Arquivo da tag: armas

Estado da Geórgia, nos EUA, aprova lei que permite armas em igrejas

Legislação simboliza fracasso dos esforços do governo Obama por controle de armamento após ataque de atirador em escola primária

O presidente americano, Barack Obama, abraça mãe de criança assassinada no ataque à escola Sandy Hook: esforço federal para conter armas não funcionou (AP / 17-4-2013)

O presidente americano, Barack Obama, abraça mãe de criança assassinada no ataque à escola Sandy Hook: esforço federal para conter armas não funcionou (AP / 17-4-2013)

Publicado em O Globo

LOS ANGELES — Por um breve momento após a chacina na escola primária Sandy Hook, em dezembro de 2012, parecia que os Estados Unidos endureceriam suas leis sobre armas. Na época, o presidente Barack Obama anunciou um grupo de trabalho liderado pelo vice Joe Biden.

Um ano depois, estados americanos aprovaram 39 leis para reforçar o controle de armas. Mas, segundo o “New York Times”, no mesmo período, passaram outras 70 leis para enfraquecer esse controle.

A maré parece favorável ao lobby pró-armas. Na terça, a Câmara da Geórgia aprovou por 112 votos a 58 uma lei que permite aos cidadãos portar armas em bares, restaurantes, igrejas, aeroportos e salas de aula em escolas primárias. A ONG Americanos por Soluções Responsáveis (ARS), fundada pela ex-deputada Gabrielle Giffords — baleada em um tiroteio no Arizona em 2011 —, descreveu o texto como “a mais extrema lei sobre armas nos EUA”. O governador da Geórgia, o republicano Nathan Deal, deve sancioná-la.

A lei diz que líderes religiosos serão responsáveis por decidir se permitirão armas dentro de templos. O mesmo vale para donos de bares e seus estabelecimentos.

Por outro lado, nas escolas primárias, a direção poderá nomear funcionários para portar armas. A lei também permitirá, segundo críticos, que criminosos e pessoas sem porte de arma as usem sob a justificativa do “Stand Your Ground”, lei que permite a qualquer cidadão se defender caso se sinta ameaçado.

— O governador Deal precisa decidir se quer permitir armas nas filas do aeroporto mais movimentado do país, forçar conselhos escolares a debates amargos sobre a presença de armas nas salas de aula, e expandir a possibilidade de porte a pessoas que cometeram crimes com armas —disse Pia Carusone, diretora executiva da ARS.

Já para Jerry Henry, diretor do grupo pró-armas Georgia Carry, comemorou a nova lei e anunciou que a organização vai pedir mais relaxamento da legislação. A Associação Nacional do Rifle (NRA) também celebrou a aprovação como uma “vitória histórica”.

O estado da Geórgia é um dos vários que reagiram no sentido contrário às cobranças do governo federal. A maioria se concentra no Sul e no Oeste dos EUA, e tem Legislativos dominados por republicanos. A Carolina do Sul permitiu armas em bares e restaurantes. Oklahoma e Idaho têm novas leis autorizando a posse de armas em universidades. No Indiana, deputado analisam texto que daria o direito de manter armas em carros trancados dentro do terreno de escolas.

Outros estados, por sua vez, tomaram outro rumo. Em outubro, o governador da Califórnia, Jerry Brown, sancionou dez leis de controle de armas. Connecticut — onde aconteceu a tragédia da escola Sandy Hook — classificou sua legislação antiarmas aprovada ano passado como a mais dura dos EUA. A lei da Geórgia foi criticada pela polícia estadual e associações de restaurantes, assim a TSA, agência federal responsável pela segurança nos aeroportos.

A lei na Geórgia foi aprovada nos últimos instantes de uma sessão legislativa, impedindo a discussão sobre um projeto para permitir o uso de maconha como tratamento médico por crianças que sofrem de graves ataques epilépticos.

