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Veja lista de evangélicos e católicos vítimas da ditadura militar no Brasil

nuncamaisMagali do Nascimento Cunha, no Mídia, Religião e Política

Esta lista é resultado de colaboração do coordenador do Grupo de Trabalho “As igrejas e a ditadura militar” da Comissão Nacional da Verdade Anivaldo Padilha com a Rede Ecumênica de Juventude (REJU) e foi editada por Magali do Nascimento Cunha. A REJU realiza entre os dias 31/03 e 04/04, período em que se completam 50 anos do Golpe Militar e o início dos anos de ditadura no Brasil, uma mobilização por Memória, Verdade e Justiça. As intervenções acontecem com a participação da REJU em atividades e atos orientados por esta temática; e com a mobilização nas redes sociais com a marca #DitaduraNuncaMais, visibilizando os nomes e trajetórias de militantes do movimento ecumênico que resistiram e foram vítimas do Regime Militar. Segundo a divulgação da REJU,

Ao contar as histórias de lutadoras e lutadores – que impulsionadas(os) por um radical amor à vida, às liberdades e aos sonhos de justiça e paz, colocaram-se na linha de frente contra a ditadura – reafirmamos a necessidade de uma real justiça de transição em nosso país, com a revisão da lei de anistia e a punição dos torturadores e culpados pelas profundas violações de direitos neste período histórico. Além disto, ao buscarmos uma efetiva justiça de transição, relembramos as juventudes que ainda hoje sofrem reflexos deste passado, com torturas e extermínios nas periferias; jovens negros, pobres, que trazem em seus passos e corpos as violências da polícia e do estado.

Apresentamos aqui a lista que não é definitiva porque as pesquisas da Comissão Nacional da Verdade, certamente e lamentavelmente, a atualizarão com outros nomes.

Assassinadas/os e desaparecidas/os

Alexandre Vanucchi

alexandre vanucchiCatólico, estudante da USP. Assassinado pelas forças da repressão em 17/03/1973, aos 22 anos. Enquanto o governo afirmava publicamente que ele teria sido vítima de atropelamento, testemunhas declararam que a morte ocorrera por tortura em interrogatórios praticada por dois dias no DOI-CODI, o que foi reconhecido finalmente em 2014, com novo atestado de óbito emitido pela justiça.

 

 

Antônio Henrique Pereira da Silva Neto

Auxiliar direto de Dom Hélder Câmara “que, à época os militares rotulavam de arcebispo vermelho”, o padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto foi sequestrado e torturado até a morte, no Recife, entre a noite e a madrugada de 26 e 27 de maio de 1969. O crime, nunca esclarecido até a prescrição do processo aberto para apurar os fatos, teve o objetivo político de tentar barrar, através da violência física, o arcebispo nas suas ações e pregações em defesa da liberdade.

Heleny Guariba

heleny_guaribaLeiga da Igreja Metodista Central. Presa em 1970 e novamente em 1971 e desaparecida. Assassinada pela ditadura, possivelmente na “Casa da Morte” de Petrópolis, centro clandestino de torturas. Seu corpo nunca foi devolvido à sua família.

 

 

Ivan Motta Dias

ivanLíder estudantil presbiteriano. Foi preso em 1971, aos 28 anos, e está desaparecido. Foi preso por ter participado do XXX Congresso da UNE em Ibiúna, SP, e depois foi acusado de ligação com organizações subversivas. Há indícios de que tenha sido assassinado na “Casa da Morte”, em Petrópolis (RJ).

 

 

João Bosco Burnier

joão boscoPadre católico, assassinado em 12/10/1976 pelas forças da repressão em Conceição do Araguaia, quando junto ao bispo D. Pedro Casaldaliga, defendia mulheres que estavam sendo torturadas.

 

 

 

 

Juarez Guimarães de Brito

Juarez Guimaraes De BritoLeigo presbiteriano. Líder estudantil, preso aos 32 anos no DOPS de Porto Alegre em 1970, desde então está desaparecido.

