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Casais que se conhecem pela internet se divorciam menos

Segundo estudo, pessoas que procuram um parceiro em sites de relacionamento estão mais dispostas a assumir um compromisso. Isso pode ajudar a explicar a diferença

Pesquisa: enquanto 8% das pessoas que conheceram o companheiro off-line se separaram, esse número foi de 6% para quem conheceu o cônjuge online (Thinkstock)

Pesquisa: enquanto 8% das pessoas que conheceram o companheiro off-line se separaram, esse número foi de 6% para quem conheceu o cônjuge online (Thinkstock)

Publicado na Veja on-line

Conhecer o marido ou a mulher pela internet é algo cada vez mais comum. Nos Estados Unidos, um estudo recente sobre o assunto mostrou que mais de um terço dos casamentos começa na internet. E, segundo a pesquisa, esses relacionamentos têm vantagens: são mais satisfatórios e terminam menos em divórcio do que os outros.

O trabalho, publicado nesta semana no PNAS, periódico da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, foi financiado pelo eHarmony, um dos sites de relacionamento mais famosos do país. Os autores — que são especialistas das universidades americanas de Chicago e Harvard — afirmam, no entanto, que foi feito um acordo prévio com a empresa, que não poderia interferir nos resultados, e os dados foram verificados por pesquisadores independentes.

Participaram do estudo 19.131 pessoas que se casaram entre 2005 e 2012. Os resultados mostraram que os casamentos que começaram online tinham uma chance um pouco menor de acabar em divórcio: enquanto 8% das pessoas que conheceram o companheiro off-line se separaram, esse número foi de 6% para quem conheceu o cônjuge online. De acordo com os autores, essa diferença é “pequena, mas significativa”. O estudo também mostrou um pequeno aumento na satisfação com o casamento para quem se conheceu pela internet.

Circunstâncias – A pesquisa analisou as diferentes formas pelas quais as pessoas se conhecem fora do mundo virtual. Parceiros que se conheceram na escola ou cresceram juntos apresentaram os maiores níveis de satisfação conjugal. Já os locais associados aos piores níveis de satisfação foram bares e baladas, o trabalho e “encontros às cegas”.

No mundo virtual, conhecer o parceiro por meio de sites de relacionamento traria maior satisfação, enquanto comunidades e salas de bate-papo apresentaram resultados piores.

Segundo os autores, o fato de casamentos online serem bem-sucedidos pode estar relacionado à personalidade de quem busca sites de relacionamento – essas pessoas podem, por exemplo, estar mais decididas a assumir um compromisso. Outra explicação possível seria o fato de que pessoas que procuram parceiros online estão expostas a uma gama maior de opções, podendo assim ser mais seletivas.

“O futuro de um casamento é influenciado por diversos fatores. O local onde uma pessoa conhece seu parceiro é apenas um desses fatores, e seus efeitos são considerados pequenos e não valem para todos”, escrevem os autores. Para eles, os resultados do estudo são encorajadores, levando-se em conta as mudanças que estão acontecendo na maneira como as pessoas conhecem seus parceiros.

Pedido de vista surpreende evangélicos e suspende votação de projeto sobre ‘cura gay’

Manifestantes pró e contra o deputado Marco Feliciano protestam do lado de fora da reunião da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos deputados (foto: Pedro Ladeira /Folhapress)

Manifestantes pró e contra o deputado Marco Feliciano protestam do lado de fora da reunião da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos deputados (foto: Pedro Ladeira /Folhapress)

Márcio Falcão, na Folha de S.Paulo

Apesar da mobilização da bancada evangélica, um pedido de vista suspendeu nesta terça-feira (4) a votação de um projeto na Comissão de Direitos Humanos que, na prática, permite aos psicólogos promoverem tratamento com o fim de curar a homossexualidade.

O deputado Simplício Araújo (PPS-MA) pediu mais tempo para analisar a proposta, conhecida como “cura gay”. O projeto deve voltar a ser discutido em duas semanas pela comissão.

Antes do pedido, o presidente da comissão, Marco Feliciano (PSC-SP), esperou por mais de 40 minutos a chegada de colegas para dar início aos trabalhos. Feliciano e assessores dispararam telefonemas pedindo a presença dos deputados na comissão.

A bancada evangélica esperava aprovar a proposta na véspera de uma marcha programada pelo pastor Silas Malafaia em frente ao Congresso contra aborto e casamento gay.

O pedido de vista gerou mal-estar. Alguns parlamentares, alinhados a grupos religiosos, defenderam a proposta e criticaram o adiamento da votação.

