‘O mundo não está tão ruim quanto o Brasil’, afirma Arturo Porzecanski

Arturo Porzecanski, diretor do Programa de Relações Econômicas Internacionais da American University (foto: Vitor Salgado - 11.jun.2013/Folhapress)
Arturo Porzecanski, diretor do Programa de Relações Econômicas Internacionais da American University (foto: Vitor Salgado – 11.jun.2013/Folhapress)

Raul Juste Lores, na Folha de S.Paulo

“O mundo está colocando o polegar para baixo ao pensar no Brasil e quem se eleger vai ter muito trabalho em mudar essa percepção”, diz o economista Arturo Porzecanski, 65, que há 37 anos estuda a América Latina.

O uruguaio foi economista-chefe dos bancos J. P. Morgan, ABN-Amro e Ing-Barings por quase três décadas e desde 2005 dirige o Programa de Relações Econômicas Internacionais da American University.

Ele acha que o Brasil “andou para trás” em inflação e protecionismo, considera que o BNDES “não tem nada a ver com a escolha de campeões nacionais da Coreia” e que o país precisa “desesperadamente achar novos mercados”. “O Brasil está jogando na terceira divisão”, diz.

Porzecanski diz que o sucesso do Bolsa Família só será verificado “quando menos gente precisar dele, o número de famílias atendidas precisaria cair”. Ele recebeu a Folha em seu escritório, em Washington.

Confira abaixo a íntegra da entrevista, em tópicos:

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BRASIL DESAPRENDEU

O Brasil desaprendeu a fazer mudanças e está andando para trás. O Brasil diz gostar de gradualismo, mas fez mudanças muito rápidas no passado. O Plano Real foi economia vodu, ortodoxa e heterodoxa ao mesmo tempo, e em dois anos controlou a inflação. O Bolsa Família e os planos sociais do Lula ficaram em pé já nos primeiros dois anos. A abertura econômica de um país que tinha um mercado fechado até para computadores foi bem rápida. Quem vencer as eleições vai ter que reaprender a fazer mudanças rápidas.

ANDANDO PARA TRÁS

Em várias coisas, a Dilma fez o Brasil andar para trás. Em 1999, Armínio tinha um plano ambicioso de metas e muito rapidamente respondeu à crise cambial. O Lula em meses dissipou a dúvida que havia sobre ele e deu luz verde para o Henrique Meirelles.

Com Dilma, o Banco Central andou para trás. O BC foi incentivado a fechar os olhos para a inflação, bem acima da meta, dá para passar um ônibus por essa meta agora. A Petrobras perde muito dinheiro para mascarar a inflação real. As contas públicas pioraram e a qualidade dos dados com manipulação contábil. Sem falar no abuso do BNDES.

BNDES E COREIA

Acho engraçado compararem a política industrial do BNDES com a escolha de campeões nacionais pela Coreia do Sul. A Coreia ofereceu subsídios para as empresas que produziam carros, eletrônicos e afins que conseguissem exportar para os mercados americano e europeu. Ela não substituiu importações, ela promoveu exportadores. Mas havia metas e prazos. O governo ajuda a empresa por “x anos” e depois ela tem que devolver essa ajuda.

Essa política hoje seria impossível, pois a OMC [Organização Mundial do Comércio] proíbe subsídios para exportações. Esse modelo é de outra época. Mas não dá para comparar o BNDES com a Coreia. Quais foram as metas para o Eike Batista? E para os frigoríficos?

INTERVENCIONISMOS

O Obama subvencionou empresas de energia solar, sem muito sucesso, mas era algo para a economia do século 21. O BNDES subvencionou a economia do século 19.

Existem intervencionismos e intervencionismos. O Tesouro americano emprestou para a indústria automobilística de Detroit e para a seguradora AIG quando ninguém queria emprestar, e recebeu de volta com muitos juros. O que o BNDES vai receber do Eike? É como se o FMI [Fundo Monetário Internacional] emprestasse para países quebrados como Argentina e Venezuela sem nenhuma contrapartida.

MUNDO SEM ESTAGNAÇÃO

A maioria dos países do mundo anda crescendo menos do que já cresceu. Fato. Não é mais bonança. Mas o Brasil desacelerou bem mais que os demais. O mundo não está tão ruim quanto o Brasil. O mundo não está em recessão, nem estagnado.

CÁLCULO DO BOLSA FAMÍLIA

México, Argentina, Brasil fizeram seus Bolsas Família. No início, uma marca de sucesso é ampliar as famílias cobertas. Mas o verdadeiro sucesso, que não vejo no modelo brasileiro, é quando o número de famílias que precisam dessa ajuda cair de fato. Se elas acham emprego, se têm salários melhores, esse número deveria cair. Isso não está acontecendo.

