Arquivo da tag: candidatos

Dupla vitória da democracia

O pedido para votação em regime de urgência do projeto de lei que acaba com o fundo partidário e o tempo de TV para os novos partidos não foi votado no Senado por falta de quorum.

Foto: Moreira Mariz/Agência Senado

Foto: Moreira Mariz/Agência Senado

Publicado no Brasil em Rede

A democracia venceu duas vezes nesta quarta-feira (24/4). A primeira vitória foi no Senado. A segunda, no Supremo Tribunal Federal (STF). O pedido para votação em regime de urgência do projeto de lei que acaba com o fundo partidário e o tempo de TV para os novos partidos não foi votado no Senado por falta de quorum. Paralelamente, o ministro do STF, Gilmar Mendes, suspendeu a tramitação da proposta, em resposta a um mandado de segurança protocolado pelo senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) no dia anterior.

Acompanhada de perto por Marina Silva e outros membros da Rede Sustentabilidade, a resistência dos senadores ao golpe contra a democracia foi forte. A reação contou, inclusive, com parlamentares do próprio governo, que pressionou sua bancada a aprovar o pedido de urgência e o projeto, como já havia feito na Câmara. Mesmo ciente de que pode ser punido pelo partido, Eduardo Suplicy (PT-SP) votou contra o pedido de urgência e declarou que não trairia sua consciência. Anteriormente, Jorge Viana (PT-AC), também havia se declarado contra o projeto e anunciado que proporia uma emenda para que a medida, se aprovada, valesse apenas depois das eleições de 2014.

Pedro Simon (PMDB-RS) defendeu com veemência na tribuna sua posição contrária à aprovação do projeto. Em seu discurso, ele comparou a articulação do governo para a aprovação da proposta ao Pacote de Abril de 1977, imposto pelo então presidente Ernesto Geisel. “Isso que está aí é um Pacote de Abril de quinta categoria. Havia uma ditadura, um ato institucional, havia cassações, havia marechais, havia todo mundo”, afirmou Simon. À época, a medida criou a figura do senador biônico para impedir a vitória do MDB, o único partido de oposição.

A mobilização dos senadores parece ter surtido efeito e chamado os parlamentares a refletir sobre os princípios essenciais da democracia. Embora 76 senadores estivessem presentes, apenas 23 votaram quando foi decidida a urgência, o que derrubou a sessão, já que era necessária a participação de 41.

Em sua decisão Gilmar Mendes, afirmou que: “a aprovação do projeto de lei em exame significará o tratamento desigual de parlamentares e partidos políticos em uma mesma legislatura. Essa interferência seria ofensiva à lealdade da concorrência democrática, afigurando-se casuística e direcionada a atores políticos específicos”.

O senador Rollemberg lembrou que o STF já havia se manifestado de maneira semelhante na ação que envolvia o Partido Social Democrata (PSD), definindo como inconstitucionais normas que firam o princípio da pluralidade partidária e cooperem para a co-existência de “partidos de primeira e segunda categoria”.

A tramitação do projeto agora está suspensa até que o plenário do Supremo decida se a proposta pode ou não ser votada pelos senadores.

 

Candidatos a vereador usam sexo para se promover

Publicado originalmente em Terra [via Alagoas 24 horas]

Se sexo vende mais que qualquer outra coisa, a política não poderia ficar de fora e deixar de usar esse infalível recurso como estratégia de marketing para as eleições deste ano. Alguns candidatos a vereador exploram suas ocupações no meio artístico ou na indústria do sexo para chamar a atenção para si entre centenas de correntes, usando slogans e fotos ousadas – que às vezes acabam dando certo.

Marina Silva Queiroz, ou a “Mulher Perereca” (PRTB), explora a fama do rebolado para concorrer à Câmara Municipal de Salvador. A mascarada ficou famosa em 2009, como dançarina da música “Perereca”, que fez sucesso na capital baiana no carnaval de 2009. Em 2011, foi coroada a “musa dos taxistas” da cidade, e agora é cantora de funk.

“Vou fazer uma drenagem linfática no governo, acabar com a corrupção com uma super dieta, usar muito suplemento e malhação para ter energia para trabalhar e erguer essa cidade” – essas são suas metafóricas propostas, simbolizadas pelo número 28069

Também no centro do axé, Sara Verônica disputa uma cadeira pelo PSL com um panfleto que exibe todos os seus atributos de ex-dançarina de “Na Boquinha da Garrafa”, hit emplacado pelo grupo Cia. do Pagode no início dos anos 1990. Ela também concorreu a vereadora em 2008, sem sucesso.

