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Record intima artistas a inaugurar templo da Universal e cria mal-estar

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ANTONIO CHAHESTIAN/TV RECORD

Publicado no Notícias da TV

A Record está convidando apresentadores, atores e jornalistas para a inauguração do templo de Salomão, projeto faraônico da Igreja Universal do Reino de Deus, no próximo dia 31, em São Paulo. Os convites, no entanto, estão sendo interpretados como intimação, porque a Universal é liderada pelo bispo Edir Macedo, dono da Record. “Não se recusa convite do dono da empresa”, justifica um jornalista, que pede para não ser identificado.

A iniciativa da Record gerou constrangimentos nos bastidores da emissora. Elenco e executivos contrários à convocação argumentam que não se deve misturar religião com trabalho. Profissionais temem se “queimar” no mercado se aparecerem em fotos e reportagens sobre a inauguração do templo, que deverá contar com a presença da presidente Dilma Rousseff, contrariando conselhos de assessores do PT. Alguns artistas já estão providenciando viagens e compromissos fora de São Paulo no dia 31 para terem uma boa desculpa para a ausência.

Todos os apresentadores, os principais jornalistas e algumas dezenas de atores já foram ou serão convocados para irem à inauguração da igreja, que terá lugar para 10 mil pessoas sentadas. Vários nomes de peso já são dados como certos no evento, entre eles os apresentadores Rodrigo Faro, Ana Hickmann e Edu Guedes e os jornalistas Celso Freitas e Adriana Araújo, do Jornal da Record.

Em construção desde 2010, o templo é uma réplica ampliada da lendária igreja construída pelo bíblico rei Salomão em Jerusalém, há mais de 2.500 anos, com o interior e o altar cobertos de ouro. O templo de Edir Macedo está sendo erguido no bairro do Brás, na zona leste de São Paulo. Com 74 mil metros quadrados de área construída e 56 metros de altura, o equivalente a um prédio de 18 andares.

O projeto da igreja segue “orientações bíblicas” e incorpora elementos para “resgatar a atmosfera da época vivida por Salomão”, como madeira, pedra e cobre, que “serão usados em larga escala na área da nave”. Edir Macedo decidiu não revestir seu templo com ouro, mas importou pedras de Israel.

O templo terá duas inaugurações. uma no dia 31, com autoridades e elenco da Record, e outra no dia 14, com todos os pastores da Universal no Brasil e representantes da igreja no mundo todo.

Marcha para Jesus reúne ao menos 250 mil

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Publicado no Estadão

Vestindo camisetas personalizadas da seleção brasileira, pelo menos 250 mil pessoas estiveram presentes ontem na 22.ª edição da Marcha para Jesus, em São Paulo. O número, informado às 15h30, foi dado pela Polícia Militar, mas os organizadores do evento falaram em “milhões de participantes” no site oficial. O uniforme com as inscrições do evento trouxe o número 33 nas costas, que representa a idade da morte de Cristo. O tema de 2014 foi “Conquistando Para Cristo”.

Organizada e presidida pelo apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer, a marcha reuniu igrejas cristãs de várias denominações. Ela percorreu quatro quilômetros pela Avenida Tiradentes, da Praça da Luz, no centro, até a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira, na zona norte. No percurso, oito carros de som variaram pregações, escola de samba, grupos de rap e cantores gospel.

O evento ainda contou com bandas evangélicas como Eyshila, Renascer Praise e a cantora Ana Paula Valadão, organizadas em um palco na praça Campo de Bagatelle, na zona norte. A marcha teve início às 10h. Em alguns pontos, foram vistas faixas de cunho político, de defensores da ditadura militar a jovens pedindo mais ética na política. “Ela (a marcha) representa nosso desejo de expressar essa fé e declarar a bênção do Senhor sobre nosso país!”, afirma Hernandes.

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) organizou uma operação especial para o evento em 47 pontos do percurso, mas houve congestionamento nas zonas norte e oeste da cidade.

A fonoaudióloga Priscila Agostinho, de 29 anos, participou da Marcha pela 15.ª vez. Desde os 14 anos ela vem ao evento. Trouxe o namorado Júlio César Alves pela segunda vez na caminhada. “Eu era católico e ela me trouxe pela segunda vez. Me senti muito bem”, disse Alves. “Você é abençoado, é um dia que tira para Jesus”, disse Priscila. Segundo o casal, este ano a edição foi especial por ser época da Copa. “A alegria e a animação são maiores”, contou Priscila, que saiu cedo de Piracicaba (no interior de São Paulo) com o namorado para prestigiar a Marcha.

O produtor gráfico Marcelo Caetano, de 38 anos, está presente na marcha há 11 anos. Ontem, ele levou os filhos Juan, de 10, e Lorena, de 2. “Está sendo ótimo. Aqui não tem confusão. Está sendo uma bênção”, disse.

