Arquivo da tag: Caetano

‘Rolezinho’ é a sociedade se mexendo, diz Caetano Veloso

Caetano Veloso em show da gravação de CD e DVD ao vivo de 'Abraçaço' (foto: Marcos Hermes/Divulgação)

Caetano Veloso em show da gravação de CD e DVD ao vivo de ‘Abraçaço’ (foto: Marcos Hermes/Divulgação)

Sylvia Colombo,  na Folha de S.Paulo

“Rolezinho” é uma palavra linda. “É a sociedade brasileira se mexendo.”

Assim vê Caetano Veloso, 71, os encontros dos jovens da periferia nos shoppings. Obviamente, não sem também alfinetar a mídia, que considera ter tentado passar a imagem de que “rolezinhos” eram “invasões”.

O cantor baiano, que lança o CD e o DVD do show “Abraçaço”, conversou com a Folha por e-mail. Caetano falou sobre a polêmica das biografias e defendeu-se de quem o acusou de censura e demagogia. Leia os principais trechos da entrevista.

*

Folha – Qual sua opinião sobre os “rolezinhos”? Em sua opinião, há uma relação direta entre eles e os protestos de junho do ano passado?
Caetano Veloso – Só a palavra “rolezinho” (tanto pronunciada à paulista, com o “e” fechado, quanto à baiana, e mesmo carioca, com o “e” aberto) é já uma grande beleza. A pior coisa escrita num jornal sobre o assunto foi que a palavra é feia e cafona.

Essa opinião, de um colunista conservador, é que era exibição de mau gosto. Claro que rolezinhos são a sociedade brasileira se mexendo. Tudo de que ela mais precisa. Essa é a característica que esse fenômeno comparte com as manifestações de junho.

Mas acho que a imprensa deixou que se pensasse tratar-se de exibição ostensiva de garotada da periferia em shoppings de alta classe média, dando uma impressão de invasão, quando na verdade são encontros que se dão em shoppings da periferia.

Você viu o vídeo das decapitações no presídio de Pedrinhas, no Maranhão? Qual sua opinião sobre a situação do sistema carcerário brasileiro?
Já em meu livro “Verdade Tropical” [1997] eu conto a ideia da sociedade brasileira que se formou em mim quando, preso na Vila Militar, ouvi gritos de torturados durante a noite: me disseram que não eram presos políticos e sim ladrõezinhos da zona norte do Rio. Pois bem, décadas se passaram e não vi nada que parecesse sequer querer desmentir a ideia que tenho de nossa sociedade: brutal, injusta, cruel.

O que se revelou em Pedrinhas diz muito sobre o que é a realidade das prisões (e não só das prisões) brasileiras. Temos muito, muito a fazer. E, claro, não pode ser indolor.

Como vê o movimento black bloc? Acha que o Rio será palco de nova onda de protestos?
Não gosto de violência nem desejo insuflar o entusiasmo de jovens narcisistas que adoram se sentir salvadores da humanidade. Mas, como disse, os nós de nossa estrutura social brutal não podem se desfazer sem dor. Black blocs têm a ingenuidade de rebeldes sessentistas (com os quais me identifiquei no ato na segunda metade dos anos 1960), por isso, tendo a simpatizar com eles, mesmo sendo capaz de criticá-los sem dó, como fiz no começo desta resposta.

É provável que haja manifestações neste ano, com Copa e eleições e tudo o mais. Vejo que o todo da população está vacinado contra o que há de desestabilizador nessas movimentações e, portanto, irá neutralizar os protestos. O povo é conservador. Ao menos o brasileiro é.

Mas, do jeito que anda o mundo, é sempre possível que um fato pequeno, corriqueiro, desencadeie uma nova onda, talvez muito mais forte e incontrolável.

Não digo isso porque o deseje: sou classe-média e gosto de paz e sossego. Além disso não creio muito nas belezas que se atribuem às revoluções. Jamais utilizaria a palavra “terror” como algo desejável, como [o filósofo esloveno Slavoj] Zizek faz. Mas percebo a possibilidade de algo assim acontecer.

E não sou contra, já que a injustiça, a brutalidade e a crueldade merecem reação enérgica.

