A culpa por ser pobre e não ter estudado é totalmente sua

Publicado por Leonardo Sakamoto

A culpa por você ser pobre é totalmente sua.

A frase acima raramente traduz a verdade. Mas é o que muita gente quer que você acredite.

Aí a gente liga a TV de manhã para acompanhar os telejornais por conta do ofício e já se depara com histórias inspiradoras de pessoas que não ficaram esperando o Maná cair do céu e foram à luta. Pois a educação é a saída, o que concordo. E está ao alcance de todos – o que é uma besteira. E as cotas por cor de pele, que foram fundamentais para o personagem retratado na reportagem alcançar seu espaço e mudar sua história, nem bem são citadas.

Pra quê? No Brasil, não temos racismo, não é mesmo? Até porque o negro não existe. É uma construção social…

Quando resgato a história do Joãozinho, os meus leitores doutrinados para acreditar em tudo o que vêem na TV ficam loucos. Joãozinho, aquele self-made man, que é o exemplo de que professores e alunos podem vencer e, com esforço individual, apesar de toda adversidade, “ser alguém na vida”.

(Sobe música triste ao fundo ao som de violinos.)

Joãozinho comia biscoitos de lama com insetos, tomava banho em rios fétidos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Quando pequeno, brincava de esconde-esconde nas carcaças de zebus mortos por falta de brinquedos. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada, que lhe ensinou a fazer lápis a partir de carvão das árvores queimadas da Amazônia), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é presidente de uma multinacional.

(Violinos são substituídos por orquestra em êxtase.)

Ao ouvir um caso assim, não dá vontade de cantar: Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amoooooooor?

Já participei de comissões julgadoras de prêmios de jornalismo e posso dizer que esse tipo de história faz a alegria de muitos jurados. Afinal, esse é o brasileiro que muitos querem. Ou, melhor: é como muitos querem que seja o brasileiro.

Enfim, a moral da história é:

“Se não consegue ser como Joãozinho e vencer por conta própria sem depender de uma escola de qualidade, com professores bem capacitados, remunerados e respeitados, e de um contexto social e econômico que te dê tranquilidade para estudar, você é um verme nojento que merece nosso desprezo. A propósito, morra!”

Uma vez, recebi reclamações da turma ligada a ações como “Amigos do Joãozinho”. Sabe, o pessoal cheio de boa vontade genuína e sincera, mas que acredita que o problema da escola é que falta gente para pintar as paredes. Um deles me disse que acreditava na “força interior” de cada um para superar as suas adversidades. E que histórias de superação são exemplos a serem seguidos.

Críticas anotadas e encaminhadas ao bispo, que me lembrou de que eu iria para o inferno – se o inferno existisse, é claro.

O Brasil está conseguindo universalizar o seu ensino fundamental, mas isso não está vindo acompanhado de um aumento rápido na qualidade da educação. Mesmo que os dados para a evolução dos primeiros anos de estudo estejam além do que o governo esperava no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), grande parte dos jovens de escolas públicas têm entrado no ensino médio sabendo apenas ordenar e reconhecer letras, mas não redigir e interpretar textos.

Enquanto isso, o magistério no Brasil continua sendo tratado como profissão de segunda categoria. Todo mundo adora arrotar que professor precisa ser reconhecido, mas adora chamar de vagabundo quando eles entram em greve para garantir esse direito.

Ai, como eu detesto aquele papinho-aranha de que é possível uma boa educação com poucos recursos, usando apenas a imaginação. Aulas tipo MacGyver, sabe? “Agora eu pego essa ripa de madeira de demolição, junto com esses potinhos de Yakult usados, coloco esses dois pregadores de roupa, mais essa corda de sisal… Pronto! Eis um laboratório para o ensino de química para o ensino médio!”

É possível ter boas aula sem estrutura? Claro. Há professores que viajam o mundo com seus alunos embaixo da copa de uma mangueira, com uma lousa e pouco giz. Por vezes, isso faz parte do processo pedagógico. Em outras, contudo, é o que foi possível. Nesse caso, transformar o jeitinho provisório em padrão consolidado é o ó do borogodó.

Pois, como sempre é bom lembrar, quem gosta da estética da miséria é intelectual, porque são preferíveis escolas que contem com um mínimo de estrutura. Para conectar o aluno ao conhecimento. Para guiá-lo além dos limites de sua comunidade.

