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Países menos religiosos são também menos violentos

Publicado por Hype Science

A afirmação parece contraditória, sendo que a maioria das religiões prega a paz e o amor, mas, segundo o Índice Global da Paz (IGP) de 2012, apesar do mundo em geral ter ficado um pouco mais pacífico nos últimos anos, são os países menos religiosos que continuam sendo menos violentos.

O que é o IGP?

O Índice Global da Paz, desenvolvido pelo Instituto de Economia e Paz, em conjunto com a Unidade Economista de Inteligência com a orientação de uma equipe internacional de acadêmicos e experts em paz, classifica as nações do mundo pela sua tranquilidade.

Composto por 23 indicadores, que vão desde o nível de despesas militares de uma nação às suas relações com os países vizinhos e o nível de respeito aos direitos humanos, incluindo os níveis de democracia e transparência, educação e bem-estar material, o IGP usa uma ampla gama de fontes respeitadas, incluindo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, do Banco Mundial e várias entidades da ONU, para contribuir significativamente para o debate público sobre a paz mundial.

O IGP possui investidores de todo o mundo, incluindo Prêmio Nobel, economistas, acadêmicos, agentes humanitários e políticos, como o diplomata Kofi Annan, o presidente Jimmy Carter, Sua Santidade o Dalai Lama, o professor Joseph Stiglitz e o arcebispo Desmond Tutu.

Um lugar melhor para se viver

Em sua sexta edição, o IGP indica que o mundo se tornou mais pacífico pela primeira vez desde 2009; todas as regiões, exceto o Oriente Médio e o Norte da África (que sofrem atualmente as consequências da Primavera Árabe) viram uma melhora nos níveis de tranquilidade geral. O Brasil, em particular, subiu duas posições, passando de 85º para 83º país mais pacífico dentre os 158 analisados.

Apesar da mudança, muitas coisas permaneceram as mesmas. A Islândia é o país mais pacífico do mundo, pelo segundo ano consecutivo, e a Somália continua a ser nação menos pacífica do mundo pelo segundo ano consecutivo.

A Síria foi o país que caiu pela maior margem: mais de 30 lugares, indo para 147º. Isso com certeza têm a ver com o fato de estar passando por uma guerra civil, sofrendo uma escalada da violência nos últimos 14 meses, que matou mais de 16 mil pessoas no país. O contrário ocorreu com o Sri Lanka, já que o fim de sua guerra civil elevou o país em 30 lugares.

Pela primeira vez, a África Subsaariana não é a região menos pacífica do mundo, aumentado seus níveis de paz desde 2007. Como já dissemos, o Oriente Médio e Norte da África é hoje a região menos pacífica, refletindo a turbulência da Primavera Árabe.

Pelo sexto ano consecutivo, a Europa Ocidental continua a ser a região mais pacífica, com a maioria dos seus países no top 20. A América do Norte experimentou uma ligeira melhoria, mantendo uma tendência desde 2007, enquanto a América Latina experimentou uma melhora geral com 16 dos 23 países aumentando sua pontuação de paz.

O ranking

Confira os 10 países mais pacíficos do mundo, seguidos de sua pontuação no ranking:

Islândia – 1,113
Dinamarca – 1,239
Nova Zelândia – 1,239
Canadá – 1,317
Japão – 1,326
Áustria – 1,328
Irlanda – 1,328
Eslovênia – 1,330
Finlândia – 1,348
Suíça – 1,349

O Brasil tem uma pontuação intermediária:
83º Brasil – 2.017

Enquanto os dez países menos pacíficos são:
149º Paquistão – 2,833
150º Israel – 2,842
151º República Centro Africana – 2,872
152º Coreia do Norte – 2,932
153º Rússia – 2,938
154º República Democrática do Congo – 3,073
155º Iraque – 3,192
156º Sudão – 3,193
157º Afeganistão – 3,252
158º Somália – 3,392

Religião x paz

Na Nova Zelândia, Dinamarca e Noruega, países que estão no top 10 de mais pacíficos, o conflito religioso na sociedade é praticamente inexistente. Também, um ranking feito pelo sociólogo Phil Zuckerman mostrou que todos os países desse top 10, menos a Irlanda, estão entre os 50 menos crentes do mundo, nas seguintes posições:

Islândia – 28º
Dinamarca – 3º
Nova Zelândia – 29º
Canadá – 20º
Japão – 5º
Áustria – 24º
Eslovênia – 18º
Finlândia – 7º
Suíça – 23º

Será que há alguma relação entre religião e paz? Segundo alguns especialistas, muitas guerras e atrocidades que marcaram a história estão ligadas ao sentimento religioso. Sendo assim, pode ser que países sem conflitos religiosos sejam mais pacíficos.

