Na sola dos “cinco solas”

José Barbosa Junior, no Crer é também pensar

Confesso que os “defensores da fé” me cansam.

Cansam porque não produzem nada a não ser a crítica de quem pensa diferente. E para julgarem quem pensa diferente, tendo “base histórica” e “bíblica”, muitos deles utilizam-se dos cinco solas, que nada mais são do que afirmações, em latim, sobre aspectos que “delineariam” a confissão de fé cristã nos tempos “reformados” (o excesso de aspas é inevitável).

O interessante é que até os cinco solas são frutos de interpretação (como toda leitura da Bíblia o é) e de um tempo, de uma era. Torná-los imutáveis e monointerpretativos seria uma afronta ao próprio espírito da Reforma que dizem acolher. E quando se tornam engessados, viram arma nas mãos de seus utilizadores e, claro, a favor da “defesa da fé”.

Ok! Mas… que fé?

Aliás, que Cristo? Que Graça? Que Escrituras? Que Glória de Deus?

Não adianta você me tirar da cartola os cinco solas… primeiro tem que me dizer do que você está falando. Pode ser que usemos a mesma frase (em latim) para dizermos coisas totalmente diferentes, entendeu?

Vamos aos exemplos:

Quando eu digo SOLA FIDE (somente a fé), falo da experiência com o sagrado, com o intangível, o numinoso, o transcendente. E essa experiência não é privilégio só dos que têm a Bíblia como “regra de fé e prática”. A fé não tem copyright. Não é propriedade exclusiva de um grupo, muito menos de um livro. Fé é algo tão pessoal e místico que não me cabe duvidar da experiência do outro. Pode ser que ele, o outro, esteja experimentando uma face de Deus que eu ainda desconheço, por isso,este outro merece, no mínimo, o meu respeito.

Quando um “defensor da fé” diz SOLA FIDE, em primeiro lugar ele está falando do seu objeto de defesa. Fé deixa de ser a experiência para ser um objeto de defesa. E se for tido como experiência TEM QUE ser a MESMA experiência dele, se não, não é “verdadeira”. A experiência que é diferente da dele é um inimigo a ser combatido! Para isso envidará esforços, elegerá hereges, acenderá fogueiras. O importante é “batalhar pela fé uma vez entregue aos santos”. Fé, neste caso, é motivo de luta, de guerra, de defesa!

Quando eu digo SOLO CHRISTUS (Somente Cristo), estou falando de uma pessoa. O Deus encarnado, a Palavra feita gente, Emanuel, aquele que traduz em si o amor de Deus pela humanidade, tornando-se humano. De tão humano, divino! É amor tomando forma, cheiro, toque, voz… e, seguindo o seu exemplo, tornamo-nos melhores seres humanos. Quando digo o SOLO CHRISTUS me vem à mente que toda salvação passa por ele, o segundo Adão, e que se o primeiro Adão torna o pecado “universal”, o segundo Adão torna a salvação “universal”, sem mérito ou demérito de quem quer que seja. Se diferente disso, o “erro” do primeiro Adão seria mais forte e mais poderoso do que o “acerto” do segundo Adão. Por que a tal “solidariedade da raça” só vale para o pecado e não para a salvação?

Porém, quando um “defensor da fé” diz SOLO CHRISTUS, ele está dizendo que só a salvação na confissão de fé dele sobre o Cristo. Que só a salvação no NOME de “Jesus”. E quem não confessar esse NOME, por mais que nunca tenha ouvido falar dele, ou por mais que já viva na prática os seus ensinamentos, é um coitado, réu do inferno eterno. Talvez um predestinado mesmo à perdição, obra do grande amor de Deus, que cria uns eleitos para a salvação e outros para torrarem eternamente numa grande fogueira que Ele mesmo criou para lançar aqueles que Ele mesmo determinou que não creriam nEle. Quanto amor! Até porque o CHRISTUS só derramou seu sangue por esses “preferidinhos”, infelizmente deixando de fora todos os outros, tão amados de Deus quanto os eleitos, mas, por sua infinita soberania e poder, incapazes de chegarem à salvação.

