A vida em estado puro

00084

Ricardo Gondim

Dedicado ao mestre Rubem Alves 

Ando inebriado de beleza.
De repente me sinto esmagado pelo esplendor.

Sem mais nem menos, sou batizado por uma Presença nas águas encantadas da poesia.
Tudo me encanta, tudo me seduz.
Nesse mergulho, passo a gostar de pequenos gestos.
Relembro momentos fugidios que marcaram minha retina com enorme alegria.
Ressuscitam em mim olhares, toques e sílabas soltas, responsáveis pelo resgate de mim mesmo.

Sei, uma presença estranha me possui.
Ela é vento sagrado que abre o estojo de jóias chamado saudade.
Sua presença imperceptível ressuscita traços do que me fez sorrir um dia.

Estou convencido de que só percebo a sombra do divino.
Sua formosura tem a negritude da asa da graúna, é gentil como o sorriso da criança e forte como o olhar do ancião.

Acolho o sopro divino e miudezas me fascinam.
A genialidade poética do Chico Buarque e a doçura do Henri Nouwen se somam à erudição de outros poetas para me deixar com o impulso de correr, saltar, arriscar.

Sinto-me vivo. Os meus olhos se enchem de azul.
A minha pele se cobre com o rubro sensual do crepúsculo.
O meu coração acolhe o que a noite fecunda.

Percebo o abraço do infinito.
Uma beleza sutil me arrebata enquanto o instante fugidio me endoidece.
Na areia sorrateira que desce, me vejo encharcado de eternidade, assombrado pela vastidão sideral, atraído pelo insólito, desejoso do devir.
Mantenho o olhar absorto no horizonte improvável.

Um sopro primordial vem e tenho anseio de me sentar em uma catedral vazia.
A presença do intangível me conduz a esses espaços bucólicos.
Guardo a sensação de que algum companheiro, parecido com o andarilho que arde corações, ainda me acompanha.

Virtudes que jamais alcancei me animam a conquistar o que me resta de fôlego.
Desfaço no peito os nós da discórdia, despedaço na mente as lógicas do ódio e me inundo de sede por mais bondade.
Me uno aos que lutam para conquistar a praça onde justiça, paz e alegria dão as mãos.

Por algum motivo, no êxtase do sagrado, perfumo a casa com velas aromáticas, leio Pessoa e escuto Bach.
Lamento quem se foi e tento guardar sob sete chaves os que me são caros.
Esses mínimos acenos do divino me deixam com a alma à flor-da-pele.
Sinto a vida em estado puro.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Leia Mais

Os felizes e os desgraçados

trapezistas

Ricardo Gondim

Bem-aventurados os contentes com a vida.
Neles qualquer migalha divina
será bênção dividida.
E toda alegria,
a negação da rotina.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de beleza.
Neles encarna o Filho do Poeta.
Seus versos entrarão na sala da realeza
E só eles perceberão, no inefável,
uma partitura completa.

Bem-aventurados os trapezistas.
Eles no alto circo balançam.
No perigo de viver,
destilam nos mortais, pistas
que só os riscos aguçam.

Bem-aventurados os maratonistas.
Eles correm sem o prêmio esperar,
buscam metas
pela alegria das conquistas
que os anos querem temperar.

Bem-aventurados os impotentes.
Eles se sabem incapazes de amar,
se enxergam carentes,
e  só esperam o espírito depurar.

Mal-aventurado o africano.
A humanidade o ensinou a pescar
no rio do desengano.
Desgraçado o que aprendeu a descansar
no colchão desumano,
onde o piolho pica até cansar.

Mal-aventurada a mãe que chora
no morro carioca.
Ela que, em toda hora,
contempla o rés do chão traiçoeiro,
nunca terá desforra.
Não há cavalheiro
para o lenço estender
ou a face suavizar na
lágrima que lhe acalora.

Mal-aventurados os velhos.
Eles jazem alucinados
na impura enfermaria.
A cadeia os alucina aprisionados,
por malignos escaravelhos
que pendem nos lustres empoeirados.

Mal-aventurados os generais.
Eles festejam faustos feitos.
Mas, deles é o cálice pleno de ais.
Infelizes nos coitos, eles
sabem que suas mulheres são iguais
às meretrizes menos geniais.

Mal-aventurados os religiosos.
Eles, das verdades fazem dardos.
Deles nascem males rancorosos
que condenam seus convertidos
à eternidade dos medrosos.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Leia Mais

Tristeza dura mais tempo do que qualquer outra emoção

foto: flickr.com/hansel5569/
foto: flickr.com/hansel5569/

Carol Castro, no Ciência Maluca

Tom Jobim e Vinicius de Moraes estavam certos: tristeza não tem fim, felicidade sim. Essa tal alegria é breve. Dura apenas 35 horas no seu peito. Já a tristeza… ah, a tristeza, amigo. Essa vai te pentelhar por cinco looooongos dias.

A constatação vem de uma pesquisa encabeçada por dois cientistas da Universidade de Leuven, na Bélgica. Eles pediram a 233 pessoas para rememorar episódios recentes que despertaram alguma emoção. Contaram também quanto tempo esses sentimentos duraram.

