Em São Paulo, centros de detenção provisória proíbem jornais e revistas

Dos 19 CDPs na Grande São Paulo, 11 vetam completamente a entrada de veículos noticiosos. Em Santo André, só entram as revistas “Veja” e “Placar”

CDP I "ASP Giovani Martins Rodrigues" de Guarulhos (foto: Antônio Carreta/TJSP)
CDP I “ASP Giovani Martins Rodrigues” de Guarulhos (foto: Antônio Carreta/TJSP)

Marsílea Gombata, na CartaCapital

No jargão popular, jumbo diz respeito à lista de produtos de higiene, alimentação e uso pessoal que os detentos podem receber nas unidades prisionais do País. Em tese, seriam também itens que contribuem para a ressocialização do preso, como livros, materiais didáticos e publicações informativas. A prática, no entanto, se mostra diferente.

Na Grande São Paulo, dos 19 Centros de Detenção Provisória (CDPs) existentes, ao menos 11 proíbem a entrada de qualquer tipo de jornal ou revista. Os argumentos variam. Alguns CDPs dizem que as páginas, quando destacadas, podem ajudar os detentos a esconder materiais proibidos nas cavidades das paredes do cárcere. Outros justificam a proibição argumentando que os internos “já têm” direito de assistir à televisão, ouvir rádio ou mesmo que a unidade possui biblioteca para aqueles interessados em ler.

As unidades deveriam funcionar como espaços reformatórios, mas acabam aumentando a marginalização da população carcerária ao proibir o acesso a meios de comunicação impressos. Dos CDPs contatados pela reportagem, proíbem totalmente a entrada de jornais e revistas os de Diadema, Franco da Rocha, “ASP Nilton Celestino” de Itapecerica da Serra, Mauá, Mogi das Cruzes, CDP I “Ederson Vieira de Jesus” de Osasco, CDPs III e IV de Pinheiros, Vila Independência, Suzano e CDP I “ASP Vicente Luzan da Silva” de Pinheiros.

Outros quatro – Santo André, “Dr. Calixto Antonio” de São Bernardo do Campo, CDP II “ASP Vanda Rita Brito do Rego” de Osasco, CDP II de Guarulhos – permitem a entrada de alguns veículos impressos. O CDP I de Chácara Belém, o CDP II “ASP Paulo Gilberto de Araújo” de Chácara Belém, o CDP II “ASP Willians Nogueira Benjamin” de Pinheiros e o CDP I “ASP Giovani Martins Rodrigues” de Guarulhos não atenderam à reportagem.

Muitos dos funcionários que informavam quais eram as restrições de cada unidade não souberam dizer por que, exatamente, se proibia ou permitia a entrada de determinadas publicações. Apesar das normativas, não existe uma regra unânime. Alguns CDPs permitem a entrada de publicações especializadas, como de automobilismo ou de fofocas sobre celebridades. Outras vetavam todos os tipos, permitindo apenas livros didáticos e revistas de palavra cruzada.

Na região do Grande ABC, o CDP de Santo André, por exemplo, permite a entrada apenas de publicações religiosas, da revista Veja e da revista Placar. Já a unidade de Franco da Rocha só autoriza a entrada de gibis, revistas sobre novela e livros que não tenham conteúdo pornográfico. “A limitação existente no CDP de Santo André revela qual o tipo de cidadão que o Estado está forjando no cárcere, pois há muito tempo já se provou que o encarceramento não produz efeitos ressocializadores, servindo apenas como instrumento de contenção classista”, afirma o advogado Alexandre Pacheco Martins, especialista em direito criminal. “Ao impedir que os presos tenham acesso a materiais que vão além dos conteúdos religiosos, esportivos ou notícias voltadas a um segmento específico da sociedade, busca-se que os encarcerados se limitem a pensar no mesmo sentido das obras a que têm acesso”, afirma. “A impossibilidade de obter materiais intelectuais distintos é um eficiente meio de contenção.”

