Arquivo da tag: amor

Ateu, não anti-Deus

Fachada da boate Kiss após o incêndio.

Fachada da boate Kiss após o incêndio.

Pablo Villaça, no Diário de Bordo

Eu não acredito em Deus.

Já acreditei. Muito. Nunca tive religião, mas considerava Deus um chapa. Eu não rezava, mas conversava com ele. Sentia conforto em pensar que ele me ouvia (não usarei as maiúsculas reverentes obrigatórias a não ser ao grafar seu nome). Tinha rituais.

Aos poucos, percebi que minha crença não era fruto de minha própria fé, mas de um condicionamento que começara na primeira infância através de vários “Deus te abençoe”, “se Deus quiser”, “Deus me livre”, “vai com Deus” e por aí afora. Meu Deus não era meu, mas uma herança cultural. O dia em que disse em voz alta “Sou ateu” pela primeira vez, senti-me livre como nunca antes. Minha vida passou a ser regida pela vontade de ser alguém melhor, não por elucubrações fantasiosas sobre o que há após a morte ou sobre regras divinas traduzidas por representantes dúbios.

Dito isso, sou filho de uma espírita. Médium, como se não bastasse. Meu primo Carlos Magno e sua esposa, que amo como se fossem meus irmãos, são evangélicos (ela mais do que ele). Meu tio favorito, Jones, tem seu pai de santo como conselheiro. Amo estas pessoas como a mim mesmo e respeito quem são.

Mas abomino a religião.

Nada tenho contra a crença em Deus. Entendo como o conceito de um “pai”, de um “criador”, pode ser reconfortante. Livrei-me da necessidade de crer em algo similar, mas não acho que aqueles que sentem Deus em suas vidas são menores ou tolos. Acho absurdo, acho fabulesco e acho infantil, mas não tolo ou reprovável. Sou um ateu que abraça o amor pelo Deus no qual você acredita. Jamais me ocorreria condenar o que te conforta.

Mas se há algo dispensável nesta equação é a religião. Pense: você é católico ou evangélico basicamente por um acaso geográfico e cronológico: se tivesse nascido na Índia ou no século 15, em vez de no Brasil no século 20, creio ser razoável supor que provavelmente não seguiria padres ou pastores. Como pode, então, atribuir tamanha importância, solenidade e reverência a algo tão frágil? Se Deus existisse, você realmente acredita que ele condenaria centenas de milhões de pessoas ao inferno apenas porque passaram a seguir regras e dogmas colocados no papel por humanos falhos?

E como são falhos. Todos os dias – sem exceção -, você encontra na mídia notícias sobre incidentes revoltantes envolvendo homens e mulheres que se dizem representantes terrenos do divino. Aqui, um padre é preso por pedofilia (algo que – como fartamente documentado pelo New York Times e pelos documentários Deliver Us From Evil Mea Maxima Culpa – o atual papa encobriu quando era cardeal); ali, um pastor é preso por dizer que seu pênis era algo “sagrado”. Em Israel, uma linda menina dona de uma voz sagrada (e, para mim, a Arte merece este adjetivo) é suspensa de sua escola por ter tido a temeridade de “cantar diante de homens”, ao passo que o islã cobre suas mulheres e as subjuga ainda mais do que a Igreja Católica (e isto é um feito difícil de alcançar).

Ora, basta estudar a História do mundo para constatar a atuação nefasta da religião e de seus representantes.

Olhamos hoje para as atitudes e ditos de papas, bispos, cardeais e fiéis dos séculos 17, 18, 19 e 20 e pensamos: “Como podiam ser tão atrasados?”. Pois não se iludam: nos séculos 21, 22 e 23, os pastores, padres, rabinos e aiatolás serão vistos com o mesmo espanto, como relíquias anacrônicas.

Creia em Deus se te faz bem. Mas não permita que um humano use isto para ganhar poder, dinheiro ou fama.