Já Anivaldo Luiz da Silva, o Lobão (PSB), pretende conciliar a vida de músico e produtor de filmes pornô com as atividades parlamentares em Maceió. O candidato é vocalista da banda Cheiro de Calcinha e vende na rua DVDs com títulos como “Penetrando no Centro de Maceió”. Ele diz que é cinegrafista das produções e que atua apenas “não sexualmente”.

Haréns da política

Porto Alegre, por sua vez, tem duas famosas casas de entretenimento adulto que tornam seus donos populares aos olhos do eleitorado – ou quase isso. A Tia Carmen, dona do Carmen’s Club, emprestou seu apelido involuntariamente a Carmen Steinert (PTB). Assessora do PTB há 20 anos, Carmen nega a tentativa de ligação com a boate, mas usa o slogan “Prazer em cuidar de você”, com um santinho igualmente sugestivo. Sua assessora diz que há uma reformulação de campanha em processo.

Mas o mais famoso político do ramo na capital gaúcha é o ex-padre Roque Rauber (PDT), 71, mais conhecido por ser dono da casa de swing Sofazão. Rauber está na política desde 1983 – 13 anos após abandonar a Igreja. “Senti não estar preparado para a árdua tarefa de exercer meu apostolado neste mundo extremamente tentador. Ao invés de não ser um padre modelo, preferi ser um ótimo cristão”, disse ao Terra por e-mail, argumentando que a Igreja daquela época era muito mais rígida que a de hoje. Continue lendo

Candidatos a vereador em Manaus estreiam no rádio citando Deus e o inferno

André Alves, no A Crítica

A propaganda eleitoral gratuita teve início nesta terça-feira (21) no rádio. No primeiro dia, candidatos citaram a Bíblia, Lula, Eduardo Braga e, como não poderia deixar de ser, fizeram promessas

Candidatos fazem promessas, citam Deus e até o inferno durante as campanhas políticas (Arte sobre fotos de Ney Mendes )

Os candidatos a vereador que disputam vaga da Câmara Municipal de Manaus (CMM) estrearam nesta terça-feira (21) na propaganda eleitoral gratuita transmitida pelo rádio citando Deus e o inferno e tentando lucrar com grandes obras realizadas pelo Estado.

Foi o caso de João Thomé Mestrinho, que durante a propaganda de rádio, veiculada das 6h às 6h30, afirmou que o Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim) foi um projeto realizado pelo governador Eduardo Braga, mas, iniciado anteriormente na Manaus Moderna pelo ex-governador já falecido Gilberto Mestrinho, pai de João Thomé. “Foi um trabalho feito pelo PMDB”, frisou.

Já o vereador e candidato à reeleição Amaury Colares afirmou que pretende manter-se no cargo para combater “as portas do inferno” e ainda citou passagem bíblica descrita no livro de Isaías: “Ai daquele que fizer leis injustas”

O vereador Reizo Castelo Branco, que por decisão da Justiça Eleitoral do Amazonas ficou inelegível por oito anos, também aparece no programa de rádio se dizendo “um jovem de coragem” e querendo manter-se na função para, entre outras coisas, garantir “que não falte medicamentos” nas Unidades Básicas de Saúde.

A propaganda transmitida pelo rádio também teve slogans do tipo “uma vida, uma história”, citado pelo candidato “Edílson Profeta” e “essa é a hora de mostrar força”, narrado por “Saçá da Construção Civil”. E para faturar louros, “Louro do PT” não citou Deus, mas usou no nome de Lula.

Já o candidato à reeleição Waldemir José apareceu na propaganda exaltando sua formação em “Matemática e Economia” com “pós-graduação em Ética e Política”.

A propaganda eleitoral no rádio dos candidatos a vereador ainda vai ao ar nesta terça-feira, das 11h às 11h30, e volta na próxima quinta-feira (23). A propaganda eleitoral na televisão também estreia nesta terça-feira, de 12h às 12h30 e de 19h30 às 20h.

