Versão irônica da Bíblia faz sucesso entre religiosos na Comic-Con 2014

Capa do livro "God Is Disappointed in You" ilustrada por Shannon Wheeler, da "New Yorker"
Capa do livro “God Is Disappointed in You” ilustrada por Shannon Wheeler, da “New Yorker”

James Cimino, no UOL

Do lado de fora do pavilhão onde acontece a Comic-Con 2014, em San Diego, religiosos com microfones da Madonna exortam os frequentadores do evento, dizendo que “a punição para o pecado é a morte” e que sua idolatria os levará para o inferno. Do outro lado, em um dos salões internos do evento, um pastor batista elogia uma versão resumida e irônica da Bíblia que acaba de ser lançada.

Escrita pelo autor Mark Russell e ilustrada pelo cartunista Shannon Wheeler, famoso por seus desenhos na revista “The New Yorker”, “God Is Disappointed in You” (“Deus Está Decepcionado Com Você”, em tradução livre) resume todos os livros bíblicos em poucas páginas, “poupando os leitores de genealogias intermináveis e da linguagem rebuscada para explicar apenas o essencial de cada história”, segundo as palavras do autor. Cada livro bíblico também vem acompanhado de um cartoon ilustrativo.

O livro de Jó, por exemplo, que na Bíblia tem cerca de 40 capítulos, fica apenas com uma página, a qual diz que Deus e o Diabo fizeram um “aposta louca” para testar a fé do personagem. “Foi com o livro de Jó que tivemos a ideia do livro. Estávamos em um bar e o Shannon me disse que não entendia essa história. Aí eu expliquei para ele em poucas palavras”, conta Russell ao UOL.

Os autores disseram que esperavam uma péssima repercussão entre religiosos, mas dizem que muitos os têm procurado para comprar cópias para os amigos. Segundo ele, muitas pessoas falam da Bíblia, mas nunca nem sequer leram o livro. “E tem aquelas que usam os versos para apoiar seus pensamentos e para justificar todo tipo de perseguição. O livro ajuda essas pessoas a ir direto ao essencial.”

O ilustrador diz ainda que o livro está agradando até mesmo os hipsters, que criticam o trabalho sem conhecimento sobre o assunto porque “nunca tiveram paciência para lê-lo”. “O importante é que as pessoas entenderam que não estamos ridicularizando as escrituras, mas tornando-as acessíveis para religioso e não religiosos com uma linguagem contemporânea.”

Igreja dos nerds

O pastor batista Mike Parnell, que estava presente ao debate sobre o livro, elogiou a versão abertamente para seus autores. “É um livro que promove o diálogo, e muitos religioso não estão abertos a isso. Eu vejo por meio desse livro o que muitas pessoas se recusam a ver. A igreja tem machucado muita gente ao longo dos anos. E esse não é nosso papel. A igreja é um local de acolhimento e amor. Quando você diz que está certo e que o outro está errado, não há diálogo. Tem gente mais preocupada em impor seu ponto de vista que transformar as pessoas em discípulos de Cristo. Há uma diferença entre ser bom e estar certo”, disse ele ao UOL.

Parnell disse ainda que já frequenta a Comic Con há alguns anos porque reconhece a cultura pop como parte do ser humano. “O que traz as pessoas aqui é o mesmo que leva as pessoas à igreja. O senso de comunidade, de aceitação e de pertencimento. Claro que não concordo com tudo que está no livro do Mark, mas isso não significa que ele esteja errado.”

No livro "God Is Disappointed in You", ilustrada por Shannon Wheeler, da revista "New Yorker", o capítulo com o Novo Testamento traz um desenho com os três Reis Magos e a mensagem: "Deixe-me ver o endereço em meu GPS"
No livro “God Is Disappointed in You”, ilustrada por Shannon Wheeler, da revista “New Yorker”, o capítulo com o Novo Testamento traz um desenho com os três Reis Magos e a mensagem: “Deixe-me ver o endereço em meu GPS”

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Bíblia fracassa em dar respostas, diz ex-pastor

EhrmanPublicado por Livraria da Folha

Bart D. Ehrman, ex-pastor e chefe do departamento de estudos religiosos da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, considera que a Bíblia fracassa em dar respostas para uma questão fundamental: o sofrimento.