Apenas em 2012, nada menos do que 20,6 bilhões de reais foram arrecadados por grupos religiosos no Brasil. Uma quantia superior a – acreditem ou não – o orçamento anual de 15 dos 24 ministérios da União. Quanto pagaram de impostos? Zero. Por quê? Não faço ideia, mas isto se reflete curiosamente na lista publicada recentemente pela Forbes, que listou seis pastores brasileiros entre os homens mais ricos do mundo.

Aparentemente, são chapas de Deus.

Não, não morro de amores pela religião. Sim, há religiosos bem intencionados, mas o sistema ao qual servem é corrompido. O poder e o dinheiro ditam as regras, bem como um conservadorismo alarmante que, em 2013, insiste em tratar mulheres como seres inferiores e que diz que homossexuais são criaturas repugnantes.

Ora, a religião é, sim, uma questão de escolha; sua orientação sexual, não. Além disso, como condenar o amor? Não importa se você ama alguém com o mesmo sistema reprodutivo que o seu; num mundo já tão violento e tomado pelo individualismo, qualquer forma de amor deveria ser celebrada, abraçada, protegida. Se um homem quer beijar outro ou se uma mulher quer acariciar os seios de outra, qual a diferença? São seres humanos, mortais, cientes de sua finitude, buscando amparo, carinho, afeto e amor nos braços de um companheiro de espécie. Que lindo. Enxergar algo reprovável nisto apenas porque o par de cromossomos 23 dos amantes é idêntico é algo… que faria uma criança inclinar a cabeça  e perguntar o que há de errado com você.

Sou ateu.

Recentemente, uma pesquisa revelou que as duas minorias mais odiadas (reparem o verbo; não se trata de “reprovar”, mas “odiar”) pelos brasileiros eram homossexuais e ateus.

Branco, heterossexual e homem, finalmente pertenço a uma minoria hostilizada. Eba.

Se Deus existisse, teria sido responsável por minha criação. Por que me odiaria? A resposta óbvia é: não odiaria. Quem dita este ódio são aqueles que se apontam como seus representantes terrenos – e só o fazem porque enxergam religiões diferentes (ou a falta de religião) como concorrentes no mercado da fé. Infelizmente, estes representantes (felizes na lista da Forbes ou não tão ricos, mas confortavelmente amparados por doações isentas de impostos) exercem uma influência inegável sobre milhões de pessoas, que, acreditando agir em defesa de Deus (ele precisa?), acabam se transformando em criaturas capazes de atos absurdamente vis.

Mais de 230 pessoas morrem numa boate no Rio Grande do Sul e evangélicos de todo o país vão ao YouTube, a comentários de sites e a blogs para dizer que as vítimas estariam vivas caso não estivessem pecando.

Isto não é falar por Deus; é vomitar pelo Diabo.

(Não que acreditar no Diabo seja menos tolo; é incrível que qualquer adulto admita crer num ser tão absurdo sem sentir vergonha.)

Sou ateu. Mas não reprovo a crença em Deus. Reprovo, contudo, a tolice da religião. Você não precisa de intermediários terrenos, falhos, gananciosos e cruéis, para comungar com aquele que você julga ser seu criador. Conferir poder a estes indivíduos é temeroso na melhor das hipóteses; na pior, é um desastre absoluto.

Além disso, entenda algo: sua fé não passa de um conjunto de ideias formatado para se conformar a uma ideologia religiosa. Você a chama de “Fé” (com maiúscula), claro, mas ela se resume, em sua essência, a conceitos, ideias. E, como tal, pode ser questionada. Se alguém diz que os conceitos de concepção imaculada, ressurreição e andar sobre as águas é tolice, você não pode dizer que o indivíduo em questão está sendo “intolerante”.

O ateu nada mais é do que alguém que acredita num Deus a menos do que você.

Pense no Lorde Xenu da Cientologia ou no anjo Moroni do Mormonismo. Ora, pense em Maomé. Ou em André Luiz. A menos que você considere todos igualmente plausíveis e dignos de crença, você é tão ateu quanto eu. Bom, talvez não tanto, mas está a um deus de distância da descrença absoluta.

