Malafaia repeliu tentativa de aproximação do Planalto

Teresa Perosa, na Época online

O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República, convocou a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) para um encontro e deu-lhe uma missão: conquistar para a presidente Dilma Rousseff o apoio do pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus-Vitória em Cristo.

Apoiador do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Malafaia fez campanha contra Dilma em 2010. Benedita pediu a Malafaia para, ao menos, reunir-se com Carvalho. “Agora? Estão quatro anos atrasados. Não recebo”, disse o pastor. Procurada, Benedita não se manifestou.

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Malafaia diz que Dilma o persegue por pedir cadeia aos mensaleiros

“Esses caras aí [os pastores] falam isso de mim por dor de cotovelo. Porque tomam o maior sarrafo da minha teoria teológica. Só um idiota babaca pra falar o que essas caras falaram!”

Manifestação organizada pelo pastor evangélico Silas Malafaia em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, reúne multidão em favor da liberdade religiosa, da vida e da família tradicional em Brasília (foto: Roberto Jayme/UOL)
Manifestação organizada pelo pastor evangélico Silas Malafaia em frente ao Congresso Nacional, em Brasília, reúne multidão em favor da liberdade religiosa, da vida e da família tradicional em Brasília (foto: Roberto Jayme/UOL)

James Cimino, no UOL

O pastor Silas Malafaia disse durante entrevista ao UOL o motivo pelo qual votaria em qualquer candidato (“até em Levy Fidelix”) contra a presidente Dilma Rousseff. Segundo ele, a candidata petista e seu partido o perseguem desde que ele fez uma manifestação no ano passado, em frente ao Palácio do Planalto, pedindo cadeia aos mensaleiros.

“O PT trata bandido como exemplo! Chega de PT. Doze anos do partido que mais roubou na história!”, disse o pastor, que no ano passado intimidou fieis de sua igreja que não denunciassem pastores acusados de corrupção. “Ninguém deve se meter com os ungidos de Deus. Meu irmão, isso é coisa muito séria, eu já vi gente morrer por causa disso!”

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

UOL – Entrevistamos dois pastores, um da igreja Betesda e outro da igreja Anglicana, e perguntei a eles sobre sua influência política entre evangélicos. Eles disseram que o senhor tem menos influência do que gosta de propagar. O que o senhor acha disso?

Silas Malafaia – Olha, quem fala isso deve ter dor de cotovelo de mim. Todas as vezes que me posicionei sobre isso, eu disse que não existe líder evangélico máximo no Brasil. Todos os líderes evangélicos têm uma certa influência. E não fui eu que falei, que me posicionei [sobre a mudança no programa de governo de Marina Silva], foi Jean Wyllys. Foi o ativismo gay. Eu apenas me dirigi a quem me segue. E isso é um direito meu. Aí ele quem disse que por minha causa a Marina mudou. E esses caras aí [os pastores] falam isso de mim por dor de cotovelo. Porque tomam o maior sarrafo da minha teoria teológica. Só um idiota babaca pra falar o que essas caras falaram! Olha o termo que eu vou usar: Idiota babaca!!! Nunca falei que sou melhor que os outros. Não me dou essa importância.

O senhor disse em várias ocasiões que não apoiaria Marina porque ela, como cristã, não era muito assertiva. Por que o senhor mudou de opinião?

Eu falei isso quatro anos atrás. Lembra que na eleição presidencial passada o negócio ficou acirrado por causa de aborto? Então, aí a Marina chegou a disse assim: “Eu faço um plebiscito sobre o aborto.” Para mim ela tinha que dizer o seguinte: “Eu sou contra o aborto, mas apoio um plebiscito.” Achei hipocrisia. Aí eu deixei de apoiá-la e fui até o Serra. Usei a seguinte frase: “Pior que um ímpio é o cristão que dissimula.” Fiquei indignado na época. Mas usar uma coisa de quatro anos atrás não tá valendo pra agora.

O senhor acha que ela muda muito de opinião como Aécio e Dilma estão dizendo?

Acho que ela muda menos de opinião que eles. O que Aécio e Dilma dizem está no campo do debate político. Interesse eleitoral.

Por que o senhor diz em seu Twitter que a presidente Dilma o ataca?