A existência do sofrimento no mundo passou a ser um pensamento obsessivo enquanto ele ainda era pastor e comprometido com o cristianismo e com o seu rebanho. Essa obsessão o fez vasculhar a Bíblia.

“Para mim, o problema do sofrimento se tornou o problema da fé”, escreve Ehrman em “O Problema com Deus”. “Algumas pessoas acham que conhecem as respostas. Ou não se incomodam com as perguntas”.

Ehrman aprendeu nas mensagens bíblicas que Deus, por amor, interfere para socorrer seus fiéis em momentos difíceis. Assim, Ele ajudou o povo escolhido a escapar da escravidão no Egito, curou os doentes e alimentou os famintos.

“Onde está esse Deus agora?”, questiona. “Se Deus interferiu para livrar os exércitos de Israel de seus inimigos, por que não interfere agora quando exércitos de tiranos sádicos atacam de forma selvagem e destroem aldeias, cidades e mesmo países inteiros?”

“Por que uma criança –uma simples criança!– morre de fome a cada cinco segundos? A cada cinco segundos.”

No livro, ele analisa as Escrituras e apresenta uma série ensinamentos conflitantes, principalmente na questão do sofrimento, algo que o autor considera uma dos temas mais fascinantes da humanidade e o que o levou a perder a fé.

Abandonar o cristianismo não foi uma tarefa fácil para Ehrman. “Eu fui embora esperneando, querendo desesperadamente me aferrar à fé que conhecia desde a infância e da qual me tornara íntimo a partir da adolescência. Mas eu tinha chegado a um ponto em que não podia mais acreditar”, conta.

“Eu finalmente reconheci a derrota, me dei conta de que já não podia acreditar no Deus da minha tradição e reconheci que era um agnóstico: eu não ‘sei’ se existe um Deus; mas acho que se houver um, ele certamente não é aquele proclamado pela tradição judaico-cristã”.

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Leitura obrigatória da Bíblia em escolas é vetada no interior de SP

Lucas Sampaio, na Folha de S.Paulo

O projeto de lei que tornaria obrigatória a leitura da Bíblia em escolas municipais de Nova Odessa, cidade de 55 mil habitantes a 122 km de São Paulo, foi vetado nesta segunda-feira (21) pelo prefeito.

Aprovado pela Câmara Municipal de Nova Odessa há duas semanas, o projeto do vereador Vladimir Antônio da Fonseca (SDD) imporia aos alunos do 1º ao 5º ano a leitura de um versículo bíblico por dia.

Se fosse sancionado, o projeto poderia atingir 4.000 alunos de 12 escolas municipais. Polêmico, ele dividia os moradores da cidade e era considerado inconstitucional por juristas ouvidos pela Folha.

Agora, o veto da prefeitura será apreciado pela Câmara, que está em recesso e retomará suas atividades em 4 de agosto. A análise do veto entrará na ordem do dia da Casa, onde a leitura de um versículo da Bíblia é tradição e ocorre sempre no início das sessões.

Segundo o prefeito Benjamin Bill Vieira de Souza (PSDB), o projeto foi vetado após pareceres contrários da Diretoria de Assuntos Jurídicos e da Secretaria de Educação, que respectivamente apontaram a inconstitucionalidade da proposta e a contrariedade às diretrizes educacionais vigentes, que impedem a prática religiosa no ensino público do município.

“Não dá pra aprovar uma lei que não é legal”, diz o prefeito tucano, que, apesar do veto, é simpático ao projeto. “O projeto, no mérito, não é ruim. Se não fosse inconstitucional, eu seria favorável ao projeto.”

NOVA TENTATIVA

Autor da proposta, o vereador Vladimir diz que aceita o veto do prefeito, mas vai propor um novo projeto, nos mesmos moldes do atual, mas com duas alterações.

“Vou continuar com o projeto. Vou apresentar duas emendas, sendo uma a leitura facultativa, não mais obrigatória, e a outra para se poder ler também provérbios e salmos”, diz o político do Solidariedade.

“Com isso, serão 3.000 versículos. Se ler um por dia, vai dar para passar dez anos lendo um versículo por dia na escola, sem repetir”, afirma Vladimir. “Vou correr atrás dos meus sonhos.”