 

 

 

 

Paulo Stuart Wright

paulo erightLíder da juventude presbiteriana, foi eleito deputado Estadual em Santa Catarina, defensor das cooperativas de pescadores. Foi um dos fundadores da Ação Popular. Teve seu mandato cassado em 1964, exilou-se no México mas regressou clandestinamente ao Brasil. Foi preso aos 40 nos em 1973 e está desaparecido desde então. É possível que tenha sido assassinado na “Casa da Morte”, em Petrópolis.

 

 

Santo Dias da Silva

Santo Dias da SilvaLiderança da Pastoral Operária da Igreja Católica e representante dos leigos na CNBB. Numa das movimentações em torno da paralisação por campanha salarial em outubro de 1970, em São Paulo, em ação da polícia, o PM Herculano Leonel Morto atirou nas costas de Santo Dias e o matou, em 30 de outubro de 1970, no momento em que ele tentava dialogar com os policiais para libertar companheiros presos.

 

 

 

Tito de Alencar

titoFrei dominicano, preso em 1970, aos 24 anos, torturado nas dependências do DOI-CODI. Foi deportado para o Chile e depois fugiu para a Itália. Traumatizado pela tortura foi levado ao suicídio em 10/08/1974.

Presas/os, torturadas/os e exiladas/os

Ana Maria Ramos Estevão

ana mariaLeiga da Igreja Metodista Vila Nova Cachoeirinha. Presa e torturada em 1970 pelo DOI/CODI. Foi exilada na França. Retornou ao Brasil.

 

 

 

Anivaldo Padilha 

anivaldoLeigo da Igreja Metodista da Luz. Era líder de juventude na Igreja Metodista e no movimento ecumênico. Militante da Ação Popular. Preso em 28/02/1970 pelo DOI/CODI, onde foi barbaramente torturado por 20 dias. Foi denunciado pelo pastor José Sucasas Jr. e pelo bispo Isaías Fernandes Sucasas, ambos metodistas e já falecidos. Teve que se exilar no Chile, nos EUA e na Suíça por 13 anos. Passou a atuar no movimento ecumênico internacional. Voltou ao Brasil com a anistia em 1979.

Aristides Camiou e François Gouriou

aristides fançpoisPadres franceses da Igreja Católica. Lideres da Comissão Pastoral da Terra. Presos e torturados em agosto de 1981 na sede do GEAT (Grupo Executivo de Terras Araguaia/Tocantins) junto com outros 13 lavradores. Libertados em 1983. Deixaram o Brasil em 1991.

 

Carlos Alberto Libâneo de Christo (Frei Beto)

bettoFrei dominicano, preso pelas forças da repressão em 1964 e entre os anos de 1969-1973, quando foi torturado nas dependências do DOI-CODI. Colaborou com o Projeto Brasil: Nunca Mais, financiado pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Conta sua história e a dos dominicanos no livro “Batismo de Sangue” transformado em filme.

 

 

Celso Cardoso da Silva e Fernando Cardoso da Silva. Irmãos, eram membros da Igreja Metodista Central em São Paulo, presos por conta da denúncia dos irmãos Sucassas da Igreja Metodista, em 28/02/1970 pelo DOI/CODI onde sofreram tortura. Falecidos.

Claudius Ceccon

Claudius-278x278Arquiteto e cartunista que participava do CEI, foi preso em novembro de 1970 juntamente com toda a equipe de redação do jornal alternativo Pasquim, onde trabalhava como cartunista. O grupo ficou preso até fevereiro de 1971, momento em que Claudius Ceccon foi para o exílio em Genebra, passando a atuar no Conselho Mundial de Igrejas na área de educação popular junto com Paulo Freire.

 

Dorival Beulke

bulkePastor metodista preso em 1964 e 1965. Atuou em Recife, missionário na frente missionária metodista do Nordeste. Ficou preso por vários meses.

 

 

 

Eliana Bellini Rolemberg

elianarolemberg2Leiga luterana, militante da Ação Popular, presa em 28/02/1970 pelo DOI/CODI, em São Paulo, juntamente com Anivaldo Padilha, denunciada por membro da Igreja Metodista. Torturada por 20 dias, sendo transferida para o DEOPS, foi liberada no final de 1971. Teve que se exilar na França, onde foi em busca de sua filha e marido. Voltou ao Brasil com a anistia em 1979.