— Não fizemos nada pelas crianças, mas aprovamos uma lei sobre armas — disse o senador estadual Fran Millar, republicano.

dica do Ailsom Heringer

‘Guerra’ no Alemão envolve R$ 20 milhões em verbas

Recursos públicos e privados para projetos sociais são disputados entre José Junior e o Pastor Marcos

 José Junior e pastor Marcos: dois ex-amigos com vocação de resgatar traficantes do mundo do crime foto:  Carlos Moraes / Agência O Dia e Divulgação


José Junior e pastor Marcos: dois ex-amigos com vocação de resgatar traficantes do mundo do crime
foto: Carlos Moraes / Agência O Dia e Divulgação

João Antonio Barros, em O Dia

Rio – A troca de acusações e ameaças de morte relatadas pelo coordenador do grupo AfroReggae José Júnior contra o pastor Marcos Pereira deixou transparente uma guerra surda que agita os bastidores da polícia e da política há mais de quatro anos. Nenhuma novidade para quem vive o dia a dia das ONGs nos Complexos da Penha e do Alemão. Com o resgate de traficantes dando ibope na mídia e o interesse de grandes empresas pela efervescência cultural e econômica nas áreas carentes, o território se transformou numa mina de ganhar dinheiro. Aliás, muito dinheiro.

A batalha entre os dois ex- amigos envolve justamente a distribuição de cifras volumosas — perto dos R$ 20 milhões por ano — em recursos públicos e privados. De olho em obter cada vez uma fatia maior do bolo, na corrida ao tesouro, cada lado lançou mão das suas armas num território povoado por traficantes, policiais e políticos.

A mistura não podia mesmo dar certo. Inovador na conversão de traficantes na cadeia, Marcos Pereira havia reinado nos governos Anthony e Rosinha Garotinho e encarou como uma invasão de área quando José Júnior lançou o bem-sucedido ‘Empregabilidade’ — um projeto para arrumar emprego a ex-detentos.A vingança do líder da Igreja Assembleia de Deus dos Últimos Dias pela entrada de José Júnior no projeto de resgate de traficantes do mundo do crime veio com a ocupação do Complexo do Alemão, em 2010. À época, o coordenador do AfroReggae saiu na frente na tentativa de rendição dos criminosos. Atropelou os líderes comunitários e fez a ponte direta com os criminosos.

O erro da empreitada, por causa do receio dos criminosos em serem presos, deu a Marcos Pereira espaço para atuar como incendiário no barril de pólvora. Na boca miúda, passou a assoprar no ouvido da comunidade que José Júnior era homem do governo no Alemão. A reação é rápida. Antes mesmo dos tiros e fogo contra a pousada do AfroReggae, em junho último, os líderes da comunidade passaram a questionar o volume e a distribuição de recursos obtidos por José Júnior.

Como exemplo, os líderes culturais e comunitários citam os R$ 3,5 milhões destinados recentemente pelo governo estadual ao AfroReggae. Se fosse dividido entre as 14 associações de moradores, o recurso alcançaria um número maior de crianças e adolescentes atendidos. Com raiva, passaram a chamar Júnior de ‘Roto Rooter’ — aspira a verba de todos os pequenos projetos da comunidade.

É justamente esta a visão das pessoas que cercam o pastor. Enquanto o AfroReggae surfou em verbas durante o governo Sérgio Cabral, as empreitadas de Marcos Pereira viram minguar os contratos oficiais — a tacada final aconteceu no ano passado, quando a Secretaria Estadual de Ação Social e Direitos Humanos cortou a receita para o atendimento a dependentes químicos, em Nova Iguaçu. Restam, não se sabe até quando, as receitas do governo federal.

José Júnior nega que a disputa por verbas seja a causa da briga. Para ele, não passa de ciúmes do pastor pelo sucesso do AfroReggae. Os missionários de Marcos também não olham a briga pelo prisma do ouro, e dizem que Júnior assediou o pastor Rogério Menezes a mudar de lado para ter acesso a um território onde ninguém gosta dele.

