Francisco em terreno minado

Na visita à Terra Santa, o papa terá de tratar do delicado caráter religioso de Israel, sendo ele mesmo o chefe de um Estado religioso

foto: R7
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Frei Betto, em O Globo

A visita de três dias do papa Francisco ao Oriente Médio, a partir do próximo sábado, visa a comemorar os 50 anos da viagem de Paulo VI à região, em 1964, quando se encontrou com o patriarca de Constantinopla, Athénagoras. A viagem tem muitas implicações políticas. Ocorre em um contexto geopolítico complexo, agravado pela guerra na Síria, que entra em seu terceiro ano consecutivo e provoca forte impacto nos países vizinhos, sobretudo no que se refere à segurança e aos refugiados (1 milhão proveniente da Síria, acampado na Jordânia).

Após voar de Roma a Amã, o papa irá de helicóptero diretamente a Belém, onde será recebido por Mahmoud Abbas, presidente do Estado da Palestina. Será o terceiro chefe de Estado a dispensar Israel como “porta de entrada” nos territórios palestinos. Os dois primeiros foram o rei da Jordânia e o emir do Qatar.

À beira do rio Jordão, onde Jesus foi batizado por seu primo e precursor João Batista, Francisco encontrará refugiados sírios e palestinos. Em Belém, receberá famílias palestinenses e crianças dos campos de refugiados de Dheisheh, Aida e Beit Jibrin. Hóspede de Mahmoud Abbas, o papa dará visibilidade e confirmará reconhecer o Estado da Palestina (reconhecido pelo Brasil desde 2010), o que sem dúvida cria um constrangimento diplomático aos países que ainda não o reconhecem, como Israel, EUA e toda a Europa Ocidental, excetuando Islândia e Malta.

No domingo e na segunda, a agenda de Francisco em Israel prevê encontros com autoridades políticas e religiosas. Acompanhado por dois velhos amigos de Buenos Aires, o rabino Abraham Skorka e o professor muçulmano Omar Abboud, o papa enfatizará a importância do diálogo entre as religiões monoteístas.

O tríduo na Terra Santa, que abrange 20 etapas e 15 pronunciamentos, entre homilias e discursos, ocorre em um momento difícil entre o governo israelense e a Autoridade Palestina, cujas relações estão congeladas desde o acordo entre a OLP (Organização para a Libertação da Palestina) e o Hamas, no mês passado. O discurso papal diante do muro que separa a Cisjordânia está sendo aguardado com expectativa por palestinos e israelenses.

A questão mais delicada que Francisco terá de enfrentar é o caráter religioso de Israel, oficialmente um “Estado judeu e democrático”. Sobretudo porque a Palestina decidiu, há pouco, suprimir da carteira de identidade de seus cidadãos o item de identificação religiosa. A diplomacia vaticana teme que a declaração de uma nação religiosa hebraica incentive países árabes a se proclamarem estados islâmicos, o que poderia favorecer o fundamentalismo e dificultar ainda mais o atribulado caminho da paz no Oriente Médio.

O recomendável seriam estados democráticos, laicos, constituídos sobre a igualdade de direitos e deveres para todos os cidadãos. Ocorre que Francisco se encontra no olho do paradoxo: o Estado do Vaticano também é religioso, e seu chefe de Estado se confunde com o líder de uma determinada confissão religiosa, o catolicismo.

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Pessoas conservadoras comem mais carne, diz estudo

Pesquisa diz que comer carne tem a ver com posição política e necessidade de manter tradições (foto: Getty Images)
Pesquisa diz que comer carne tem a ver com posição política e necessidade de manter tradições (foto: Getty Images)

Publicado no Terra

Parece simples decidir o almoço ou o jantar. Mas, segundo um estudo da Brock University de Ontario, no Canadá, a escolha por comer carne ou salada pode ser muito mais do que uma refeição e, sim, uma evidência de suas ideologias políticas.

Segundo o artigo publicado na revista Personality and Individual Differences, pessoas de tendências mais conservadoras comem mais carne, enquanto aquelas com pensamentos considerados de esquerda costumam escolher mais salada. E, o motivo não é apenas por gostar demais de um churrasco, mas porque a decisão é tomada por um comportamento de se preocupar em manter algumas tradições.

Os pesquisadores fizeram uma série de perguntas para mais de 500 adultos sobre suas preferências políticas, relação com os animais e aprovação do consumo de carne. Assim, as pessoas que disseram comer muita carne tinham visões políticas mais direitistas, enquanto os vegetarianos mostraram maior preocupação com a cultura e em como as pessoas são superiores aos animais.

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Pessoas mais altas são mais inteligentes, de acordo com estudo

baixinhosStephanie D’Ornelas, no HypeScience

Para a fúria dos baixinhos, pesquisadores escoceses estão afirmando que pessoas altas têm maiores chances de serem mais inteligentes. Um novo estudo realizado na Universidade de Edimburgo encontrou uma ligação direta entre os genes relacionados à altura e os relacionados à inteligência.