Regras. As decisões aleatórias de cada CDP não correspondem ao regimento das unidades. Por meio de um pedido feito pela lei de acesso à informação, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) reconheceu que “desde 1999 não se atualiza o Regimento Interno Padrão das Unidades Prisionais da Secretaria da Administração Penitenciária”, mas lembrou que o texto que diz respeitos aos CDPs e presídios do estado de São Paulo prevê em seu 22º artigo que constituem como direitos básicos dos presos provisórios, condenados e internados: “b) leitura de jornais e revistas sócioeducativas que não comprometam a moral e os bons costumes; c) acesso à biblioteca da unidade prisional e à posse de livros particulares, instrutivos ou recreativos.” Além disso, lembra que o artigo 172, no capítulo III, contempla que “o preso pode ter acesso à leitura e a outros meios de comunicação, adquiridos às custas próprias ou por visitas, sendo que devem ser submetidos previamente à apreciação da direção da unidade prisional”.

Assim, apesar do regimento da SAP prever o direito ao acesso aos meios de comunicação social e à informação por meio de leitura de jornais e revistas, as publicações permitidas acabam sendo escolhidas pelo diretor da unidade, que muitas vezes permite apenas a entrada de publicações “educativas” ou “religiosas”, como sinônimos de bons costumes, moral e ordem.

Pacheco lembrou que o fato de alguém estar encarcerado não retira deste a condição de ser humano, portanto, detentor de direitos como qualquer outra pessoa. “Não se pode confundir o aprisionamento do corpo com o encarceramento da mente. Não existe e jamais existirá uma norma jurídica capaz de restringir o pensamento, por isso, essa limitação de acesso ao conhecimento corresponde a um filtro ideológico inaceitável”, protestou.

Para Vinícius Lapetina, membro da Comissão de Política Criminal e Penitenciária da OAB/SP e do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), a proibição à entrada de determinados meios funciona como forma de minar o poder crítico do preso. “Quanto maior o conhecimento do preso, maior sua capacidade para questionar e cobrar seus direitos”, disse Lapetina. “Proibir isso é censura, afinal é direito de qualquer cidadão, preso ou não, ter acesso à informação.”

Apesar de aparentemente funcionar como um instrumento de marginalização, o cárcere, lembra Lapetina, teria de reintegrar o preso ao cotidiano social. “É preciso fazer com que ele se sinta parte da sociedade e não algo estranho à sociedade. Isso somente acontece se lhe for proporcionado condições de evoluir, como educação, saúde, trabalho etc”, afirmou.

Os efeitos, no entanto, parecem contrários. Mãe de um ex-presidiário, C., 68 anos, lembrou que basta o preso ter pisado no cárcere uma vez para ficar estigmatizado para sempre. “Quando um jovem é preso, naquele momento, é decretada a sua pena de morte social. Mesmo que ele pague a pena, fica marcado por toda a vida. A dificuldade de arrumar emprego é muito grande e o preconceito, terrível. O próprio Estado se encarrega de anular a vida de quem foi preso um dia.”

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Fora do eixo

Ex-integrantes da entidade controladora do Mídia Ninja falam com exclusividade para CartaCapital e condenam práticas da organização

fora do eixo

Publicado na Carta Capital

Na esteira dos protestos de junho, a Mídia Ninja emergiu como uma novidade instigante, um novo modelo de jornalismo. A concepção é simples e barata: por meio de celulares, os repórteres ninjas transmitem pela internet as imagens dos acontecimentos. Não há texto nem edição, apenas os vídeos em estado bruto em transmissões que facilmente duram seis horas. Na página do grupo no Facebook, há ainda fotos dos atos.

O sucesso repentino tornou-se, porém, uma fonte de dor de cabeça. Tudo começou com a presença de dois de seus expoentes no Roda Viva, programa de entrevistas da TV Cultura, em 5 de agosto. O jornalista paulistano Bruno Torturra, até então, era a única face do Mídia Ninja, acrônimo de “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”. A novidade foi a presença de Pablo Capilé, criador do coletivo Fora do Eixo, guru de uma nova forma de ativismo. Ficou clara a ligação umbilical dos dois (Ninja e Fora do Eixo), antes praticamente desconhecida.

Por que essa relação virou alvo de tantas críticas? Em pequenos círculos, não é de hoje, corriam acusações contra o movimento. A exposição de Capilé amplificou as acusações nas redes sociais, espaço de excelência do grupo. Nos últimos dias, CartaCapital ouviu oito ex-integrantes e debruçou-se sobre a estrutura organizacional do coletivo. Metade deixou-se identificar. Os demais preferiram não ter seus nomes citados, por medo de represálias, mas confirmam as informações dos ex-colegas. Emergem da apuração um aglomerado controverso, acusações de estelionato, dominação psicológica e ameaças.