Quando eu digo SOLA GRATIA (Somente a Graça), estou falando de graça mesmo, sem divisão, sem preferências. Falo de algo tão louco e absurdo que faltam-me palavras para descrever sua “ação”. A graça é injusta ao salvar gente “do bem” e gente “do mal”, gente “certinha” e gente “torta”, porque é graça, e porque graça atinge gente, seja a “gente” que for. E sua abrangência é ilimitada. Não há confissão de fé capaz de detê-la! Não há conceito que possa diminuir seus efeitos e seus desmandos. Sim, a graça é um desmando de Deus! Subverte toda a lógica e toda a noção que temos de “justiça”. É manifestação de Deus para todos, indistintamente. Creio numa graça que abraça prostitutas, gays, políticos, e até mesmo… religiosos.

Mas, quando um “defensor da fé” diz SOLA GRATIA, em primeiro lugar ele precisa distinguir a graça da graça. Como assim? É óbvio! Existe uma graça “comum” e uma outra, “especial”. Sim, é isso mesmo! Existe uma graça de segunda categoria, tipo aqueles cartões de natal que mandamos pra quem nem conhecemos, desejando simplesmente “boas festas”, e há uma graça caprichada, de primeira, como cartões escritos à mão, cheios de amor, com o cheiro da pessoa amada. A graça “comum” está aí para todos, “quem quiser pode chegar”. Já a graça “especial”, infelizmente (ou felizmente – para eles) não pode atingir a todos, é privilégio dos eleitos, estes sim, podem desfrutar de toda a graça que Deus tem pra dar, mas só pra eles. E graça aqui, deve ser entendida como favor imerecido também, é claro, mas… ai daquele que não observar os mandamentos!

Quando eu digo SOLA SCRIPTURA (Somente a Escritura), estou falando de uma carta de amor, inspirada por Deus, mas escrita por homens, contando histórias de seu povo, conforme seu entendimento temporal das realidades ao seu redor. Nesta carta, que fala muito mais da percepção que os homens, em seu tempo, tinham de Deus, percebo um Ser divino em todo tempo buscando relação com toda a humanidade. Um Deus que tem prazer no diálogo, na amizade, e que como prova maior dessa busca, se diminui, se enfraquece, e se faz homem, não porque “não tinha outra opção”, mas porque tanto amor tinha que ser demonstrado e vivido na sua completude, no ser igual ao ser amado. SOLA SCRIPTURA se manifesta quando percebo a carta de amor em toda sua amplitude e carinho, culminando na Palavra encarnada, o CHRISTUS. Por isso, qualquer interpretação que fuja do CHRISTUS e do amor encarnado nEle, causa-me estranheza. Aliás, o SOLA SCRIPTURA deve sempre levar em conta que QUALQUER leitura já é, em si, uma interpretação, logo, uma aposta e, se tanto, passível de erro.

Porém, quando um “defensor da fé” fala SOLA SCRIPTURA, ele está falando de um MANUAL. E, se é um manual, tudo está ali, resolvidinho, respondido, com a seção de “perguntas e respostas” completa, sem variações. Pecou? O manual traz o castigo, a forma de reprimenda, e o modelo de re-aceitação. Com o manual, é fácil saber quem é o certo e quem é o errado, afinal a equação é simples: faz tudo o que o manual diz: é bom! Vacila em artigos do manual: é mau! E tudo está lá, detalhadamente. Pastores são ungidos do Senhor, logo não devem ser questionados. Gays queimarão no fogo eterno. Mentirosos, orgulhosos, avarentos, ops… pulemos essa parte (aqui o manual deve ter cometido algum equívoco).

Finalmente quando eu digo SOLI DEO GLORIA (Glória somente a Deus),  penso num Deus que é glorificado em todo o mundo, por gente de todas as tribos, raças, línguas e nações que, mesmo não falando “O NOME”, amam uns aos outros, praticam o bem, são capazes de dividir, de compartilhar. Vejo Deus glorificado nas ações de uma Madre Teresa de Calcutá, repartindo sua vida entre os leprosos de uma índia fragmentada pelas castas, da mesma forma que vejo a glória de Deus num homem como Ghandhi, capaz de liderar uma revolução não armada e que influenciará um pastor negro nos Estados Unidos a fazer a mesma coisa. Vejo a glória de Deus quando milhares de pessoas, de todos os credos, gêneros e cores se unem numa corrente de solidariedade, como vi de perto em minha cidade, Teresópolis, atingida por uma tragédia sem precedentes em janeiro de 2011.