De acordo com o artigo publicado na revista Behavior Genetics, o DNA de 6.815 pessoas aleatórias foi estudado. Para “mensurar” a inteligência dos participantes, foram feitos testes de tempo de reação mental, habilidade linguística, velocidade de processamento e capacidade de memória. As pessoas mais baixas mostraram, em média, inteligência levemente inferior do que as mais altas.

É importante frisar que os pesquisadores não estão sugerindo que todas as pessoas altas são necessariamente mais inteligentes do que as mais baixas. Eles estão apenas indicando as médias existentes em uma população. E o próprio conceito de inteligência é relativo – no estudo, foram utilizados métodos de medição do grupo escocês Family Health Study, que não adota testes de QI padrão.

Os pesquisadores afirmam que a relação entre altura e inteligência é apenas em parte genética, podendo ser atribuída, em grande parte, ao ambiente.

Outros estudos sugerem mais fatos curiosos que acompanham os altos e os baixinhos: acredita-se que os mais baixos são mais propensos a sofrer de doenças cardiovasculares, enquanto os mais altos tendem a morrer mais jovens. Estudos também sugerem que os mais altos ganham mais – mas as mulheres altas têm maior risco de desenvolver câncer. Não está fácil pra ninguém. [MedicalXpress]

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A cegueira da cegueira

cegueiraEd René Kivitz

A Bíblia Sagrada fala da experiência espiritual cristã como “passagem das trevas para a luz” e anuncia a irrupção do Reino de Deus na pessoa de Jesus. A descrição é clara: “O povo que estava em trevas viu uma grande luz”, e por essa razão aqueles que seguem a Jesus não andam em trevas. Quem nasceu de novo, isto é, recebeu o toque do Espírito Santo e acolheu o reinado de Deus em sua vida, foi iluminado e passou a ver, como o cego curado por Jesus: “Eu era cego, agora vejo.”

Jesus disse que o olho é a lâmpada do corpo. Assim, se você tiver um olho bom, todo o seu corpo será repleto de luz, mas se tiver um olho mau, tudo em você estará repleto de escuridão. E, continua, “caso a luz que está em você seja escuridão, quão terrível será essa escuridão”.

No judaísmo, “ter um olho bom”, um ayin tovah, significa ser generoso, e ter “um olho mau”, ou ayin ra’ah, significa o contrário — ser mesquinho. A cegueira é comparada ao egoísmo, a visão, à solidariedade, à compaixão e também à autodoação voluntária e ao serviço abnegado. Enxergar é servir. Andar na luz é praticar as “boas obras, preparadas de antemão para que andássemos nelas”, e sem as quais “a fé é morta”.

Aproveitando o dito popular que afirma que “o pior cego é aquele que não quer ver”, podemos crer que a pior cegueira é a cegueira da cegueira. Quem transforma a fé em Cristo numa crença inconsequente é cego que pensa que vê. E é cego de sua própria cegueira, isto é, o pior dos cegos. A distância entre a cegueira e a visão é a mesma que separa a indiferença do engajamento. Quem recebe a graça de ver recebe a missão de servir.

fonte: Facebook

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Os estupros fantasma da Bolívia

Os criminosos foram presos, mas os crimes continuam

Todas as fotos por Noah Friedman-Rudovsky. Noah Friedman-Rudovsky também contribuiu com informações para este artigo.
Todas as fotos por Noah Friedman-Rudovsky. Noah Friedman-Rudovsky também contribuiu com informações para este artigo.

Jean Friedman-Rudovsky, no Vice

Durante algum tempo, os residentes da colônia de Manitoba acharam que demônios estavam estuprando as mulheres da cidade. Não havia outra explicação. Como explicar o fato de uma mulher acordar com manchas de sangue e sêmen nos lençóis e nenhuma lembrança da noite anterior? Como explicar o caso de outra residente, que foi dormir vestida e acordou nua, coberta de impressões digitais sujas por todo o corpo? Como explicar que, depois de ter um pesadelo que consistia num homem a possuindo à força num campo, outra das colonas acordara na manhã seguinte com grama em seus cabelos?

O mistério de Sara Guenter era a corda. Às vezes, ela acordava em sua cama com pequenos pedaços de corda atados firmemente a seus pulsos e quadris, a pele embaixo deles azulada e dolorida. No começo do ano, visitei Sara em sua casa na colônia Manitoba, na Bolívia. Era uma construção simples de concreto pintado para se assemelhar a tijolos. Os menonitas são similares aos amish em sua rejeição à modernidade e tecnologia, e a colônia Manitoba, como todas as comunidade menonitas ultraconservadoras, é uma tentativa coletiva de se afastar o máximo possível do mundo dos não crentes. Uma leve brisa de soja e sorgo vinha dos campos próximos enquanto Sara me contava como, além das estranhas cordas, nas manhãs depois dos estupros ela também acordava com lençóis manchados, dores de cabeça arrasadoras e uma letargia paralisante.