“Ah, mas Sakamoto, seu chato! Eu achei linda a história da Ritinha, do Povoado To Decastigo, que passa a madrugada encadernando sacos de papel de pão e apontando lascas de carvão, que servirão de lápis, para seus alunos da manhã seguinte. Ela sozinha dá aula para 176 pessoas de uma vez só, do primeiro ao nono ano, e perdeu peso porque passa seu almoço para o Joãozinho, um dos alunos mais necessitados. Ritinha, deu um depoimento emocionante ao Globo Repórter, dia desses, dizendo que, apesar da parca luz de candeeiro de óleo de rato estar acabando com sua visão, ela romperá quantas madrugadas for necessário porque acredita que cada um deve fazer sua parte.”

Ritinha simboliza a construção de um discurso que joga nas costas do professor a responsabilidade pelo sucesso ou o fracasso das políticas públicas de educação. Esqueçam o desvio do orçamento da educação para pagamento de juros da dívida, esqueçam a incapacidade administrativa e gerencial, o sucateamento e a falta de formação dos profissionais, os salários vergonhosamente pequenos e planos de carreira risíveis, a ausência de infraestrutura, de material didático, de merenda decente, de segurança para se trabalhar. Esqueçam o fato de que 10% do PIB para a educação está longe de sair do papel.

Joãozinho e Ritinha são alfa e ômega, os responsáveis por tudo. Pois, como todos sabemos, o Estado não deveria ter responsabilidade pela qualidade de vida dos cidadãos.

Vocês acham sinceramente que “a pessoa é pobre porque não estudou ou trabalhou”?

Acreditam que basta trabalhar e estudar para ter uma boa vida e que um emprego decente e uma educação de qualidade é alcançável a todos e todas desde o berço?

E que todas as pessoas ricas e de posses conquistaram o que têm de forma honesta?

Acham que todas as leis foram criadas para garantir Justiça e que só temos um problema de aplicação?

Não se perguntam quem fez as leis, o porquê de terem sido feitas ou questiona quem as aplica?

Sabem de naaaaada, inocentes!

Como já disse aqui, uma das principais funções da escola deveria ser produzir pessoas pensantes e contestadoras que possam colocar em risco a própria estrutura política e econômica montada para que tudo funcione do jeito em que está. Educar pode significar libertar ou enquadrar – inclusive libertar para subverter.

Que tipo de educação estamos oferecendo?

Que tipo de educação precisamos ter?

Uma educação de baixa qualidade, insuficiente às características de cada lugar, que passa longe das demandas profissionalizantes e com professores mal tratados pode mudar a vida de um povo?

O Joãozinho e a Ritinha acham que sim. Mas eu duvido.

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Árbitro do 7 a 1 da Alemanha no Brasil e da mordida de Suárez se aposenta

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Publicado no UOL

Marco Antônio Rodríguez, árbitro mexicano que apitou a goleada de 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil na semifinal da Copa do Mundo de 2014, anunciou nesta quarta-feira sua aposentadoria. Assim, ó histórico jogo no Mineirão se torna o último de sua carreira de 17 anos – o mexicano tem 40 anos.

Além da humilhante goleada sofrida pelo Brasil, ele também saiu da Copa lembrado por não ter visto a mordida de Luis Suárez em Chiellini, durante a vitória do Uruguai sobre a Itália por 1 a 0, ainda na fase de grupos.

Ele apitou sete jogos de Copas: em 2014, também foi o responsável pela arbitragem de Bélgica 2 x 1 Argélia; em 2010, apitou Espanha 2 x 1 Chile e Alemanha 4 x 0 Austrália; e em 2006, sua primeira Copa, esteve em Inglaterra 1 x 0 Paraguai e Costa do Marfim 3 x 2 Sérvia e Montenegro.

“Tinha o sonho de apitar em uma Copa do Mundo e fiz isso por três vezes. Alcancei todas as metas que estabeleci para mim”, disse ao anunciar sua aposentadoria.

Ele também se recusou a comentar a mordida de Suárez – o atacante uruguaio foi suspenso pela Fifa após o duelo mas, em campo, nem cartão amarelo recebeu de Rodríguez.

