Laicos, graças a Deus

João Pereira Coutinho, na Folha de S.Paulo

Leio nas notícias que um tribunal do Sudão condenou uma mulher à morte. Mas, na hora da sentença, os juízes confrontaram-se com um pormenor: a referida mulher está grávida de oito meses. O tribunal foi salomônico: a mulher pode dar à luz primeiro e só depois ser enforcada. Justíssimo.

Mas qual foi o crime hediondo de Meriam Yehya Ibrahim? Eis a história, contada pelo “Daily Telegraph”: filha de pai muçulmano, Meriam foi criada como cristã pela mãe. E, na idade adulta, casou com um homem da mesma fé.

O tribunal não se comoveu. Para começar, casar com um homem cristão constitui crime de adultério. Meriam, antes da forca, terá direito a cem chibatas pela ousadia.

E, finalmente, quem tem pai muçulmano não pode cometer crime de apostasia, ou seja, de renúncia à fé islâmica. Meriam defendeu-se da acusação, jurando que sempre foi cristã e que não renunciou a fé nenhuma. O tribunal sudanês discorda. A morte é o único corretivo para semelhante traição.

O caso está a horrorizar vários países ocidentais, que exigem ao governo de Cartum respeito pela liberdade de religião, incluindo o direito de mudarmos as nossas crenças mais profundas.

Como é evidente, os países ocidentais estão a exigir uma proeza tipicamente ocidental que o radicalismo islamita não é capaz de entender.

E não é capaz de entender porque, ao contrário do que sucedeu no Ocidente, não houve a grande separação entre o temporal e o espiritual que permitiu a emergência do Estado liberal moderno.

Qualquer aluno de ciência política conhece essa história: depois de lutas fratricidas entre o papa e o imperador, e depois de lutas igualmente sangrentas entre católicos e protestantes na Europa pós-Reforma, os primeiros filósofos liberais entenderam que a melhor maneira de garantir a paz e a ordem implicava remeter as crenças religiosas para a esfera privada.

Como afirmava John Locke, um desses liberais, não é função do governo cuidar da alma dos homens. Porque ninguém tem o direito de invadir a consciência do outro, obrigando-o a acreditar (ou a não acreditar) num credo particular.

Para Locke, o valor da tolerância significava que o Estado deveria tolerar diferentes concepções do bem, desde que tais concepções não tentassem tiranizar o espaço público.

pereiralivroÉ precisamente essa história que é revisitada em “Inventing the Individual: The Origins of Western Liberalism” (inventando o indivíduo: as origens do liberalismo ocidental), um dos grandes livros de filosofia política que li recentemente.

O autor, Larry Siedentop, dispensa apresentações: com uma carreira emérita no Reino Unido, o professor Siedentop mostra como na origem do liberalismo está uma particular concepção de “indivíduo”: um ser dotado de certos direitos inalienáveis, a começar pelo direito de acreditar no credo que entende.

Só que a originalidade de Siedentop está na sua tese aparentemente paradoxal: esse “individualismo” só foi possível por influência do próprio cristianismo.

Quando os liberais clássicos usam certos conceitos nos séculos 17 e 18 —a “dignidade da pessoa humana”, a “fundamental igualdade moral de todos os seres” etc.—, esses autores estão a beber diretamente na fonte religiosa medieval.

E sobre a grande separação que permitiu conceder a Deus o que é de Deus e a César o que é de César (um preceito obviamente bíblico), essa separação começou por ser reclamada pela própria igreja, muito antes de Locke escrever os seus ensaios: a Reforma Gregoriana do século 11 foi o exemplo supremo de como o papado procurou estabelecer limites ao poder do imperador em matérias da exclusiva autoridade da igreja.

Quando, séculos depois, John Locke se insurge contra o alegado “direito divino dos reis”, o ilustre filósofo está apenas a repetir a velha luta antiabsolutista de Gregório 7º.

O livro de Siedentop não deve apenas ser lido pela sua magistral lição de filosofia política. Ele também relembra, a crentes e a não crentes, que os Estados laicos que hoje existem no Ocidente não seriam possíveis sem a herança de uma tradição religiosa específica.

A infeliz Meriam Yehya Ibrahim, condenada à forca pelo governo sudanês, faz parte dessa tradição. Infelizmente, teve o azar de nascer e crescer na tradição errada.