Meu filho, eu estou sofrendo a maior perseguição que nenhum pastor, padre ou igreja já sofreu até hoje. Em junho do ano passado nós fizemos uma manifestação em Brasília, com 70 mil pessoas às quatro horas da tarde em que eu pedi cadeia aos mensaleiros. Botei pra arrebentar! Um mês depois, olha que coincidência incrível, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo e a Associação Vitória em Cristo, em que eu trabalho com obras sociais e programas de televisão, entraram em procedimento fiscal. Estou há 14 meses com várias equipes de auditores para fazer uma devassa nas minhas contas. Eu disse: “Eu não sou ladrão, vão quebrar a cara.” Fiquei quieto na época senão iam dizer que eu estava com medo. Eles usam a prática nazista, comunista, fascista para detonar a credibilidade de pessoas! É a prática deles meu irmão! Agora tem a eleição e eu estou em cima! E eu te digo uma coisa: Se o Levy Fidélix fosse para segundo turno contra a Dilma eu votaria nele. E deixa eu te falar outra coisa que eu acho importante dizer: Marina não é candidata dos evangélicos. Marina é a candidata do brasileiro que quer mudança no país. Tem evangélico que vota em Aécio. Tem evangélico que vai votar na Dilma. Ela é a candidata de todo mundo que está de saco cheio do PT. O PT trata bandido como exemplo! Chega de PT! 12 anos do partido que mais roubou na história!

Quanto o senhor acha que seu twitaço influenciou na decisão de Marina Silva em mudar seu programa de governo?

Se os meus tuítes tivessem influenciado Marina, ela teria modificado um monte de coisa do seu programa que eu continuo sem concordar. Os meus tuítes deram alerta para que o pessoal da campanha verificasse o que os ativistas LGBT da campanha fizeram. E o ativismo gay quer tudo e dane-se o que os outros pensam. E eu não estou falando dos homossexuais, estou falando do ativismo gay. Agora, o programa da Marina não tem uma linha que contemple a ideologia cristã…

O que o senhor gostaria que tivesse contemplado da ideologia cristã no programa?

Nada! Não quero privilégios para evangélicos! O que eu disse foi que tem muitos pontos ali que eu não concordo, como adoção de crianças por homossexuais. Não concordo.

Mas o senhor discorda, por exemplo, que outros 29 direitos civis que são negados aos homossexuais sejam regulamentados, como o direito a herança, por exemplo…

Quem disse que precisa de união civil para ter herança? Herança o cara deixa para qualquer um. Isso é falácia…

Na verdade não é bem assim. Segundo o Código Civil brasileiro, 50% da herança, por lei, tem que ir para seus herdeiros necessários, que são os filhos, depois os pais e em terceiro o cônjuge. Você só pode dispor dos outros 50%…

Então, aí vai para os pais dos homossexuais também. É igual para todo mundo… (mais…)

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Em evento religioso em São Gonçalo (RJ), Aécio mira voto evangélico

Candidato do PSDB deverá visitar outras Igrejas Evangélicas na reta final da campanha

O candidato à Presidência da República, Aécio Neves, participa do Congresso Internacional de Missões na Igreja Flordelis, no bairro Mutondo, em São Gonçalo (foto: Márcio Alves / O Globo)
O candidato à Presidência da República, Aécio Neves, participa do Congresso Internacional de Missões na Igreja Flordelis, no bairro Mutondo, em São Gonçalo (foto: Márcio Alves / O Globo)

Marco Grillo, em O Globo

Reafirmando suas posições contrárias à descriminalização das drogas e à legalização do aborto, o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, participou de um culto do Congresso Internacional de Missões, evento organizado pelo Ministério Flordelis, congregação religiosa ligada à Assembleia de Deus. Acompanhado da mãe, Inês Maria, e da filha mais velha, Gabriela, o senador discursou em defesa da família e afirmou que as igrejas evangélicas foram grandes parceiras de Minas Gerais no período em que foi governador do estado.

Ao final do evento, batendo palmas, cantando o refrão e erguendo o braço em diversos momentos, Aécio acompanhou a pastora Flordelis durante a música “Volta por cima”, um dos sucessos da carreira da missionária.

Aécio deverá ir a igrejas evangélicas em outros estados na reta final da campanha. No Rio, ainda não há nova agenda prevista. Adversária direta de Aécio na briga para chegar ao segundo turno, a candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, lidera as intenções de voto entre os eleitores evangélicos, segundo as pesquisas mais recentes.