No caso das biografias, você declarou que a imprensa atacou-os de modo unilateral. Como analisa a imprensa cultural brasileira? Está reproduzindo o linguajar e a combatividade das mídias sociais?

As mídias sociais influem em tudo. Mas muitos dos vícios da imprensa vêm de longe no tempo. Sou contra os artigos 20 e 21 do Código Civil e o disse por escrito em minha coluna [no jornal "O Globo"].

Sempre fui, também, contra o desejo de controlar as biografias por parte dos biografados. Detesto a ideia de que meus filhos e netos venham a tomar conta do que se publicar sobre mim depois que eu morrer.

Não tenho vontade de esconder ou maquiar nada. Apenas ouvi meus amigos mais queridos, que pensam diferente de mim, e achei que, explicando a quem me lesse o quanto os argumentos deles me tocaram, podia contribuir para enriquecer a discussão. Mas vocês dos jornais, que têm emissoras de TV, revistas (ou colunas) de fofoca, editoras de livros etc., preferiram me caracterizar como “censor”. Danem-se.

Acho que a mudança no Código Civil a respeito das biografias deveria ser vista com mais finura. Espero que os juristas e o que há de saudável na sociedade (sim, porque isso também existe!) cheguem a uma solução equilibrada. Claro que livros não enriquecem escritores às centenas no Brasil.

Quem escreve biografias não deve ficar sujeito a ver seu trabalho de pesquisa jogado fora. Quem tem influência na vida pública deve poder ser retratado com coragem e independência.

Mas não apenas prefiro a amizade de Chico [Buarque] ou de Roberto Carlos aos afagos da imprensa: também respeito as questões que esses amigos levantam. Não há nada mais baixo do que jornalistas que, sabendo que é assim que eu penso, deixam prevalecer uma versão demagógica que se parece com os posts débeis mentais que são feitos agredindo Gil ou Paula Lavigne. Me eriço como as cerdas bravas do javali.

Que resultado você espera do julgamento da ação que discute a publicação de biografias não autorizadas, que deve acontecer ainda neste semestre?
Que concorde com quem defende a liberdade de expressão e o direito à informação histórica, mas que não fale como os malucos da internet e os jornalistas de má-fé.

Como está sua relação com Roberto Carlos?
Para mim, como sempre. Sempre o vi pouquíssimo. Eu o adoro como aprendi a fazer em 1966, instado por Bethânia, mas não me impeço de dizer de público que discordo dele. Se discordar, como fiz quando ele mandou telegrama ao presidente Sarney apoiando a censura [ao filme] “Je Vous Salue, Marie” (nos anos 80). No caso das biografias, sempre estive na posição oposta à dele. Disse isso a ele, a Chico, a Gil, a Milton, a todos —e prometi não atrapalhar o que eles fizessem, além de me esforçar para entender seus argumentos.

Quando o grupo de advogados dele e seu empresário disseram que estavam recuando de uma suposta posição intransigente, eu mostrei que não era o que estava acontecendo. Dizer que era [isso] dava a impressão de que Paulinha Lavigne, que presidia o grupo Procure Saber, tinha agido despropositadamente em sua aparição no programa “Saia Justa”, o que levava os malucos da internet, a imprensa histérica e os autores de cartas à redação a nos xingarem mais, sobretudo a Paulinha, que não é artista, o que parece dar licença à imaginação raivosa dessa gente.

Ora, eu sou um homem livre, maluco, sozinho, mas adoro Paulinha, com quem tenho dois filhos lindos e uma história de décadas.

Respondi a certas baixezas com veemência —e sobrou uma frase impaciente para Roberto. Sei que ele entendeu meu pedido de perdão porque sei que ele entende de sentimentos.

“Abraçaço” ao vivo estabelece um diálogo entre seu novo disco e sua obra dos anos 70. Como vê o resultado desse entrelaçamento?
O retorno às canções de “Transa” começou no “Cê”, passou pelo “Zii e Zie” e agora chega ao “Abraçaço”. Neste só está “Triste Bahia”. Nos outros dois estavam canções feitas em inglês, que o público jovem identifica mais com aquele álbum.

