hospitais sejam criação cristã (há registros bissextos de reunião de médicos na Ásia, na Índia  e no império romano), foi definitivamente na cristandade que eles começaram a se espalhar. Acredita-se que só a Ordem de São Bento (do lema “ora e trabalha” e seus votos de pobreza e amparo aos peregrinos) tenha inaugurado mais de 2 mil deles.

O primeiro hospital brasileiro, aliás, foi criação dos jesuítas, a Santa Casa de Misericórdia de Santos, em 1543. “Criado” é um eufemismo para dizer que os monges limpavam o chão, atendiam os colonos, faziam cirurgias e manipulavam os remédios – na falta de profissionais que quisessem se aventurar em um país selvagem daqueles.

Nos anos 1960, o surgimento da teologia da libertação rachou a igreja católica. De uma hora para outra, quem tinha agenda social virou “marxista”. Quem não tinha virou alienado – não que não o fosse antes. Há poucos meses, o papa Francisco matou a charada: “O socialismo roubou a bandeira dos pobres dos cristãos”. Pior do que isso, os santos contemporâneos se esqueceram dos pobres, e aprenderam a fazer filantropia desde que seja com o dinheiro do estado.

A tradição protestante, com sua teologia da missão integral, aparentemente conseguiu acomodar as questões sociais dentro da ortodoxia. Eu, que não sei de nada, gosto muito da ideia por trás da Rede Ibab Solidária, da Igreja Batista de Água Branca, zona oeste de São Paulo, por exemplo: angariar dinheiro e contingente humano em sua própria comunidade e enviá-los a mais de 30 ONGs de São Paulo. Quando lancei meu livro mais recente, o Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar, o lucro das noites de lançamento foi doado para a Casa de Acolhedora de Vinhedo, também uma parceria entre uma igreja e uma prefeitura. Em vez de servir “para dentro”, os cristãos servem “para fora”, conforme desejou o teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer. Mas é apenas um modelo possível. Sei que há outros mais institucionais, outros mais pessoais, frutos do mesmo espírito. Curiosamente, mesmo dentro deles a prática hospitalar tem tido cada vez menos espaço.

Hoje, discute-se muito sobre a isenção fiscal em relação a instituições religiosas. Semana passada, um vídeo do grupo Porta dos Fundos foi ao ar, no qual um sujeito camuflava uma padaria de igreja, a fim de não pagar impostos. É uma discussão boa, mas que não precisaria avançar para muito além do próprio entendimento do que é filantropia: amor ao ser humano, ao desfavorecido. O governo cuida das pessoas por intermédio de instituições que cuidam das pessoas, e as viabiliza por meio de certas isenções fiscais. A discussão razoável seria menos sobre o sentido da isenção e muito mais sobre quais instituições são, de fato, filantrópicas.

A dificuldade das Santas Casas é, em parte, a dificuldade de uma prática religiosa que, com o avançar dos séculos, se transformou em algo cada vez mais individualista, imediatista e distante de sua mensagem original. É falta de governo, é corrupção, é desvio de dinheiro, mas também é falta de mulheres e homens santos, dispostos a, literalmente, colocar as mãos nas chagas da sociedade.

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Vídeo mostra indiferença dos indianos diante de estupro em Nova Délhi

Experimento do grupo ‘YesNoMaybe’ simula jovem pedindo ajuda dentro de van em estacionamento

Estudantes indianas participam de protesto contra violência sexual em Hyderabad (foto:  NOAH SEELAM / AFP)
Estudantes indianas participam de protesto contra violência sexual em Hyderabad (foto: NOAH SEELAM / AFP)

Publicado em O Globo

Em meio a uma série de estupros e assassinatos de mulheres na Índia, o grupo “YesNoMaybe” realizou um experimento em Nova Délhi que constatou a indiferença das pessoas diante de uma situação de estupro. A organização filmou em um estacionamento do subúrbio da cidade a reação das pessoas a uma gravação de uma mulher trancada em uma van pedindo ajuda.

A maioria dos pedestres e ciclistas que passam pelo local para ao ouvir as súplicas, mas segue em frente. Apenas um jovem tenta abrir a força a van e um homem mais velho bate no veículo com uma vara para tentar parar o abuso. O vídeo já foi visto mais de 1,2 milhão de vezes desde que foi publicado na semana passada.

— Na Índia, ouvimos falar de estupro todos os dias. Milhares vão às ruas protestar, mas poucos reagem quando é realmente necessário. Nós nos propomos a descobrir o quanto as pessoas ajudam se alguém estiver em apuros — informou o grupo.

No estado indiano de Uttar Pradesh, no Norte do país, casos recentes de estupros seguidos de enforcamento têm pressionado as autoridades e mobilizado a comunidade internacional. Nos últimos dias, cinco mulheres foram violentadas e assassinadas na região.

A violência sexual na Índia afeta particularmente as mulheres Dalit — o grupo mais baixo na hierarquia de castas indianas. Os abusos começaram a ganhar uma maior repercussão após uma jovem ser estuprada e assassinada por seis homens em um ônibus da capital, em dezembro de 2012.