 Projetos sociais do AfroReggae no Complexo do Alemão: disputas por verbas vultosas são pano de fundo de rixa foto:  Fernando Souza / Agência O Dia


Projetos sociais do AfroReggae no Complexo do Alemão: disputas por verbas vultosas são pano de fundo de rixa
foto: Fernando Souza / Agência O Dia

COORDENADOR DO AFROREGGAE NÃO POUPA ‘INIMIGO’

A prisão a que foi ‘condenado’ desde que entrou na fila da morte do tráfico de drogas já privou o coordenador do AfroReggae de momentos capitais na vida. Como para se mover precisa arrastar um bom aparato policial — nem tão ágil como o estalar dos dedos —, Júnior deixou de assistir ao pai nos seus últimos momentos de vida e não acompanhou o nascimento do filho caçula.

Rápido nas palavras, o líder cultural dá nome e sobrenome a quem o sentenciou a viver à sombra dos seguranças: o pastor Marcos Pereira. Questionado sobre a oferta de emprego e casa feita às testemunhas do processo contra o religioso, Júnior ataca: “Ele é o responsável por várias coisas erradas. É um cara muito perigoso, que mistura religião com o tráfico. Ele deixa o bandido duro, enquanto fica com o dinheiro”.

Nascido e criado no subúrbio, José Júnior diz que por questões de segurança alterou completamente a rotina, e trocou a Zona Sul por uma moradia mais afastada desde que descobriu uma carta enviada por traficantes aos líderes do Comando Vermelho com o pedido para matá-lo. “Ele envenenou os caras (traficantes), espalhou que eu era informante da Subsecretaria de Inteligência, articulou tudo só por ciúme. Não tolerava ver que as pessoas não iam mais para a igreja dele, iam para o AfroReggae”, cutuca.

Com a mesma contundência, o líder do AfroReggae refuta as acusações de ter articulado com a polícia um inquérito ‘caça às bruxas’, para tirar Marcos Pereira do caminho e ser o único a mediar conflito com traficantes no Rio. “Isso é mentira. Ele nem sabia que fazia mediação de conflito. Eu que levei para ele esta ideia. É carismático, mas não tem conteúdo, só tem oratória”, reage Júnior, acusado pela família do religioso de montar depoimentos e fabricar histórias, com o pastor Rogério Menezes — um ex-aliado de Marcos Pereira — para o prejudicar o líder da Assembleia de Deus dos Últimos Dias.

“Sou a vítima. Esse cara é uma mente do mal, talvez o bandido mais perigoso do Rio”, bate José Júnior, que diz ter certeza de que foi o pastor quem encomendou a sua morte. “Tenho uma gravação com o cara contratado para me matar. Combinei que só vou mostrar o conteúdo quando ele (o matador) morrer. Mas posso te dizer: foi o Marcos quem articulou tudo. Essa é uma guerra que não era dos traficantes, mas ele achou gente disposta a fazer o serviço”, diz Júnior, sobre quem ordenou os traficantes a atacarem os prédios do AfroReggae. “Vou te dizer uma coisa: os bandidos que tem aqui são estagiários perto dele.”

 Atividade do grupo cultural AfroReggae foto:  Paulo Araújo / Agência O Dia


Atividade do grupo cultural AfroReggae
foto: Paulo Araújo / Agência O Dia

Deputados discutirão investigação sobre o pastor com Beltrame

Quinze parlamentares se reúnem hoje com o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, para discutir a investigação da Polícia Civil que levou à cadeia o pastor Marcos Pereira. À frente do bloco está o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o também pastor Marco Feliciano (PSC-SP).

Os deputados — alguns evangélicos e ligados a Marcos Pereira — levantam a dúvida quanto à apuração do caso. Uma delas, a rapidez entre a troca de comando na Delegacia de Combate às Drogas e a conclusão do inquérito. Foram só dois meses. O pastor foi preso em maio pelos crimes de estupro e coação de testemunhas, e está no presídio Bangu 9.