 

 

Françoies Jentel

jentelPadre católico, preso em 1972 por liderar uma revolta contra a invasão de terras por uma empresa que havia comprado parte do vilarejo que ficava no antigo Mato Grosso. Ficou preso por cerca de um ano até ser libertado, expulso do país de volta à França.

 

Fred Morris

Fred5Missionário da Igreja Metodista Unida dos EUA. Trabalhava no campo missionário em Recife. Foi preso pelo Exército em 1974, em Recife, e barbaramente torturado. Foi acusado de ligações com organizações clandestinas e expulso do Brasil.

 

 

Idinaura Tucunduva. Leiga da Igreja metodista da Lapa. Presa e torturada pelo DOI/CODI em 1970. Esteve exilada na França. Retornou ao Brasil.

Ives Lesbaupin

ivoFrei dominicano, preso aos 23 anos em 1969, quando foi torturado nas dependências do DOI-CODI, em São Paulo. Foi mantido em cárcere até 1973. Colaborou com a ALN (Ação Libertadora Nacional).

 

 

João Valença

Frei dominicano, preso em 1969 e torturado nas dependências do DOI-CODI em São Paulo. Colaborou com a ALN (Ação Libertadora Nacional).

Leonildo Silveira Campos

Leonildo SilveiraPastor da Igreja Presbiteriana Independente, foi preso nas dependências da Operação Bandeirante (OBAN), em São Paulo, em 1969.

 

 

 

 

Maurina Borges da Silveira

madremaurina1Madre católica, foi levada do Lar Santana, em Ribeirão Preto – orfanato no qual atuava como madre superiora – para o DOPS, na capital paulista em 1969. Foi torturada e estuprada acusada de subversão por envolvimento com a Força Armada de Libertação Nacional (FALN).

 

 

 

Renato Godinho Navarro. Leigo da Igreja Metodista Central de Belo Horizonte. Preso duas vezes. Uma em 1970 em MG e outra em 1971 em Salvador (BA).

Waldo César

wladoLeigo presbiteriano, sociólogo, secretário-executivo do Setor de Responsabilidade Social da Confederação Evangélica do Brasil. Foi um dos inspiradores do grupo ecumênico de resistência durante a ditadura – o Centro Ecumênico de Informação (CEI), 1965. Foi preso no final de fevereiro de 1967, quando sua casa foi invadida pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e ele foi levado preso acusado de estar dirigindo um protesto da Associação de Estudantes Secundaristas. Waldo César esteve incomunicável por uma semana. Sofreu tortura psicológica. Seus livros e documentos foram apreendidos. Falecido.

Zwinglio Mota Dias

zwinglioPastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil. Irmão de Ivan Motta Dias. Um dos integrantes do Centro Ecumênico de Informação (CEI), resistência do movimento ecumênico, em especial de lideranças relacionadas à Confederação Evangélica do Brasil, que promovia reuniões para, entre outras ações, trocar informações sobre os companheiros que estavam sendo perseguidos. Foi preso no DOI-CODI do Rio de Janeiro em 1971.

 

Perseguidas/os

Antonio Ramozzi. Leigo da Igreja Metodista Central. Foi detido no dia 1 de março de 1971 ao sair do culto matutino da igreja denunciado pelo pastor metodista José Sucasas Jr como “amigo do Anivaldo”. Ficou detido por poucas horas.

Clara Amélia Evangelista e Domingos Alves de Lima. Membros da Igreja Metodista do Jabaquara e da Igreja do Ipiranga. Ambos conseguiram fugir quando o DOI/CODI invadiu a Igreja Central de São Paulo no dia 28/02/1970. Exilaram-se no Chile, e após o golpe contra Salvador Allende, exilaram-se no Panamá e posteriormente no Canadá. Retornaram ao Brasil com a anistia.

João Parahyba da Silva. Pastor metodista, Secretário Geral de Ação Social. Intimado a prestar depoimento no DOPS em função de denúncias feitas pelo pastor José Sucasas Jr. e pelo bispo Isaias Sucasas (Igreja Metodista). Falecido.