“Abraçaço” encerrou a trilogia que se completa com “Cê” e “Zii e Zie”. Qual será seu próximo projeto?
Ainda não esbocei nem um gesto nessa direção. Nem mesmo dentro de mim. Estou na Bahia e, depois das apresentações para saudar o lançamento do DVD, devo viajar para fora do Brasil (já fui à Argentina, ao Uruguai e à Colômbia, agora devo ir para o hemisfério Norte).

Roberto Carlos rompe com Procure Saber depois de ataque de Caetano

Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo

http://f.i.uol.com.br/folha/ilustrada/images/13306397.jpeg

Depois de sofrer ataques de Caetano Veloso no fim de semana, o cantor Roberto Carlos decidiu antecipar o que já era dado como certo : o fim da Associação Procure Saber nos moldes atuais.

Seu empresário, Dody Sirena, enviou na noite desta terça-feira um comunicado para o grupo dizendo: “A partir de agora, fiquem à vontade com o andamento do Procure Saber sem a presença direta do Roberto”.

A equipe do cantor já estava insatisfeita com a forma como Paula Lavigne, que preside a entidade, conduziu a questão das biografias, considerada “truculenta” na definição de um integrante do grupo.

Na semana passada, o rei chamou os principais integrantes do grupo em seu estúdio, na Urca, e promoveu uma espécie de “intervenção branca” na Procure Saber. Ficou decidido que Lavigne não falaria mais sobre biografias em nome da entidade. Um comitê, formado por advogados de Roberto Carlos, tocaria a questão.

Caetano, no dia, não se opôs. No fim de semana, por meio de um artigo no jornal “O Globo”, no entanto, desautorizou os profissionais publicamente. Afirmou que ele, Chico Buarque e Gilberto Gil tinham sido intensamente criticados pela imprensa por sua postura em relação às biografias, e que Roberto Carlos só surgiu depois, como “rei”.

Em determinado trecho do texto que redigiu, Dody diz que “Roberto conversou muito comigo em função dos últimos acontecimentos”.

E conclui: “Não é bem assim o nosso jeito de trabalhar, somos mais discretos, afinal defendemos também a privacidade no sentido profissional”.

;

Leia a integra do comunicado de Dody Sirena:

“Caros amigos do Procure Saber,

Este ano ainda não encerrou e vejo quantos movimentos interessantes aconteceram para os artistas brasileiros. Demos um grande passo com o Ecad e trouxemos à tona o tema biografias/privacidade. Falamos sobre direitos e, como administradores/empresários dos maiores nomes da música brasileira, sabemos que no futuro tudo isso será uma grande referência de um movimento coletivo, como outros que estes ícones já participaram. Interessante lembrar que a tropicália e as guitarras andaram em calçadas diferentes, que a imprensa anunciava que a MPB não gostava da Jovem Guarda, e com o tempo todos se uniram no mesmo pensamento.

Caminhamos bastante, divergimos algumas vezes, mas acredito que podemos nos ver como uma seleção de futebol onde os grandes craques se reúnem para defender o país e depois voltam para os seus times. Roberto conversou muito comigo em função dos últimos acontecimentos. Não é bem assim o nosso jeito de trabalhar, somos mais discretos, afinal defendemos também a privacidade no sentido profissional.

Concluímos que neste momento é importante continuar o trabalho que iniciamos há muitos anos sobre biografias, independente de estarmos em uma associação ou grupo. Portanto, a partir de agora, fiquem à vontade com o andamento do Procure Saber sem a presença direta do Roberto. O comitê criado na última reunião na Urca para atender as biografias continuará atuando de forma intensa apenas em nome do Roberto, já que Dr. Marco Antonio Campos, Dr. Antonio Carlos Almeida/Kakay, Dra. Fernanda Gutheil e Dra. Ana Paula Barcelos, são profissionais de sua equipe.