E tristeza é de longe a mais teimosa. Entre as 27 emoções avaliadas (entre elas, vergonha, tédio, alegria, inveja, alívio, ódio, desespero, esperança, etc, etc), esse sentimento foi o único a se manter vivo por mais de três dias. São necessárias, em média, 120 horas para você esquecer o abatimento de um pé na bunda. O desespero passa (em 24 horas ele já se foi), ódio vai embora (em 60 horas) e você ainda tem mais 2,5 dias a sós com a tristeza.

Segundo o estudo, é essa nossa mania de ficar remoendo os fatos ruins que faz a melancolia durar tanto tempo assim. A gente desencana mais rapidamente das outras situações, como se fosse mais fácil aceitar, algo do tipo “o que foi já foi, deixa pra lá”. Mas com a tristeza não. Insistimos em analisar por que aquilo aconteceu, repassar cada episódio, pensar em como daria para ter revertido a situação. Grande erro.

Já os sentimentos que duram pouco tempo, como tédio ou surpresa, vêm acompanhados de eventos pouco importantes. Dá uma olhada na tabela dos pesquisadores:

(Da direita para a esquerda: tristeza, ódio, alegria, desespero, esperança, ansiedade, desapontamento, contentamento, inveja, alívio, entusiasmo, admiração, gratidão, relaxamento, culpa, estresse, orgulho, se sentir emocionado, raiva, tédio, surpresa, irritação, compaixão, humilhação, medo, vergonha, desgosto)
(Da direita para a esquerda: tristeza, ódio, alegria, desespero, esperança, ansiedade, desapontamento, contentamento, inveja, alívio, entusiasmo, admiração, gratidão, relaxamento, culpa, estresse, orgulho, se sentir emocionado, raiva, tédio, surpresa, irritação, compaixão, humilhação, medo, vergonha, desgosto)

Bem injusta essa vida, não?

Leia Mais

Menino pula de alegria por vencer leucemia (vídeo)

 

Publicado no Extra

Avery Harriman é um garoto de sete anos que está vencendo a leucemia pela terceira vez. O vídeo com o anúncio dos médicos que o menino poderia finalmente sair do hospital, após 23 dias de quimioterapia intensa, foi compartilhado na última quarta-feira e já bateu mais de 40 mil acessos no Youtube.

O pai do menino disse que, no entanto, o pequeno Avery não vai ficar muito tempo longe do hospital. Em entrevista para a CBS Sports.com, Chris Harriman, assistente do treinador da equipe de basquete Nebraska Huskers, explicou que na próxima semana Avery fará exames para ver como a doença está de comportando. Se o câncer não estiver mais dando sinais de atividade, o menino poderá passar por um transplante de medula. Se não, ele volta para a quimioterapia.

BuTjkFHCMAATQig

A medula que pode ser recebida pelo menino deve ser doada por Andrew Cussen, um estranho da Califórnia que, tocado pela campanha iniciada pela família, fez em 2013 a primeira doação. Segundo Chris, Andrew está disposto a ajudar Avery mais uma vez, se for necessário.

BvG-lzZCUAIYpbx

Avery está lutando contra a leucemia desde 2008, quando tinha apenas dois anos de idade. O câncer teve uma remissão, mas voltou em outubro de 2012 e, depois, em julho de 2014. A família lançou uma campanha #AveryStrong para sensibilizar as pessoas para a doação de medula óssea e atualizar sobre os progressos do menino.

Leia Mais

Dá pra perdoar?

O perdão é uma espécie de botão de reiniciar que permite aos casais recomeçar todos os dias

reset!Ivan Martins, na Época

Acho que foi a Miriam Palma, amiga desde os tempos do cursinho, quem me contou que, dentro de 10 anos, todas as fotos de nós mesmos que hoje nos parecem feias ficarão bonitas. É só uma questão de tempo para que a beleza apareça. Nosso olhar precisa mudar.

O mesmo se aplica, me parece, à questão muito mais grave do ressentimento e do perdão. As coisas que hoje nos parecem inaceitáveis, e, por decorrência, imperdoáveis, com o passar do tempo talvez se mostrem verdadeiramente irrelevantes. Nem é preciso esperar 10 anos. Talvez cinco bastem. Ou mesmo 12 meses. Nosso olhar só tem de mudar.

Estou falando, claro, da relação entre duas pessoas, das coisas que acontecem no interior dos casais. Imagino pessoas que se amam ou se gostam – ou têm pelo menos a lembrança desse sentimento. Essas relações nos são tão caras e tão próximas que, nelas, o ato de perdoar é essencial. Talvez seja o gesto mais necessário e o mais frequente de quem partilha a vida com alguém.

Perdoar é como apertar um inesgotável botão de reiniciar: foi ruim ontem à noite, dormimos com raiva um do outro, esta manhã reiniciamos. A conversa foi muito dura, agora estamos mais calmos, que tal reiniciar? Eu fiz algo que a magoou, você reagiu com brutalidade, reiniciemos, por favor.

