A lição que o Brasil pode dar ao mundo

Estamos vibrando com a derrocada daquilo que mais odiamos. E o que mais odiamos parece ser o Brasil. Como se o Brasil não fosse, tão e simplesmente, nós mesmos

COPA-2010Adriano Silva, no Manual de Ingenuidades

Há um pensamento em voga entre nós: devíamos sabotar a Copa, torcer contra, colaborar para que “não haja” Copa. Isto seria a coisa cívica e correta a fazer – usar a Copa do Mundo no Brasil não para vender ao mundo uma imagem boa do país, mas, ao contrário, para revelar nossas mazelas, para admitir nossas iniquidades diante do planeta.

Isto seria um levante contra “tudo isso que está aí” – o maldito padrão Fifa que não conseguimos alcançar e que nos humilha; nossa incapacidade histórica de fazer qualquer coisa honestamente, sem cobrar ou pagar propina; a economia que não anda; nossa ineficiência estrutural e nossa leniência crônica que nunca cumprem o que promete, que perdem prazos e desrespeitam contratos; nossa falência como nação que não consegue andar para frente em tantos aspectos essenciais; nossa incompetência em superar essa fenda social profunda que nos divide há séculos em duas castas que se odeiam, às vezes em silêncio, às vezes nem tanto.

Mas sabotar a Copa funcionaria também como uma espécie de autoexpiação pública e mundial, transformando nossas questões nacionais, internas, num inesquecível fiasco global. Como se a Copa do Mundo deixasse de ser uma festa para virar uma chibata. Como se o maior evento do planeta, que nos foi confiado e que nós brigamos para receber, não representasse um momento de alegria mas sim uma oportunidade de gerar constrangimento, vergonha, decepção e má publicidade.

Sorrir virou uma assunção de cretinice. Torcer pelas cores nacionais na Copa virou um crime. Exercer o gosto pelo futebol, um traço nacional, virou coisa de gente pusilânime.

Ao mesmo tempo, ver o Brasil mal retratado na imprensa de outros países virou uma alegria. Passamos a gostar da ideia de esfregar nossos aleijões na cara da audiência internacional – tendo especial regozijo ao ver a classe média do resto do mundo virar de lado e tampar o nariz. Adoramos jogar lama no próprio rosto. E convidamos os outros a nos enlamear também. Estamos torcendo para que as coisas funcionem mal, e para que tudo dê errado, e para que não consigamos fazer nada direito, para que tragédias aconteçam, para que tudo mais vá para o inferno.

Estamos vibrando com a derrocada daquilo que mais odiamos. E o que mais odiamos parece ser o Brasil. Como se o Brasil não fosse, tão e simplesmente, nós mesmos.

Tenho muita dificuldade de entrar nessa onda de autoimolação. E na inconsequência juvenil dessa postura “quanto pior, melhor”. Há um niilismo contido nesse pensamento, e um masoquismo meio piegas e vazio nessa proposta, um espírito de porco oco e doentio, que me desagradam profundamente. Talvez porque haja muita destruição aí – e eu seja um construtor. Talvez porque haja muita coisa prestes a ser posta abaixo, indiscriminadamente, e eu seja um criador que gosta de erguer obras. Não sou um demolidor de paredes. Então não consigo achar que botar fogo no circo com todo mundo debaixo da lona possa ser uma boa ideia. Talvez por já ter vivido fora do país, e visto o Brasil lá de fora. E por ter dois filhos brasileiros, que terão seu futuro próximo acontecendo por aqui. E por já estar vivendo meu 43. ano de vida. Já estou muito velho para achar que arrasar a terra possa facilitar o nascimento de alguma outra coisa sobre ela.

Fico imaginando esse mesmo pensamento noutros países. Cito apenas alguns. Você completa o quadro.

Na Copa de 2002, o Japão deveria, logo na abertura, fazer menção a seus crimes de guerra, que não foram poucos, pelos quais jamais se desculpou. Ou então alertar para o tratamento discriminatório até hoje imposto aos burakumin – pessoas que exercem profissões “impuras”, como coveiros e açougueiros. Ou protestar contra a xenofobia, e o sentimento de isolamento (quando não de superioridade) racial que ainda hoje permeia a sociedade japonesa.

A Coréia, no mesmo ano, deveria denunciar seu patriarcalismo opressor e a violência doméstica contra mulheres que é uma espécie de direito adquirido dos homens por lá até hoje – quase 60% das esposas afirmam sofrer algum tipo de abuso dentro de casa.