Não somos tão diferentes assim, você e eu. Na realidade, o que nos separa é basicamente o fato de que eu jamais ajudaria um ser humano profundamente falho e repleto de preconceitos a assumir a posição de influenciar outros apenas porque o considero uma espécie de telefonista de Deus.

E se você refletir com cuidado, perceberá que tampouco precisa deste telefonista. Deus ficará feliz em te atender pelo celular.

Não que ele exista.

dica do João Marcos

Ação #MaisAmor em Santa Maria (RS)

537072_422728727803582_174081811_n

Depois de inundar os corações dos recifenses com muito carinho durante a distribuição de rosas e abraços no último dia de 2012, o movimento que ficou conhecido como “Novo Jeito” vai levar um pouco de solidariedade e amor para a cidade de Santa Maria (RS), vítima de uma das maiores tragédias com incêndio do mundo.

Cinco voluntários do Recife que participaram da ação #MaisAmor no Parque da Jaqueira vão mobilizar outros voluntários em Santa Maria. Ao todo, 250 pessoas vão participar da ação, que pretende “abraçar” o quarteirão onde aconteceu a tragédia. Familiares, amigos e moradores da cidade estão sendo convocados para participar.

O “abraço” coletivo vai acontecer depois que os parentes participarem das missas de sétimo dia de seus entes queridos. Em seguida, o grupo caminha em direção à área onde fica a boate Kiss, local da tragédia.

Inicialmente, o Novo Jeito mobilizou voluntários para viabilizar a compra de passagens aéreas para levar profissionais da área de saúde a fim de auxiliar no tratamento dos feridos. Em pouco tempo, 50 técnicos de enfermagem se prontificaram a passar uma semana trabalhando voluntariamente nos hospitais e postos de saúde. No entanto,  o governo gaúcho informou que a mão de obra da Região já seria suficiente. Diante dessa informação, o grupo decidiu mobilizar seguidores do movimento no Rio Grande do Sul para realizar a ação #MaisAmor nesse momento de imensa dor e tristeza.

O grupo parte do Recife na próxima sexta. O responsável pela ação é o líder do Novo Jeito, Fábio Silva. No RS, quem lidera o movimento é Leonardo Loureiro.

Veja o vídeo da ação Mais Amor II no Recife:

Biomédica constrói cadeiras de rodas para cães deficientes

Carolina Giovanelli, no Bichos

A baiana Renata Cobo, de 35 anos, é protagonista de uma daquelas histórias de tocar o coração. Moradora de Uberaba, em Minas Gerais, a biomédica acompanhou o caso de Princesa, uma cadela que foi atropelada e levada para o hospital veterinário onde ela trabalha, em abril do ano passado. A mascote sofreu uma lesão na coluna e perdeu o movimento das patas traseiras. Após saber disso, seu dono nunca mais voltou.

A equipe do local decidiu fazer uma vaquinha para comprar uma cadeira de rodas para Princesa, que custava por volta de 500 reais. A partir de um caso que viu na internet, Renata teve então a ideia de construir ela mesma uma cadeira feita de canos de PVC e rodas de carrinhos de feira. Botou a mão na massa junto do marido, Albano, que é administrador, e produziram um modelo muito bem aproveitado pela cadela, que acabou sendo adotada.

Esse foi o pontapé inicial para o belo trabalho de Renata, que agora fabrica gratuitamente cadeirinhas para “cãodeirantes” do Brasil inteiro. “Desde então, já enviei 30 delas para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília…”, conta.

Recentemente, ela colocou um post no Facebook contando sobre seu serviço voluntário. A iniciativa se espalhou rapidamente. Já teve mais de 22 000 compartilhamentos. Agora, seu telefone não pára de tocar. Pelo menos seis pessoas a procuram todos os dias.