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“No céu, todo mundo trabalha”, diz menino que inspirou “O Céu É de Verdade”

ceu1Publicado por Roberto Sadovski

Colton Burpo atende ao telefone com voz grave. Aos 15 anos, ele não é mais o garotinho que fica na memória após uma sessão de O Céu É de Verdade, drama de inspiração cristã baseado em uma experiência que ele teve aos 4 anos de idade. Em 2003, um apêndice perfurado o levou a uma cirurgia de emergência arriscada. Quando estava na mesa de operação, Colton diz que deixou seu corpo, viu seus pais em outros pontos do hospital e foi levado ao Céu, ao paraíso cristão, por Jesus. Conheceu sua irmã que morreu antes de nascer, conversou com seu bisavô, teve um vislumbre da vida do outro lado… e voltou para contar a história. “O Céu é como a Terra, todo mundo trabalha, todo mundo tem uma função”, explica, ao telefone. “Só que tudo lá é mais bonito.”

A história de Colton, narrada em fragmentos para seus pais, o pastor Todd e sua mulher, Sonja, causou problemas em sua comunidade, a pequena Imperial, no estado de Nebraska. Muitos tomaram por alucinações na mesa de cirurgia. Outros, pela vívida imaginação de uma criança de 4 anos. “Eu mesmo duvidei de minha própria fé”, confessa Todd. “Mas ele contou coisas que ninguém sabia, descreveu pessoas e situações com uma riqueza de detalhes que ele não poderia inventar.” A história se tornou um livro, publicado em 2010. Hollywood não ignorou as vendas e o enorme público-alvo em potencial, e O Céu É de Verdade, com Greg Kinnear no papel de Todd Burpo, materializou-se pelo diretor Randall Wallace (Fomos Heróis). O resultado foi um arraso: o filme faturou 90 milhões de dólares, um sucesso absoluto.

A verdadeira família Burpo, à época da publicação de O Céu É de Verdade
A verdadeira família Burpo, à época da publicação de O Céu É de Verdade

“É bizarro e assustador ver sua história ser interpretada por outras pessoas em um filme”, conta Todd, sempre bem humorado. “O livro é nossa visão do que aconteceu, já o filme conta sua própria história.” Em outras palavras, Hollywood dramatizou um recorte da vida da família Burpo e a experiência de Colton. Apesar de estar descrito em várias obras literárias, inclusive a própria Bíblia, o Paraíso cristão é, para muitos, uma metáfora, uma demonstração poderosa da força do simbolismo religioso. Não para Colton. “Eu ainda lembro de tudo claramente”, conta, tímido. “Sentei no colo de Jesus, conheci meu bisavô. Eu sei o que vi e o que vivi”. E como a descrição de Hollywood se compara com o que ele testemunhou? “Ah, eles fizeram um trabalho bacana.” Todd acrescenta: “A primeira vez que eu vi Connor Corum, que interpreta Colton aos 4 anos, foi como se estivesse vendo meu filho. Eles recriaram alguns dos momentos mais difíceis de minha vida.”

Difíceis. Igualmente fantásticos. Para quem não compartilha a fé dos Burpo, uma fantasia elaborada. Quando eu pergunto como eles acham que alguém que segue o Islamismo ou o Budismo veria o Céu, caso tivesse uma experiência como a de Colton, a resposta é supersônica. “Não sei, não posso nem imaginar”, dispara Colton. “Acho que, ver o que eu vi, é para quem acredita em Jesus e em seu amor.” Religião é, de fato, assunto complexo. Mas Todd se apressa em fugir da pregação. “Muitas pessoas tiveram experiências como a de Colton”, continua. “Muitos adultos, porém, tem medo de relatar o que viveram, justamente pelo temor em serem chamados de malucos.” O pastor conta que, após a publicação do livro, muitos o procuraram, mesmo ser compartilhar sua fé cristã, para dizer que acreditam em Colton.

Colton foi ao Céu, voltou e nem trouxe uma camiseta…
Colton foi ao Céu, voltou e nem trouxe uma camiseta…

Se, como filme, a história pode ser encarada como uma fantasia cristã, do lado de cá a família Burpo enfrentou críticas pesadas. Vários líderes religiosos atacaram a descrição nada bíblica do Paraíso feita por Colton, com Jesus montado em um cavalo colorido como um arco-íris, Maria ajoelhada ante o trono de Deus e uma vida no pós-vida não muito diferente do que temos por aqui. Já personalidades não religiosas apontam que tudo não passou de uma fantasia infantil, já que a mente de um menino de 4 anos ainda seria incapaz de discernir realidade e fantasia.