Os Estados Unidos deveriam ter encerrado a Copa de 1994 com uma apoteose em forma de perdão pela barbaridade das duas bombas atômicas que atiraram covardemente sobre a população civil de duas cidades, em nome de um teste científico (afinal, gente amarela não é gente, né?) e de um aviso nuclear aos novos inimigos. Foram 250 000 mortos, entre crianças, mulheres, bebês, velhos, gestantes, recém nascidos. Ou então a apoteose deveria representar uma elegia às populações indígenas americanas massacradas. Ou aos mortos de todas as ditaduras que os Estados Unidos apoiaram ao longo de décadas, inclusive ensinando as melhores técnicas para “prender e arrebentar”, para vigiar e punir e esganar. Os Estados Unidos também poderiam se retirar da Copa, e também das Olimpíadas, bem como de todas as competições internacionais em que costumam brilhar, em protesto contra o fato de serem a maior economia do mundo e até hoje não terem tido a capacidade de oferecer um sistema público de saúde universal aos trabalhadores que produzem essa riqueza toda – quase 50 milhões de americanos simplesmente não tem a quem recorrer se ficarem doentes.

A África do Sul, em 2010, deveria ter alardeado sua liderança mundial em estupros – 128 estupros por 100 000 habitantes. (Ah, sim. Na Nigéria, que receberemos esse ano, o estupro marital não é considerado crime. A delegação nigeriana, composta de maridos, deveria entrar no Itaquerão empunhando essa bandeira?)

A Itália e a Espanha, as duas últimas campeãs mundiais, nem deveriam vir à Copa. Na Itália, o desemprego entre os jovens é de 38,5% – no Sul, a região mais pobre do país, a taxa é de 50%. Ano passado, 134 lojas fechavam diariamente na bota – mais de 224 000 pontos já fecharam no varejo italiano desde 2008. Na Espanha, o desemprego está batendo em 30% na população em geral. Entre os jovens, já encostou também nos 50%.

Ou seja, se fossem países sérios, Espanha e Itália não perderiam tempo e recursos participando de um evento da Fifa, essa corja internacional, e se dedicariam com mais a afinco a resolver seu problemas, que são muito graves. Trata-se de países à beira da bancarrota. (Só para comparar, a taxa de desemprego no Brasil, esse fim de mundo em que vivemos, é de 4,9%). Os americanos, se merecessem os hambúrgueres que comem, deveriam usar a visibilidade da Copa, já que nem gostam de futebol mesmo, para chamarem a atenção para a tremenda injustiça e para o absurdo descaso que enfrentam em seu sistema público de saúde. E, se tivessem um pingo de vergonha na cara, espanhois e italianos se recusariam a vir para a Copa, a torcer por suas seleções na Copa, e se postariam de costas para os televisores e sairiam quebrando vitrines (das lojas que ainda lhes restam) a cada gol de Iniesta ou de Balotelli. Mais ou menos como estamos planejando fazer por aqui em represália aos êxitos de Neymar e cia.

Eis a lição que o Brasil está prestes a dar ao mundo.

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Vai ter toldo

copatorcidaAntonio Prata, na Folha de S.Paulo

Cada vez que leio sobre os gastos com a Copa, lembro do meu casamento e das intermináveis discussões a respeito do toldo. Quem já trocou alianças numa casa ou num local aberto sabe do que estou falando. Chega uma hora na organização de todo casório em que alguém –uma sogra, um cunhado, um conhecido da prima da vizinha– levanta a questão: “não vai botar toldo? E se chove, gente? Que é isso, tem que ter toldo!”.

Você concorda, achando que é só bater uns preguinhos nas paredes, esticar umas cordas de varal e comprar uma lona, mas descobre, pela expressão aterrorizada da sua futura esposa, ao ouvi-lo, que a coisa é um pouco mais complexa. Existem empresas que instalam toldos –e cobram uma fortuna por isso. Percebendo que talvez tenha que vender o carro (ou o corpo) pra pagar a conta, você se pergunta: vale a pena gastar essa fábula pra cobrir uma área que será usada por cinco, dez horas, no máximo?

Quando vejo as pessoas revoltadas com o fato de estarmos realizando um Mundial, lembro do toldo, pois é disso que se trata uma Copa, uma Olimpíada: de uma festa. Ainda que houvesse um grande legado urbanístico (não haverá), o grosso do dinheiro é mesmo gasto num evento que dura um mês. Pode um país com tantos problemas, como o nosso, gastar essa grana?