Fora dos gramados, o agora ex-árbitro é pastor e tem sua própria marca de gel para cabelos, algo marcante para quem o via em campo.

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Revoltado, torcedor tatua 7 a 1 da Alemanha no Brasil: ‘marcou muito’

Matheus Ribeiro Simões quis eternizar o momento de decepção da filha.
Decisão de fazer a tatuagem na perna ocorreu logo após o final do jogo.

Publicado no G1

Bia mostra a tatuagem feita pelo pai em Piracicaba (foto: Fernanda Zanetti/G1)
Bia mostra a tatuagem feita pelo pai em
Piracicaba (foto: Fernanda Zanetti/G1)

 

O torneiro mecânico Matheus Ribeiro Simões, de 31 anos, de Piracicaba (SP), tatuou na coxa esquerda as bandeiras da Alemanha e do Brasil e ainda o resultado da partida de 7 x 1. A ação foi por revolta ao ver o sofrimento da filha Beatriz Ribeiro, de oito anos. “Marcou muito vê-la chorar de soluçar, decepcionada com a derrota da seleção.” Quando houve o apito final do juiz, ele já estava decidido a tatuar o placar na pele.

“Eu fiquei revoltado com o sofrimento da Bia. Ela é da geração que nunca viu o Brasil vencer a Copa do Mundo e esperava que o time vencesse também por ela, como era dito nos meios de comunicação. Quando ela começou a chorar, de forma inconsolável com o resultado, fiquei furioso e decidi tatuar. Eu nunca tinha visto ela agir dessa maneira por uma decepção e, por isso, decidi guardar esse momento para sempre.”

Simões relatou ainda que o brasileiro tem a memória curta e muitas vezes esquece momentos marcantes na vida. “Eu não quero esquecer porque foi um momento que marcou a minha vida e a da minha filha. Sem contar que, sempre que ela ou eu olharmos a tatuagem, lembraremos da partida e daquele momento que vivemos.”

Torneiro mostra as tatuagens feitas na perna em homenagem à filha de 8 anos (foto: Fernanda Zanetti/G1)
Torneiro mostra as tatuagens feitas na perna em homenagem à filha de 8 anos (foto: Fernanda Zanetti/G1)

Copa do Mundo
No início da Copa o torneiro mecânico contou que estava sem esperanças com esta equipe do Brasil, mas que foi acreditando na seleção a cada partida. Ele disse ainda que a filha não se interessava por futebol, mas ficou muito contagiada com a Copa do Mundo.

“No jogo contra o Chile vibramos em cada pênalti, gritamos juntos, torcemos e quando o Brasil venceu nós nos abraçamos e choramos muito de emoção com a vitória. A cada partida ela estava mais envolvida. Me pediu para levá-la ao estádio, para comprar os itens para torcer e, de repente, a derrota.”

Simões contou que quando o time passou para as quartas-de-final ficou confiante e tinha até decidido tatuar o brasão do Brasil com seis estrelas caso o país vencesse o jogo.

Torneiro tatuou resultado de jogo na perna em Piracicaba (foto: Andrea Tatto/acervo pessoal)
Torneiro tatuou resultado de jogo na perna em
Piracicaba (foto: Andrea Tatto/acervo pessoal)

Brasil x Alemanha
O torneiro contou que, como em todos os jogos, Bia estava brincando no começo da partida e correu para ver quando o pai gritou que a Alemanha havia feito o primeiro gol. “Ela voltou brincar. Mas quando gritei que a Alemanha tinha feito o segundo gol, a Bia sentou ao meu lado e começou a assistir a partida. Então, ao ver o terceiro gol contra o Brasil, ela cobriu o próprio rosto. Achei que ela estava fazendo gracinhas. Ela ficou com o rosto coberto no quarto e ainda no quinto gol. Então tirei o cobertor e vi ela chorando.”

Simões relatou que a menina não parava de chorar, que soluçava e estava inconsolável com o resultado da partida. Nesse momento ele decidiu tatuar o jogo para nunca mais esquecer do momento vivido com a filha.

Bia disse que gostou da iniciativa do pai e fez questão de se justificar sobre o choro. “Eu só queria que o Brasil não tivesse perdido de tantos gols. Poderia ser uma diferença menor no resultado, por isso fiquei tão triste”, relatou.

