Apostasia

sofrimentoMarília César

Filho,

Volte para casa,

Ainda dá tempo.

Quem implora é este que o ama, e a quem você deixou há tanto tempo.

Você saiu em busca de aventura, seguiu sem olhar para trás.

Você achou que poderia encontrar segurança longe do meu afeto. Estava certo de que minha presença era a razão de seu desconforto, de sua insatisfação. Quis traçar sua própria rota e lutar com suas próprias mãos, sem saber que foi meu toque em você e meu amor por você que deram força a suas mãos e vontade de viver.

Está na hora, agora, filho, não espere mais.

Venha como está, não se importe com o que vão pensar.

Estou à sua espera há tanto tempo, venha enquanto é dia, logo a noite vem e você não mais vai encontrar a estrada que o traz até mim.

Logo a noite vem quando você pode se perder para sempre.

Não tenha medo de voltar, de se decepcionar com as pessoas. As pessoas são como são e sempre o desapontarão. Nem todos sabem usufruir de minha companhia sem ter a necessidade de definir regras de convívio e limites sufocantes. Nem todos sabem ainda ser livres. Mas um dia saberão.

Venha, filho, o que o prende ainda?

Logo vem o dia em que não será mais possível acreditar.

Logo vem o dia em que a réstia de luz que ainda há em você poderá se apagar para sempre, de um sopro.

Vem o dia em que aquele que milita a batalha contra as almas humanas e contra a fé irá se manifestar com poder. Neste dia, muitos irão embora de casa para sempre e não mais voltarão. Eles irão perder-se em suas próprias mágoas, dúvidas e falta de humildade, e nunca mais voltarão. Meus filhos amados, eles se afastarão de mim para sempre e meu amor não será capaz de freá-los. Este dia mau chega em breve. Não demore, meu filho. Venha apressadamente. Volte para casa enquanto subsiste uma gota de óleo em sua candeia.

Vem o dia, e já está perto, em que ela se extinguirá e você se perderá de mim para sempre.

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‘Há uma luta entre a luz e as trevas’

true_detectivetítulo original: ‘True philosopher’

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

“Há uma luta entre a luz e as trevas”, diz o detetive Rust Cohle (Matthew McConaughey) na série “True Detective”, na última cena do último episódio da primeira temporada.

Já disse e repito que as séries americanas são hoje, de longe, o maior experimento dramatúrgico nos EUA, porque o cinema americano quase não existe, derretido pelo medo do politicamente correto, esta praga que em breve terá destruído toda a criatividade ocidental, à semelhança da arte soviética. Qualquer artista que submeta sua arte ao projeto “para um mundo melhor” é um artista ruim.

A ideia de que há uma luta deste tipo é comum à filosofia, teologia e literatura. Dostoiévski diz algo semelhante nos “Irmãos Karamazov”: “Há uma luta entre Deus e o Diabo e o palco é o coração humano”.

Nos “Manuscritos do Mar Morto”, textos judaicos datados do período em torno do nascimento da era cristã, encontrados em cavernas do mar Morto nos anos 40, afirma-se a mesma luta entre os filhos da luz e os filhos das trevas. Nathan de Gaza, século 17, “profeta” do falso Messias Sabatai Tzvi, dizia que o mundo, assim como a alma de Tzvi, um melancólico, era dilacerado por forças antagônicas de luz e trevas. Vejo nisso uma poética da agonia como habitat da alma humana.

Rust Cohle é um detetive filósofo típico da tradição que vai de Sam Spade (interpretado por Humphrey Bogart) a Philip Marlowe (interpretado por Elliott Gould e Robert Mitchum). Niilistas, todos eles trazem a marca de uma visão pessimista sobre a humanidade.

Cohle, no primeiro episódio, afirma que é pessimista (e define essa condição como sendo “ruim em festas”). E afirma sua “cosmologia”: a consciência humana é um erro da evolução.