Algumas dúvidas dos parlamentares foram levantados na edição de ontem do DIA. Entre eles, a manipulação das testemunhas e o uso de provas ilícitas. Em uma gravação, duas pessoas que trabalham no AfroReggae oferecem casa e trabalho na tentativa de convencer um homem a depor contra o pastor.

‘Eu era gay e estou curado’

S.R., 48 anos, porteiro: "Já consegui oito gays para Jesus, inclusive um que foi meu namorado" (foto: Edvaldo Santos)

S.R., 48 anos, porteiro: “Já consegui oito gays para Jesus, inclusive um que foi meu namorado” (foto: Edvaldo Santos)

Allan de Abreu, no Diário Web

O porteiro rio-pretense S.R., 48 anos, divide sua vida em duas partes. Na primeira delas, era o homossexual assumido, garoto de programa, namorado do chefão do tráfico na Rocinha. Na segunda, o evangélico hétero, casado, pai de dois filhos. Um ex-gay. “Eu nasci daquele jeito”, diz, sobre sua homossexualidade. “Mas hoje estou curado.”

A história de S.R., que preferiu não se identificar, joga luz na polêmica sobre a denominada “cura gay”. Algo possível para os evangélicos, que encaram como “pecado condenável” passível de reversão, e absurdo para os psicólogos, defensores da liberdade sexual. Uns e outros se digladiam há duas semanas, desde que a comissão de direitos humanos da Câmara Federal, presidida pelo deputado Marco Feliciano (PSC), da bancada evangélica, aprovou projeto que autoriza psicólogos a tratar a homossexualidade.

Nesse debate, cada um apresenta as suas armas. Para o pastor Jesus José dos Santos, a homossexualidade é um vício, fruto de um “espírito maligno que escraviza a pessoa”, passível de reversão. “A partir do momento em que a pessoa conhece a palavra de Deus e aceita Jesus, ela pode mudar”, afirma o pastor rio-pretense. Na Igreja Apostólica Cristã, o pastor Denilson Donizeti Anselmo afirma ter convertido seis homossexuais. “A vida cristã é de renúncia a determinados comportamentos, e a homossexualidade é um deles”, argumenta.

Já o Conselho Regional de Psicologia (CRP) condena a tentativa de alterar a lei. “Há duas décadas o homossexualismo deixou de ser doença no mundo. Por isso aprovar essa lei é um retrocesso incabível”, afirma Luís Fernando de Oliveira Saraiva, presidente do comitê de ética do conselho. Para ele, o tratamento psicológico da homossexualidade pode gerar efeitos colaterais graves no paciente, como angústia e sensação de inadequação.

“Cada um deve viver a sexualidade à sua maneira”, argumenta Saraiva. Entidades ligadas aos gays, como o Grupo de Amparo ao Doente de Aids (Gada), em Rio Preto, fazem coro aos psicólogos. “Homossexualidade não é e nunca foi doença. Pensar assim é pura homofobia”, afirma Fábio Takahashi, coordenador de projetos da ONG.

Prova viva

A alegada mudança de sexualidade de S.R. reforça os argumentos dos evangélicos de que é possível a “cura gay”. “Sou a prova viva de que é possível aceitar Jesus e mudar.” O porteiro diz que sempre se viu diferente dos outros meninos. “Eu gostava de brincar de boneca com as garotas”, lembra. Adolescente, assumiu sua homossexualidade, e passou a fazer programas em Rio Preto e São Paulo, no início dos anos de 1980. Nesse tempo, foi para o Rio de Janeiro, e acabou na favela da Rocinha, onde se tornou namorado do maior traficante da comunidade.

“Um dia a polícia subiu o morro, e tive de fugir com a roupa do corpo”, lembra. Voltou para Rio Preto na boleia de caminhões. “Fazia programa em troca de carona.” A vida do porteiro começou a mudar quando, dias depois do Carnaval de 1992, uma vizinha da família, no bairro Boa Vista, convidou ele e a mãe para irem a um culto evangélico. S.R. foi. “Fiquei tocado com as palavras do pastor. E pensei na minha condição de gay, nos casamentos que eu destruí. Não queria mais aquela vida errada.”