Entretanto, quando um “defensor da fé” diz SOLI DEO GLORIA, ele é capaz de ver a glória de Deus não nas pessoas que se solidarizam, mas na própria tragédia em si. Um Deus que mostra a sua glória através da sua ira! Um Deus que é glorificado mesmo numa atitude insana como a de um louco que invade uma escola e atira em crianças indefesas, matando vidas e sonhos. Um “defensor da fé” dá glórias a Deus por isso, e exalta a Sua soberania. A glória de Deus também é manifesta na destruição dos povos pagãos e finalmente, será exercida em toda a sua plenitude nos tempos finais, quando os eleitos herdarão os céus, e Deus, para a Sua própria glória, lançará os não-eleitos na churrasqueira da eternidade: o inferno!

E quem está certo? Não sei!

Só pretendo com este texto provocar a todos que se julgam donos da verdade. Pode ser uma pretensão descabida, mas tentem fazer esse exercício. Tentem imaginar que o “outro” pode ter razão. Assim como eu mesmo posso estar errado em muitas das minhas “visões”.

Estamos navegando naquilo que não é palpável, logo, tudo o que dissermos será fruto daquilo que somos, daquilo que pensamos, antes mesmo que o texto nos fale. E somos seres sujeitos À mudança, logo, não me cabe o julgamento de quem quer que seja. Que entendamos que, na sola dos “cinco solas”, muitas vezes colocamos nossas conveniências, aquilo que nos protege. Na sola (na base) dos nossos “cinco solas” na verdade estamos nós mesmos, com nossas esquisitices e doenças, logo, nossas interpretações falam muito mais de nós que dos reformadores.

E ainda mais, aos “reformados” cabe uma responsabilidade maior de não estacionarem em Genebra, ou em Wittemberg, ou seja lá onde for… a verdade, se é que concordamos que se manifesta em uma PESSOA, é dinâmica, tenta ouvir o seu tempo, tem o seu linguajar, tenta responder às suas próprias perguntas e não as do passado. Igreja reformada, sim, mas não engessada. Sempre se reformando!

Como disse, pode ser que eu esteja errado, e, se for um dos eleitos, riremos de tudo isso na “eternidade”. E se eu não for, sem problemas, vocês estarão ocupados demais e nem se lembrarão das pobres almas no inferno eterno.

Que Deus nos ajude!

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“Precisa-se de pastor para evangelizar que seja originário da Mundial ou Universal”

Denise Mello, no Paraná Online

O anúncio publicado num dos maiores jornais de Curitiba na seção de classificados é claro: “Precisa-se de pastor para evangelizar que seja originário da Mundial ou Universal – tratar com Bispo Antonio José pelo telefone 41- XXXX”

Vocação ou profissão? Na dúvida, o apresentador Luiz Carlos Martins ligou ao vivo no telefone do anúncio na manhã desta sexta-feira (27) e pediu emprego, sem revelar que a ligação estava sendo transmitida ao vivo na Banda B.

O bispo admitiu que está à procura de pastores para uma nova igreja na região metropolitana. Acompanhe o diálogo:

L C Martins - Alô? Vocês que estão procurando pastor que tenha trabalhado na Universal ou Mundial?

Bispo – É sim

L C Martins – Vi o anúncio no jornal e tenho interesse.

Bispo – Como é o seu nome?

L C Martins – Luiz

Bispo – O senhor tá evangelizando em alguma igreja?

L C Martins – Vou ser sincero bispo. Eu não tenho muito expeirência, vou tentar…

O senhor pede que tenha passado pela Universal ou Mundial, é isso?

Bispo – Que tenha passado por ela.

L C Martins – Não vou dizer que conheço a bíblia, conheço bem o Novo Testamento, mas sempre alimentei este sonho de ser pastor e aí vi este anúncio.Qual é a igreja?