Lysâneas Maciel

lysaneasAdvogado, jornalista e político presbiteriano. Em abril de 1976 teve seu mandato de deputado cassado por se posicionar contra a Ditadura. Viveu exilado entre 1976-1978. Retornou ao Brasil com a anistia e retomou atividades políticas. Falecido.

 

 

Vito Miracapilo

vitoPadre católico italiano, banido do Brasil em setembro 1980. O decreto foi revogado em 1993. Somente em 2012 seu visto de permanência foi devolvido.

A ditadura que não vivi e a “ditadura” que vivo

passeata-1024x768Publicado por Fabricio Cunha

Tava conversando com a Ester hoje, na hora do almoço… Tentávamos fazer o exercício mental de imaginarmos como seríamos, como nos posicionaríamos, como interferiríamos ou seríamos “interferidos”, se vivêssemos em 1964.

Ficamos um bom tempo imaginando. Uma nostalgia estranha, daquilo que não vivemos. Mas, a verdade, é que é impossível saber o que passaram nossos irmãos que viveram de fato esse período de nossa história nacional.

Na verdade, viver mesmo, foram somente alguns poucos, diante do todo. A maioria, como meus pais, por exemplo, só existia nesse período. Os que o viveram de fato, trazem consigo marcas irreparáveis, memórias inesquecíveis e um gosto amargo. Gosto de sangue derramado.

Quem não conhece e reconhece seu passado, não tem condições de escrever um futuro minimamente positivo.

Vivemos num país pacato, de gente muito boa, o que é maravilhoso, mas nas horas de crise, onde se demanda um engajamento radical e consciente, essa maravilha toda nos entorpece e aliena, nos tendendo, enquanto povo de uma nação, ao apequenamento, ao amedrontamento e ao silêncio.

Eu queria dizer algo sobre isso. Engraçado… Geralmente quando eu quero dizer algo sobre alguma coisa, não consigo.

Então… Não consigo…

Eu assisti o “O que é isso, companheiro?!”, li “Batismo de Sangue”, vi o documentário sobre o Vlado, li matérias e mais matérias sobre a ditadura, o AI-5, o DOI-CODI, li a espetacular biografia do Marighella. Enfim…

Mas, pelo fato de não ter vivido tudo isso, me sinto inabilitado, ou melhor, um profano, pisando em solo sagrado, ao tentar emitir uma opinião sobre o tema.

Reservo-me às minhas pesquisas, à curiosidade que me transporta no tempo e me põe em silêncio, na presença dos 6.016 torturados pela mão de ferro do inescrúpulo militar. Silencio e pasmo, acompanhando o cortejo fúnebre dos 210 mortos nos porões escuros e escusos de nossa vergonha. E choro e grito e pergunto pelos 146 que desapareceram de nosso solo, feito pó, não dando aos seus queridos nem a chance de enterrá-los.

Que o nosso silêncio seja de reflexão e respeito, mas não de medo, nem de descaso, muito menos de anuência. “Quem cala sobre o teu corpo, consente na tua morte”, me disse o Milton.

O mais triste… Na mesma semana onde nos lembramos de nosso período recente mais sombrio, o IPEA veicula uma pesquisa na qual 65% dos entrevistados concordam que uma mulher que se veste de forma “provocante” merece ser atacada.

O mais triste é perceber que nossa sociedade parece ter mudado pouco.

A sociedade que apoiou os militares ontem, é a mesma que acha normal estuprar mulheres pelo que vestem, hoje.

Mudam-se os “comos”, permanecem os “porquês”.

 

Suicídio: fique atento a estes sinais

sad-man-stigma-110603-838x558Natasha Romanzoti, no HypeScience

O suicídio é um grande problema no globo todo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada ano, um milhão de pessoas tiram a própria vida – ou seja, uma morte a cada 40 segundos, que poderia ter sido evitada.

A média brasileira fica entre 25 e 26 suicídios por dia, número só inferior ao de mortes no trânsito e homicídios. Ainda segundo dados da OMS, ao longo da vida, 17,1% dos brasileiros pensam seriamente em se matar, 4,8% chegam a elaborar um plano para tanto, e 2,8% efetivamente tentam o suicídio.