Gostaria de sugerir que o Procure Saber nomeie representantes para falar em nome do grupo quanto a liberação das biografias e em defesa da privacidade, principalmente no Congresso Nacional, em razão do pronunciamento coletivo e do comunicado oficial. Sempre que outros assuntos surgirem com tema coletivo, se Roberto entender que a pauta vai de encontro aos seus pensamentos, considerem sua adesão. Como exemplo, a pronta e efetiva participação dele no caso do autoral/Ecad e nos futuros desdobramentos com órgão regulador, como já discutimos em outras ocasiões, bem como as questões trabalhistas e a plataforma digital.

Foi muito importante termos participado deste grupo e desejamos boa sorte para os próximos passos.

Com respeito e admiração por cada um de vocês,

Dody Sirena”

‘Apanhamos da mídia, ele vem de Rei’, escreve Caetano em ataque a Roberto Carlos

Caetano Veloso (à dir.) critica Roberto Carlos (à esq.) em texto do jornal 'O Globo'

Caetano Veloso (à dir.) critica Roberto Carlos (à esq.) em texto do jornal ‘O Globo’

Publicado na Folha de S.Paulo

O racha entre os artistas que compõem a Associação Procure Saber, noticiado neste sábado pela colunista da Folha Mônica Bergamo, chegou a seu momento mais explícito: Caetano Veloso, um dos integrantes do grupo (ao lado de Roberto Carlos, Gilberto Gil, Chico Buarque e outros), criticou publicamente a atitude de Roberto Carlos, que “só apareceu agora, quando da mudança de tom” na discussão sobre as biografias.

Em texto publicado em sua coluna dominical no jornal “O Globo”, o baiano também critica a participação do advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, 56, nas ações do grupo.

“Kakay é advogado de RC, não fala oficialmente pela associação. E RC só apareceu agora, quando da mudança de tom. Apanhamos muito da mídia e das redes, ele vem de Rei. É o normal da nossa vida. Chico era o mais próximo da posição dele; eu, o mais distante”, escreveu Caetano.

Kakay presta consultoria a Roberto Carlos na disputa judicial em torno das biografias e frequentou reuniões do grupo Procure Saber, que apoiou publicamente a exigência de autorização prévia para a publicação de biografias –uma posição que sempre foi defendida por RC.

Com a má repercussão gerada pela atitude do grupo, acusado de censura, entrou em cena um “administrador de crises” convocado por Kakay e por Dody Sirena (empresário de Roberto Carlos), que sugeriu uma nova abordagem do assunto –depois disso, Roberto Carlos deu uma entrevista ao “Fantástico”, no último domingo (27), em que afirmou ser a favor das biografias não autorizadas, desde que houvesse “certos ajustes” à legislação vigente.

“Hoje (sexta), leio que um administrador de crises sugere que a Procure Saber seja desfeita, já que a mácula de atitude de censores pode sumir das imagens dos artistas, (…) mas não da de uma associação. Bem, o mínimo que posso dizer é que justamente meu desprezo pela ideia de cuidar de minha imagem como quem a programa para obter aprovação é o mesmo que me leva a tender para a liberação das biografias e a olhar com desconfiança para o conselho do especialista”, escreveu Caetano em sua coluna.

COLUNISTAS DA FOLHA

Caetano também cita em seu texto três colunistas da Folha que trataram do assunto na semana passada.

“O artigo de Fernanda Torres na ‘Folha’ diz o que eu gostaria de dizer, se minha cabeça fosse centrada como a dela. Ela diz: ‘Sou a favor da liberação’. Mas: ‘Por outro lado, alguns limites merecem atenção’”, escreveu o músico.

Sobre Ruy Castro e sua coluna da última sexta (“Jabuticabas jurídicas”), que defendeu a necessidade de independência dos biógrafos e criticou as “jabuticabas jurídicas –filigranas inéditas em outros países–, na forma de ‘ajustes’ ou ‘meios-termos’, para no fundo deixar tudo como está”, Caetano escreveu que ela “mostra, em termos simples, a inutilidade do novo discurso moderado”.

“Mais veemente do que ele, Jânio de Freitas, um jornalista de histórico glorioso, viu na recente virada estratégica um desrespeito pior aos princípios democráticos do que na radicalidade dos primeiros pronunciamentos: ambos, Castro e Freitas, veem sobretudo dissimulação. Para mim, ressalta o fato de que não há novidade conceitual nenhuma”, escreveu Caetano.