O Brasil no Ranking da Paz

O Brasil aparece na 83ª posição do ranking. Historicamente, não nos envolvemos em muitas guerras, porém nossa violência interna é suficiente para não deixar o país subir muito no Índice.

Quanto à religião, de acordo com a pesquisa do instituto alemão Bertelsmann Stifung, 95% dos jovens brasileiros (entre 18 e 29 anos) explicitam suas ligações religiosas: somos o terceiro país mais religioso do mundo, atrás apenas dos nigerianos e dos guatemaltecos.

O IGP de 2012 mostra que os pontos em que somos menos pacíficos são, em indicadores em ordem decrescente: homicídios, crimes violentos e terror político, acesso a armas, e violência percebida pela sociedade.
Alguns dos pontos em somos mais pacíficos são, empatados: conflito organizado, atos terroristas, mortes por conflito interno e por conflito externo, armas pesadas e relações com países vizinhos.[VisionofHumanityUOLBemParanaPaulopesAhDuvido]

Como você mede um ano de vida?

Foto: acervo da Familia Pacitti Thomé

Helena Beatriz Pacitti

Como você mede um ano de vida?

Pelas promoções que alcançou?

Pelas vezes em que ficou procurando desenhos nas nuvens?

Pelas contas que pagou?

Pelo número de vezes que percebeu a mudança da lua no céu?

Pelas baladas as quais foi?

Pelos momentos em que não teve nada para fazer?

Pelo número de reuniões de trabalho desnecessárias?

Pelas vezes em que brincou com ( e como) uma criança?

Como você mede um ano pra viver?

Quinhentos e vinte e cinco mil e seiscentos minutos?

Pelas discussões onde se exaltou?

Pelos nasceres do sol que conseguiu assistir?

Pelas jóias que comprou?

Pelos momentos que cantou no chuveiro?

Pelo número de mentiras que disse?

Pelas canções que inventou?

Pelas contas de cartão que pagou?

Como se mede um ano de vida?

Pelas vezes que chegou tarde em casa?

Pelas apresentações que assistiu na escola da crianças?

Pelas horas que passou em frente a TV?

Pelas vezes em que disse ao seu amor “eu te amo” ?

Pelas promessas que fez e não cumpriu?

Pelas vezes em que sentiu compaixão genuína?

Por todas as segundas-feiras que praguejou?

Pelas vezes em que terminou o dia abraçado a alguém?

Pelas conversas onde falou mal de outros?

Pelas vezes que foi surpreendido pela chuva e e caminhou pingando?

Por medos que nunca aconteceram?

Pelos telefonemas que fez impulsivamente só para dizer um oi?

Pelas ações da bolsa que subiram e desceram?

Pelas vezes em que fez um idoso sorrir?

Pelos contracheques assinados?

Pelos muitos quilômetros que andou sem precisar de ajuda?

Como você mede um ano de vida?

Pelos momentos em que esteve em um hospital?

Pelas vezes em que beijou seu filho?

Pelas vezes em que desejou voltar no tempo?

Pelos livros que leu?

Pelas preocupações e noites de insônia?

Pelas vezes em que sentiu muitas saudades ?

Pelo número de sabonetes gastos?

Pelos poemas que arriscou?

Pelas vezes que esqueceu o celular em casa?

Pelas vezes em que preferiu se calar por pura delicadeza?

Por se surpreender que era época de declarar o imposto de renda?

Pelas vezes que levou alguém ao aeroporto?

Pelas cartas que recebeu?

Pelos cadernos que acumulou?

Pelos frascos de perfume esvaziados?