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Alegria em conta-gotas

Gota-love-562358Ricardo Gondim

Alegria é pepita descoberta depois do vendaval.
Ela nasce do instante; sua pouca duração é causa do arrepio.
Como clarão na madrugada invernal,
A alma não foge de encarar qualquer desafio.

Alegria é elétron que espalha energia pelo corpo.
Na soma de cores o espírito avança.
O choro perde força.
Sorrateiras lágrimas somem frente à calma mansa.

Alegria serve de torniquete,
para estancar a sangria que desperdiça felicidade.

Alegria é implante divino.
Deus se importa com a memória dolorida.
O Espírito se derrama na casa ferida.
Ele quer ser motivo para o sorriso feminino.

A viúva transforma o espelho do quarto em retrovisor.
Na noite escura, enxerga o rosto feliz do amado que se foi.
Com uma nesga de alegria, transforma a trágica saudade em vontade de viver.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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A divina perfeição humana

Ed René Kivitzbondade

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado”.

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês”.

[Palavras de Jesus, Sermão do Monte, Mateus 5.38-48]

A espiritualidade segundo Jesus está no amor que se manifesta nas relações concretas. O caminho de Jesus não é da contemplação metafísica, mas do engajamento relacional. A experiência espiritual cristã implica moral, lei e ética: como reagir a uma violência sofrida, como conviver com o opressor (soldado romano que pratica a extorsão – capa e túnica, e o abuso de poder – obriga a carregar a armadura), como agir e reagir em relação aos inimigos.

A moral cristã se expressa na lei, mas também a excede: Deus ama bons e maus. Sim, em termos comportamentais e de engajamento social é possível separar os homens bons e maus. Os maus agridem, os bons viram a outra face. Os maus praticam a violência, os bons amam os inimigos.

A bondade, segundo Jesus, está na capacidade de desenvolver relações que transcendem a moral e a lei: virar a outra face, entregar a túnica e a capa, caminhar duas milhas. Os seguidores de Jesus não ignoram as relações de justiça, mas vivem à luz do valor maior, a saber, a vida humana: é melhor perder a capa e a túnica do que ser espancado e ou morto por um soldado romano, é melhor sofrer o dano do que alimentar o ciclo de violência da sociedade que pratica o olho por olho, dente por dente. É melhor perder o carro do que matar o assaltante. Vidas humanas valem mais do que coisas. É melhor perdoar do que se vingar. É melhor perder objetos e coisas do que perder pessoas.

O amor segundo Jesus implica a capacidade de resistir ao malvado, e mais ainda, a incapacidade de praticar a maldade. O maior mal que o malvado pode nos fazer é nos tornar malvados. O coração incapaz de fazer o mal é semelhante ao coração de Deus. Os que guardam o seu coração do mal são identificados como filhos de Deus e vão sendo aperfeiçoados à medida da perfeição de Deus.

A renúncia da prática do mal contra alguém implica sacrifício, isto é, assimilar perdas. Não raras vezes, para preservar pessoas, será necessário abrir mão das coisas.

O sacrifício se fundamenta e se sustenta no amor, que por sua vez é facilitado pelo desapego: sacrifício sem desapego é mutilação. As perdas não podem deixar resíduos de mágoas, ressentimentos, ódios, desejo de vingança. É possível perder sem se perder. Para isso, é necessário o desapego das coisas, e a sabedoria de discernir na hierarquia de valores os bens mais valiosos, isto é, a vida humana, e o sentido humano de existir. A vítima da violência que se torna bruta e violenta, perdeu mais do que suas posses materiais, perdeu a alma.

O sacrifício é facilitado pelo desapego, e o desapego somente é possível no silêncio do ego, na recusa de exigências de direitos. O descentramento do ego liberta. Isso somente é possível quando nos admitimos maus, ou pelo menos potencialmente maus tanto quanto aqueles que contra nós praticam sua maldade. O malvado diante de nós é um espelho.

O malvado diante de nós sempre nos interpela com duas opções: ou nos arrasta para dentro de sua maldade ou nos impulsiona a transcender o mal, e assim concorre para a nossa redenção – perfeição – deificação, quando alcançamos a divina perfeição humana.

Encharcados de amor, somos capazes de sofrer danos sem perder a alma e reagir ao mal sem que o mal se apodere de nós. Para isso, precisamos nos esvaziar de nosso senso de méritos e direitos, nos identificarmos com o mal e os malvados, de modo a sermos libertos daquilo que mantém nosso ego aprisionado: perder as coisas é uma oportunidade de ganhar a alma. Perder bens penúltimos pode ser um caminho para ganhar os bens últimos.