Para acabar com o sofrimento da menina, o torneiro mecânico e a esposa, Andrea Tatto, começaram a conversar com a filha.”Nós explicamos que na vida teremos decepções, conversamos bastante e a consolamos até que se acalmasse”, relatou.

A tatuagem
Assim que acabou o jogo, Simões pediu para a mulher, que trabalha como tatuadora, fazer o desenho. “Eu não estava acreditando que ele iria tatuar o placar. Fiquei enrolando dias para fazer a tatuagem nele. Mas como foi um momento marcante para ele, aceitei a decisão”, disse Andrea.

Na quinta-feira (10), o torneiro foi ao estúdio Art’s House Tatto, onde a esposa trabalha, e fez a tatuagem. O desenho foi feito na coxa esquerda próximo a um coração escrito Bia, desenhado pela própria garota em junho de 2013. “Até o local da tatuagem foi pensado. Seria ao lado do desenho dela porque esse jogo representa o sofrimento da nossa filha. E, como eu brinco, a perna esquerda é da Bia”, disse o torneiro mecânico.

Com oito tatuagens pelo corpo, Simões disse que cada uma tem um significado importante na vida dele. “Cada desenho é importante para minha vida. E esse momento da minha filha é um deles.”

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O Brasil é melhor do que a sua seleção

foto: Veja
foto: Veja

título original: Balanço

Antonio Prata, na Folha de S.Paulo

Tem muita gente afirmando que o fiasco de 2014 foi pior do que o de 1950. Futebolisticamente, não dá pra negar: em 50, ficamos em segundo, por um único gol. Aqui, acabamos em quarto, tomando sete dos alemães, na semi, mais três dos holandeses, na disputa pelo terceiro lugar. A reação do país lá e cá, contudo, sugere que a derrota de 2014 não deixará, fora dos gramados, nem sombra da cicatriz uruguaia.

Diz a lenda que em 50, depois do jogo, havia banquetes abandonados pelas ruas, sendo devorados por pombas e vira-latas. O povo chorava em casa, como se o gol de Ghiggia selasse não apenas o campeonato mas nosso destino de fracassados, fadados ao eterno subdesenvolvimento.

Bem diferente do cenário que encontrei na Savassi, bairro boêmio de BH, voltando do Mineirão, na terça. Mesmo depois da derrota, as ruas continuavam cheias. Ambulantes seguiam vendendo cerveja. Embaixo de uma marquise, um casal se beijava sôfrega e desajeitadamente, como costumam se beijar os casais, na primeira vez. Apesar da tristeza e da perplexidade, a vida seguia seu rumo.

Por muito tempo, fomos um arremedo de país com uma seleção deslumbrante. Eu não cairia no exagero de dizer que a equação se inverteu: estamos longe de ser um país deslumbrante –socialmente, economicamente, eticamente–, mas o que percebi em meio à muvuca e me salvou da depressão foi que, hoje, o Brasil é melhor do que a sua seleção.

Dado o peso que o futebol tem entre nós, tendemos a supervalorizar a sua interpretação. Se a seleção ganha, é o brasileiro mostrando ao mundo o quão incrível ele é. Se a seleção tem um desempenho pífio, é essa porcaria do brasileiro que não consegue mesmo fazer nada que preste.

O fracasso do time serve para escancarar o atraso, a incompetência, a ganância, a burrice e a má-fé que administram o nosso futebol, mas não deve ser estendido ao país como um todo. Claro que os defeitos da cartolagem brotam de certas vicissitudes nacionais, mas a gente não se resume a elas. Temos inúmeros exemplos de brasileiros que se unem com um objetivo e chegam, com trabalho e competência, a resultados extraordinários.

Das meninas do vôlei ao Impa, Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, no Rio de Janeiro. Do Grupo Corpo ao Instituto Butantan. Da Osesp à Pastoral da Criança. De Inhotim ao programa gratuito de tratamento da Aids. Da cozinha do Alex Atala aos programas sociais que tiraram 50 milhões de pessoas da miséria. Sem falar na Copa, que, apesar da seleção, deu certo.

O jogo ainda não está ganho. Longe disso. É preciso mexer bastante no meio de campo, mas não somos uns fracassados, fadados ao eterno subdesenvolvimento. Não sei quanto a você, amigo, mas esse futebol não me representa.