Aécio esteve no palco durante toda a celebração e foi convidado a discursar pelo deputado federal e candidato à reeleição Arolde de Oliveira (PSD), que também é pastor.

– Tudo tem jeito sim. Desde que se tenha fé, humildade e se possa permanentemente louvar a Deus. Para mim, é uma honra estar aqui reforçando minhas convicções e minha fé inabalada de que o Brasil pode ser mais justo e cada vez mais solidário. Um Brasil que valorize a família – afirmou Aécio, que falou por 11 minutos. – As minhas posições são claras em relação aos temas aqui elencados, que fazem parte do nosso programa de governo. Somos contra a descriminalização das drogas porque não achamos que elas possam trazer qualquer benefício para uma sociedade já conturbada e não vejo como a legalização do aborto possa fazer o Brasil melhor do que esse que nós temos hoje. Não é uma proposta que eu trago hoje, já faz parte das minhas convicções há muito tempo.

O deputado federal Júlio Lopes (PP) e o deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha (PSDB), ambos candidatos à reeleição, também participaram do evento. Para Arolde de Oliveira, o saldo da visita de Aécio Neves foi positivo.

– Foi um dia de ajustar o discurso. Conversei muito com ele (Aécio). Os evangélicos representam 25% do eleitorado – afirmou.

Após o encerramento, Aécio teve uma reunião a portas fechadas com os pastores Flordelis e Ânderson do Carmo, líderes da Igreja.

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Voto evangélico ainda está em formação

Candidata Marina Silva tem a preferência dos evangélicos
Candidata Marina Silva tem a preferência dos evangélicos

Adriana Carranca, no Estadão [via A Tarde]

Se as pesquisas apontam predisposição dos eleitores evangélicos em votar na candidata Marina Silva (PSB), não há ainda convicção no voto. O Estado percorreu templos das dez maiores denominações evangélicas em São Paulo e entrevistou quase uma centena de fiéis sobre em quem votariam para presidente e por quê. Encontrou um eleitorado hesitante, desconfiado da capacidade de Marina de governar, embora ela tenha preferência entre os fiéis; insatisfeito com a presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT), apesar de ela ser vista como favorita; e distante de Aécio Neves (PSDB).

A consulta, embora não tenha valor estatístico, serve como termômetro da atmosfera entre eleitores em São Paulo, maior colégio eleitoral do País. E indica: a menos de um mês do 1.º turno, a disputa continua em aberto.

Ao contrário do que apregoam pastores como Silas Malafaia e o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que na semana passada indicaram apoio a Marina, os valores religiosos não aparecem como as principais preocupações dos eleitores entrevistados.

“Eles deveriam se preocupar menos com o casamento gay e mais com a saúde, porque o povo está morrendo no corredor do hospital lá da minha região”, disse a diarista Maria de Souza, na saída do culto da Assembleia de Deus – Ministério de Madureira, no Brás, na região central.

“Sempre fui petista, mas estou arrependida. O Aécio não sei o que faz. A Marina… É, estava pensando em votar nela, porque é evangélica, mas eu estou com tanta raiva de político, que esse ano acho que não vou votar em ninguém, nem se o pastor pedir. Acho que esse ano, nem se Deus mandar!”

No entorno do templo no Brás, o líder da igreja aparece em propaganda eleitoral ao lado do pastor Cesinha e de Jorge Tadeu, candidatos a deputado estadual e federal pelo DEM, coligado ao PSDB. “O pastor Samuel Ferreira apoia”, lê-se nos cavaletes. Ferreira, porém, deve declarar apoio a Dilma, sinalizado quando a presidente visitou o templo, em 8 de agosto, a convite do pastor. Seu pai, bispo Ferreira, é o primeiro-suplente na candidatura do petista Geraldo Magela ao Senado pelo Distrito Federal.

É um exemplo das divisões internas na Assembleia de Deus, igreja que Marina Silva integra.

Ela está tecnicamente empatada com Dilma nas pesquisas, com 33% das intenções de voto contra 37% da rival. Mas salta para 43% entre evangélicos e dispara num eventual 2.º turno porque tem o dobro dos votos da petista entre os fiéis dessa religião.