Segundo nosso “true philosopher”, todos pensamos que somos “eus”, mas somos apenas seres que arrastam essa ilusão em meio a uma programação genética que nos obriga a sobreviver. Um diálogo entre o niilismo nietzschiano e o determinismo darwinista de Richard Dawkins não seria muito diferente.

De onde vem esse pessimismo que dá a esses detetives um tom maior do que meros personagens à procura de criminosos?

No caso especifico de Cohle, esse pessimismo vem de uma família de origem destroçada, de uma filha morta muito jovem, de um casamento destruído devido a esta morte, de muita bebida e muita droga, de quatro anos infiltrado no narcotráfico e de uma longa investigação entre satanistas, pedófilos “cristãos” e serial killers de mulheres (esta investigação é o conteúdo dramatúrgico dos oito capítulos da primeira temporada).

Entretanto, sua grandeza não é redutível às suas “pequenas causas” psicológicas. Se assim o fosse, ele seria apenas um deprimido. Sua grandeza como personagem se dá devido ao modo como ele constrói, a partir de sua miséria pessoal, um julgamento preciso da humanidade. Julgamento este que impacta por sua possível consistência.

Há uma questão maior aqui, e que une os grandes detetives nesta concepção niilista de mundo: a experiência com a (sua própria) natureza humana. Sim, natureza humana, este conceito que muitos “especialistas” teimam em dizer que não existe.

Não vou entrar nesta discussão sem fim, prefiro usar a ideia de natureza humana como “licença poética”. Há muito que não me importo com debates “especializados”.

Sabe-se bem, mesmo entre policiais na vida real, que a proximidade com a miséria humana mais pura pode levar alguém à descrença na natureza dos homens.

Ainda que, como bem mostram esses três personagens, isso não impede virtudes como coragem, generosidade, sinceridade, doçura. Muito pelo contrário, muitas vezes é justamente a dureza do desencanto com a natureza humana e o sofrimento psicológico que ela traz no cotidiano (como no caso de Cohle) que possibilita tais virtudes.

A virtude é silenciosa e cresce sempre num terreno que lhe é hostil. Máxima ignorada por todos que, principalmente em épocas do novo puritanismo político que assola o mundo da cultura, cantam seu amor e sua misericórdia pelo mundo e pelos que sofrem. O amor ao mundo deve ser escondido como uma pérola.

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“Continuo apaixonadíssimo pelas minhas quatro mulheres”, diz Mr Catra, quatro esposas, 27 filhos

Mr. Catra (foto: Anna Paula Pacheco)
Mr. Catra (foto: Anna Paula Pacheco)

Bruno Astuto, na Época

Mr. Catra, o rei do funk carioca, completa 25 anos de carreira com lançamento simultâneo de quatro CDs com estilos diferentes depois de um intervalo de quatro anos sem gravar: funk samba, música eletrônica e até sertanejo. Catra também vai ganhar uma biografia em breve, um filme sobre sua vida, produzido por Paula Lavigne, e um reality show mostrando o cotidiano ao lado das quatro mulheres (sim! quatro) e dos 27 filhos (sim! 27) – uma das suas esposas está grávida do 28o. “Estamos em negociação com alguns canais, inclusive estrangeiros”, afirma.

Como dá conta de uma família tão grande?

Só paro quando acabar o amor. Como Deus é eterno e Deus é amor, não vou parar nunca. Atualmente tem mais um a caminho: Silvia, uma de minhas mulheres, está grávida. Serão 28 filhos agora. Desses, 26 são biológicos. Adotei dois irmãos quando soube que as crianças tinham HIV.

Sua fama de mulherengo procede? 

Estou num momento apaixonadíssimo pelas minhas quatro mulheres. Mas sou fraco, tenho esse problema. Posso dizer que atualmente estou tranquilo.

Como vai produzir CDs tão diferentes?