Pelas vezes em que dançou sozinho no meio da sala?

Pelos seus rendimentos financeiros?

Pelos amigos que voltaram?

Pelas pétalas e folhas que acariciou entre os dedos?

Pelas gargalhadas que deu?

Pelo amor que semeou?

Como você mede um ano da sua vida?

***

PS: Esse texto foi inspirado – podendo ser considerado uma paráfrase – na canção Seasons of Love, do compositor, dramaturgo norte americano e vencedor do prêmio Pulitzer, Jonathan Larson (1960-1996). Ela integra o musical- rock RENT, em cartaz no Nederlander Theatre em New York desde 1996. A vida de Jonathan foi curta, porém intensa e inspiradora, fazendo jus ao que acreditava e compunha.

O caráter destrutivo

Walter Benjamin [via Antivalor]

É possível que alguém, ao fazer um retrospecto de sua vida, verifique que quase todas as ligações mais profundas que ele experimentou, tenham partido de indivíduos sobre cujo “caráter destrutivo” todo o mundo estava de acordo. Esbarraria um dia, talvez casualmente, nesse fato, e quanto mais duro fosse o choque, tanto maiores seriam suas chances de representar o caráter destrutivo.

O caráter destrutivo conhece apenas uma divisa: criar espaço; conhece apenas uma atividade: abrir caminho. Sua necessidade de ar puro e de espaço é mais forte do que qualquer ódio.

O caráter destrutivo é jovem e sereno. Pois destruir rejuvenesce, porque afasta as marcas de nossa própria idade; reanima, pois toda eliminação significa, para o destruidor, uma completa redução, a extração da raiz de sua própria condição. O que leva a esta imagem apolínea do destruidor é, antes de mais nada, o reconhecimento de que o mundo se simplifica terrivelmente quando se testa o quanto ele merece ser destruído. Este é o grande vínculo que envolve, na mesma atmosfera, tudo o que existe. É uma visão que proporciona ao caráter destrutivo um espetáculo da mais profunda harmonia.

O caráter destrutivo está sempre atuando bem disposto. A natureza lhe prescreve o ritmo, pelo menos indiretamente: pois ele deve adiantar-se a ela, do contrário ela própria assumirá a destruição.

O caráter destrutivo não se fixa numa imagem ideal. Tem poucas necessidades, e a menos importante delas seria: saber o que ocupará o lugar da coisa destruída. Primeiramente, pelo menos por um instante, o espaço vazio, o lugar onde se encontrava a coisa, onde vivia a vítima. Certamente vai aparecer alguém que precise dele, sem ocupá-lo.

O caráter destrutivo executa seu trabalho, evitando apenas trabalhos criativos. Assim como o criador busca a solidão, assim também o destruidor precisa cercarse continuamente de pessoas, de testemunhas de sua eficácia.

O caráter destrutivo é um sinal. Assim como um sinal trigonométrico está exposto ao vento, de todos os lados, assim também ele está exposto, por todos os lados, aos boatos. Não tem sentido protegê-lo contra isso.

O caráter destrutivo não tem o mínimo interesse em ser compreendido. Considera superficiais quaisquer esforços nesse sentido. O fato de ser mal entendido não o afeta. Ao contrário, ele provoca mal entendidos, assim como o faziam os oráculos – essas instituições políticas destrutivas. O fenômeno mais pequeno-burguês, o falatório, só acontece porque as pessoas não querem ser mal entendidas. O caráter destrutivo não se importa de ser mal entendido; ele não fomenta o falatório.

O caráter destrutivo é o inimigo do homem-estojo. O homem-estojo busca sua comodidade, e a caixa é sua essência. O interior da caixa é a marca, forrada de veludo, que ele imprimiu no mundo. O caráter destrutivo elimina até mesmo os vestígios da destruição.

O caráter destrutivo se alinha na frente de combate dos tradicionalistas. Uns transmitem as coisas na medida em que as tomam intocáveis e as conservam; outros transmitem as situações na medida em que as tornam palpáveis e as liquidam. Estes são chamados destrutivos.