Bispo – Igreja Global do Poder de Deus. É nova em Curitiba. A central fica em Ponta Grossa e estamos abrindo na região metropolitana, por isso estou pedindo pastor.

L C Martins – Qual é a remuneração?

Bispo – depende. Se for casado é x (o bispo disse x mesmo), se for solteiro é outro x, se precisar alugar casa pra morar a gente ajeita tudo. Mas estou numa reunião, posso te ligar depois?

L C Martins – Eu ligo mais tarde, mas em que cidade é a igreja?

Bispo – São José dos Pinhais.

L C Martins – É bom, porque é uma cidade rica não é?

Bispo – Exatamente.

L C Martins – Eu ligo mais tarde pro senhor. Obrigado.

Ouça o áudio aqui. E fica a pergunta: vocação ou profissão?

imagem: Colher de chá

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Sabedoria e mortalidade

Ficheiro:Peter Paul Rubens 004.jpg

Paulo Brabo

“Tal como a nuvem se desfaz e some,
aquele que desce à sepultura nunca tornará a subir.”
Jó 7:9

Talvez aproximar-se da Bíblia sem grandes prejulgamentos baste para se entender que é com muita hesitação que o próprio texto bíblico se aproxima da ideia de imortalidade. Em termos narrativos, históricos e literários, é só a terceira terça parte da Bíblia que tem algo a dizer sobre vida eterna – e mesmo assim não fala, muito provavelmente, da vida eterna como a estamos acostumados a imaginar.

Porém, o que quer que se conclua sobre a vida eterna em Daniel e no Novo Testamento, permanece o fato de que os dois primeiros terços da Bíblia tendem a sugerir, com impressionante consistência, que o que existe é esta vida – que deve ser bem vivida, com gratidão, com integridade e com gosto, porque é somente esta.

Esse silêncio em relação à vida depois da morte é no mínimo curioso, tendo em vista que a ideia de imortalidade pessoal é mais antiga do que os mais antigos textos bíblicos. A antiquíssima cultura egípcia, em particular, desenvolveu muito cedo as noções de [1] uma sobrevivência do eu depois da morte, de [2] um tribunal no além em que os atos desta vida eram pesados contra uma medida eterna de integridade, e de [3] uma eternidade de glória no céu (literalmente no céu, entre o sol e as estrelas) para os que se mostrassem dignos depois de passar por uma série de provas. Inicialmente esse destino eterno estava reservado exclusivamente ao faraó, mas pouco a pouco foi se estendendo ao restante da aristocracia egípcia (essencialmente, todos que tinham recursos suficientes para cobrir os custos dos rituais necessários, inclusive a mumificação).

O Egito foi um dos dois berços de Israel, mas o Antigo Testamento testemunha que o sonho egípcio de uma vida depois da morte no céu não deixou qualquer marca na religião judaica. Alguns trechos do Pentateuco parecem ter sido escritos de modo a polemizar e desacreditar a religião egípcia, deixando clara a superioridade do Deus e da fé dos hebreus, mas alguma forma vida depois da morte não parece ter sido considerada necessária para comprovar essa supremacia.

O pacto de Deus com a descendência de Abraão prometia, essencialmente, realização e fertilidade e prosperidade nesta vida para os que cumprissem a lei e os mandamentos. A eternidade que a Israel seria dada experimentar residia no fato de serem um povo, uma genealogia, uma semente: uma eternidade fundamentada na hereditariedade e na perpetuação do sangue, não na imortalidade pessoal.

E não é só que a Bíblia hebraica tem pouco a dizer sobre a questão da imortalidade; o espantoso é o quanto ela tem a dizer sobre a mortalidade.

A mortalidade é, na verdade, tema essencial do fio da narrativa bíblica e do modo bíblico de explicar o mundo. E sua tese central é esta: para seres humanos como nós, mortalidade e sabedoria devem andar sempre juntas. Não há um modo aceitável de separá-las.