Nas casas, os integrantes dividem quartos, dinheiro, comida e roupas. E estão submetidos ao “processo” do Fora do Eixo. “Primeiro te isolam. Proíbem de sair na rua ´sem motivo´, impedem de encontrar amigos ou estabelecer qualquer contato com pessoas de fora. Depois, vem a apropriação de toda a sua produção. O cara sai sem grana, sem portfólio e distante dos amigos antigos. Sem apoio psicológico ou da família vai demorar a se restabelecer social e profissionalmente”, diz o fotógrafo Rafael Rolim, 29 anos, 3 deles na organização, em contato direto com Capilé. Rolim e os demais integrantes ouvidos pela revista endossam o depoimento da ex-integrante Laís Bellini, postado nas redes sociais.

A cineasta Beatriz Seigner foi a primeira a criticar o coletivo. Em texto postado no Facebook dois dias após o Roda Viva, diz, entre outros pontos, que o Fora do Eixo rompeu acordos e não lhe pagou por exibições de seu filme. Escreveu ainda sobre o volume de trabalho dos integrantes, que não teriam direito à vida pessoal ou diversão. Se disse ainda impressionada com a devoção à figura de Capilé. E comentou a repercussão: “Chegaram centenas de mensagens de coletivos e artistas do Brasil todo agradecendo o desmonte da rede. Estou aliviada.”

No dia seguinte foi a vez de Laís Bellini. Segunda ex-integrante a se manifestar, seu longo relato é considerado por outros ex-membros o mais completo e fiel retrato do dia-a-dia do coletivo. Laís descreve uma estrutura radicalmente rígida e verticalizada, baseada em forte dominação psicológica. Para exemplificar, revela que foi afastada de um amigo antigo que vivia sob o mesmo teto – “Disseram: ´Laís, o Gabriel era seu amigo lá em Bauru. Aqui vocês não têm que ficar de conversa. Aqui dentro vocês não são amigos”; Laís revelou ainda o “choque-pesadelo”, prática que consiste em por uma pessoa na sala e “quebrá-la” moralmente, aos berros; a moça narrou ainda que a cúpula controla horários e saídas à rua e que o trabalho é extenuante e sem folga nem aos domingos. São vigiados até bate-papos no Facebook ou Gtalk. Laís está em meio a uma longa viagem pela América Latina, sem data pra voltar. A distância, diz, lhe deu coragem para falar. “Quando postei, tirei toneladas do ombro e comecei a chorar. Tomei coragem para dizer o que muitos têm medo mas que todos sabem que é verdade”.

Um dos pontos levantados pelos entrevistados é o uso dos integrantes como uma espécie de isca sexual, o chamado Catar e Cooptar. “Há reuniões na cúpula para definir quem vai dar em cima de você e te fisgar pra dentro da rede”, afirma Laís. O designer Alejandro Vargas, que morou por 3 anos na Casa Fortaleza, dá mais detalhes: “Numa viagem rolou um papo que ‘deveria ficar ali’, sobre ‘fazer a entrega para a rede’. Diziam: ‘tem o cara ou menina mais feios, mas que trampam muito’ e tem aqueles com ‘mais chances de ter relações’. Tem que fazer a entrega para alimentar o estímulo de quem é menos provido de beleza, inclusive de fora da rede, para trazer para dentro”.

Rolim acrescenta: “‘Catar e Cooptar’ é o termo usado pelo Pablo, com todas as letras e constantemente. Eu mesmo fui proibido por ele de me aproximar de uma pessoa com quem tinha afinidade porque, ‘para o processo’, eu deveria estar solteiro, eu era uma boa ‘isca’. Relações espontâneas entre dois integrantes, por amor, também não são bem vistas. Casais assim são pressionados a desmanchar, e é proibido ter relações com pessoas de fora da rede, a não ser por ordem superior. Capilé nega a prática. “As relações afetivas não são determinadas por regras do movimento, mas construídas por cada indivíduo, a partir dos desejos de cada um.”

O Fora do Eixo nasceu em 2005, e seu nome faz menção ao fato de a iniciativa ter começado em centros distantes de São Paulo e do Rio. Capilé é de Cuiabá. Do Mato Grosso, o coletivo expandiu-se para Uberlândia (MG) e Rio Branco (AC), e dali para outras cidades. A relação com os artistas funciona assim: uma banda iniciante entra na programação de eventos culturais do grupo e faz shows em algumas cidades. Não paga passagem, hospedagem e alimentação (fica nas casas Fora do Eixo). Em contrapartida, não recebe cachê. O dinheiro arrecadado com suas apresentações financia o movimento.