FED EM 2015

O Fed [o Banco Central americano] está fazendo o seu trabalho, sem ser brusco. Em maio de 2013, Ben Bernanke [ex-presidente do Fed] disse que os estímulos seriam reduzidos. O roteiro está sendo seguido pela Janet Yellen [atual presidente] paulatinamente. A inflação está abaixo da meta e os juros vão subir um pouco. Não acho que o Brasil será afetado bruscamente. 80% do destino do Brasil está no Brasil, não está nos EUA ou na China.

MERCOSUL E 3ª DIVISÃO

O Brasil precisa correr para achar novos mercados. A aposta na OMC com o Azevedo ainda não rendeu. O regionalismo e o Mercosul não rendem mais. A negociação com a União Europeia é brecada pela Argentina. Até quando o Brasil vai esperar pela Argentina? Não quer negociar com o império, com os EUA? Ok, mas procura outros. China, Índia e outros emergentes até menores têm suas agendas e querem achar mais mercados. Não dá para entrar para jogar só se for ganhar. Parece que o Brasil tem medo e se contenta ficar jogando na terceira divisão.

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O que Dilma faz com Marina é desonesto

charge: Internet
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título original: PT faz justiça ao ‘PIG’

Fernando Canzian, na Folha de S.Paulo

É maravilhoso assistir ao horário eleitoral gratuito do PT e lembrar de como o partido reclamava das “mentiras” do que chama de imprensa golpista –ou “PIG” (Partido da Imprensa Golpista).

O que Dilma Rousseff e sua campanha vêm fazendo contra Marina Silva é desonesto, algo de que a presidente e sua biografia deveriam se envergonhar.

A peça publicitária em que uma família vê a comida desaparecer do prato caso Marina adote a autonomia do Banco Central é espantosa. Não só pelo fato de sob Lula e Dilma os bancos terem tido os maiores lucros da história e a inflação ter voltado com força no atual governo.

Mas, pela reprodução da campanha do medo que o próprio PT sofreu e se ressentia cobrando ética na política. O que não fazem poder, cargos e milhares pendurados em um governo.

Azar da maioria democrática e ignorante que engole permissividades do sistema eleitoral.

Já a força do “PIG” teve seu auge durante as acusações e processo do mensalão. Pilhas de documentos e centenas de horas de julgamento condenaram a cúpula do partido.

Agora, o PT está emaranhado novamente em acusações envolvendo a Petrobras. Seria a volta do “PIG”?

A pergunta que cabe é se Marina Silva faria algo diferente de PSDB e PT se tivesse mais tempo na TV e estrutura além da sua atual “caravana holiday” eleitoral. Dificilmente. O problema é estrutural.

O Brasil voltou a ser uma das maiores democracias do mundo já há 25 anos, com eleições a cada biênio. Neste ano, R$ 6 bilhões, a maior fatia com pessoal, serão gastos pela Justiça Eleitoral com todo o processo.

Temos de conviver com propaganda enganosa?

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Bispo Edir Macedo, agora, é banqueiro

Macedo foi classificado pelo BC como investidor estrangeiro.

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Publicado no Correio Braziliense

Sem explicações convincentes, o Banco Central pediu e a presidente Dilma Rousseff autorizou o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, a comprar 49% do capital do Banco Renner, com sede no Rio Grande do Sul. Seria uma operação corriqueira não fossem dois pontos: Macedo foi classificado pelo BC como investidor estrangeiro, mesmo tendo nascido no Brasil, e o bispo não reúne os atributos necessários exigidos pela autoridade monetária para operar no mercado financeiro, entre eles, habilitação técnica. Nunca se soube que Macedo tenha atuado em um banco, corretora ou distribuidora de valores.

A dificuldade do BC em justificar a operação é enorme. Tanto que se limitou a responder o questionamento do Correio por meio de uma nota lacônica. “A participação no capital de instituição financeira nacional de pessoas físicas (brasileiras ou não) ou jurídicas residentes ou domiciliadas no exterior depende de reconhecimento de interesse do governo brasileiro, se ausentes acordos internacionais ou de reciprocidade”, assinalou. Para o BC, essas palavras, carregadas de tecnicismo, são suficientes para esclarecer quaisquer dúvidas.

Dica do Guilherme R. Basilio

 

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Decisão provisória da Justiça mantém frase “Deus seja louvado” nas cédulas

Publicado originalmente na Época

A primeira decisão da Justiça rejeitou a retirada da frase “Deus seja louvado” das cédulas de real. O pedido foi feito neste mês pelo Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo, que alegou que o Estado brasileiro é laico e deve respeitar religiões minoritárias.