Já de acordo com dados do Ministério da Saúde brasileiro, de 2006 a 2010, o país teve uma média de 4,8 suicídios a cada 100.000 habitantes, sendo que o estado do Rio Grande do Sul liderou essa estatística, com 10,2 casos a cada 100 mil habitantes, o que é próximo de países com taxas altas de suicídio, como Suécia e Noruega.

O que fazer para abrandar esses números, que já aumentaram 30% nos últimos 25 anos no Brasil, e devem dobrar no mundo todo até 2020?

Especialistas em prevenção de suicídio sugerem que uma pessoa com pensamento suicida geralmente exibe sinais de alerta, que os parentes e amigos próximos podem perceber.

Confira os indícios para os quais se deve ficar atento, alguns mais óbvios, outros menos esclarecedores, de acordo com a Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio:

  • Falar ou discutir sobre o desejo de morrer;
  • Pesquisar maneiras de se matar;
  • Fazer referências à desesperança ou ao sentimento de que a vida não tem nenhum propósito;
  • Exibir sentimentos de estar preso ou de dor insuportável;
  • Exibir sentimentos de ser um fardo para os outros;
  • Aumento do uso de álcool ou drogas;
  • Alterações do sono, como sono excessivo ou insônia;
  • Isolamento e retirada social;
  • Manifestação de raiva ou desejo de vingança;
  • Exibir ansiedade, agitação ou agir com imprudência;
  • Ter oscilações extremas de humor.

Para ajudar pessoas com esses sinais, você deve se certificar de que elas não sejam deixadas sozinhas, remover quaisquer objetos perigosos ou drogas que poderiam ser usados em uma tentativa de suicídio e procurar ajuda médica imediata.

Caso seja você quem precise de ajuda, fale anonimamente com o CVV pelo telefone 141 ou qualquer um dos seus canais. [LiveScience, Folha 1 e 2]

Doleiros usam igrejas para ‘lavar’ dinheiro

Doleiros usam imunidade tributária conferida por lei a templos religiosos para lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e sonegação fiscal.

André Guilherme Vieira, no Valor Econômico [via Unisinos]

foto: internet

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As igrejas contam com uma condição fiscal privilegiada no Brasil. A Constituição estabelece no artigo 150 que é vedado à União, Estados, Distrito Federal e municípios, instituir impostos sobre templos de qualquer culto. A proibição compreende patrimônio, renda e serviços relacionados às finalidades essenciais das entidades nelas mencionadas. O Supremo Tribunal Federal (STF) já definiu que “templo” não está restrito ao espaço físico do culto religioso, compreendendo o conjunto de bens da organização religiosa, que devem estar registrados como pessoa jurídica.

“O uso de ‘templos de fachada’ ou ‘igrejas-fantasma’ está se disseminando no país”, alerta o desembargador federal Fausto Martin de Sanctis, especializado no combate a crimes financeiros e à lavagem de dinheiro. O magistrado, autor de livros sobre o tema no Brasil e nos Estados Unidos, destaca que a condição tributária singular franqueada às igrejas tornou-se um expediente eficaz para abrigar recursos de procedência criminosa, sonegar impostos e dissimular o enriquecimento ilícito: “É impossível auditar as doações dos fiéis. E isso é ideal para quem precisa camuflar o aumento de sua renda, escapar da tributação e lavar dinheiro do crime organizado. É grave”, conclui Sanctis.

Doações de organizações religiosas a partidos políticos são proibidas pela legislação. Elas podem significar cassação do diploma ou indeferimento da candidatura. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) firmou convênio com a Receita e a Polícia Federal (PF), para agilizar punições quando detectadas operações de caixa dois e outros ilícitos: “Sempre nos preocupamos com essa forma de doação, porque, além de criminosa, desequilibra a corrida eleitoral”, diz o juiz assessor da presidência do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), Marco Antonio Martin Vargas. “Agora há maior facilidade de aferição de recursos, por conta do cruzamento com dados das declarações de imposto de renda”, assinala Vargas. Ele salienta que a colaboração da sociedade é fundamental para reprimir o fluxo de valores não contabilizados e a lavagem de dinheiro. ” A doação ilegal existe, claro. E aquele que recebe por caixa 2 corre por fora da declaração de arrecadação e gasto”.