O salto qualitativo ocorre quando transformamos perdas em renúncias voluntárias – desapego, e quando nosso coração é transformado pelo amor, a ponto de amarmos os inimigos e pagarmos o mal com o bem.

Assim, no amor, seremos filhos de Deus, perfeitos como nosso Pai Celestial, que ama bons e maus, e nunca pode ser vencido pelo mal, mas vence o mal com o bem.

fonte: Facebook

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Propaganda promete dinheiro à vista para quem vender a alma ao “tinhoso”

Placa foi fixada no cruzamento da Bahia com a Rua da Paz. (Foto: Elverson Cardozo)
Placa foi fixada no cruzamento da Bahia com a Rua da Paz. (Foto: Elverson Cardozo)

Elverson Cardozo, no Campo Grande News

“Precisando de dinheiro? Compro sua alma! Pago à vista. 9666-6966. Tratar com tinhoso”. O recado, que tem como ilustração um capetinha, segurando um tridente, foi deixado em um cartaz, do tamanho uma folha sulfite A4, no poste, na esquina das ruas Bahia e da Paz, no Jardim dos Estados, mas também pode ser visto em outros cantos de Campo Grande, como a Avenida Afonso Pena, próximo à prefeitura.

Ninguém sabe quem está fazendo a proposta indecorosa, até porque o número de telefone, que seria a única forma de obter mais informações, não existe, mas a propaganda fez muita gente fazer cara de espanto, ficar arrepiada ou simplesmente rir.

Criatividade para tentar desvendar o mistério, que pode ser apenas uma brincadeira, uma intervenção urbana ou uma espécie de campanha publicitária, tem de sobra. O Lado B foi às ruas ouvir o que o povo está dizendo. As reações foram do “vixi” ao “Deus me livre!”. “Sem comentários”, disparou a auxiliar administrativa Ivanir Bermanaschi, de 41 anos, ao saber do caso pela reportagem.

Como trabalha em um restaurante, do outro lado da esquina, na mesma rua onde o recado foi colado, ela já tinha ouvido o “falatório” de clientes, mas não encontrou coragem para verificar o feito de perto. “Até acredito que alguma seita esteja querendo comprar a alma de alguém”, disse, ao comentar que, se for brincadeira, é de muito mau gosto.

“De mau não. De péssimo gosto”, enfatizou. Mas hoje em dia, prosseguiu, a situação financeira anda tão complicada que pode aparecer algum tentando vender.

Recado provocou a curiosidade de muita gente. (Foto: Elverson Cardozo)
Recado provocou a curiosidade de muita gente. (Foto: Elverson Cardozo)

A encarregada administrativa Ana Carolina Bonalume, de 32 anos, não encontrou outra expressão a não ser o “vixi” para dizer o que pensou na hora que foi informada do recado, mas foi a única das entrevistadas que cogitou uma possibilidade que foge da interpretação religiosa.

“Pode ser uma jogada de marketing, de outra coisa, ou uma campanha do tipo: ‘não venda seu voto. Você está vendendo sua alma’, algo mais relacionado à política”.

Para ela, a mensagem é engraçada e não deve ser traduzida de maneira literal. “Só alguma pessoa muito leiga, muito fantasiosa, para acreditar nisso”, afirmou. Ana espero que a intenção de quem fez o cartaz não seja a de comprar almas, mas ela se despediu dizendo que “hoje em dia não dá para duvidar de nada”.

O motorista José Afonso, de 40 anos, está no “time” dos céticos. Não acredita e nem se importa com o cartaz. “Não vejo fundamento nisso”, afirmou. Já o auxiliar de serviços gerais Márcio da Silva, de 33 anos, vê muito sentido na proposta. “O único que compra alma é o diabo”, disse.

“É do demônio. É o número da besta”, completou a esposa dele, a dona de casa Léia Nunes, de 36 anos, logo que leu o recado e o contato. O casal frequenta a Igreja Assembleia de Deus e, por isso, segundo eles, a interpretação é feita de outra forma, com base na Bíblia.

“É ele mesmo, o bichinho, querendo comprar a alma dos jovens”, prosseguiu a mulher, evitando nomear o demônio. “Mas ele está usando alguém. A pessoa liga e, com certeza, fica o registro no telefone. Ele vai lá, dá uma pesquisada e vê de quem é. É ‘estrombólico’ esse 9666-6966”, completou, citando os números, um a um, compassadamente.

