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Deus prefere os ateus

Uma brincadeira bem-humorada sobre o fato de ateus não torrarem a paciência do Todo-Poderoso

Tony Bellotto, em O Globo

Despedida

Tocante o velório de José Wilker no Teatro Ipanema. Não acredito em Deus, mas a existência dos deuses do palco é inegável. Já tive oportunidade de vislumbrá-los em algumas ocasiões. O palco: não haveria lugar mais adequado para o grande ator receber as despedidas de família, amigos, fãs e admiradores.

Desconvertido

Antes que me acusem de súbita conversão ao teísmo, explico que deuses do palco nada têm a ver com seus equivalentes judaico, cristão e islâmico. Os deuses do palco não têm moral rígida — se é que têm alguma — e adoram se travestir de rainhas sonâmbulas e filhos que transam com a mãe. São sacanas e costumam pregar peças em seus fiéis, como fazê-los esquecer o texto no meio do monólogo de Hamlet ou arrebentar-lhes cordas de guitarra em pleno solo de “Sonífera ilha”.

Descongestionamento

Tenho uma plaquinha em meu escritório em que se lê: “Deus prefere os ateus”. Trata-se de uma brincadeira bem-humorada sobre o fato de ateus não torrarem a paciência do Todo-Poderoso com orações, súplicas, invocações, clamores, confissões, pedidos, promessas, propostas, tratos, cobranças, ladainhas, exaltações, músicas chatas e todas as coisas que devem entupir incessantemente a caixa de mensagens divina.

Desconversação

Às vezes tenho a impressão de que os dizeres da plaquinha estão estampados em minha testa. Basta eu sentar na poltrona do avião e minha vizinha tira da bolsa um livro ou folheto que me entrega, contrita: “Leia isso, vai te fazer bem”. Em geral trata-se de propaganda doutrinária do tipo “Jesus te ama”. Nessas horas agradeço e aviso gentilmente: “Desculpe, eu não acredito”. “Você tem que acreditar em alguma coisa!” Como eu insista na manutenção de minha descrença, escuto em silêncio o veredicto final: “Você pensa que não acredita. Mas no fundo você acredita”.

Desmistificação

Por ocasião do lançamento de um livro em Curitiba, fui interpelado por uma moça num bate-papo com leitores: “Você que é um homem de família e artista bem-sucedido, fale de suas convicções religiosas e espirituais”. “Eu não tenho convicções religiosas nem espirituais”. “Impossível! Você faz sucesso e tem uma família feliz!”

Cai o pano.

Desevangelizado

Espíritas também costumam me abordar de vez em quando com mensagens de amigos mortos. Nessas horas sinto arrepios. Eu não acredito em reencarnação nem em vida após a morte (aliás, acho um paradoxo bem louco). Mas vai que um amigo morto me diga alguma coisa que só nós dois sabíamos? E então, quando me chegam as mensagens… Bem, a não ser que meus amigos mortos tenham virado carolas ou sofrido lobotomia no Além, as mensagens que me apresentam são absolutamente inverossímeis.

Desipnoterapia

Há os que contam de suas vidas passadas. “Fui um nobre da corte de Luiz XV…” “Fui um gladiador romano que se converteu ao cristianismo…”. Incrível como todo mundo foi alguma coisa extraordinária em vidas passadas. Não conheço ninguém que tenha sido um simples funcionário público.

Desnaturado

Debato com amigos budistas sobre minha descrença na teoria da reencarnação. Se comprovadamente nascem mais pessoas do que morrem, provavelmente não há em estoque espíritos suficientes para rechear tantos novos corpos, o que pressupõe que nasçam várias almas de primeira geração, sem vidas passadas. Isso talvez explique minha descrença: devo ser um espírito zero quilômetro, descomprometido de dívidas cármicas.

Desconsagrado

Tenho amigos que curtem religiões afro-brasileiras: “Sou filho de Iansã”. “Oxumaré me protege”. Consultam búzios, vestem branco na sexta-feira, entram em transe ao som dos atabaques: “Não posso comer hambúrguer, meu santo não permite.”