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Veja lições que o Brasil pode aprender com a Alemanha após surra histórica

Müller e Schweinsteiger consolam o brasileiro Dante, companheiro de Bayern de Munique, após a vitória alemã por 7 a 1, no Mineirão (foto:  Martin Rose/Getty Images)
Müller e Schweinsteiger consolam o brasileiro Dante, companheiro de Bayern de Munique, após a vitória alemã por 7 a 1, no Mineirão (foto: Martin Rose/Getty Images)

José Ricardo Leite e Vanderlei Lima, no UOL

Mentalidade forte, capacidade de absorver um duro golpe e usar os erros para uma virada. Aceitar as deficiências com humildade, analisar as virtudes dos rivais e usá-las, sem perder sua essência. Isso é o que o Brasil pode aprender com a Alemanha que a humilhou com um 7 a 1 para conseguir se recuperar de seu maior vexame, segundo a opinião de quem conhece bem o país tricampeão e vivenciou toda a ressurreição que ele passou.

Na virada do milênio, os alemães passaram por uma situação semelhante à do Brasil de hoje. Com uma base envelhecida do título mundial de oito anos atrás, fizeram uma Copa de 98 ruim e levaram um 3 a 0 da Croácia nas quartas. Dois anos mais tarde, caíram na primeira fase da Eurocopa ao perderem da Inglaterra e tomar um 3 a 0 para Portugal. Naquele momento foi identificado que seu futebol baseado na força e contato físico estava defasado. Os alemães estavam em crise.

“A partir dali houve uma mudança, uma revolução. Viram que o estilo alemão de contato, bola pra frente e todo mundo correndo atrás já não adiantava mais. Mudaram tudo. O Brasil foi massacrado pela Alemanha na forma de jogo. Se não mudarmos agora, vamos passar vergonha. A Alemanha não baixou a cabeça e aprendeu com os erros”, falou o ex-atacante do Bayer de Munique Elber, que jogou mais de dez anos na Alemanha, de 1993 a 2003, e voltou em 2005.

“Houve ali uma reestruturação total na organização e o futebol deles teve uma melhora muito grande desde então. O Brasil parou no tempo”, opinou Amoroso, que passou de 2001 a 2004 no Borussia Dortmund.

Os brasileiros que vivenciaram a mudança de postura e mentalidade do jogo alemão listam exemplos do que foi reestruturado pelo país europeu que pode ser feito por aqui também e o que podemos tirar do jeito alemão. Após a mudança, a Alemanha chegou na final de 2002, nas semifinais em 2006, na final da Euro de 2008, semi da de 2012 e final da Copa do Mundo de 2014, só restando um título para coroar a mudança de mentalidade.

“A modernidade está aí para quem quiser usá-la e se atualizar. Você vê o Guardiola, um cara que busca a informação. E o próprio (Joachim) Low, que fez uma reformulação na seleção alemã”, disse o tetracampeão Paulo Sérgio, que jogou sete anos no país bávaro por Bayer Leverkusen e Bayern de Munique.

Humildade para querer aprender e intercâmbio

A primeira recomendação dada é a de querer mudar e achar que tem que aprender com o que estava errado e pode ser melhorado, como fez a Alemanha. O Brasil não pode achar que os 7 a 1 foi por acaso e apenas uma pane de poucos minutos.”Precisamos que uma comissão técnica futura das seleções e clubes queiram aprender. O problema do brasileiro é que ele não é humilde (como o alemão) e não acha que tem que aprender com os outros. Tem que ter humildade para querer aprender com o que acontece lá fora”, opinou Amoroso. Elber lembra que a partir do momento da virada alemã eles passaram a contratar técnicos estrangeiros para desenvolver o jogo interno do país. “Quando cheguei no Stuttgart você não via treinador estrangeiro. Só alemão. Depois o Bayern trouxe o (italiano) Trapattoni, que ajudou muito nas táticas. O Dortmund trouxe o Nevio Scala. Passou a ter uma mudança já na parte de cima. O Brasil precisa urgentemente disso. O Tite fez um estágio na Europa. O treinador brasileiro tem que recorrer a isso. Se você ligar pro Bayern, o Guardiola abre as portas pra te receber lá, falou Elber. E Alemanha, mesmo sendo uma potência, é humilde. Eles chegaram pianinho aqui. Vieram pra jogar.”

