Publicado por David Butter
Milito pelo antiontem. Vejo na nostalgia um mal a ser combatido. Tento escapar dela, nem que nessa rejeição gaste um pouco do meu futuro. Se tenho uma nostalgia, uma só na expressão de um mal a ser praticado “socialmente”, essa nostalgia é a nostalgia do burro inteiro. A nostalgia do burro inteiro é a minha cerveja.
Talvez seja o destroço de sinapses antigas, memórias dos meus dias de burro em flor, mas sinto falta autêntica do seguinte personagem: o burro inteiriço, o burro que é mármore da própria burrice, o burro que baixa o pescoço e coloca um vintém no altar da complexidade.
O burro inteiro é humilde: pede licença até para ser burro. O burro inteiro está instalado em si: rubrica um “ciente” nos recibos de sua própria limitação. Mas os burros inteiros quase sumiram. Caíram pela falta de espírito de corpo e pelo excesso de placidez – falhas mortais em tempos de velocidade e de cerco a tudo de certo e fixo (a burrice incluída). No lugar desses burros de ofício, avançam hoje os meio-burros.
O meio-burro é aquele burro que resolve, de uma tirada, grandes questões, grandes investigações. É o detetive-minuto nos grandes crimes, o analista-instantâneo nas grandes crises do poder, o crítico-de-microondas dos grandes movimentos da cultura. O meio-burro sabe sobre muito, mesmo que pouco ou apenas o suficiente para montar sentinela em sua guarita de concreto. Da guarita, o meio-burro guarda a pequena planície do que conhece e, protegido, até se arrisca a mirar outras terras, que não entende.
Para o meio-burro, tudo é simples e a Esfinge não passa de uma carinha sorridente. O meio-burro quer ver nas coisas a simplicidade que nega a si mesmo (o meio-burro é, afinal, um perito). Escolado em cabeçalhos, apressado em concluir e generalizar, o meio-burro é o maior inimigo da complexidade.
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Dirão alguns observadores, com um ranço de decadência na boca, que a explosão nas tecnologias de informação abriu terreno para esse tipo de burro novo. A internet seria, sob esse ponto de vista, uma facilitadora do meio-burro.
O fato, entretanto, é que a expansão das formas de comunicação coloca mais conhecimento na praça. Isoladas outras circunstâncias, essa expansão de oferta tende a favorecer, no lugar de desencorajar, a apreensão da complexidade.
(Ainda que concentrada de forma um tanto artificial nas grandes realizações do espírito, a história do conhecimento é inseparável da história da besteira.)
O que faz o meio-burro prosperar nestes dias é, antes, o aproveitamento de uma oportunidade aberta a todos. Com as novas tecnologias, pode o meio-burro estabelecer redes de apoio, de reforço mútuo de certezas e cegueiras. O meio-burro é o mais gregário dos burros, um burro de cooperativa.
A cooperativa dos meio-burros, um fato de dimensão política, é sólida em sua singeleza, e se assenta num pequeno conjunto de suposições.
A primeira dessas suposições é a de que meio-burro, como todo homem, pode mudar o mundo a partir de sua garagem. O sucesso de gênios solitários ou quase solitários nas últimas três décadas iluminou o céu dos meio-burros, como um raio de esperança. O meio-burro se crê um Napoleão de garagem, um self-made man pronto ou em potência.
Derivada da primeira, vem a segunda: a de que todo código pode ser “quebrado”, que qualquer verdade pode ser revelada ao homem de boa poltrona. É a arrogância do homem que não se move: a certeza de que, ao não se misturar, ao não descer à arena, ele mesmo, o meio-burro, se aprimora numa forma de ascese intelectual. Continue lendo