Para complicar ainda mais a questão, teve (tem) um monte de coisa errada na organização da festa. Indícios de superfaturamento do toldo, desvio de bem-casados, DJ que ainda não instalou as caixas, meia hora antes de os convidados chegarem. Mas torcer para que o Brasil perca, para que a energia acabe, para que o rei da Suécia pegue dengue e as privadas de todos os hotéis das cidades-sede entupam é uma atitude politicamente tão inteligente e construtiva quanto demorar mais no banho para derrubar o Alckmin, em São Paulo. A Copa ser um fiasco não alfabetizará a população, não resolverá a saúde pública, não melhorará o transporte. Nos deixará na mesmíssima situação –só que com um fiasco de Copa.

Não estou dizendo que devemos liberar a Joana Havelange que vive em cada um de nós: “o que tinha que ser roubado, já foi”. Nada tinha que ser roubado. Que se ponha atrás das grades quem roubou. Que se aproveitem todos os holofotes mundiais para se esticar faixas e cartazes contra o estado das nossas escolas e dos nossos hospitais, a falta de moradias e de transporte. Mas, a partir da semana que vem, Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar, Klose, Eto’o, Drogba e tantos outros estarão jogando em nossos gramados. Os maiores jogadores do mundo, no maior espetáculo do futebol. Se privar de viver essa experiência, seja nos estádios, nas praças, nos bares, em casa ou mesmo durante uma justíssima manifestação, pela internet do celular, não fará o Brasil melhor, só deixará sua vida mais chata.

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Fox leva Homer ao treino do Corinthians

Personagem do seriado Os Simpsons participa de ação para divulgar a estreia do episódio que tem como tema a Copa do Mundo no Brasil

Personagem admira a cidade de São Paulo no episódio do seriadopublicado no meio&mensagem

Os jogadores do Corinthians terão um reforço especial no treino que será realizado na tarde nesta quinta-feira, 29. Em uma ação de marketing, o canal Fox levará o personagem Homer Simpson para bater uma bola com os atletas do time. 

A visita de Homer é uma ação do canal para divulgar a estreia do episódio dos Simpsons em homenagem à Copa do Mundo do Brasil. “You Don’t Have to Live Like a Referee” (“Você Não Precisa Viver Como um Árbitro”) será exibido no domingo, 8 de junho, a partir das 20h. 

No episódio, que já foi lançado nos Estados Unidos, a família de Homer vem ao Brasil mais uma vez e o protagonista acaba tendo a missão de apitar um jogo da Copa do Mundo, na Arena Corinthians. Os personagens também passeiam por alguns pontos turísticos da cidade de São Paulo. 

Há 12 anos, o famoso seriado também trouxe seus personagens ao Brasil em um episódio que se passou no Rio de Janeiro. Na ocasião, muitos fãs da série criticaram a maneira como o País foi abordado, acusando os roteiristas de incluírem piadas preconceituosas e sequências desrespeitosas aos brasileiros.  

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Jornal aconselha turista a usar cápsula antifurto nas praias do Brasil

ilustracao-da-capsula-antifurto-para-praia-1401288669845_615x359Marcel Vincenti, no UOL

Em reportagem publicada em seu site, o jornal inglês “The Telegraph” apresenta uma solução contra roubos para os estrangeiros que estão a caminho da Copa no Brasil. Trata-se de uma cápsula, em formato de parafuso, que pode receber objetos valiosos e ser enterrada nas areias das praias brasileiras. Câmeras, celulares e carteiras ficariam, assim, fora da visão de ladrões enquanto o turista toma seu banho de mar.

Batizada de “The Beach Vault” (na tradução, “O Caixa Forte da Praia”), a cápsula antifurto é indicada pelo jornal “The Telegraph” para estrangeiros a caminho da Copa no Brasil Divulgação/The Beach Vault Project

“Com furtos sendo uma preocupação nas praias do Rio de Janeiro e além, um novo acessório de viagem pode ajudar os fãs de futebol a caminho do Brasil”, diz a matéria sobre a cápsula — batizada de “The Beach Vault” (na tradução, “O Caixa Forte da Praia”).

A má notícia para os que se empolgaram com a ideia é que a cápsula ainda não está sendo comercializada. Seu criador, o africano Marcal DaCunha, está tentando levantar recursos em sites de financiamento coletivo para conseguir produzi-la em massa. No site Kickstarter, ele só angariou US$ 6.057 até o momento (sua meta é chegar a US$ 15 mil).

Porém, o próprio editor de turismo do “Telegraph”, Soo Kim, duvida da eficiência da engenhoca: “parece uma boa ideia, mas, enquanto estiver enterrando a cápsula na areia, o turista pode chamar a atenção de ladrões à espreita”.