Luta pelo voto dos religiosos desigual em Minas

Juliana Cipriani, no Estado de Minas

É “em nome de Jesus” que eles se dizem candidatos e deixam bem clara a ligação com a religião em seus nomes na urna. Nas 100 maiores cidades de Minas Gerais, 271 pastores evangélicos se apresentam pedindo o voto do eleitor para representá-los, não só nos cultos, mas também nas câmaras municipais. Nos mesmos municípios, há apenas sete candidatos identificados como padres da Igreja Católica, conforme a listagem da Justiça Eleitoral. A diferença gritante ocorre pela postura das duas instituições em relação à política: enquanto os evangélicos incentivam as candidaturas e os votos dos fiéis, os católicos proíbem a participação dos sacerdotes nas disputas.

Levantamento feito pelo Estado de Minas mostra que em 70% dessas cidades há candidatos pastores, enquanto há padres somente em sete: Uberlândia, Governador Valadares, Sete Lagoas, Pouso Alegre, Alfenas, Ponte Nova e Monte Carmelo – um em cada. Em Belo Horizonte há 16 candidatos pastores; em Governador Valadares, 11, e em Contagem, nove. O curioso é que, de acordo com o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de mineiros que se declaram católicos (13.802.790) é três vezes e meia maior do que aqueles (3.957.520) que disseram pertencer a religiões evangélicas.

Dos poucos padres candidatos, um está afastado da função. Conseguiu licença do Vaticano em 2004 por ter decidido se casar com a professora Sandra Maria, com quem teve uma filha. Ainda pode voltar ao ministério, mas a chance é mínima. Mesmo assim, Padre Gilson (PMDB), candidato em Ponte Nova, Zona da Mata, usa a profissão no nome de urna por ser assim que seus potenciais eleitores o conhecem. “Uso porque não perdi o sentido de ser padre, deixei só as funções, mas continuo trabalhando nas pastorais, com encontro de casais e sempre me chamam para fazer palestra. Tem gente que me pede bênção na rua até hoje”, justifica.

Para o padre licenciado, as restrições da Igreja Católica à participação política acabam minguando a representatividade dela. “Os evangélicos são livres nas suas decisões. Não ficam presos a uma estrutura maior de igreja. Parece que entendem melhor a importância da presença da Igreja no centro de poder”, avalia Padre Gilson. Outro que disputa uma vaga no Legislativo é Padre Paulo (PT), de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. Ordenado em 2000, disse ter conseguido licença de três meses do bispo dom Werner Siebenbrock para concorrer às eleições. Caso saia vencedor, não sabe se poderá continuar celebrando missas. “Só então vão decidir se posso continuar”, ressaltou.

Padre Paulo continua atuando em uma comunidade menor, mas garante não estar instrumentalizando o ofício. Ele segue o exemplo do colega de partido, deputado Padre João, que, segundo ele, encontrou brecha para poder continuar celebrando em locais menores. “O padre não deve se candidatar a não ser que a realidade exija e aqui (em Valadares) isso ocorre. Desenvolvo um trabalho social e penso que no Legislativo posso ampliá-lo”, afirmou. Sobre a possibilidade de a condição de padre lhe render votos, o candidato rebate: “Existe muita gente que não vota em mim justamente para não perder o padre”.

INCENTIVO
Na Igreja Evangélica, a participação nas disputas é mais do que liberada. A Igreja escolhe quem quer que a represente e indica seus candidatos. Os fiéis são estimulados a votar no escolhido da congregação. Candidato pela primeira vez nesta eleição, o Pastor Elson (DEM) concorre em Ribeirão das Neves como membro da Igreja Quadrangular. “A Igreja me lançou. Até pela circunstância que estamos vivendo, tomamos a iniciativa. As leis atrapalham não só a questão da educação, da família, mas dos princípios bíblicos. Na política, vamos ver o que podemos melhorar no município. Há uma expectativa nossa de contribuir mais com a situação do povo”, afirmou.

Pastor há 17 anos, Elson aguarda uma decisão da Igreja, mas acredita que vá se afastar dos cultos durante a campanha. Ainda que não se licencie, garante que vai obedecer à legislação eleitoral, não pedindo votos no templo. Mesmo assim, o pastor reconhece que leva alguma vantagem por seu trabalho. “Pelo fato de conhecer muitas pessoas. É como alguém que trabalha em uma ONG, creche ou um diretor de escola pública. De certa forma ele é reconhecido pelo trabalho que faz”, compara. Se eleito, diferentemente dos padres, está certo que continuará atuando como pastor.