Insistência. Pela terceiro ano seguido, o manobrista Daniel Francisco da Silva perdeu o evento por causa do trabalho. Aos sábados, a churrascaria em que trabalha costuma estar lotada. Desta vez, ao menos, ele esteve próximo e pode sentir a “vibração” do movimento: a empresa fica na Avenida Olavo Fontoura, primeira via de saída do palco em que as bandas se apresentaram. Era até possível ouvir as músicas. “Gosto da marcha porque todos estão unidos em um só pensamento. São pessoas de denominações diferentes, mas todos demonstram uma forma de expressar amor a deus”, argumenta. Nas edições de 2013 e 2012, Silva trabalhou como garçom. Ele é evangélico desde os 11, por influência do pai. “Meu pai parou de beber e sair muito graças a igreja e eu segui o caminho dele”, explica. Souza diz que não é frequentador assíduo de festas e, nos dias de folga, costuma ir ao shopping com a mulher e à igreja. Para 2015, uma promessa: “vou fazer de tudo para estar lá”.

Bebidas. Diferentemente de outras festas de rua, não há uma cerveja sequer na Marcha.  Quem busca bebida encontra sucos industrializados e refrigerantes. O vendedor Alex Cairos, 34, explica: “está escrito na Bíblia que você pode beber, mas não se embriagar. Ou seja, nada de álcool.  Um vinho, no máximo,  que é o sangue de Cristo”. Alex era católico e se converteu há dois anos, depois de um período em que considerou estar sem propósito na vida. “O queco mundo me oferecia era apenas momentâneo”, relata. Segundo Cairos, depois de entrar para a denominação “Sara nossa Terra”, de uma igreja evangélica da Saúde,  zona sul, sua vida mudou. “Consegui casamento, carro próprio e deixei a casa da minha sogra. Hoje moro em casa alugada e logo compro a minha”, contou. Os 70 reais obtidos por Cairo com a venda dos sucos serão revertidos, segundo ele, para um projeto social de sua comunidade, o Parceiro de Deus, que trabalha com alcoolatras e dependente s químicos.

Universal manda artistas da Record apoiarem bispo

formigoniKeila Jimenez, na Folha de S.Paulo

Artistas da Record estão indignados com as imposições da Iurd (Igreja Universal do Reino de Deus) na emissora.

A mais nova iniciativa da entidade religiosa envolve todo o casting de apresentadores da emissora, que foi convocado a gravar depoimentos a favor da “Campanha contra os Vícios”, do bispo Rogério Formigoni (foto), da Universal.

Formigoni é conhecido por promover sessões em que promete curar viciados de crack e outras drogas. Sem ao menos serem consultados, os apresentadores foram recrutados a gravarem vídeos apoiando a campanha do bispo, que serão utilizados em cultos religiosos e em programas da Universal na TV.

Alguns apresentadores chegaram a questionar se era mesmo necessário emprestar a imagem à causa e receberam ordens expressas da Record para gravar os vídeos sem gerar conflitos, seguindo um roteiro de depoimentos já escrito pela igreja.

Os textos traziam mensagens como: “Sou aliado de Formigoni nessa jornada por um Brasil melhor”.

Embora não pertença à Iurd, e sim ao líder religioso da entidade, Edir Macedo, a Record tem em seu alto comando pastores e bispos.

Procurada, a emissora diz que a iniciativa foi apenas um convite aos artistas. A Igreja Universal não se pronunciou sobre o assunto.

Ney Matogrosso: “Se existia tanto dinheiro disponível para gastar na Copa, por que não resolver os problemas do nosso país?”

Augusto Nunes, na Veja on-line

Pouco mais de duas semanas depois do ex-presidente Lula exaltar as conquistas do Brasil Maravilha numa entrevista à emissora portuguesa RTP, o cantor Ney Matogrosso escancarou, durante um programa no mesmo canal, algumas verdades do Brasil real. Ao ouvir do apresentador Vítor Gonçalves a pergunta “Como está o Brasil?”, um dos maiores artistas do país responde: “Existe um enorme desconforto”, começa. “O governo brasileiro está gastando bilhões de reais para fazer estádios, enquanto nos hospitais públicos as pessoas estão sendo jogadas no chão, em cima de um paninho”.

A partir daí, Ney fala sobre educação, transporte público, Bolsa Família e corrupção antes de fazer a pergunta que todos os brasileiros decentes se fazem há meses: “Se existia tanto dinheiro disponível para gastar na Copa, por que não resolver os problemas do nosso país?”.

O espírito natalino que não canta ‘Jingle Bells’

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Por Julio Maria, no Estadão

O Natal feliz do AC/DC tem três mulheres que só chegam à noite, vestidas de vermelho, tocando sinos e incendiando os solos da guitarra de Angus Young. O de Eric Clapton tem uma só, menos objeto, mais sensível, que resolve partir pela noite chuvosa antes mesmo da entrega dos presentes, deixando uma dor que faz suas cordas arderem de solidão. BB King está bem melhor. Sua Christmas Baby lhe cobriu de beijos e colocou um anel de diamantes em seu dedo dias antes da ceia. Ele canta e sola como se o mundo pudesse acabar ali mesmo, naquele 25 de dezembro de algum ano em que todos eram jovens.