Capilé e seus apoiadores calculam 2000 integrantes, mas o Fora do Eixo se resume a sete casas (São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Belém e Porto Velho), onde vivem em média dez ativistas, ou seja, cerca de 70 no total. Há ainda algumas casas de coletivos parceiros, como em Bauru e São Carlos. Quando se soma os agregados, na estimativa mais otimista, a organização tem hoje 200 participantes.

Oficialmente, o financiamento é baseado em shows e editais do governo ou de empresas estatais e privadas. Existe, no entanto, uma terceira fonte significativa: a apropriação de dinheiro e bens particulares de colaboradores. “Solicitaram um cartão de crédito que eu tinha em conjunto com meus pais para comprar passagens. Como a confiança era total, fui induzido a compartilhar a senha. Em um mês e meio gastaram 21 mil reais no meu cartão. Compraram um Macbook Pro novo para o Capilé, o que só soube quando a fatura chegou”, lamenta Rolim.

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O texto censurado por Átila Brandão

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Em texto publicado no site da CartaCapital, Leandro Fortes conta que o bispo Átila Brandão registrou queixa-crime e abriu duas ações judiciais contra o ex-deputado e jornalista Emiliano José.

O motivo da fúria do evangélico – figurinha carimbada durante muito tempo em eventos da Adhonep (Associação dos Homens de Negócio do Evangelho) – é um texto publicado por Emiliano José e reproduzido em vários sites e blogs.

Átila  Brandão pediu uma indenização de 2 milhões de reais e a retirada do artigo do site do ex-deputado, com multa diária de 10 mil reais, no caso de desobediência. Segundo o colunista da CartaCapital, “em 13 de maio, a juíza Marielza Brandão Franco, em decisão liminar, mandou retirar o texto da página de José e reduziu a multa diária a 200 reais”.

Diz-se do homônimo famosão do pastor que “debaixo dos cascos de seu cavalo, nunca mais cresce a grama”. Que o evangélico companheiro de partido de Marco F* releia cada uma das ideias e ideais do Príncipe da Paz (a quem diz servir), para que sob seus pés floresça a verdade e a justiça. Censura (e tortura), nunca mais.

A premonição de Yaiá

Publicado no Bahia Alerta

…Um calafrio, sensação estranha. Tempos dolorosos. Não vivera iguais nos seus quase cinquenta anos. Filhos presos, tantos amigos presos. Theodomiro, Paulo, quem mais? Tantos. Penso na crueldade dessa gente, quanta maldade. A sensação estranha persistia, como um aviso. Seria de Deus? Bons, os meus filhos eram bons. Marquinhos já solto, na minha memória era setembro de 1971.

Renato Afonso, no Quartel dos Dendezeiros, transferido do Rio de Janeiro, onde fora preso em fevereiro e perversamente torturado. O corpo já não estava tão estropiado. Não fosse meu marido Orlando, e não estaria vivo. Conseguiu fazer chegar o pedido a dom Eugênio Sales, que não matassem o filho. Dom Eugênio intercedeu, e o salvou. No Rio, passou por coisas horríveis, tanta tortura que eu nem acreditava que existisse. Tudo me vinha à mente em flashes rápidos, numa velocidade absurda. No meio das lembranças, aquela sensação estranha.

Fui muitas vezes aos Dendezeiros, levava bolo pros meninos, dava um pedaço pro coronel Ghetsemany Galdino, que gostava muito do bolo de chocolate. Comandava o quartel. Eu já me afeiçoara aos outros meninos, Tibério, Roriz, também presos políticos. Nunca gostei de ouvir meus filhos serem chamados de terroristas, nem os amigos deles. Por que tudo aquilo vinha assim, aos borbotões, lembranças de tanta coisa daqueles ásperos tempos? E tudo era acompanhado daquela sensação incômoda, como se algo a chamasse, como se alguma coisa ruim estivesse acontecendo.