O compositor afirma ainda que “a discussão está longe de ter chegado a um termo” e que “se o tom unilateral que tomou a imprensa me causou alguma revolta, as notas e matérias que deixam entrever manobras suspeitas provocam considerável mal-estar”. No encerramento do texto, disse que “apesar de toda a tensão, continuo achando que estamos progredindo”.

Cantora e atriz Clarice Falcão critica Marco Feliciano durante show no Rio

clarice-falcão-marco-feliciano-porta-dos-fundos

Publicado no UOL

O talento e o carisma de Clarice Falcão, que transformaram a cantora de apenas 23 anos em um fenômeno da internet, arrastaram uma multidão de fãs em um show que lotou o Circo Voador, no bairro da Lapa no Rio de Janeiro, na noite da última sexta-feira, em que ela rebateu as críticas do pastor e deputado Marcos Feliciano sobre seu programa, Porta dos Fundos.

Os ingressos, que custavam R$40 e R$80 e já estavam esgotados dias antes, eram oferecidos por cambistas nos entornos da casa de shows por até R$130.

Filha dos roteiristas João e Adriana Falcão, Clarice ficou conhecida postando os vídeos de suas músicas na internet e atuando no programa humorístico Porta dos Fundos, cujos episódios estão disponíveis no Youtube.

Nos moldes da indústria fonográfica do século XXI, a cantora, que lançou o álbum Monomania online em abril deste ano e o disponibilizou para compra no iTunes, virou um fenômeno na internet, com mais de 100 mil seguidores no Twitter, 380 mil fãs no Facebook e 10 milhões de acessos no seu canal no Youtube.

Ovacionada, a cantora abriu o show com as canções “Eu esqueci Você”, “O que eu bebi” e “Um só”, e animou ainda mais o público ao entoar o hit “De todos os loucos do mundo”.

“Este é um dos dias mais felizes da minha vida. Estou tocando no Circo Voador. Isso me traz muitas lembranças, lembro de ver o Caetano tocando aqui. Vou lembrar desse dia pelo resto da minha vida”, disse Clarice antes de cantar os versos de “Eu me lembro”.

A voz afinada e o jeito divertido da jovem não são os únicos atrativos da apresentação: a banda que acompanha a cantora é um show à parte e faz belos arranjos com violino e contrabaixo, que surpreendem a quem só conhece o trabalho de Clarice no youtube, onde a maior parte dos vídeos trazem as músicas interpretadas no sofá, com a dobradinha voz e violão.

Em seguida, Clarice cantou “Fred Astaire”, “Austrália”, música escrita para o curta-metragem Laços, de Flávia Lacerda, quando a cantora tinha apenas 16 anos, “A dona da história”, de João Falcão, “Macaé” e “Essa é para você”, brincadeira da cantora com o namorado, o ator Gregorio Duvivier, que ficou famosa em um episódio do programa Porta dos Fundos.

“O Porta dos Fundos me trouxe muitas coisas, mas a melhor foi a ameaça de protesto do deputado Marcos Feliciano”, disse a cantora. O pastor se manifestou contra um episódio do programa que fazia uma piada com Jesus Cristo. “Na minha religião, a coisa mais sagrada do mundo é as pessoas poderem se amar como elas quiserem”, afirmou Clarice.

Também fizeram parte do repertório do show as canções “Qualquer negócio”, “Talvez”, “Oitavo andar”, “A gente voltou”, “Capitão Gancho” e “Monomania”, que dá nome ao disco e encerrou a noite da cantora no Circo Voador.

Até o final de agosto, a turnê de Clarice Falcão passa também por Santa Catarina e São Paulo.

Doces vândalos

protesto-sp6

Walace Cestari, no Transversos

Os vândalos foram um dos povos “bárbaros” que entraram definitivamente para a História no ano de 455, quando tomaram aquela que fora a capital do mais poderoso império já visto: Roma. Daí passaram a ser sinônimo de destruição, estupidez ou mesmo de anarquia. Culpa da impossibilidade de aceitar qualquer cultura diferente daquela considerada canônica. Narciso acha feio o que não é espelho, diria o doce bárbaro Caetano.