A reportagem pergunta: Não pode ser só uma campanha? Léia Nunes responde: “Campanha usando isso? Só quem compra a alma é o diabo”, voltou a dizer, desta vez, com o semblante ainda mais apreensivo.

Cartaz também pode ser visto em poste que fica na esquina da rua 13 de junho. (Foto: Cleber Gellio)
Cartaz também pode ser visto em poste que fica na esquina da rua 13 de junho. (Foto: Cleber Gellio)

dica do Ailsom Heringer

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O dia em que roubaram a alma do meu pai

celaRicardo Gondim

Não envelheço, apenas me vaporizo em nostalgia. Lembranças me tangem feito um cisco no vendaval. Misturo adolescência e velhice no viver. Quanto mais o tempo passa mais eu quero preservar certos momentos. Escrevo ciente de que não devo esquecer experiências que me marcaram. Quero contar, sem saber porque, detalhes que talharam meu jeito de ser. Eu sofreria se notasse que o triturador chamado tempo conseguiu reduzir a pó minhas reminiscências.

Experimentei o gosto da morte algumas vezes. Em todas, passei por um doloroso rito de passagem. Minha primeira morte aconteceu em um corredor da Base Aérea de Fortaleza. Naquele dia perdi um pedaço da minha infância. Papai estava preso. Depois de vários meses incomunicável, soubemos que ele fora trazido do Rio de Janeiro. Seu advogado tinha conseguido permissão para que o visitássemos. Eu e meu irmão acordamos nervosos naquele dia. Íamos ver papai. Tomamos o ônibus. Rumamos para a base. Um sargento abriu uma porta. Papai deu dois passos para fora da cela.

Lá estava ele, em pé no fundo de um corredor. De cabeça raspada, papai mantinha certa altivez. Entretanto, bastou caminhar alguns centímetros e eu notei seus pés se arrastando. Ele parecia se mover em câmara lenta. Jorge e eu disparamos, alucinados. Eu só queria abraçar papai – mal sabia que corria para a minha primeira morte.

Os meses em que foi mantido na Base do Galeão pareciam séculos para mim. Por isso, jamais esquecerei a cena. Papai se ajoelhou no corredor. Eu vinha sofrendo ao lado da mamãe, grávida de gêmeos. Perdemos nosso lar. Ela e nós, seus cinco filhos, fomos obrigados a morar com nossos avós. Invadimos a minúscula casa. Desarrumamos a vida deles. Pré-adolescentes, éramos meninos esfomeados. Também sabia: ser subversivo naqueles dias de ditadura era uma ignomínia. Sempre que o jipe da aeronáutica estacionava, trazendo qualquer comunicado, eu rezava para que meus amigos não notassem. Eu era filho de um proscrito, de um marginal político.

Naquela noite fiquei sem dormir. Nada importava. Eu só esperava a hora de me ver em seus braços. Quando Jorge e eu nos acomodamos em seu peito, notei: papai chorava. Era a primeira vez que testemunhava um pranto seu. Senti as lágrimas banhando meu ombro. Ele estava bem mais magro – e tão diferente, sem cabelo. Afastei-me para ver melhor o seu rosto. Nesse exato momento, experimentei a minha primeira morte ao notar os olhos verdes do meu pai sem brilho. Mesmo emocionado por nos ver, papai me pareceu o homem mais triste do mundo. Meu mundo ruiu. Pensei: Roubaram a alma do papai.

Mamãe nos alcançou. Ele ficou em pé e os dois se beijaram. Conversaram um pouco. Logo o mesmo sargento nos avisou o fim da visita. Observei quando papai voltou para a cela e a porta foi trancada. Eu segurava a mão da mamãe, mas sentia a tristeza dele me possuindo.

Anos depois, meu velho pai agonizou em um hospital de Fortaleza. Alquebrado pelo Alzheimer, sua mente enrugou feito um maracujá. O corpo resistiu por anos. Mas sua alma veio quebrada desde aquelas sessões de tortura. Mesmo depois de inocentado em tribunais civil e militar – por subversão e motim –  ele nunca mais foi o mesmo. O verde de seus olhos ganhou o tom de uma bandeira esgarçada. Ele já não me reconhecia. Quando o respirador artificial não deu conta de mantê-lo vivo, papai partiu. E mais um pedaço de mim foi junto.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

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