Se refletimos sobre assunto, parecerá haver algo de terrível e trágico, algo de fundamentalmente injusto, no fato de sermos sábios e de sermos simultaneamente mortais. Para a Bíblia hebraica, que não pensa como nós, é apenas inevitável que gente sábia seja mortal e que gente mortal seja sábia. Uma coisa não deve existir sem a outra.

Um dos argumentos mais recorrentes dos livros de sabedoria – Salmos, Provérbios, Eclesiastes – é precisamente este: não é apesar de sermos mortais, é porque somos mortais que devemos aprender a viver com sabedoria. Quem tem visto temporário nesta terra não se pode dar ao luxo de viver sem prudência, sem integridade e sem inteligência. É precisamente isso o que dizem e querem dizer declarações como “ensina-nos a contar os nossos dias, de modo a que alcancemos corações sábios” (Salmo 90:12). O motor para se viver bem deve ser a consciência de que ninguém vive para sempre.

O fundamento dessa tradição bíblica é a ideia de que a sabedoria deve ser abraçada com gosto e com paixão porque ela é um dom divino. A sabedoria é um atributo de Deus do qual – pelo tempo limitado da sua vida na terra – é dado ao homem a possibilidade de desfrutar. Por isso, “tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (Eclesiastes 9:10). Viva com sabedoria hoje, porque “[quando alguém morre] sai-lhe o espírito, e ele volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos” (Salmo 146:4).

Segundo essa visão, a vida humana é duplamente preciosa porque é curta e porque, em sua brevidade, permanece ainda estendida ao homem a oportunidade de viver (de modo temporário e honorário) como Deus – em sua sabedoria. Nesse modo de ver as coisas, os animais têm vida mas não têm sabedoria, o homem tem sabedoria mas não é eterno: Deus é único a pisar simultaneamente os domínios da vida, da sabedoria e da eternidade.

É por isso que a única forma nobre de se viver esta vida mortal é vivê-la com aquilo que ganhamos em comum com Deus: o conhecimento da maneira certa de se portar e de se viver.

É precisamente isso o que ensina – é isso o que explica – a história da árvore do conhecimento do bem e do mal no livro de Gênesis: sabedoria e mortalidade são coisas inseparáveis nesta condição humana. O mesmo fruto que nos deu o dom da sabedoria (porque, na história, o conhecimento do bem e do mal é uma coisa boa, um verdadeiro dom e atributo de Deus) nos vedou o acesso à imortalidade. O preço de ser sábio é ser mortal, e a compensação de ser mortal é ser sábio. É menos a história da queda do que a história das contradições da condição humana.

De certo modo, essa história fundacional de Gênesis antecipa o que acabaram concluindo antropólogos, psicólogos e pensadores existencialistas muito tempo depois: a angústia da condição humana e sua simultânea glória reside no fato de sabermos que nossos dias estão contados. Os animais não chegarão a ser sábios porque não sabem que vão morrer.

fonte: A Bacia das Almas

foto: Tentação de Adão e Eva, por Rubens

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Peixes grandes e pequenos

Ed René Kivitz

Na esteira do pensamento paralelo de Dostoiévski, que afirma que, se Deus não existe, tudo é permitido, podemos dizer também que a pluralidade de deuses conspira contra a unidade do ser. A ausência de Deus tira do universo e da humanidade seu fundamento moral. Caso tudo quanto exista seja apenas e tão somente a matéria, a substância originária e permanente de toda a realidade, podemos viver como os peixes grandes que devoram os peixes pequenos.

Quem deseja tomar a natureza como padrão para a organização social não tem razões para dar de comer a quem tem fome. O popular já expressou sua sabedoria egoísta: quanto menos somos, melhor passamos. Deixem morrer os pobres, que desapareçam as populações da periferia do mundo, assim teremos mais água, mais petróleo, mais condições de sustentabilidade para o mundo, diminuído o número de seu maior predador, a saber, o bicho homem.

Apenas a nocão de Deus como ser moral oferece à humanidade o fundamento da solidariedade indiscriminada. Essa é uma das grandezas do relato bíblico da criação: em Adão, todos os seres humanos são um, pois sobre todos repousa a dignidade divina. Jesus ensinou que assim como todas as moedas são identificadas pela imagem de César, também todos os seres humanos são identificados pela imago Dei.