O vereador de Belo Horizonte e pastor Henrique Braga (PSDB), que atua na Igreja Quadrangular do Barreiro, poderia ser inspiração para o candidato de Ribeirão das Neves. Atuando há 38 anos na igreja, ele está disputando a sétima eleição e continua o trabalho com os fiéis. “Só paro no período de campanha. Tenho um tempinho bom de trabalho, mas acho que a votação depende muito da postura de cada um. Tem gente que se falar que é evangélico vai perder voto porque, no poder, não dá aquele testemunho esperado”, afirmou.

Código canônico proíbe participação

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) preferiu não se pronunciar oficialmente sobre o assunto, já que cada bispo é responsável por sua região, mas encaminhou nota em que o arcebispo metropolitano de Natal, dom Jaime Vieira Rocha, se posiciona contrariamente à participação dos padres na política. Segundo o Código de Direito Canônico, que rege a Igreja Católica, os clérigos devem se abster de tudo o que não convém e são “proibidos de assumir cargos públicos que impliquem participação no exercício do poder civil”. Em outro trecho, a lei determina que os padres “não tenham parte ativa nos partidos políticos e na direção de associações sindicais”.

Procurado pela reportagem, o Conselho Nacional de Pastores do Brasil também não se manifestou. Autor de uma dissertação de mestrado na Faculdade Autônoma de Direito, defendida em 2010, sobre o discurso religioso e a política, o subsecretário de Estado de Relações Institucionais, Leonardo Portella – que, assim como o pai, o deputado federal Lincoln Portella (PR), integra a Igreja Mundial –, acredita que a participação da Igreja Evangélica seja mais tradicional do que a católica pela ausência de regras em sentido contrário. “As igrejas evangélicas já têm isso no seu dia a dia. Não há restrição, tornou-se aceitável, e eles usam os contatos em reuniões fora para difundir essas candidaturas”, afirmou.

Leonardo Portella nega que o fato de um pastor ser candidato seja uma espécie de trampolim para facilitar a eleição. “Não vejo dessa forma, mas o pastor geralmente está inserido nos problemas da comunidade local porque a Igreja tem o papel não só transformador de almas e vidas, mas da própria comunidade local. Ela tira gente da rua, das drogas, da prostituição. Ela acaba se envolvendo pelo fato de o pastor ser inserido nesse contexto”, argumentou.

charge: Newton Silva, no Jornal da Lapa

dica do Thiago Ferreira de Moraes

Outra vez, aborto e união gay na pauta eleitoral

Fernanda Krakovics, em O Globo

Parlamentares que tiveram como uma de suas bandeiras a criminalização da homofobia ou a defesa da união civil de pessoas do mesmo sexo enfrentam agora oposição ferrenha de evangélicos e católicos na campanhas para as eleições municipais. Atrás dessa fatia do eleitorado, alguns deles tentam agora reconstruir o discurso ou fazer acordo com lideranças religiosas, na tentativa de neutralizar os ataques.

São vários casos espalhados pelo país, mas essa disputa ganha maior visibilidade nas grandes cidades. Na eleição para a prefeitura de Manaus, por exemplo, esse é o maior viral contra a candidatura da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). A coordenação de sua campanha está procurando líderes de igrejas evangélicas para tentar neutralizar a resistência a seu nome por causa da defesa da causa dos homossexuais que fez no Senado. De acordo com o Censo 2010, os evangélicos representam 35,5% da população da capital.

— Os adversários é que tentam atribuir a ela posição sobre o tema. Ela sequer estava presente na votação do projeto (de criminalização da homofobia) na comissão do Senado — afirmou o senador Eduardo Braga (PMDB-AM), padrinho da candidatura de Vanessa.

A senadora defendeu que o PLC 122/06 — projeto de lei que torna crime discriminação de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero — tramitasse em regime de urgência e fosse direto para o plenário. Mas a matéria está parada na Comissão de Direitos Humanos do Senado, em meio à disputa entre as bancadas religiosas e os defensores dos direitos LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros).

Relatora do PLC 122/06 na legislatura passada, a ex-senadora Fátima Cleide (PT-RO) não conseguiu se reeleger para o Senado em 2010 e agora tenta a prefeitura de Porto Velho, devendo enfrentar as mesmas dificuldades. Ela acredita que agora esse tema não terá o mesmo peso que em 2010, quando até a eleição presidencial foi contaminada pela polêmica. Aposta que os assuntos municipais serão mais importantes este ano.