O eleitor petista, porém, é menos pendular – 61% dos eleitores de Dilma estão convictos da decisão ante 50% de Marina. “Ser evangélico tem peso maior. Então, Marina seria a minha candidata, mas como ela entrou na disputa gora, ainda estamos avaliando propostas”, disse o montador de móveis Luiz Roberto, de 30 anos, em visita ao Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus.

Para ele, o recuo da candidata evangélica sobre a criminalização da homofobia e o casamento gay, embora tenha agradado a setores da igreja, demonstrou “insegurança”. “Foi um ponto negativo para Marina. Me deu a impressão de que ela não tem firmeza.”

Luiz Roberto é carioca e diz que, para governador do Rio, votará no senador Marcelo Crivella, do PRB, partido da base aliada do PT, que tem o apoio do bispo Edir Macedo, líder da Universal. A opinião do bispo conta, ele diz, por isso, se não votar em Marina, sua opção será por Dilma.

“Para mim não faz diferença. Vou em quem o pastor mandar, porque nesse meio político tem muita gente que quer atrapalhar o trabalho da igreja”, diz a empregada doméstica Débora Silva, de 28 anos, da Igreja do Evangelho Quadrangular.

“A mudança intempestiva do programa de governo por Marina foi malvista mesmo entre evangélicos. Muitos perderam a confiança nela”, acredita o cientista político Carlos Macedo, professor do Insper. “Além disso, embora Marina seja evangélica, a identidade dos fiéis com seus líderes religiosos é maior. A palavra do pastor é importante. E não podemos esquecer que o PT tem raízes populares inclusive nesse setor. Já o PSDB de Aécio não tem. Nenhum eleitorado decide sozinho uma eleição, é claro, mas sem apoio dos evangélicos, os candidatos vão mal.” E eles sabem disso.

Errata

Menos de 24 horas depois de publicar um programa de governo que defendia o casamento de homossexuais, entre outros temas polêmicos, Marina divulgou uma “errata” eliminado esse pontos a tempo de o assunto não chegar aos cultos de sábado à noite. Dilma correu para anunciar que apoiaria no Congresso lei que dá benefícios às religiões, apresentado em 2009 pelo deputado George Hilton (PRB-MG), ligado à Igreja Universal que a apoia. Em 2010, o aborto foi tema de destaque.

Eleitores entrevistados, porém, demonstraram menos preocupação com esses assuntos na hora de votar do que seus líderes. “Ser evangélica conta a favor de Marina, porque nós compartilhamos valores de família, mas o que conta mesmo é o fato de ela ser uma alternativa fora do PT e do PSDB”, diz a empresária Eliane Peixoto, de 52 anos, da Assembleia de Deus.

Luciano Borges, de 37 anos, da Igreja Apostólica Vida Nova, na Mooca, na zona leste, também quer ver o fim da polarização entre PT e PSDB, mas diz ainda ter dúvidas sobre a capacidade de Marina governar. “Não sei se ela vai ter poder no Congresso”, diz. Pelo mesmo motivo, não vai votar no Pastor Everaldo (PSC). “Eu também sou contra o casamento gay, mas, para administrar um país do tamanho do Brasil, isso só não basta. É preciso ter pulso firme!”

Fiel da Igreja Presbiteriana, o vendedor de livros Airton de Oliveira, de 52 anos, cresceu em Minas, Estado governado por Aécio entre 2003 e 2010, e vive há seis anos em São Paulo, sob governo tucano desde 1994. “No PSDB não voto mais. No PT também não. Chega, né?”, afirma, emendando a fala em outra pergunta. “Mas será que Marina vai conseguir cumprir as promessas de campanha?”

“Apesar de as pesquisas darem vantagem a Marina, seu eleitor é mais volátil. Ele está dando um voto de confiança a ela, após a morte de Eduardo Campos (em um acidente aéreo, em agosto), mas pode mudar de opinião no decorrer da campanha”, diz o cientista político Marco Antonio Carvalho, professor da Fundação Getúlio Vargas. “Além disso, as lideranças evangélicas estão polarizadas com Dilma. Já Aécio está deslocado.”

O tucano, que em agosto se reuniu com 2 mil líderes da Assembleia de Deus – Ministério do Belém, foi mencionado como favorito no 1.º turno somente por entrevistados da Igreja Batista, uma das mais conservadoras. Marina aparece como a alternativa deles a Dilma no 2.º turno.