Estar com alguém, viver com alguém, é sinônimo de afrontar e ser afrontado. A cada dia, quase a cada momento. Os nossos egos, as nossas suscetibilidades tornam difícil o outro se mover ao nosso lado sem que nos incomode. Ele precisa ser imensamente atento, ou infinitamente delicado, para não causar nenhum atrito. Mas então, coitado, não seria humano. Seria alguém apenas tentando nos satisfazer – e rapidamente nos encheria de tédio.

Seres humanos inteiros, à vontade no mundo, disputam espaço mesmo com aqueles que amam. As pessoas se esbarram, se batem – no sentido figurado da palavra, por favor – e dessa refrega permanente, imperceptível para quem olha de fora, emerge a relação propriamente dita. Ela é o resultado de uma disputa constante e de uma colaboração incessante. Por isso é intensa e contraditória, por isso é viva – e por isso necessita, desesperadamente, do mecanismo apaziguador do perdão.

Somos terrivelmente exigentes com as pessoas que dividem a vida íntima conosco. Os nossos chefes, os nossos colegas, os nossos amigos gozam de uma tremenda margem de tolerância. A peguete, o bonitão que aparece de vez em quando, esses gozam de crédito para errar. Mas a namorada e o marido, aqueles que fazem parte da nossa vida, não. Esses não podem pisar fora da linha. Somos vigilantes e intolerantes com eles. Insuportavelmente intolerantes. Por isso é tão essencial que perdoemos – porque os estamos julgando e condenando a cada par de minutos, de uma forma que não fazemos com os demais.

Bem, às vezes as pessoas próximas nos fazem coisas graves. Elas nos machucam e traem a nossa confiança. Às vezes nos enganam. Às vezes se enganam. O resultado é sempre péssimo e quase sempre é impossível perdoar – na hora. Mas o tempo e o convívio com os nossos sentimentos produzem mudanças. Depois de um tempo de afastamento, depois de um período intenso de saudades e de considerações, podemos estar prontos a entender – desde que o orgulho ou nosso senso moral não se interponham. É preciso ter feito certas coisas na vida para entender porque os outros as fazem. Quem nunca andou no lado errado da calçada acha que a virtude é simples. Não é.

Minha impressão é que para perdoar quem nos magoa precisamos de duas coisas – uma sólida conexão afetiva e alegria.

A conexão faz com que o outro também sinta o que nos passa. Se eu estou morrendo e a criatura está lá, morta de rir, se esbaldando, não há o que perdoar – é mais o caso de esquecer. Mas em geral não é assim. Quando as pessoas se gostam, a dor as liga. O sentimento de falta é mútuo. Quem magoou quer voltar. A saudades dói, como dizia a velha música sertaneja. Então, por que não perdoar e reiniciar?

Outras vezes, em casos mais difíceis e demorados, é a alegria que nos faz perdoar. Ela permite que a nossa vida avance, permite que a gente recomece com outras pessoas, faz com aquele sentimento de mágoa seja varrido, lavado, esquecido entre as novas sensações de prazer e de carinho, senão de amor. Enquanto a gente rola na cama insone de raiva, enquanto o ressentimento ainda queima, é impossível perdoar. Mas, se a nossa vida anda, se a gente experimenta a alegria, vai se esquecendo daquilo que nos fazia tremer de indignação ou de tristeza. Então a mágoa passa e a gente perdoa sem perceber. Aí, quem sabe, na próxima curva da estrada aquela mesma pessoa, indultada pelo nosso perdão, reaparece para nos fazer feliz.

Alguém perguntará, racionalmente, qual a importância de perdoar depois de tanto tempo, quando aquilo que doía nem dói mais, e quando a chance de cruzar o outro na nossa estrada é cada dia mais remota. Eu diria que a importância é enorme, por algumas razões.

Não se deve andar pela vida levando mágoas desnecessárias. Quem perdoa descarrega um fardo e anda mais leve, porque deixou a dor para trás. Quem perdoa também resgata, recupera pedaços de si que estavam ligados àquele que não poderia ser lembrado. Nesse sentido, perdoar permite retomar a posse de seus próprios sentimentos e memórias. Às vezes, com sorte, esse perdão abra as portas para a recuperação das pessoas na nossa vida, de um novo jeito.

Uma vez, faz algum tempo, eu almoçava com uma amiga e falamos de uma pessoa comum, muito importante para mim. Ao longo da conversa, sem que me desse conta, comecei a falar dela de uma forma enternecida e alegre, como há muito não falava. Ao fazer isso, ao me permitir lembrar, de alguma forma ficou claro o buraco que aquela mulher deixara na minha vida. Dias depois, por essa porta entreaberta, entrou um sonho, o primeiro em anos em que não havia conflitos ou brigas, apenas afeto e intimidade. Foi como um resgate. Foi como olhar para uma foto que me parecia horrível e perceber o quanto havia de beleza nela. Foram precisos quase 10 anos, mas o meu olhar, finalmente, mudara. No lugar da dor e do ressentimento, havia apenas um suave perdão.

Leia Mais