— O fundamentalismo religioso existe e também o fundamentalismo eleitoreiro, que se aproveita do conservadorismo religioso. Mas acho que, neste ano, essa bandeira não vai vingar — disse a ex-senadora.

Já a deputada Manuela D´Ávila (PCdoB-RS) se aliou a evangélicos na disputa pela prefeitura de Porto Alegre, tentando conquistar essa fatia do eleitorado e também evitar a exploração, de forma negativa, do apoio que deu na Câmara às propostas de união civil de pessoas do mesmo sexo.

Mesmo assim, aliados de Manuela afirmam que o prefeito José Fortunati (PDT), que é candidato à reeleição e evangélico, tem explorado o tema em cultos. Ao participar da Marcha para Jesus, no ano passado, Fortunati disse que “o senhor Jesus está no comando desta cidade”.

A preocupação do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), coordenador da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania LGBT, é como esse tema é invocado para difamar os candidatos.

— Essa difamação está quase sempre sustentada em calúnias, principalmente pelas redes sociais. Eles (os políticos) distorcem os fatos e criam um pânico moral. Um pastor ou padre dizer que homossexualismo é pecado, o que é um dogma da igreja, é diferente de difamar — disse ele.

Outro que pode enfrentar problemas semelhantes na campanha é o ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT), candidato à prefeitura de São Paulo, por causa do chamado “kit gay”, o polêmico material de combate à homofobia nas escolas. O kit seria distribuído pelo MEC mas foi vetado por Dilma depois da pressão dos deputados evangélicos.

Essa não será a primeira campanha pautada por debate moral. Nas eleições presidenciais de 2010, o candidato tucano José Serra, ex-ministro da Saúde, explorou a postura pró-aborto de sua adversária, a então candidata Dilma Rousseff. Em resposta, a petista afirmou que era contra a interrupção da gravidez mas que, se fosse eleita, encararia o tema como uma questão de saúde pública e social.

Neste ano o Secretário-geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dom Leonardo Steiner já afirmou ser a favor de debater aborto e casamento gay nas eleições municipais.

foto: A Crítica

1/3 dos fiéis na Marcha para Jesus votariam em candidato de pastores

Rodrigo Vizeu, na Folha de S.Paulo

O apoio dos pastores tem grande influência sobre o eleitorado evangélico, indica o Datafolha com base no público presente na Marcha para Jesus de anteontem.

Entre os participantes do evento, 31% afirmaram que o apoio dos pastores de sua igreja a um candidato a prefeito “com certeza” o levariam a votar nessa pessoa.

A influência dos líderes religiosos vai além, já que outros 34% dos entrevistados disseram que “talvez” escolham seu candidato a partir da indicação dos pastores.

No total, portanto, 65% dos que foram à marcha são direta ou parcialmente influenciados pelos comandos das igrejas na eleição.

A margem de erro da pesquisa Datafolha é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Anteontem, na marcha, o apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer, que organizou a caminhada, disse que “com certeza” as igrejas devem orientar seus fiéis sobre o melhor perfil de candidato.

“A igreja deve participar efetivamente através do voto popular”, disse. “Dentro das convicções de cada igreja e daquilo que ela vê como melhor proposta, ela tem esse papel”, completou.

No total, 60% do público presente era da cidade de São Paulo, 36% do interior do Estado e 4% de outras unidades da Federação.

Os fiéis da Renascer foram maioria –34% dos presentes– seguidos pela Assembleia de Deus, com 16%. Só 1% era da Igreja Universal do Reino de Deus.

A Renascer afirmou que ainda não definiu quem apoiará para prefeito de São Paulo. O principal tronco da Assembleia de Deus, que é a líder de adeptos entre as pentecostais na cidade, apoiará José Serra (PSDB).

O ministro Marcelo Crivella (Pesca), bispo licenciado da Universal, também defendeu a orientação política dos fiéis. “O povo pergunta ao pastor em quem votar”, afirmou.

Ele disse ainda que é importante o envolvimento dos evangélicos na política, inclusive se candidatando, para promover os princípios das igrejas de uma vida focada em trabalho, família e oração.