Ouço de tudo: de rock n’roll a musica clássica, passando por eletrônico. O CD de samba também vai virar um DVD com participações de Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho. Não sou sambista, mas consegui uma maneira de homenagear meus amigos. Nasci no berço do samba, na Tijuca. Já o CD sertanejo vai se chamar Mr. Country. Sou fã do Amado Batista e seria demais se ele me desse a honra de fazer uma parceria. O de música eletrônica será gravado num estúdio em Amsterdã, na Holanda.

Vai contar tudo na biografia?

Geral pode ficar tranquilo no meio do funk que não vou expor ninguém. Tem também o filme que a Paula Lavigne está tocando. Gostaria muito de que o Lázaro Ramos me interpretasse, ele é o melhor e igual a ele está difícil.

Como se sentiu com os recentes boatos de que estava morto?

Morri de rir, mas fiquei p…, porque tenho 2 filhos para criar, quatro mulheres e várias famílias que dependem do meu trabalho. Não tenho tempo para morrer. Estou vivinho da silva.

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Deus morreu

cruciPublicado por Fabricio Cunha

É a sexta feira, que me ganha, em Deus.

É sua “paixão”, seu sofrimento e morte, que me colocam de joelhos, absorto, sem compreender.

A morte de Deus é a exacerbação de sua humanidade. É a prova maior de teu amor extravagante, que o coloca sob o chicote de sua criação, por amor dela própria.

Quando seu sangue rega a terra, encontrando-se com a origem de sua própria criação, Deus, em Jesus, nos comunica que sabe qual é o sabor da dor de ser humano, pobre, injustiçado, abandonado, só e frágil.

Deus nunca foi tão humano quanto na sexta e no sábado.

E não há prova mais cabal de seu amor por sua criação, do que seu sangue ser derramado nela.

Na sexta, em pouquíssimas palavras, assistimos a maior cena de todos os tempos: Deus se fez homem e, homem, amou a todos até as últimas consequências.

Um Deus que, numa cruz, rega uma poça com seu sangue, para que, dali, esse sangue regasse toda terra.

Um Deus que morre no que cria, de tanto amor.

Silêncio…

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A respeito de rezar

rezarInácio Larrañaga

Quanto mais se reza, Deus é “mais” Deus em nós. Deus não muda. É definitivamente pleno, portanto, imutável. Está, pois, inalteravelmente presente em nós, e não admite diferentes graus de presença. O que realmente muda são nossas relações com ele, conforme nosso grau de fé e amor. A oração torna mais firmes essas relações, produz uma penetração mais entranhável do Eu–Tu, através da experiência afetiva e do conhecimento fruitivo. Acontece como um archote dentro de uma sala escura. Quanto mais o archote alumia, melhor se vê a “cara” da sala, a sala se faz presente, ainda que não tenha mudado.

Quanto menos se reza, Deus é “menos” Deus em nós. Quanto menos se reza, Deus vai se esfumando em um apagado afastamento. Lentamente se vai convertendo em simples ideia sem sangue e sem vida. Não dá gosto estar, viver, tratar com uma ideia, também não há estímulo para lutar e superar-se. Assim, Deus deixa de ser alguém, e termina por diluir-se numa realidade ausente e longínqua.
Deixando de rezar, Deus acabará por ser “ninguém”. Se deixarmos de rezar por muito tempo, Deus acabará por “morrer”, não em si mesmo, porque é substancialmente vivo, eterno e imortal, mas no coração do homem. Acabando a fonte da vida, chega-se rapidamente a um ateísmo vital.

A oração é vida e a vida é simples – não fácil – mas coerente. Quando deixa de ser vida, convertêmo-la numa complicação fenomenal. Pergunta-se, por exemplo: Como se deve rezar em nosso tempo? Pergunta sem sentido. Por acaso se pergunta como se deve amar em nosso tempo? Ama-se – e reza-se – tal como há quatro mil anos. Os fatos da vida têm sua raízes na substância imutável do homem.

fonte: fan page Ed René KIvitz

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