Os evangélicos são 22,2% da população, segundo o Censo 2010. Somam 28 milhões de eleitores. Desde o ingresso de Marina na disputa, as campanhas dos três principais candidatos iniciaram uma corrida por esse voto.

“Em uma disputa tão polarizada, e se considerarmos que eles têm um comportamento coeso, os evangélicos podem decidir essa eleição”, avalia Carvalho. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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A força dos evangélicos

Como a identificação de Marina Silva com o influente eleitorado evangélico poderá ser o fator de desequilíbrio numa disputa acirrada

849_capa_home Aline Ribeiro, Ruan de Sousa Gabriel e Tiago Mali,  na Época

Vários sinais contundentes mostraram, na semana passada, como as questões morais, de cunho religioso, passaram a guiar os políticos brasileiros – com uma força que só encontra paralelo, entre as grandes democracias ocidentais, com o que ocorre hoje nas campanhas políticas nos Estados Unidos.

Um dia depois de lançar seu programa de governo, a candidata Marina Silva (PSB), hoje favorita a conquistar o Palácio do Planalto, depois de pressionada nas redes sociais pelo pastor Silas Malafaia, um dos líderes da Assembleia de Deus, voltou atrás numa série de compromissos. O primeiro dizia respeito à união civil homossexual. Marina é a favor – e reafirmou isso em vários programas de televisão ao longo da semana. Mas não queria que a união civil constasse, em seu programa de governo, com o nome de “casamento”, um sacramento religioso.

O segundo ponto dizia respeito à lei que torna a homofobia um crime, defendida na primeira versão de seu programa. Essa lei já foi rejeitada no Senado. Religiosos alegaram na ocasião que ela não dizia com clareza se dogmas pregados nos templos, sem intenção ofensiva, poderiam ser classificados como “homofobia”.

Com a atitude, Marina ganhou o aplauso dos religiosos. “Ela teve coerência. Tem coisa que o candidato promete e não dá para fugir”, diz Malafaia. “Tínhamos dificuldades para falar com ela, porque ela dava respostas para agradar a gregos e troianos”, afirma o pastor Marco Feliciano, deputado federal pelo PSC de São Paulo. Feliciano é execrado pelo movimento LGBT, por ter defendido, na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o projeto da “cura gay”. “No momento em que Marina teve de se decidir de fato, ela se colocou como uma cristã de verdade”, diz ele. Marina atribuiu o vaivém a um “erro no processo de editoração” de seu programa.

Percebendo um flanco para atacar contradições da rival, a presidente Dilma abraçou a defesa da lei contra a homobofia – embora ela tenha  recuado na decisão de distribuir material didático a favor da tolerância sexual, tachado como “kit gay” pelas lideranças evangélicas.

O recuo de Marina choca os marineiros “sonháticos”, mas, de um ponto de vista estritamente eleitoral, faz sentido. Embora conserve o título de país com o maior número de católicos do mundo, o Brasil avança com rapidez para se tornar uma nação mais evangélica. Em dez anos, os evangélicos passaram de 15,4% da população para 22,2%, um total de 42,3 milhões. Com 22% do eleitorado, somam hoje quase 27 milhões de votos.

Embora Marina Silva não seja da bancada evangélica e, em sua carreira política, tenha sempre defendido valores laicos, a maioria dos evangélicos vota nela – 43%, contra 32% de Dilma, segundo a pesquisa do Ibope divulgada na semana passada. Um outro dado da mesma pesquisa, que passou despercebido, explica ainda melhor por que é tão importante para um candidato à Presidência não se indispor contra os valores religiosos.

De forma geral, os candidatos evangélicos se opõem – com diferentes nuances de tolerância – ao casamento gay, a mudanças na lei da interrupção da gravidez e à liberação das drogas. A pesquisa do Ibope mostrou que a maior parte dos brasileiros, independentemente de religião, pensa como os evangélicos: 79% são contra o aborto; 79%, contra a liberação da maconha; e 53%, contra o casamento gay.

A mesma pesquisa revela que 75% dos brasileiros são a favor do Bolsa Família. Isso significa que, se é majoritariamente a favor de políticas sociais, a sociedade brasileira é conservadora em temas ligados a família e comportamento.

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