“Já ouvi todo tipo de agressão, mas também ouvi muitos testemunhos de fé”, conclui Todd. “Não posso dizer a ninguém no que acreditar. Eu mesmo demorei para fazer as pazes com minhas crenças! Mas acredito em meu filho, e acredito no que ele experimentou.” Mais de uma década depois, Colton Burpo segue a vida, um adolescente normal, nenhuma sequela nem de sua operação, nem de sua experiência fora de seu corpo. “Você então está OK, Colton?”, pergunto, no que logo sou interrompido por Todd Burpo, que brinca: “Fisicamente ele está ótimo, mas seus irmãos nunca vão dizer que ele é OK”.


dica do Tércio Ribas Torres

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Sem remédio, clínica usa ‘palavra de Deus’ para tratar viciados

foto: Milena Crestani/Folhapress
foto: Milena Crestani/Folhapress

Milena Crestani, na Folha de S.Paulo

Em barracos de madeira e lona, sem nenhum profissional da saúde nem remédios, uma igreja evangélica de Campo Grande (MS) oferece “tratamento” gratuito para dependentes químicos.

O idealizador da Clínica da Alma, mantida com doações, é o pastor Milton Marques, um ex-viciado em drogas.

Atualmente, cerca de cem “pacientes” de cidades de Mato Grosso do Sul e de outros Estados vivem na chácara, a 20 km do centro da cidade.

Todo o “tratamento” é baseado na fé e nos “dizeres da Bíblia”. “Não tem lógica dar remédios para um dependente e esperar que ele cuide de tomar na hora certa”, afirma o pastor.

Tratamento sem remédio

Homens de diversas idades chegam ao local indicados por parentes ou após serem encontrados nas ruas por fiéis da Igreja Tabernáculo da Glória.

“São pais que não veem os filhos há anos. Perderam emprego, casa e estavam morando na rua”, diz o pastor, que começou abrigando-os na sede da igreja, no centro. “Mas lá muitos saíam escondido e continuavam com as drogas.”

O Ministério Público Estadual instaurou um inquérito em abril para apurar se há violação aos direitos dos dependentes, após denúncias de cárcere privado e de que o pastor ficaria com metade do salário de ex-viciados que conseguem emprego.

Apesar de dizer que todos são livres para sair da chácara, Marques afirma que, quando alguém tenta ir embora, os colegas o impedem.

Mark Diego da Silva, 23, por exemplo, tentou escapar três vezes nos primeiros dias, quando chorava e tremia muito. “A vontade é de sair correndo. Nessa hora, as pessoas que estão há mais tempo aqui ajudam bastante.”

“Cheguei a comer lixo e não reconhecia que era viciado. Tudo mudou quando eu conheci a palavra e o pastor Milton”, afirma o ex-locutor Marcelo Renato Guterres, 42.

ROTINA

O dia a dia dos dependentes se resume a orações e cuidados com a chácara. Foram eles, inclusive, que construíram os barracos dos dormitórios em chão de terra batida e as duas casas de alvenaria, tudo com materiais doados.

Às 6h, os monitores –ex-viciados que estão há mais tempo no local– tocam o sino que chama para o culto.

Depois do café, todos cuidam da horta e dos animais ou fazem tarefas domésticas. Às 11h, há uma pausa para descanso e o almoço.

À tarde, a rotina se repete até as 16h, hora do banho frio antes das orações e do estudo da Bíblia. Duas vezes por semana, o futebol é liberado.

Há três anos, o CRP (Conselho Regional de Psicologia) denunciou a falta de profissionais da saúde no local.

“O tratamento não segue o que é preconizado pelo SUS e não há informação sobre pessoas que tenham se recuperado”, diz Carlos Afonso Marcondes Medeiros, que presidia o CRP-MS à época.

Segundo o pastor, as condições da chácara não são ideais, mas ele indaga: “Seria melhor se eles ainda estivessem na rua se drogando?”

Milena Crestani/Folhapress
foto: Milena Crestani/Folhapress

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