Desgarrado

Não tome minha dissertação como provocativa ou desrespeitosa. Estou só tratando com bom humor um assunto que é geralmente abordado com gravidade e certezas em excesso. Como diz Christopher Hitchens: “É claro que não tenho condições de provar a inexistência de uma divindade que supervisiona e vigia cada momento da minha vida e irá me perseguir mesmo depois da morte. (Mas posso me alegrar com a falta de provas de uma ideia tão pavorosa, que poderia se comparar a uma Coreia do Norte celestial, onde a liberdade não é só impossível, mas inconcebível.)”

Desgraçado

Crônicas como esta costumam gerar mensagens inconformadas e indignadas de muitos leitores. Vários me provocam dizendo que na hora da morte eu apelarei para Deus. Difícil. Para os deuses do palco, talvez. Há os que me acusam de me aferrar ao ateísmo com a mesma convicção que um fanático se aferra à religião. Não mesmo. Simplesmente descreio e não fundamento minha descrença com dogmas. Pelo contrário, estou aberto a mudar de ideia assim que seja descoberto o fóssil de um coelho da era pré-cambriana ou que um anjo surja brandindo sobre minha cabeça uma espada de luz. Ou que me apresentem uma mensagem convincente de um amigo morto.

A internet vai acabar com a sua fé?

Reinaldo José Lopes, na Folha de S.Paulo

A popularização do uso da internet é uma das principais causas para a diminuição vertiginosa da religiosidade dos americanos dos anos 1990 para cá.

Ou ao menos é o que diz uma nova pesquisa, divulgada pela “Technology Review”, revista do MIT, e enviada para este escriba por Rafael Garcia, o homem mais gato do jornalismo científico brasileiro e autor do blog “Teoria de Tudo” nesta Folha, o qual, além de ser másculo, pai de família e grande repórter, também faz às vezes de meu pauteiro de quando em quando. Será que tem a ver mesmo?

Bem, vamos aos fatos. Primeiro, uma olhada rápida no gráfico abaixo.

religioTraduzindo rapidinho no texto mesmo (já que eu faltei da aula de Photoshop), o gráfico de cima mostra a evolução da porcentagem de usuários da web na população americana de 1990 a 2010. O de baixo mostra a porcentagem de pessoas “não afiliadas” — ou seja, que declaram não pertencer a nenhuma igreja ou grupo religioso específico.

Note bem: isso NÃO significa que quase 20% dos americanos eram ateus ou agnósticos em 2010. Significa, isso sim, que eles não se identificavam como pertencentes a nenhum grupo religioso em especial. Boa parte dessa galera provavelmente diria que acredita em Deus, ou até em Jesus.

Beleza, adiante então. Na pesquisa — que ainda não foi publicada, mas pode ser acessada publicamente no diretório online arXiv clicando aqui –, o cientista da computação Allen Downey, da Faculdade Olin de Engenharia (Massachusetts, EUA), usou dados demográficos americanos para tentar achar correlações entre vários fatores, entre eles o nível educacional, a criação religiosa no âmbito familiar e, claro, o uso da internet.

O que a pesquisa fez, portanto, foi basicamente usar métodos estatísticos para ver quais fatores variavam juntos — ou seja, a probabilidade de mudanças num deles estarem associadas a mudanças em outro.

O trabalho mostrou — o que, aliás, não é nada surpreendente — que há uma correlação entre ser criado numa família que segue determinada tradição religiosa e acabar seguindo essa religião quando adulto. Tanto que, como hoje há mais pessoas não recebendo esse tipo de criação nos EUA, isso parece ter influenciado o aumento de “não afiliados”. Do ponto de vista estatístico, esse fator responderia por 25% desse aumento (ou da queda no número de religiosos tradicionais, tanto faz).