Mas a transformação não veio do dia para a noite. S.R. teve recaídas, e só teve o que chama de “libertação total” da homossexualidade um ano depois. “Todo aquele prazer saiu de mim.” O porteiro casou-se e teve dois filhos, hoje adolescentes. Mas o casamento durou apenas cinco anos. Após o divórcio, S.R. mudou-se para Brasília, e admite que a “tentação” da homossexualidade voltou com força.

“Mas não cheguei a sair com homens. Foi apenas no pensamento.” Hoje, “curado”, ele dá seu testemunho em igrejas evangélicas Brasil afora. “Já consegui oito gays para Jesus, inclusive um que foi meu namorado. Hoje são obreiros e pastores.”

Odivaldo e Adriana: ideia é atrair públicos homossexual (foto: Johnny Torres)

Odivaldo e Adriana: ideia é atrair públicos homossexual (foto: Johnny Torres)

Pastor planeja criar ‘igreja gay’ em Rio Preto

Evangélico, Odivaldo Silva Manhozzo, 37 anos, lutou durante anos contra sua homossexualidade. Até que desistiu. “Não achei essa libertação de que falam”, diz. Agora, a Bíblia com detalhes em rosa revela seus propósitos. Ele e a pastora Adriana Senna Bracioli, 41 anos, planejam a fundação da primeira igreja evangélica gay de Rio Preto: a Missão Livres para Adorar.

“Seremos abertos para todos os públicos, inclusive os homossexuais. Se outras igrejas não toleram, nós aceitamos a pessoa do jeito que ela é, sem nenhuma pressão para abandonar a homossexualidade. Ele só deixa de ser gay se quiser”, afirma Odivaldo. Ele e Adriana já imprimiram folhetos para distribuir na próxima parada gay de Rio Preto, prevista para o fim de julho.

“Não importa sua identidade sexual, sua tribo, sua crença. Há um chamado do Senhor Jesus Cristo para você”, escreveram no panfleto. Enquanto isso, cuidam da burocracia para alugar um imóvel e obter o alvará de funcionamento na Prefeitura. É a segunda vez que Odivaldo tenta abrir uma igreja evangélica em Rio Preto. A primeira foi em 2011, quando os cultos eram improvisados em uma casa. Ele se orgulha de, como pastor, ter celebrado três casamentos entre gays no período. Mas o projeto não foi adiante. “Percebi que os outros pastores estavam muito preocupados com o lado financeiro, e só pensavam no dízimo”, critica.

A iniciativa de fundar uma igreja veio da rejeição que Odivaldo sofreu a vida toda nas várias denominações evangélicas por ser gay. Mineiro, ele se descobriu homossexual ainda na infância. “Nunca tive desejo por menina, mas por menino. Cresci com essa inclinação sexual.” Como sua família é evangélica, aos 16 anos ele tentou abandonar a homossexualidade. “Fiz jejum, orei muito, mas não consegui.” Dois anos depois, desistiu. Mas desde então, tem passado por várias igrejas evangélicas. “Quando falo que sou gay, as pessoas se afastam. Nunca fui aceito.”

Enquanto correm atrás de um imóvel para a igreja, Odivaldo e Adriana seguem com o trabalho pastoral, visitas à casa dos amigos evangélicos. “Nosso foco são aqueles que estão afastados da palavra de Deus, como gays, lésbicas, travestis. É um público muito grande”, diz Odivaldo, casado há nove anos com um espírita, ele frisa. “Nunca nos desentendemos por causa de religião. A tolerância é tudo.”

‘Bíblia prega o amor’, diz padre

Assim como os evangélicos, os católicos também são contrários à homossexualidade. “A Igreja prega o respeito à pessoa, mas isso não significa aprovar o homossexualismo”, diz o bispo de Jales, dom Demétrio Valentini.