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Videogame ajuda cientistas a estudar doenças como o câncer

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Publicado em O Globo

Os jogadores de “Genes in Space”, um novo aplicativo para smartphones, pilotam uma nave espacial através do cosmos coletando Alpha, um elemento precioso. A premissa é banal entre games estelares, não fosse por um detalhe: quem brinca com o joguinho ajuda a desvendar mistérios genéticos por trás do câncer de mama. Lançado em fevereiro para celulares iPhone e Android, “Genes in Space” representa um novo paradigma de colaboração entre leigos e cientistas, que recorrem a games para obter façanhas ainda impossíveis para laboratórios e computadores.

O app foi criado pelo Cancer Research UK, entidade britânica que investe em pesquisas sobre a doença. A sacada do software é tornar atraente uma tarefa científica repetitiva e tediosa. Delegando-a a milhões de jogadores, o trabalho que consumiria intermináveis horas a um grupo de especialistas pode ser realizado em uma fração minúscula desse tempo.

— Sabemos que há algo de errado nos genes de células cancerígenas. Algumas partes são copiadas, outras estão faltando, e é descobrindo onde estão as falhas que os cientistas conseguem desenvolver tratamentos. Em “Genes in Space” você precisa traçar uma rota seguindo os trechos mais densos de poeira cósmica. É o caminho escolhido que ajuda os cientistas, pois a localização da poeira cósmica é determinada pelo mapa genético de células com câncer — explica Hannah Keartland, responsável pela área de ciência cidadã no Cancer ResearchUK.

Os softwares ainda não tão bons quanto o olho humano na busca por falhas genéticas. “Genes in Space” foi a solução encontrada para “colocar mais olhos sobre o problema”. O game, que é gratuito, já foi baixado por mais de 280 mil pessoas e rendeu 2,6 milhões de análises de trechos genéticos relevantes. Os primeiros resultados estão sendo utilizados pela equipe do oncologista português Carlos Caldas, que conduz experimento baseado em amostras de dois mil tumores na mama. Mas Hannah diz que mais pessoas precisam baixar o game para que os dados se tornem mais acurados.

Jogo de astronomia foi pioneiro

Mistura de três conceitos populares na comunidade tecnológica — participação coletiva, “gameficação” e ciência cidadã —, jogos como “Genes in Space” são um fenômeno recente. Os pioneiros foram “Galaxy Zoo” e “Foldit”, lembra Luis von Ahn, professor de ciência da computação na universidade americana de Carnegie Mellon e uma das maiores autoridades do mundo em participação coletiva digital.

O primeiro foi lançado em 2007 e pedia a ajuda de internautas voluntários para classificar o formato de galáxias fotografadas pelo Observatório de ApachePoint, nos EUA. O jogo inspirou “Cell Slider”, de 2012, a primeira investida da Cancer Research UK nesse terreno. Segundo Hannah Keartland, seus jogadores analisaram em três meses volume de imagens de células que consumiria um ano e meio de trabalho dos patologistas.

Já “Foldit” é uma criação da Universidade de Washington (EUA) que estimula jogadores a elaborar estruturas de proteínas. Nesses termos, soa chato, mas o game é um quebra-cabeças divertido e desafiador, uma vez que prever a organização de aminoácidos é um dos problemas mais difíceis da biologia. Os cientistas analisam os modelos mais bem acabados criados pelos usuários de “Foldit” e podem usá-los no tratamento de doenças como Aids e Mal de Alzheimer.

— Sou um grande entusiasta da utilização de games como fator motivador. A cada ano, mais horas são consumidas em jogos do que o tempo gasto para construir alguns dos maiores projetos da humanidade, como as pirâmides do Egito e o Canal do Panamá — afirma Von Ahn, também criador do Duolingo, aplicativo gratuito em formato de jogo que ensina idiomas e visa a traduzir toda a web coletivamente. — A comunidade científica está empolgada com o recurso.

Proteínas: do ciberespaço à realidade

Outro título do setor é o game “EteRNA”. Criado em 2010 por pesquisadores de Stanford (EUA) e Carnegie Mellon, o jogo on-line desafia a organizar bolinhas coloridas segundo uma série de regras. Só que, na verdade, as “bolinhas” representam os nucleotídeos que compõem o ácido ribonucleico (RNA, na sigla em inglês), que sintetiza todas as nossas proteínas. E as normas do game são idênticas às da biologia, fazendo com que o RNA criado no jogo possa, de fato, existir.

Transformar a criação digital em vida é justamente o maior prêmio em “EteRNA”: 12,6 mil das estruturas mais complexas surgidas no game já foram sintetizadas em RNA de verdade em laboratórios de Stanford, conta Jeehyung Lee, designer do jogo. Essas moléculas ajudam os pesquisadores a entender melhor o funcionamento das células. “EteRNA” tem 152 mil adeptos ao redor do mundo, a maioria sem qualquer treinamento científico.

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