Também houve um aumento do número de pessoas com formação universitária — de 17% nos anos 1980 para 27% nos anos 2000 –, o qual, estatisticamente, também poderia explicar 5% do aumento de “não afiliados”.

As mesmas técnicas estatísticas, porém, também indicam a correlação entre “desafiliação” religiosa e uso da internet, uma das variáveis que mais brutalmente mudou de 1990 para cá, como a gente está careca de saber. A variável explicaria 25% das alterações de “religioso” para “não afiliado”.

Beleza. Agora repetida comigo, bem devagar, o mantra mais importante já inventado desde “Auuuuum”, que é o seguinte: correlação não é causação. Correlação não é causação. Mais mil vezes, por favor.

Falando sério, esse mantra é importantíssimo porque o fato de duas coisas “co-variarem” (variarem juntas) muitas vezes não significa que uma seja a causa da outra. Pode haver uma terceira causa aí no meio. E é preciso achar um mecanismo conectando os dois fatores caso você queira mesmo provar que um causa o outro.

Allen Downey propõe que a internet permitiu que pessoas de meios religiosos mais fechados pudessem ter contato com pessoas e informações fora de seu círculo, facilitando que eles deixassem de lado sua visão tradicional sobre temas de fé. É bastante razoável, mas difícil de provar, e longe de estar provado, claro.

Um “experimento natural” interessante pode acontecer aqui mesmo no Brasil, aliás. Hoje, dependendo de como se faz a conta, temos entre um terço e metade da população usando internet, e apenas uns 8% — no máximo — de “não afiliados”. Conforme o uso da web se universaliza por aqui, como se deu nos EUA, vai ser interessante descobrir se a tese do pesquisador continua de pé.

Igreja só para ateus conquista fiéis pelo mundo

Fundada por comediantes britânicos, Assembleia de Domingo troca música religiosa pelos Beatles, e sermões por bate-papos sobre sexo, gastronomia e viagens

Publicado por Último Segundo

Em vez de sermão, animadas conversas sobre sexo, gastronomia, viagens e outras boas coisas da vida. Em vez de música religiosa, Beatles, Rolling Stones e Jerry Lee Lewis.

Reprodução Imagem de divulgação da Assembleia de Domingo na página da igreja na internet

Reprodução
Imagem de divulgação da Assembleia de Domingo na página da igreja na internet

Uma igreja para quem não acredita em Deus. Pode parecer um absurdo, mas este é o conceito da Assembleia de Domingo (Sunday Assembly Church), que tem arregimentado cada vez mais fiéis na Austrália, no Canadá, nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Fundada no ano passado pelos comediantes britânicos Sanderson Jones e Pippa Evans, a igreja começou a se espalhar pelo mundo após uma campanha de arrecadação de fundos que incluiu turnês de shows de stand up da dupla. “Queríamos fazer algo parecido com uma igreja, mas sem Deus”, explicou Jones à BBC.

Em sua página oficial na internet, a Assembleia de Domingo se apresenta como um lugar para celebrar a vida, sem doutrinas, onde qualquer um é benvindo e está sempre pronto a ajudar o próximo.

A igreja disponibiliza ainda documentos e diretrizes incentivando as pessoas a abrir sua própria filial da assembleia. Em Los Angeles, por exemplo, um braço relativamente novo da organização já organiza cultos para até 900 pessoas.

Holanda tem 44% da população de ateus e transforma igrejas e templos em livrarias, cafés e casas de shows

Publicado no Catraca Livre

Na Holanda, os ateus correspondem a 44% da população e esse número já está mudando a paisagem do país. Igrejas e templos não conseguem manter as dependências por falta de recursos e são transformadas em pubs, cafés, livrarias e casas de show.

A livraria Selexuz foi construída na igreja de Maastricht e casa de shows Paradiso, foi construída em uma igreja do século 19.

Veja galeria de fotos que mostram essa transformação.

Leia matéria completa no Tech Guru.

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dica do Vinicius Silva Mesquita