Mas há diferenças na concepção da homossexualidade entre evangélicos e católicos. Enquanto os primeiros buscam na Bíblia a explicação para condenar radicalmente a homossexualidade, para o padre Telmo Figueiredo, especialista em estudos bíblicos, não se pode interpretar o livro sagrado ao pé da letra. “Como uma obra literária, deve-se entender seus escritos à luz do contexto histórico. Não dá para pinçar trechos e levar a ideia a ferro e fogo. Até porque a Bíblia não é um tratado de moral, é um livro aberto, que prega sobretudo o amor”, diz.

OPINIÕES:

‘Estado deve prezar a liberdade sexual’

negativoPreocupa-me o grande espaço nas mídias para o pronunciamento de inverdades e distorções a fim de manipular as massas, ao sugerir que os psicólogos não tratam ou se recusam a tratar o sofrimento de homossexuais. Até o mais medíocre dos psicólogos sabe que as resoluções do CRF estão de acordo com pensamento mundial evoluído e foram tomadas para fortalecer o direito de homossexuais exercerem livremente sua sexualidade. Penso que os projetos de lei de um Estado laico e democrático devam visar o bem comum, primando sempre pela liberdade e autonomia de cada um para fazer com seu corpo e com a sua sexualidade, aquilo que melhor lhe parecer.

MARA LÚCIA MADUREIRA
Psicóloga
_________________________________________________________________

‘Casal hetero expressa a vontade divina’

positivoO homossexualismo não é bem visto nos textos sagrados. Deus criou o homem e a mulher porque desejou a procriação pelo amor. Tanto que, se colocássemos um casal gay em uma ilha e outro hétero em outra, e voltássemos séculos depois, só a última seria habitada. Essa é a vontade divina. Mesmo assim, não discriminamos o homossexual, nem obrigamos ninguém a deixar de ser gay. Respeitamos o livre arbítrio de cada um. Até porque pregamos, acima de tudo, o amor ao próximo. Minha maior preocupação nesse debate é nos tolherem a liberdade de expressão, um direito constitucional. A mídia dá muito destaque aos ativistas gays, que são mais fundamentalistas do que qualquer religioso.

GILBEAN FERRAZ
Presid. do Conselho de Pastores de Rio Preto

dica do Guilherme Massuia

Mãe diz que menino de 5 anos pediu a assaltantes para ‘não morrer’

Pais disseram ao G1 que criminosos atiraram porque criança chorava. Ladrões queriam mais dinheiro e ameaçaram garoto várias vezes em SP.

pais-de-boliviano-morto

Kleber Tomaz, no G1

A mãe do menino de 5 anos que foi assassinado com um tiro na cabeça durante um assalto na madrugada desta sexta-feira (28) na região de São Mateus, Zona Leste de São Paulo, afirmou que o filho pediu aos criminosos para “não morrer”. Durante a ação, os assaltantes ameaçavam o menino com uma faca no pescoço e atiraram, segundo os pais, porque a criança chorava e a família não tinha mais dinheiro.

“Não me mate, não mate minha mãe”, foram as últimas palavras da criança antes de ser baleada, relatou nesta manhã ao G1 a mãe, a costureira boliviana Veronica Capcha Mamani, de 24 anos. Brayan Yanarico Capcha era filho único dela e do marido, Edberto Yanarico Quiuchaca, 28. A criança chegou a ser socorrida e levada ao Hospital Geral de São Mateus, mas chegou morta ao local.

A Polícia Civil investiga o caso e procura a quadrilha, que fugiu com R$ 4,5 mil das vítimas após o crime. Seis criminosos armados com revólveres e facas invadiram o sobrado onde o casal mora e trabalha com costura na Vila Bela durante a madrugada desta sexta. No local moram mais outras família. Cinco dos bandidos usavam máscaras para não serem identificados. O bando rendeu o tio da vítima que chegava com o carro na garagem, por volta da 0h30.

Dois assaltantes carregavam armas e quatro estavam com facas. Alguns criminosos ficaram com o tio no andar térreo do imóvel e os outros subiram para o andar superior da casa, onde renderam os pais de Brayan.