O fundamento ético do universo e da humanidade repousa no amor, expressão do ser divino que a tudo dá origem. Isso implica necessariamente a compreensão de que a correlação que liga o homem a seu semelhante se realiza na compreensão de uma correlação superior, a que liga o homem a Deus e Deus ao homem, cuja síntese se revela no Cristo, Deus feito homem, único mediador entre Deus e o homens.

Essas são algumas razões porque, assim como a negação de Deus, a pluralidade de deuses inviabiliza a unidade do ser. Sendo verdadeiro que a relação do homem com Deus se manifesta na relação do homem com seu próximo, é imprescindível a pergunta a respeito do caráter desse Deus, que normatiza a relação entre os homens.

Muitos deuses, muitas éticas. Muitas éticas equivale a éticas em conflito em busca de hegemonia. Como os deuses não brigam entre si, brigam seus representantes (ou se preferir, os deuses brigam entre si através de seus pretensos representantes). O monoteísmo cristão, que afirma a unidade de três pessoas numa única divindade, diz que Deus é amor, a comunhão harmônica e perfeita do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Qualquer Deus vestido com roupas diversas do amor é um ídolo, um falso Deus, um demônio. A dedução óbvia é que muitos deuses são artifícios para o surgimento de um único e outro deus que pretende rivalizar com o Deus vivo e verdadeiro. Esse outro deus atende pelo nome de ego humano, que, no caminho inverso do amor, mergulha para dentro de si na pretensão estúpida de afirmar a si mesmo como fundamento do universo e centro do mundo. A idolatria e a descrença, isto é, a afirmação de muitos deuses e a afirmação de Deus nenhum, são duas faces de uma mesma moeda: a absolutização do ego humano.

Uma vez que somente na relação com seu semelhante – com quem é um – o ser humano se realiza, e que somente Deus oferece o fundamento para a unidade da humanidade, toda negação do amor, que equivale ao afastamento do outro, equivale também à desintegração do ser. Em termos concretos, Deus nenhum e muitos deuses são uma e a mesma coisa.

fonte: Blog do Ed René Kivitz

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Bíblia livra porteiro de ser assassinado durante assalto em Vitória

mãos em prece na bíblia - preto e branco

Deborah Hemerly, na Gazeta Online

Um porteiro de 47 anos escapou por bem pouco da morte, durante um assalto, na noite de segunda-feira, em Vitória. Ele ficou sob a mira de quatro pistolas, e só não foi morto graças à fé dele, reconhecida por um dos criminosos, que viu a Bíblia do trabalhador.

A vítima contou para a polícia, no Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) de Vitória, que o assaltante chegou a perguntar para ele se era evangélico. Como o porteiro disse que sim, o suspeito então completou: “Só não vou te matar, porque você é um homem de fé”.

O trabalhador então foi trancado dentro de um banheiro, com as mãos amarradas para trás, até que o bando fugisse levando computadores, cadeiras, um televisor, um DVD, baterias de carro e bebedouros de um galpão, que fica na Avenida Vitória.

O porteiro disse para a polícia que era por volta de 19 horas de segunda-feira, quando os quatro bandidos armados invadiram o galpão, anunciando o roubo. Ele foi obrigado a deitar no chão, mantendo a cabeça abaixada, enquanto o bando carregava os objetos para fora do galpão.

A vítima destacou que estava sozinha havia pouco tempo, pois os outros funcionários já tinham ido embora. O galpão não tem câmeras de vigilância. Os bandidos quebraram uma vidraça para ter acesso à parte onde os objetos roubados estavam.

O porteiro contou para a polícia que, assim que o bando escapou, ele conseguiu se livrar das amarras e sair em busca de socorro. Ele foi até o DPJ de Vitória, onde pediu ajuda. A vítima lembrou que o bando prometeu voltar para buscar o restante das coisas.

Policiais militares chegaram a fazer buscas pela região. Mas nenhum suspeito foi localizado. Na ocorrência, a vítima não detalha se os criminosos estavam de carro nem quanto tempo durou o roubo.

imagem: freepic

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