Pilhagens, saques e roubos. Vândalos. Nada diferente do que Roma fez durante sete séculos. Ou do que outros impérios sempre tomaram por padrão fazer. Antônio Vieira – sim o padre barroco do século XVII – contou em um de seus sermões a fala de um pirata ao imperador Alexandre, o Grande: “Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador?”

Muitos séculos se passaram e o Brasil é ainda o retrato da velha Bahia de Gregório de Matos, lugar onde faltam “verdade, honra e vergonha”. Os governantes refinaram a maneira de saquear o erário, de forma a ter na Justiça uma aliada para a defesa de seus interesses. Tudo bem ajeitado e combinado com empreiteiras, concessionárias e – por que não? –, a mídia tradicional. Todos ganham. Exceto quem paga a conta.

Durante um bom tempo não se via qualquer setor mobilizado para ir às ruas. Houve uma clara política de cooptação das lideranças sindicais e estudantis, de modo a atrelá-las a uma “luta burocrática”, na qual os favores de gabinete são mais valiosos que as vozes e faixas nas ruas. Em que pese uma infinidade de acertos deste governo, a luta será sempre mais importante, diminuí-la ou calá-la é um tiro no pé. Especialmente para quem já esteve (ou disse estar) do lado de cá.

Entretanto, a garotada decidiu ouvir o chamado das avenidas e praças. E tal como o céu é do condor, tomaram as vias públicas para protestar. A mídia tentou imediatamente reduzir a motivação dos protestos a vinte centavos. Teve gente que caiu nessa. Ainda que fosse, valeria a pena. Afinal, as escrituras dizem que Judas vendeu Cristo por trinta dinheiros e nossos governantes vendem uma população inteira a vinte centavos. Nem a lei de mercado parece ter valor aqui.

Mas, se vinte centavos são pouco, somem-se os gastos para a Copa. Sim, aquela que iria modificar a mobilidade urbana e acabou por somente construir estádios. Em média, um bilhão por arena. Como são dez arenas, temos dez bilhões de reais em gastos que não incluem nenhuma obra de melhoria urbana nesses locais, diferentemente do que nos fora prometido quando da candidatura a sediar o evento. E aí, vale protestar então por R$10.000.000.000,20?

Se, por um lado, estávamos saudosos de ver uma juventude atuante; por outro, a polícia demonstra sua saudade dos velhos tempos da ditadura. Mais truculenta do que nunca, quebra suas próprias viaturas para culpar os manifestantes. Promove terror, infiltra gente na manifestação para atiçar a baderna… Tudo aquilo que sempre fez. A diferença é que hoje as câmeras não são exclusividade da meia dúzia de famílias que controlam a informação no país. O smartphone e as redes sociais vão mudar a história.

Quantas vezes apanhei da repressão policial diante de fotógrafos de olhares atentos, mas que nunca expuseram a imagem da covardia? Agora há milhares de olhos vigilantes. Há milhares de penas prontas a escrever em um blogue ou em uma rede social. A abundância de fatos é tamanha que nem a imprensa, acostumada a esconder verdades, pôde se calar. Obviamente, que não faz de forma gratuita – o editorial da Folha mostra bem o que a família Frias, por exemplo, pensa da cidade de São Paulo – mas para tentar salvar a máscara que lhe está caindo. Apela para a vitimização corporativa e para a denúncia do vandalismo generalizado.

Nossos governantes vandalizam as contas públicas. Oferecem o que há de pior à população. São eles os “bárbaros”, são eles os “Alexandres”. Tomemos a rua e saibamos apanhar da polícia sem perder a tenacidade: são explorados como os outros. Mais até: além do corpo, estragam-lhes a cabeça, ensinando a lição de morrer pela pátria e viver sem razão, já disse Vandré. E, é na certeza de que as flores vencerão o canhão, que continuaremos caminhando, cantando e seguindo a canção. Afinal, vinte centavos não pagam a dignidade de todo um povo explorado: às ruas, cidadãos!

dica do Carlos Laurindo