Os pais contaram ter dado R$ 3,5 mil aos assaltantes, mas eles exigiam mais. Em seguida, o tio entregou R$ 1 mil aos bandidos, que não se deram por satisfeitos e passaram a ameaçar matar Brayan com uma faca caso não recebessem mais dinheiro. Veronica relatou que ainda abriu a carteira vazia e mostrou aos bandidos. “Não tinha mais nada”, disse ela, que está há seis meses no Brasil, depois de vir com o marido e filho da Bolívia.

A costureira disse ainda que segurou o menino no colo durante o assalto, se ajoelhou e implorou que os criminosos não matessem a criança. Porém, assustado com a situação, o garoto chorava muito, o que irritou os bandidos.

A boliviana relatou que o criminoso gritava para o menino “parar de chorar” e não chamar a atenção dos vizinhos. Irritado com o choro da criança, um dos criminosos atirou na cabeça do menino.

Continue lendo

Reflexões sobre o forte crescimento evangélico

Imagem: Google

Imagem: Google

Ricardo Gondim

“Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes, que as digam: morrerão os católicos sem confissão, nem sacramentos: pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de S. Jerônimo, e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegrar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero, beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias do Portugueses: e chegaremos a estado, que se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: Menino, de que seita sois? Um responderá, eu sou calvinista; outro, eu sou luterano. Pois, isto se há de sofrer, Deus meu?”

Padre Antônio Vieira, preocupado com o avanço holandês e a aparente apatia portuguesa para com o Brasil, pregou um sermão bombástico em 1640. Deu-lhe um título não menos agressivo: Sermão Pelo Bom Sucesso Das Armas De Portugal contra as da Holanda.

Ele temia naquelas priscas eras que o “pérfido calvinista” se multiplicasse na colônia lusitana de sua majestade. O sermão de Vieira, inclui uma oração a Deus. Temendo que os holandeses calvinistas se identificassem com o povo, excluindo os católicos, rezou assim:

“Que dirá o tapuia bárbaro sem conhecimento de Deus? Que dirá o índio inconstante, a quem falta a pia afeição de nossa fé? Que dirá o etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do batismo sem mais doutrina? Não há dúvida, que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa fé é falsa, e a dos Holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos sendo como eles. A seita do herege torpe e brutal, concorda mais com a brutalidade do bárbaro: a largueza e soltura da vida, que foi a origem e o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo…”

O catastrofismo medieval de Vieira sobre os altares católicos não se cumpriram. Milícias protestantes não anularam o catolicismo romano. Ainda não se deixou de celebrar o natal com presépios. Nenhum católico precisa morrer sem acesso à confissão. Entretanto, o crescimento protestante – por meio do segmento pentecostal – ganhou velocidade, como ele bem previu e temeu. As igrejas se multiplicam nas periferias das grandes cidades, os templos estão lotados. A agressividade proselitista do movimento parece longe de arrefecer. Com a pentecostalização das igrejas denominacionais históricas – Luteranas, Presbiterianas, Anglicanas, Metodistas, Congregacionais, etc. – o protestantismo de viés reformado também cresce. A presença evangélica se tornou tão evidente que os intelectuais dissertam sobre ela nas universidades; faz a pauta de jornais e revistas; e incomoda a cúria do Vaticano.

O movimento evangélico não se multiplica isento de problemas e dificuldades. Onde há pessoas, há idiossincrasias e virtudes, beleza e vício. Por estarem situados historicamente no tempo e na cultura, os evangélicos copiam acertos e erros da época. Daí ser mister que no frenesi do crescimento, vozes se levantem para alertá-los de que, embora numerosos, nunca devem pretender dominar o Brasil, como no pesadelo de Vieira.

A idéia de que o movimento tem a obrigação de converter o Brasil é tão anacrônica como a fala de Vieira. É perigosíssimo acreditar que repousa sobre os ombros do movimento o dever de suprimir expressões não evangélicas da cultura. Esse discurso não é mera coreografia religiosa e não impressiona apenas na liturgia interna. Não só empolga o coral. Caso tal pretensão realmente for levada a sério, o movimento vai descambar (se já não descambou) para um fanatismo reacionário e intolerante.