E de repente, uma iluminação, e a certeza: Renato sofria, precisava dela. Como se ouvisse a voz enérgica de um anjo: que não perdesse tempo, seu filho corre perigo. Estava longe, morava em Nazaré, na Cidade Alta, longe dos Dendezeiros, Cidade Baixa. Orlando não estava em casa. Peguei um táxi, segui pro quartel. À porta, ninguém me barrou, pois, já era personagem comum. Parecia que o anjo me guiava. Dirigi-me a passos rápidos para uma sala onde tinha certeza que Renato estava. Não sabia como tinha certeza. Tinha.

Um sentinela à porta. Quero ver meu filho, quero ver meu filho, sei que ele está aí. Calma, minha senhora. Calma, nada. Preciso vê-lo. O soldado parecia assustado, olhava pra mim, indeciso. Eu ali segura de meus direitos de mãe. Pediu que eu esperasse, iria entrar, voltaria, me traria uma resposta. O sentinela entrou, voltou, e disse está tudo bem com seu filho, nada de mal vai acontecer com ele. Mas, ele está aí? Está. Então quero vê-lo. Não pode, mas, eu garanto que está tudo bem com ele.

Me acalmei um pouco. O anjo parecia aquiescer, mas me disse não arrede pé.
E eu soube depois: dentro da sala, Renato já havia apanhado bastante, socos, pontapés, perguntas aos gritos. Após o Rio de Janeiro, transferido para a Bahia por interferência de Orlando, não sofrera mais torturas. Mas, naquele dia, um sentinela veio buscá-lo. Renato perguntou por que estava sendo retirado da cela. O soldado não sabia. Levado para uma sala, logo depois viu entrar uma equipe de torturadores chefiada por Átila Brandão, que conhecera como agente infiltrado desde a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, onde estudaram juntos em 1968.

Átila comandou com ferocidade e gosto a pancadaria inicial, que seria sucedida pelo pau de arara e pelo choque elétrico, equipamentos que a equipe trouxera. Queria informações sobre a passagem dele pelo Paraná, onde estivera como dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Como no Rio, Renato, fiel aos seus amigos, se recusava a dizer qualquer coisa.

Soube que o soldado entrou, cochichou no ouvido de Átila, e ele, irritado, mandou parar tudo, juntar o pau de arara e o resto, e se retirou. Cessou a tortura. Quando Renato saiu da sala, eu o abracei, perguntei-lhe se estava tudo bem, ele disse sim, mas pediu que avisasse o advogado Jaime Guimarães – queriam voltar a torturá-lo. Fiz o que Renato pediu. Não voltou a ser torturado.

Maria Helena Rocha Afonso de Carvalho partiu, Yaiá, e antes de seguir para o infinito me deu esse depoimento. Deixa saudades imensas, e o exemplo de uma vida cheia de espiritualidade, fé e coragem. Viveu mais de 90 anos.

Atualização 13h

Carlos Brickmann escreveu sobre o assunto no Observatório da Imprensa:

Bahia, censura

A juíza da 29ª Vara dos Feitos Cíveis de Salvador, Mariela Brandão, determinou que o jornalista Emiliano José retire de seu portal informativo a matéria “A premonição de Yayá”, publicado originalmente no jornal A Tarde. Trata-se de uma entrevista com Maria Helena Carvalho, dona Yayá, que acusa de torturador o ex-policial, hoje pastor da Igreja Batista Caminho das Árvores, Átila Brandão. Segundo Yayá, Brandão torturou seu filho Renato Afonso Carvalho, em 1971, no Quartel dos Dendezeiros. Renato Afonso, hoje professor, confirmou as denúncias feitas por sua mãe.

Três casos diferentes, três casos iguais: é a censura que, embora proibida pela Constituição, volta a mostrar sua feia face. Junte-se a isso a guerra que alguns setores governistas movem contra a imprensa, chegando a regozijar-se quando algum veículo de comunicação fecha as portas ou demite funcionários, e temos um quadro perigoso. Como dizia Thomas Jefferson, um dos líderes da Revolução americana e terceiro presidente dos Estados Unidos, “Se coubesse a mim decidir entre um governo sem imprensa ou uma imprensa sem governo, eu não hesitaria um momento em escolher a segunda alternativa”.