O caráter destrutivo tem a consciência do indivíduo histórico cuja principal paixão é uma irresistível desconfiança do andamento das coisas, e a disposição com a qual ele, a qualquer momento, toma conhecimento de que tudo pode sair errado. Por isso, o caráter destrutivo é a confiabilidade em pessoa.

O caráter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas, por isso mesmo, vê caminhos por toda a parte. Mesmo onde os demais esbarram em muros ou montanhas, ele vê um caminho. Mas porque vê caminhos por toda a parte, também tem que abrir caminhos por toda a parte. Nem sempre com força brutal, às vezes, com força refinada. Como vê caminhos por toda a parte, ele próprio se encontra sempre numa encruzilhada. Nenhum momento pode saber o que trará o próximo. Transforma o existente em ruínas, não pelas ruínas em si, mas pelo caminho que passa através delas.

O caráter destrutivo não vive do sentimento de que a vida vale a pena ser vivida, e sim de que o suicídio não compensa.

Walter Benjamin, “Der Destruktive Charakter”, in: G.S., IV , pp. 396-98.

Edição brasileira: BENJAMIN, Walter. Documentos de cultura, documentos de barbárie: escritos escolhidos. Seleção e apresentação Willi Bolle; tradução Celeste H.M.Ribeiro de Sousa (et al.). São Paulo, Cultrix/Edusp, 1986. pp.187-188.

foto: V. Solteiro

dica do Moisés Lourenço

O amor é maior que o esquecimento

Arte de Jackson Pollock

Fabrício Carpinejar, no Blog do Carpinejar

A mulher esperaria na cafeteria. Era manhãzinha, 7h30, véspera de escola e de expediente.

O escritor José Cardoso Pires, no meio do caminho, falou para esposa que já voltava. Subiria ao apartamento para buscar o caderno de anotações na gaveta da cômoda. Seu moleskine vermelho, talismã de inspirações e personagens súbitos, essencial como os óculos de leitura.

Quando ele foi descer, já no elevador, sofreu um derrame. Um leve desmaio, rápido, tal piscar de olhos. Sentou um pouco no chão, para acalmar os nervos.

Recomposto do choque, ao empurrar a porta da rua, ele viu que algo de estranho e sério aconteceu: não lembrava quem era e o que precisava fazer. Foi acometido de uma amnésia total.

Estava esvaziado de referências, jogado a uma infância adulta.

Em pânico, seguiu reto pela multidão, encarando o tamanho dos prédios. Usou os cotovelos para se defender da pressa do turbilhão humano.

Não tinha mais nenhuma recordação viva. Um pequeno derrame apagou a memória, o mapa de seus desejos.

Procurando se enganar e disfarçar o horror, andava resoluto, decidido, para frente. Percorreu três quarteirões, porém sentiu cansaço, vontade de pensar melhor e organizar as ideias.

Entrou no café, onde sua esposa lhe aguardava no balcão para beber um ristretto, hábito do casal antes de mergulhar no ritmo alucinado do trabalho.

Mas ele não lembrava que tinha esposa, família, destino profissional.

O que impressiona é que a primeira pessoa que ele procurou depois do esquecimento foi a própria mulher. Recusou outras cinquenta que estavam presentes no lugar.

Foi falar com a sua mulher. Sorteou seu rosto entre todos. Elegeu seus cabelos castanhos e longos diante de dezenas de candidatos do momento.

Não hesitou em atravessar o salão lotado para cumprimentá-la, repetindo o encontro fundador do casamento de quarenta anos. Assim como no baile da faculdade superou a timidez medrosa e pediu uma dança.

Repetiu aquilo que não sabia.

Ainda que não conservasse nenhuma réstia de passado, aproximou-se dela e perguntou:

- Onde estou? Pode me ajudar?

Ela riu, achando que seu marido armava uma brincadeira, perdoou a piada estalando um beijo em sua boca. Ele se assustou com o gesto.

- Que isso?
- O que foi, amor?
- Amor?

Sim, amor, ele entenderia depois quando recuperasse a saúde.

Amava obsessivamente sua Marina a ponto de se apaixonar de novo e sempre.

Talvez fosse se apaixonar cada vez que a enxergasse. Com alma ou sem alma, com memória ou sem memória.

Seu corpo era um cavalo obediente à dona.