Segundo Crivella, senador licenciado pelo PRB-RJ, o candidato a prefeito de São Paulo “mais próximo” dos evangélicos é Celso Russomanno (PRB).

foto: Joel Silva/Folhapress

 

São Paulo terá ao menos 15 pastores evangélicos candidatos

Gil Alessi, no UOL

Igrejas evangélicas com diferentes denominações terão pelo menos 15 pastores que concorrerão a vagas na Câmara de São Paulo, segundo levantamento feito pelo UOL com base em dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

De acordo com o tribunal, o PSDB encabeça a lista, com quatro representantes: os pastores Hideraldo Pagliarin (foto), da Comunidade Cristã Paz e Vida, José Pagliarini Filho, da Igreja do Evangelho Quadrangular, Everson Marcos, da Igreja Quadrangular, e a missionária Edilaine Pires, da Catedral da Benção.

“O Brasil está se tornando um país evangélico e a tendência é que os partidos se evangelizem também”, afirma Daniel Sottomaior, presidente da Atea (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos).

Dados do Censo Demográfico 2010, divulgados em junho pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que a população evangélica no país passou de 15,4% do total para 22,2% nos últimos dez anos e hoje contabiliza 42,3 milhões de pessoas. É a segunda religião com o maior número de adeptos no país, atrás da católica.

Caça-votos

“Os partidos políticos querem candidatos que tenham votos. Eles pensam: ‘O que é melhor, lançar um ateu para ter 5.000 votos ou um evangélico que tenha 20 mil? ’”, afirma o vereador Carlos Apolinário (DEM), membro da bancada evangélica da Câmara de São Paulo e ligado à Assembleia de Deus.

“Mas nem todo evangélico vota em evangélico. O dia em que evangélico votar só em evangélico vamos fazer metade da Câmara e colocar um presidente no 2º turno das eleições. Mas os partidos não têm essa consciência, acham que existe um alinhamento automático entre a fé do cidadão e a fé do político em quem ele vota”, diz Apolinário.

Para Sottomaior, pastores que concorrem nas eleições “são um bom negócio para as legendas, que tem um candidato que não parte do zero, já tem um público que o vê como autoridade moral e intelectual, e são seus potenciais eleitores”.

A missionária Edilaine diz que “o evangélico se conscientiza mais a cada dia”. “Não basta o candidato ser evangélico, precisa ter carisma, estar próximo do fiel para conseguir o voto. O missionário que chega, abraça sem fazer acepção, está próximo, que mostra carinho por todos tem mais chance de conseguir o voto.”

Para ela, com o crescimento dos evangélicos do país, “mais partidos irão se aproximar para caminhar junto”.

Segundo o censo, as igrejas Assembleia de Deus, Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus e Igreja Internacional da Graça de Deus reúnem cerca de 706 mil pessoas em São Paulo, cerca de 8% do total de eleitores. Nas eleições municipais de 2008 um vereador precisou, em média, de 25 mil votos para se eleger.

Pastores

Além dos missionários lançados pelo PSDB, o PRB aposta nos pastores Jean Madeira, que está à frente da Força Jovem Brasil, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus (da qual seu partido é uma espécie de braço político), e Jefferson Julião.

O PP lançou candidato o pastor Edemilson Chaves, ligado à Igreja Mundial do Poder de Deus, e o PHS terá o pastor João Lisboa. O PV conta com o pastor Matusalem Cunha, da Assembleia de Deus, e o DEM com o pastor Atalaia, da Igreja Evangélica Missão Atalaia.

Participam também da corrida eleitoral por uma vaga na câmara os pastores Moisés (PSC),  Claudio Rogério Modesto (PDT),  o apóstolo Celso Salgueiro (PMDB), da Igreja Evangélica do Povo de Deus, o bispo Fernando de Oliveira (PHS), e a pastora Léa (PTN).

Pressão

A força dos evangélicos na política foi demonstrada em 2010, quando a então candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, precisou convocar uma reunião com pastores para dar explicações sobre o aborto e o casamento gay, consideradas flexiveis demais pelos religiosos.

Fernando Haddad (PT), candidato à Prefeitura de São Paulo, também sofreu pressão da bancada evangélica no Congresso Nacional. Em 2011, titular no Ministério da Educação, viu a tentativa de distribuição de um kit anti-homofobia nas escolas públicas –conhecido como “kit gay”–ser vetada pela presidente Dilma, após protestos da bancada evangélica.

foto: site da Paz e Vida