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O jornalista Emiliano José tem recebido apoio de muita gente:

Abaixo-assinado apoia jornalista acusado de difamação · Global Voices em Português

Um abaixo-assinado circula no estado da Bahia, Brasil, em apoio ao jornalista e professor Emiliano José, acusado de calúnia pelo pastor Átila Brandão. José relatou a participação do pastor em torturas contra estudantes na época da ditadura militar no país na imprensa e em site pessoal. A Justiça determinou a retirada do texto do site de José, já reproduzido na internet, e direito de resposta ao pastor.

dica do Tom Fernandes

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Igreja Anglicana permite que clérigos gays se tornem bispos

Publicado originalmente na CartaCapital

Foto: Jim Linwood/Flickr
Foto: Jim Linwood/Flickr

A Igreja Anglicana abandonou a proibição para clérigos gays se tornarem bispos após decisão da Câmara dos Bispos, uma das três casas da instituição. Agora, pastores em união civil podem assumir o cargo, desde que adotem o celibatarismo. A decisão, no entanto, não foi bem recebida pelos evangélicos conservadores, que prometeram resistir firmemente no Sínodo Geral, a assembleia da Igreja.

O assunto divide a igreja desde 2003, quando o clérigo gay Jeffrey John foi eleito bispo de Reading. Entretanto, ele foi forçado a deixar o posto após protestos de tradicionalistas. Sete anos depois, John foi candidato a outro posto de bispo, mas teria sido rejeitado por sua opção sexual.

Segundo a BBC, grupos evangélicos mais conservadores disseram estar dispostos a trazer bispos de outros países para não servirem a bispos gays.

A Igreja Anglicana já havia permitido que pessoas em união civil fossem clérigos, desde que prometessem ser celibatários e se arrependessem de atividades homossexuais no passado.

Esta não é a primeira iniciativa de tratamento mais igualitário a homossexuais dentro de instituições religiosas. Em 2010, a Igreja Evangélica Luterana da América autorizou a ordenação de pastores gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, desde que mantivessem relacionamentos estáveis, sem a necessidade de celibato.

A Igreja Luterana na Alemanha também adotou essa decisão, além de permitir que pastores homossexuais possam viver com seus parceiros na casa pastoral.

Em 2011, Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos recebeu de volta um pastor que precisou renunciar ao cargo por ser gay. Depois de 20 anos do ocorrido, Scott Anderson foi reordenado no estado de Wisconsin.

dica do João Marcos

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Papa diz que aborto, eutanásia e casamento gay afetam a paz mundial

Reportagem da AFP publicada na CartaCapital

O Papa Bento XVI ataca o aborto, o casamento gay e a eutanásia na mensagem que será lida no primeiro dia do ano por ocasião da Jornada Mundial da Paz. O texto, divulgado com antecedência pelo Vaticano, afirma que estes atos colocam em perigo a paz mundial.

“Os que trabalham pela paz são os que amam, defendem e promovem a vida em sua integridade. Aqueles que não apreciam suficientemente o valor da vida humana e, em consequência, defendem por exemplo a liberação do aborto, talvez não percebam que, deste modo, propõem a busca de uma paz ilusória. A morte de um ser inerme e inocente nunca poderá trazer felicidade ou paz”, escreveu o Papa na mensagem.

Segundo o pontífice, quem deseja a paz não pode tolerar “atentados e delitos contra a vida”. “Como é possível pretender conseguir a paz, o desenvolvimento integral dos povos ou a própria salvaguarda do ambiente, sem que seja tutelado o direito à vida dos mais frágeis, começando pelos que ainda não nasceram?.”

“Tampouco é justo codificar de maneira sub-reptícia falsos direitos ou liberdades, que, baseados em uma visão reducionista e relativista do ser humano, e por meio do uso hábil de expressões ambíguas encaminhadas a favorecer um suposto direito ao aborto e à eutanásia, ameaçam o direito fundamental à vida”, adverte.

Na mensagem, o Papa elogia os “artesãos da paz” e pede a construção da paz “por meio de um novo modelo de desenvolvimento e de economia”.

Bento XVI afirma que “para sair da atual crise financeira e econômica, que tem como efeito um aumento das desigualdades, são necessárias pessoas, grupos e instituições que promovam a vida, favorecendo a criatividade humana para aproveitar inclusive a crise como uma oportunidade de discernimento e um novo modelo econômico”.

Ele convida os católicos a “atender a crise alimentar, muito mais grave que a financeira” e a apoiar os agricultores para que desenvolvam sua atividade “de modo digno e sustentável”.

O Papa reitera na mensagem que “a paz não é um sonho, não é uma utopia: é possível”.

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