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Brasileiros monitoram racistas, machistas e homofóbicos na internet

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Publicado na BBC Brasil

“Todo dia tem racismo fresquinho no Twitter”, assegura o criador da página “Não sou racista, mas…” João Filho, 33. “Quem gosta de preto é chicote”, “Cada dia mais pegando nojo de preto” ou “Não tô nem aí, não gosto de preto mesmo, ainda mais gordo” são alguns dos comentários que comprovam sua tese.

João foi o primeiro brasileiro a compartilhar mensagens alheias na rede social para expor o preconceito de seus autores. O perfil, criado meses antes do “A minha empregada” (que chegou a repercutir no exterior nesta semana), foi o ponto de partida para o monitoramento de outras palavras-chave na rede — machismo, homofobia, transfobia e preconceito contra pessoas acima do peso são alguns deles.

“Eu procuro por comentários que ouço de forma recorrente no trabalho, no ambiente familiar, nas ruas”, diz João.

Segundo ele, frases como “serviço de preto”, “preto fede” e “neguinha favelada” são mais comuns do que se imagina e mostram que o conceito de “preconceito velado” atribuído aos brasileiros não se confirma na internet.

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“O que mais me impressiona é a quantidade de jovens que aparecem nas minhas buscas”, afirma. “Dizer que alguém tem ‘cara de empregada’ está na boca da criançada.”

São adolescentes entre 15 e 18 anos os principais responsáveis pelos comentários preconceituosos.

João tem um palpite: “É triste, mas não sei se é algo dessa geração. Esses comentários sempre foram comuns entre a classe média. Talvez porque jovens usem menos filtro na hora de destilar preconceito.”

Machismo

Inspirada na atitude de João, a estudante Gabriella Ramos, 21, resolveu monitorar e expor machistas na rede.

“Os que mais me chocaram até hoje foram os que continham piada com estupro e violência à mulher”, diz a jovem criadora do “Não sou machista”.

Ela dá exemplos. “Não é estupro. É sexo-surpresa”, escreveu um jovem de Manaus. “Não é estupro se ela usava blusa aparecendo a barriga”, afirmou um rapaz de São Paulo. “Se vocês acham minha namorada gostosa é porque não a viram pelada. Só não estupro porque não preciso”, disse outro, um brasileiro que mora na Califórnia.

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Diferente dos outros perfis, Gabriella costuma engatar longas discussões com seus adversários machistas.

“Não adianta se esconder atrás da liberdade de expressão para disseminar discurso de ódio”, ela explica. “O trabalho de exposição é algo importante, é uma denúncia que nós fazemos. Choca? Incomoda? É essa a intenção.”

Homo e transfobia

Com apenas 17 anos, o estudante Nicholas criou a página “Não sou transfóbico”.

A dinâmica é a mesma: ele pesquisa e compartilha mensagens de ódio contra travestis e transexuais. “Comecei nessa semana depois do ‘A minha empregada’. Eu vi o perfil e achei a ideia muito legal. Aí fui procurar algo do tipo sobre transfobia, porque eu sofro na pele, e nao achei nenhum”, conta.

Nicholas acredita que as pessoas tenham “menos filtro” na internet do que nas ruas.

“Como dizem algo online e acham que tem menos consequências que na vida real, todo mundo sai esculachando. Mas para mim isso não faz sentido: bizarrices ditas na internet são públicas e ficam registradas pra sempre.”

Outro perfil é dedicado exclusivamente à homofobia (o ódio contra gays e lésbicas).

Com a descrição “Não sou homofóbico. Tenho até amigos gays, mas…” o perfil já publicou mais de 700 mensagens agressivas contra homossexuais.

“As lésbicas são erotizadas por homens o tempo inteiro. Isso também é um tipo de violência”, alerta o autor.

Recentemente, ele compartilhou uma mensagem de maio do ano passado que dizia: “É lésbica mas quer virar hétero? Estupro corretivo é a correção”.

O autor respondeu, afirmando que a mensagem era antiga e que o retweet da página “Não sou homofóbico” era apenas para chamar atenção.

“Procê ver”, respondeu o autor. “As m**** que são faladas na internet não se perdem com o tempo. Melhor não falar da próxima vez, né? :)”

Gordinhos

Há dois meses, o perfil “Só faz gordice” passou a monitorar um tipo de preconceito pouco comentado no Brasil.

Ela compartilha frases como “Odeio ver gordas de legging” ou “Se as gordas que usam roupas justas pagassem multa por poluição visual, nós já não estávamos na crise à bastante tempo”.

Diferente dos outros autores, que buscam privacidade, a criadora de “Só faz gordice” publica fotos próprias, sem medo de ser feliz.

“Beijinho no ombro gordofóbicos! As banhas são MINHAS, mostro quando, se e pra quem EU QUISER!” era a legenda de uma das mais recentes.

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