Quando todos eram jovens e Simone ainda não havia nascido no calendário cristão, o Natal vinha com peru e boa música. Ainda é assim, sobretudo nos Estados Unidos, onde os artistas jamais sentiram vergonha de receberem o espírito natalino. Frank Sinatra, Tony Bennet, Jackson Five, Rod Stewart, Elvis Presley, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald, Harry Connick Jr, U2, Diana Krall, o próprio BB King – todos lançaram, ou permitiram que suas gravadoras lançassem, discos pensados especialmente para a data. A discografia do blues, do jazz e do rock and roll é generosamente inspirada por uma festa que, no Brasil, jamais rendeu nada além de canções folclóricas e anacrônicas.

Natal por lá é Please, Come Home For Christmas, que o pianista Charles Brown lançou em 1960, meio blues, meio rock, adotada como um hino para seu País. Uma canção com força para ser regravada por mais de 60 artistas, incluindo as versões consideradas definitivas do Eagles e do demônio albino das seis cordas do blues texano chamado Johnny Wynter. Natal por lá é Happy Christmas, o hino pacifista anti guerra do Vietnã que John Lennon lançou em 1971 com sua Plastic Ono Band. Uma canção com força o suficiente para fazer com que todos se esquecessem da existência de Yoko Ono, que ainda ardia na fogueira alimentada pelo fim dos Beatles.

Aos que confundem Charlie Brown com James Brown, o soulman, nenhum problema. James também fez seu fogo de artifício para ser disparado em noites natalinas quando gravou Soulful Christmas. Nada de tiradas espirituosas ou hinos dobrando. Nada de corais infantis do Harlem louvando o nascimento do menino Jesus. Brown enfiou foi uma linha de walking bass, o baixo caminhante de Bootsy Collins, no groove recortado pela caixa do batera Clyde Stubblefield, chamou os metais para a briga e cantou seu Jingle Bells de bordel: “Feliz Natal, feliz Ano Novo / Quero que você seja feliz / Eu te amo / James Brown te ama / Sua sorte é grande / Estou sentindo sua falta…” E por aí vai em sua abordagem sexual natalina.

Natal por lá rende um cascalho a mais que pode ajudar povos em apuros no mundo com um Papai Noel sem barba chamado Bono. Pois seu U2 cantou em 2008 I Believe in Father Christmas (Eu Acredito no Papai Noel) para pedir contribuições pela internet a uma campanha que combate a AIDS no continente africano. Música de Natal em contexto mais apropriado, impossível.

Os ingleses levam a data tão a sério que os Beatles, mesmo depois de já serem os Beatles, passaram um tempo gravando mensagens de amor e prosperidade e canções inéditas para serem tocadas em dezembro. Uma delas, Christmas Time is Here Again, de 1965, só veio à tona em 1995, quando foi lançado o álbum Free as a Bird.

Natal por aqui começa com Simone. Não é culpa da baiana que a versão 25 de Março deHappy Christmas esteja alojada sob sua epiderme desde 1995 (em um ano serão 20 Natais com a mesma trilha). Então é Natal parece ter engolido seus 50 anos de carreira, mesmo tendo ela voz e substância para ser mais que isso.

Natal por aqui é Noite Feliz, versão de uma canção austríaca de 1818, gravada em 45 idiomas, e outro reflexo do hábito regional de se hastear bobagens em patrimônios da humanidade. Por aqui, Noite Feliz foi gravada por Patricia Marx, Sandy & Junior, Xuxa Meneghel e pela cantora gospel Aline Barros.

Houve uma vez por aqui, talvez a única, em que um trenó surgiu nos céus do Brasil, conduzido por uns garotos punks de Mauá, vindos do ABC paulista. Chegavam com sangue nos olhos para derrubar o capitalismo selvagem. O anti-Natal dos Garotos Podres deixou o que talvez seja a segunda música mais lembrada na discografia natalina nacional, depois de Simone, claro. O título da canção original era Papai Noel F.D.P (se hoje o jornal não pode escrever o termo, imagine em 1984). Para não serem pegos pela censura, mudaram para Papai Noel Velho Batuta, mas não aliviaram a vida do velhinho: “Papai Noel, velho batuta / Rejeita os miseráveis / Eu quero matá-lo / Aquele porco capitalista / Presenteia os ricos / E cospe nos pobres.”

A alta patente da MPB quer mais é distância do espírito natalino. Nada consta nos top 10, 20 ou 30 de Gil, Caetano, Djavan, Chico Buarque ou Milton Nascimento que esbarre em um trenó. Por outro lado, mesmo sem cantar uma grande canção natalina, Roberto Carlos virou ele próprio uma música de Natal. Há 40 anos faz o mesmo especial na Globo para ser servido com chester no final de dezembro.

Explicações ainda são chutes quando se tenta entender o fenômeno: afinal, o que faz com que duas culturas musicais tão ricas se comportem de formas tão antagônicas diante do espírito natalino? Se o Natal existe para espalhar o amor ao próximo, o que o faz ser rejeitado por artistas que sustentam suas carreiras justamente com canções de amor? Talvez, amor ao próximo por aqui não seja um tema tão inspirador.