Ela possui 35 pedidos de cadeiras na fila de espera. Cada uma demora cerca de 20 minutos para ficar pronta. “Só posso construí-las em meus momentos de folga, nos finais de semana. Por isso, demoro de quinze a vinte dias para enviar”, diz.

A biomédica manda por e-mail para o interessado um esqueminha de como tirar as medidas do cachorro. Depois, caso haja algum desconforto, explica como fazer reparos a fim do aparato caber melhor no corpo do animal. Renata cobra apenas o material que usa e o frete. Aqui para São Paulo, o custo dos dois fica em aproximadamente 110 reais.

“Faço isso de graça porque amo cães”, afirma ela, que tem dois totós em casa, Dan e Raica. “Se pudesse, dava tudo para eles.”

Os telefones da Renata são:  (34) 9922-8280 e  (34) 9229-2072. Seu e-mail é re.cobo@hotmail.com.

Canos de PVC e rodas de carrinhos de feira: custo de fabricação e envio para São Paulo fica cerca de 110 reais

Valentina: ela hoje pode se locomover melhor graças a uma boa ação (Fotos: Arquivo pessoal)

 

O que nos faz decidir ficar com alguém

Arte de Allen Jones

Arte de Allen Jones

Publicado por Carpinejar

O que nos leva a querer passar a vida inteira com alguém é um mistério.

Você pode fazer a lista infindável do que mais gosta de sua companhia e do que menos gosta, mas nenhuma vai incluir a chave do relacionamento.

É um gesto, uma atitude, uma frase, algo que o toca em particular, que fecha com aquilo que procurava inocentemente desde pequeno.

Meu amigo Felipe se apaixonou pelo jeito que a Fernanda colava o brinco quebrado com bonder, mas ele não desconfia até hoje que foi isso.

Casou com ela depois de vê-la consertando a minúscula joia debaixo do abajur.

Ele briga, discute, discorda da esposa, porém jamais vai se separar. Essa cena despertou uma necessidade incurável da presença dela.

É o motivo do apego irascível. Existiu um quebranto, uma hipnose afetiva, talvez ele tenha se projetado no brinco (ela tentará me salvar quando me quebrar), talvez tenha se enamorado das suas concentradas mordidas de lábios.

O que posso garantir é que Felipe ficou alucinado de ternura: naquele momento decidiu que ela era a mulher de sua vida. Em seu sangue, gravou o rosto da jovem empenhada em salvar o brinco. Com o piscar das pálpebras, tirou a fotografia fundadora do seu amor, um sudário que preservará seu sentimento toda manhã.

Ele mal sabe que o real motivo de sua emoção está no plastimodelismo da infância. É bem capaz de nunca descobrir. Quando enfrentou catapora aos 10 anos, Felipe suportava sua solidão montando aviões. Grudava as pequenas peças de plástico com cuidado para não borrar a cola e estragar o encaixe. O brinco tornou-se mais um de seus aeroplanos.

Já vi gente que se uniu pelo modo de dobrar o guardanapo, pelo modo de morder uma fruta, pelo modo de gritar de susto, pelo modo de amarrar os cadarços.

Uma observação mínima acorda o inconsciente para sempre.

Quanto maior o amor, mais insignificante a origem.

Aceitaremos o cotidiano a dois sem determinar o porquê. Nossa decisão está baseada apenas na intuição. Um movimento nos ofereceu segurança para seguir em frente e aceitar o relacionamento.

Minha namorada tampouco supõe o começo de sua paixão por mim.

Inacreditavelmente, ela me ama pela forma em que tiro a camiseta. Com ambas as mãos, pelas costas, agarrando o tecido pela gola.

Ela acha o gesto protetor, viril, maiúsculo.

As mulheres se despem pela frente, de baixo para cima, levantando a blusa devagar e ritmado.

Como a maior parte dos homens, sou abrupto. Puxo a camiseta com força, livro-me dela, como um animal arrancando a pele.

Chega a ser cômico. E eu pensava que havia conquistado sua afeição com poemas.