Suas duas filhas, de 17 e 18 anos, estavam agachadas na parede atrás dela e me encaravam com seus ferozes olhares azuis. O demônio tinha penetrado na casa, disse Sara. Cinco anos atrás, suas filhas também começaram a acordar com lençóis sujos e reclamar de dores “lá embaixo”.

A família tentou trancar as portas. Em algumas noites, Sara fez de tudo para ficar acordada. Em outras ocasiões, um trabalhador boliviano da cidade vizinha de Santa Cruz chegou a montar guarda durante a noite. Mas, inevitavelmente, quando sua casa de um andar — afastada e isolada da estrada de terra — não estava sendo vigiada, os estupros aconteciam novamente (Manitoba não é ligada à rede de energia elétrica, então, a comunidade fica submersa na escuridão completa durante a noite). “Aconteceu tantas vezes que eu perdi a conta”, Sara me disse em seu baixo-alemão nativo, a única língua que ela fala, como a maioria das mulheres da comunidade.

 

Oito homens menonitas cumprem pena pelo estupro de mais de 130 mulheres na colônia Manitoba. Um dos supostos estupradores fugiu e hoje vive no Paraguai.
Oito homens menonitas cumprem pena pelo estupro de mais de 130 mulheres na colônia Manitoba. Um dos supostos estupradores fugiu e hoje vive no Paraguai.

No início, a família não tinha a menor ideia de que não era a única a ser atacada, então, eles não disseram nada a ninguém. Mas Sara resolveu contar tudo para suas irmãs. Quando os rumores se espalharam “ninguém acreditou nela”, disse Peter Fehr, o vizinho de Sara na época dos incidentes. “Achamos que ela estava inventando isso para esconder um caso.” Os pedidos de ajuda da família ao conselho de pastores da igreja, o grupo de homens que governa a colônia de 2.500 membros, foram infrutíferos — mesmo com as histórias se multiplicando. Por toda a comunidade, as mulheres começaram a acordar com os mesmo sinais matinais: pijamas rasgados, sangue e sêmen nas camas, dores de cabeça e estupor. Algumas mulheres lembravam breves momentos de terror: o instante em que acordavam com um homem ou alguns homens em cima delas, sem ter forças para gritar ou lutar. Depois, tudo caia na escuridão.

Lá, alguns chamaram isso de “imaginação selvagem feminina”. Outros disseram que era uma praga de Deus. “Só sabíamos que alguma coisa estranha estava acontecendo durante a noite”, disse Abraham Wall Enns, o líder civil da colônia Manitoba na época. “Mas não sabíamos quem estava fazendo isso, então, como podíamos impedir?”

Ninguém sabia o que fazer, então ninguém fez nada. Depois de um tempo, Sara aceitou que aquelas noites de terror eram fatos horríveis que faziam parte de sua vida. Nas manhãs seguintes, a família se levantava, apesar das dores de cabeça, trocava os lençóis e seguia com seu dia a dia.

Então, numa noite de junho de 2009, dois homens foram pegos tentando entrar numa casa da vizinhança. Os dois deduraram os amigos e, como um castelo de cartas, um grupo de nove homens de Manitoba, com idades entre 19 e 43 anos, finalmente confessaram que vinham estuprando as famílias da colônia desde 2005. Para incapacitar as vítimas e qualquer possível testemunha, os homens usavam um spray criado por um veterinário das redondezas, adaptado de um remédio usado para anestesiar vacas. De acordo com as confissões iniciais (que depois eles tentariam negar), os estupradores admitiram que — às vezes em grupo, às vezes sozinhos — se escondiam do lado de fora das janelas dos quartos à noite, borrifavam a substância através dos vãos das janelas para drogar famílias inteiras, e depois se esgueiravam para dentro.

Mas foi só durante o julgamento deles, que aconteceu quase dois anos mais tarde, em 2011, que o verdadeiro alcance de seus crimes veio à tona. As transcrições são um roteiro de filme de terror: as vítimas tinham idades entre 3 e 65 anos (a mais nova tinha um hímen rompido, supostamente por penetração com o dedo). As meninas e mulheres eram casadas, solteiras, residentes, visitantes e doentes mentais. Apesar de isso nunca ter sido discutido e não fazer parte do caso jurídico, residentes me contaram em particular que homens e meninos também foram estuprados.

Em agosto de 2011, o veterinário que fornecia o spray anestésico foi sentenciado a 12 anos de prisão e os estupradores receberam penas de 25 anos (cinco anos a menos do que a penalidade máxima boliviana). Oficialmente, foram 130 vítimas — pelo menos uma pessoa em mais da metade das casas da colônia Manitoba. Mas nem todos os estupros foram incluídos no caso legal e acredita-se que o número de vítimas seja muito, muito maior.

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dica da Fabiana Zardo

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