Na opinião do procurador da República em São Paulo, Silvio Luís Martins de Oliveira, que investigou e denunciou criminalmente responsáveis pela Igreja Universal do Reino de Deus por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha e estelionato, é preciso refinar a fiscalização sobre atividades financeiras de entidades religiosas: “Eu acho que se a igreja cumpre um papel social, tudo bem quanto ao tratamento fiscal diferenciado. Mas quando começa a virar empresa de telecomunicações, fazer doações a políticos, aí é preciso refrear”. Segundo o procurador, o mecanismo utilizado em templos destinados à lavagem de dinheiro continua sendo o sistema paralelo conhecido como dólar-cabo, embora, algumas vezes, também envolva a compensação bancária: “Costuma ser um doleiro de confiança que busca ajuda de casas de câmbio, pois a quantidade de cédulas é enorme. É o que chamam de ‘dinheiro sofrido’, porque o fiel costuma pagar o dízimo com notas amassadas”, esclarece.

Uma das lideranças mais polêmicas da bancada evangélica na Câmara dos Deputados, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP), discorda que falte fiscalização às doações realizadas às igrejas: ” Essa citada falta de fiscalização é questão de ponto de vista. Se o legislador após longo debate na Assembleia Nacional Constituinte isentou as instituições religiosas de impostos, nada mais fez do que atender aos anseios da maior parte da sociedade”, pondera.

O número de igrejas e templos abertos no país segue em crescimento, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação. São 55.166 organizações religiosas em atividade em 2014, contra 54.402 no ano passado e 46.010 em 2012. Crescimento de 18,24% na variação entre 2012 e 2013, e de 1,4% na comparação deste ano com 2013. O número de entidades religiosas já é maior que o de sindicatos (33.837) e que o de cooperativas (40.196).

O estudo “Religião e Território” (2013), dos pesquisadores Cesar Romero Jacob, Dora Rodrigues Hees e Philippe Waniez, indica expansão exponencial dos chamados “evangélicos não determinados”. Eles passaram de 580 mil no ano 2000 para impressionantes 9,2 milhões em 2010. Os evangélicos de missão cresceram de 6,9 milhões para 7,6 milhões no mesmo período, enquanto os evangélicos pentecostais passaram de 17,6 milhões para 25,3 milhões em dez anos.

Seguiu engessado por quase um ano na Comissão de Finanças e Tributação (CFT) da Câmara dos Deputados, Projeto de Lei Complementar (PLP) que suspenderia a imunidade tributária de templos de qualquer culto, partidos políticos, sindicatos e de instituições educacionais e de assistência social sem fins lucrativos. Mas a proposta foi retirada pelo próprio autor, deputado Marcos Rogério Brito (PDT-RO): “Foi o partido que me pediu para reapresentar o projeto, que originalmente teve outro deputado como autor, Gustavo Fruet (PDT) [atual prefeito de Curitiba]. Mas demandaria modificar a Constituição, então teria de ser pela via da emenda constitucional. Por isso retirei”, explica.

O parlamentar nega ter havido pressão para o descarte da proposta e afirma considerar a possibilidade de reconfigurar a ideia nos moldes de uma PEC. Mas diz que o estudo ainda não foi concluído pela área técnica da Câmara. No entanto, Brito diz que, pessoalmente, é favorável à imunidade tributária “para igrejas, partidos políticos, jornais e revistas”.

A manutenção da condição ímpar de isenção fiscal a que as entidades religiosas foram alçadas pela Constituição, é defendida intransigentemente pela bancada evangélica da Câmara dos Deputados, que conta com 73 parlamentares eleitos em 2010 e vem ganhando representatividade a cada nova legislatura. O deputado Marco Feliciano declara-se “visceralmente” a favor da imunidade fiscal aos templos, em nome da ‘liberdade religiosa’. Sobre o uso das casas religiosas para práticas de moral e legalidade questionáveis, Feliciano faz uma alusão indireta a entidades católicas: “Se partirmos do pressuposto que uma entidade não deve ter tratamento especial pela possibilidade de malfeitores se aproveitarem, por analogia o mesmo princípio se aplicaria às Santas Casas e Universidades mantidas por Fundações sem fins lucrativos”.

dica do Gerson Caceres Martins