A decisão, da 7ª Vara Federal Cível de São Paulo, é provisória e pode ser revogada ou modificada. Nela, a juíza federal Diana Brunstein disse que não encontrou oposição à grafia da frase nas notas. “De fato, não foi consultada nenhuma instituição laica ou religiosa não cristã que manifestasse indignação perante as inscrições da cédula e não há notícia de nenhuma outra representação perante o Ministério Público neste sentido”, diz no texto.

Ela apontou falta de provas do desrespeito a minorias. “Entendo este fato relevante na medida em que a alegação de afronta à liberdade religiosa não veio acompanhada de dados concretos, colhidos junto à sociedade, que denotassem um incômodo com a expressão ‘Deus’ no papel-moeda”, afirma.

Para Diana Brunstein, a menção de Deus nas cédulas “não parece ser um direcionamento estatal na vida do indivíduo que o obrigue a adotar ou não determinada crença”. Na argumentação, ela cita ainda feriados religiosos e outras manifestações amplamente aceitas.

Ouvida na fase de inquérito, a União defendeu a legalidade da expressão. O Banco Central, responsável pelo desenho das notas, também afirmou que as características delas não violam princípios constituições do Estado laico e da liberdade religiosa.

Entenda o caso

A inclusão da frase “Deus seja louvado” foi feita em 1986, por determinação direta do então presidente da República, José Sarney. Em 1994, com o Plano Real, o texto foi mantido pelo ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso.

Neste mês, o procurador regional dos direitos do cidadão Jefferson Aparecido Dias, do MPF, entrou com ação pública pedindo que o Banco Central e União retirassem o texto das notas em um prazo de 120 dias. Ele defendeu a medida como forma de proteger a “liberdade religiosa de todos os cidadãos”, já que nenhuma lei permite a manifestação religiosa por parte do Estado. “Imaginemos a cédula de real com as seguintes expressões: ‘Alá seja louvado’, ‘Buda seja louvado’, ‘Salve Oxossi’, ‘Salve Lord Ganesha’, ‘Deus não existe’. Com certeza cristalina haveria agitação na sociedade brasileira em razão do constrangimento sofrido pelos cidadãos crentes em Deus”, afirma Dias na ação.

Logo após a divulgação da ação, Sarney (PMDB-AP), atual presidente do Senado, reagiu à proposta. “Eu tenho pena do homem que na face da Terra não acredita em Deus”, disse o senador. Sarney defendeu ainda que, ao contrário do que querem os procuradores, é necessário ter consciência da gratidão a Deus. “Eu acho que é uma falta do que fazer porque, na realidade, precisamos cada vez mais ter a consciência da nossa gratidão a Deus por tudo o que ele fez por todos nós, humanos, e pela criação do universo. Nós não podemos jamais perder o dado espiritual”, afirmou.

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Santa Ceia segundo gamers

Título original: Ceia dos Jogos

Publicado no Retina Desgastada

Segundo coluna publicada na Revista Época, a campanha de marketing da grife Cavalera está enfrentando resistência por fazer uma citação ao quadro A Santa Ceia:

A ideia era reunir os doze personagens que o diretor criativo Alberto Hiar elencou como inspirações para o Verão 2013 da Cavalera. Nomes como Fernanda Young, Emicida, Regina Guerreiro e Pitty posaram em um cenário semelhante a famosa Santa Ceia e estamparam diversos veículos. Mas a iniciativa acabou provocando alguns católicos mais fervorosos, como Paul Medeiros Krause, procurador do Banco Central em Belo Horizonte. Ele enviou um e-mail para a marca indignado e solicitando o cancelamento imediato da campanha. A história foi parar no CONAR, Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, que declarou a imagem sem nenhuma apelação provocativa. “Tenho muito medo desse radicalismo religioso. Namastê para todos vocês”, disse Alberto ao saber da decisão da entidade.

A Cavalera não está fazendo nada que já não tenha sido feito antes na cultura pop: Lost, Battlestar Galactica, Os Mercenários, House, Os Sopranos, Guerra nas Estrelas… e, por favor, não me façam apontar para a versão zumbi! O mundo dos jogos naturalmente não poderia ficar de fora da citação:

 autor desconhecido (via Reddit)

 por J4N3M3 (via DeviantArt)

 autor desconhecido (certamente usando o Garry’s Mod)

 autor desconhecido

 por EvGen1us

 por enixtm

 autor desconhecido (indicação do @gamesfoda)

 por dnobody (via DeviantArt)

E agora, senhor Krause?

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