É preciso também contar com a ameaça do capitalismo. Os evangélicos – bem como a própria igreja católica – convivem com uma cultura fortemente influenciada por uma economia neoliberal. Talvez seja essa a tentação maior da igreja: conformar-se a continuar como mera empresa, gerida por técnicas administrativas. Em uma cultura de eficiência e sucesso, a religião sofre pressão do pragmatismo. E a piedade, instrumentalizada para satisfazer ambições pessoais, desemboca no individualismo. Qualquer expressão religiosa que pretenda manter-se íntegra, deve cuidar para não cair na tentação de adorar o deus ex machina – uma potência que reage a botões.

Visito ocasionalmente igrejas evangélicas do hemisfério norte. Fico impressionado com a nova postura dos pastores. Muitos assumiram o papel de executivos da fé. Os gabinetes pastorais se assemelham a escritórios de grandes multinacionais. Pastores se cercam de assessores e gastam mais tempo com reuniões de planejamento estratégico. O departamento de marketing fica no topo do organograma. Palestrantes ensinam como lubrificar a engrenagem administrativa da comunidade de fé. Uma gama enorme de especialistas em crescimento de igreja conduz seminários sobre como (eles adoram um “como”) tornar o louvor adequado ao auditório. Ensinam como orações precisam ser curtas para não aborrecer e como as músicas, mais palatáveis a ouvidos sensíveis. Para tais empresários da fé, se as igrejas providenciam bons estacionamentos, cadeiras confortáveis, ar condicionado, berçário para os recém-nascidos e uma excelente lanchonete, conseguem lotar os santuários e aumentar a arrecadação mensal.

Por mais bem intencionados que estejam, parecem menos interessados em lidar com valores espirituais do que gerenciais. Muitos perderam a noção de que o objetivo do Nazareno nunca foi lotar auditório, apenas inspirar corações a amar a Deus na relação com o próximo.

Cópia aculturada desse empreendedorismo gringo, o movimento evangélico se especializa para tornar-se maioria – em muitas cidades brasileiras já existem mais evangélicos por domingo nos cultos do que católicos nas missas. Acontece que em alguma esquina do tempo a ameaça do pragmatismo espreita.

A pergunta que se faz no mundo moderno é: funciona? E essa parece ser a maior preocupação do movimento. Na cultura grega, o conhecimento bastava; compreender parecia suficiente. Entre semitas o conhecimento visava produzir reverência. A cultura ocidental, que influencia o movimento, quer transformar conhecimento em técnica. Fundamentalistas já acusaram – injustamente – pentecostais de valorizarem as emoções acima da verdade. Hoje vale questionar se o neopentecostalismo não hierarquiza o útil acima da verdade; e se não cria uma nova cultura de eficiência como manifestação da fé.

Evangélicos crescerem não deve impressionar. No descompasso da espiritualidade e técnica, propõem temas moralistas enquanto carecem de ética; têm esperança com grandes buracos em maturidade humana; expressam fé com carência de ternura; revelam coragem com pouca discrição e humildade; possuem poder de mobilização, mas são rasos na teologia.

Uma resposta possível diante do medo do Padre Antônio Vieira é que o protestante brasileiro virou evangélico; e cresce a despeito dele mesmo. Fica a esperança de que a graça de Deus se revele nesses tempos dificultosos e que um remanescente talvez com outro nome sobreviva à loucura que acompanha a vitalidade do movimento. Vieira também notou o pecado de seus pares no Brasil católico provinciano e mesquinho do século XVII. Rezou assim:

“..E como sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os pecados do Brasil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes esses mesmos pecados, muitos e grandes, são um novo e poderoso motivo dado por Vós mesmo para mais nos convencer de vossa bondade.”

A nós só resta dizer Amém.

Soli Deo Gloria

Fonte: Blog do Ricardo Gondim