Jogo coletivo sem depender da individualidade
A Alemanha sempre teve um jogo coletivo. Admirava a habilidade e a capacidade de improvisação do jogador brasileiro para decidir um jogo e tentou formar atletas que arriscassem mais no drible e nas jogadas. Mas nem por isso abandonaram o que já faziam bem e lhe rendeu seus títulos; uma equipe que não joga em função de um único atleta. Na opinião dos ex-jogadores, falta o Brasil querer jogar mais coletivamente. “Os times lá jogam de forma compacta, com todos auxiliando os outros”, disse Amoroso.”Eles sempre ganharam pela coletividade, é a forma alemã de se pensar. Você tem que ajudar o time, não pode só ficar parado. Tem que correr mais, se movimentar. Eu falei em uma TV alemã certa vez que quando eu estava na seleção brasileira com Vanderlei Luxemburgo, voltei pra marcar e ele falou que eu tinha que ficar só do meio pra frente. Não é assim. E eles quiseram aprender com nossa improvisação indo jogar fora”, falou Elber. Ainda assim, de lá pra cá, conseguiu formar jogadores com mais habilidade para decidir um jogo. “Tem caras com muita técnica, como Ozil e Goetze. Eles têm mais gingado e habilidade do que os mais antigos. Estão mesclando”, opinou Paulo Sérgio.

Respeito ao adversário
Chamou a atenção de todos que durante a humilhante goleada, nenhum jogador alemão esboçou alguma atitude de desrespeito ou menosprezo ao adversário. Firulas, dribles e provocações são bem mais comuns no Brasil quando uma equipe vence um time por larga diferença de gols. Entendem que o respeito ao adversário é algo que precisa existir na cabeça do brasileiro.”Eles ficaram constrangidos com o que acontece. Mesmo com resultado ganho, não teve nada de chapeuzinho e bola no meio das pernas. Eles jogaram pra fazer o que tinha que fazer. É uma cultura de respeito. Tanto que depois todos eles falaram que admiram o Brasil e pregaram respeito”, opinou Elber. “É o jeito deles de não querer desmoralizar. O sul-americano já ia querer fazer gracinha, dar chapéu. O alemão procura manter a educação e respeitar”, endossou Amoroso.

Aceitar a derrota e menos pressão
A Alemanha organizou o Mundial de 2006 em casa e não ganhou. Estava do início para o meio do processo de reestruturação. A derrota em casa para a Itália na semi não foi vista como fracasso. Aquela Copa é conhecida por lá como “sonho de verão” por ter resgatado o orgulho alemão por sua seleção e pelo país. A boa organização fez os alemãs entenderam que dali o time colheria frutos no futuro e que mostraram uma boa imagem ao mundo com a Copa, mesmo não ganhando. “O Brasil tem essa coisa de que tem que ganhar quando joga em casa. Tem outras seleções que vem jogar. E aí se coloca muita pressão em cima dos jogadores. Vimos contra o Chile que eles estavam se desmantelando. Acham que porque joga aqui é primeiro o Brasil e depois o resto. Eles reconhecem a força do adversário. Foi um sonho de verão mesmo. Eles resgataram o patriotismo que o alemão deixou dentro da gaveta. Isso foi um ganho pra eles na Copa”, explicou Elber.

Organização para se reestruturar
O jeito organizado do alemão pode ser usado como espelho para que tanto fora de campo como em equipe dentro das quatro linhas não haja bagunça. Os alemães hoje contam até com serviços de tecnologia que ajudam a seleção, como tecnologia SAP para analisar os rivais e ter em mãos estatísticas e dados sobre seus jogadores e os concorrentes. “Eles são organizados, dificilmente fazem loucas financeiras, por exemplo, se não têm como honrar o compromisso. Os gestores da seleção e de clubes são profissionais, enquanto aqui vemos muito amadorismo. Hoje se você entrar no vestiário do Bayern, cada armário do jogador tem uma tela de LCD com informações pra ele. Tem quem queira fazer isso no Brasil?”, questionou Paulo Sérgio. “A CBF e os clubes têm que ser mais profissionais como eles são lá. E dentro de campo time deles é organizado jogando, não são 10 caras dependendo do Neymar”, disse Amoroso.

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