As principais críticas partiram do deputado Pastor Eurico (PSB-PE). “Acho que as minorias devem ser respeitadas, honradas, mas o que estamos assistindo é uma minoria que quer impor que temos que aceitar o que eles querem”, disse. “Em nenhum momento trata de cura gay. eu defendo, eu prego que Jesus Cristo liberta qualquer tipo de pessoa de qualquer coisa. tenho inúmeros testemunhos de que é uma questão pessoal”, completou.

Simplício Araújo pediu que respeitassem sua posição de ter mais tempo para analisar o texto e defendeu que a proposta fosse discutida sem corporativismo. “Estou diante de um projeto polêmico diante da sociedade e preciso estar seguro para votar. Não me encontro seguro para fazer o voto. Gostaria que isso fosse respeitado.”

Feliciano ironizou a forma como o projeto é conhecido. “Eu ando nas ruas e me pedem injeção, remédio para curar gay.”

O deputado disse esperar que diante do impasse em torno do projeto “vença o argumento e não forçação (Sic) de barra”. Ele criticou a mídia por chamar o projeto de “cura gay” e disse que vai estudar com o comando da Casa medidas a serem tomadas a respeito da veiculação do termo nos meios de comunicação da Câmara.

Desde que assumiu o comando da comissão, em fevereiro deste ano, Feliciano enfrenta protestos de ativistas de direitos humanos que o acusam de racismo e homofobia. Ele nega. Uma das críticas é de que o deputado beneficiaria os evangélicos na discussão da proposta na comissão.

Os deputados disseram que a ideia é apenas permitir a orientação para gays. “Ninguém está falando que a partir deste momento pessoas vão sair correndo atrás dizendo: você é doente, você precisa se curar. É para quem procurar ajuda”, disse Liliam Sá (PSD-RJ).

O projeto de decreto legislativo 234/11 foi apresentado pelo deputado João Campos (PSDB-GO), integrante da bancada evangélica.

A proposta susta trechos de resolução instituída em 1999 pelo CFP (Conselho Federal de Psicologia), que determina que “os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”.

O projeto também propõe anular trecho da resolução que proíbe os psicólogos de emitirem opiniões que reforcem “os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.”

A proposta é rejeitada pelo CFP. No ano passado, a entidade recusou-se a participar de uma audiência pública realizada na Câmara para debater o projeto. O conselho inclusive lançou uma campanha contra a ideia.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) deixou de considerar a homossexualidade doença em 1993.

Para o autor do projeto, o conselho “extrapolou seu poder regulamentar” ao “restringir o trabalho dos profissionais e o direito da pessoa de receber orientação profissional”.

dica do Israel Anderson

Um terço dos casamentos nos EUA começam na web

O namoro online virou uma indústria bilionária e a internet “pode estar alterando a dinâmica e o resultado do próprio casamento”, diz o estudo

"Nós encontramos evidências de uma mudança dramática desde o advento da internet em como as pessoas estão encontrando seus cônjuges", revelou o estudo, chefiado por John Cacioppo (foto: AFP)

“Nós encontramos evidências de uma mudança dramática desde o advento da internet em como as pessoas estão encontrando seus cônjuges”, revelou o estudo, chefiado por John Cacioppo (foto: AFP)

Publicado por AFP [via Exame]

Mais de um terço dos casamentos nos Estados Unidos começam com namoros online, e os casais que se formam no mundo digital podem ser sutilmente mais felizes do que aqueles que se conhecem por outros meios, revelou um estudo americano publicado esta segunda-feira.

O namoro online virou uma indústria bilionária e a internet “pode estar alterando a dinâmica e o resultado do próprio casamento”, diz o estudo realizado por pesquisadores americanos, publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences.

A pesquisa se baseou em uma consulta com universo representativo da população americana junto a 19.131 pessoas que se casaram entre 2005 e 2012.

“Nós encontramos evidências de uma mudança dramática desde o advento da internet em como as pessoas estão encontrando seus cônjuges”, revelou o estudo, chefiado por John Cacioppo, do Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago.

No entanto, alguns especialistas discordaram fortemente das descobertas porque o estudo foi encomendado pelo site de relacionamentos eHarmony.com, responsável por um quarto de todos os casamentos online, segundo a pesquisa.

Cacioppo admitiu ser um “conselheiro científico pago” pelo site, mas disse que os cientistas seguiram procedimentos fornecidos pelo Jornal da Associação Médica Americana e concordaram em ser supervisionados por estatísticos independentes.

O perfil das pessoas que disseram ter encontrado seu cônjuge na internet se encontra na faixa etária de 30 a 49 anos e de maior renda do que aqueles que encontram o parceiro fora da rede, revelou a pesquisa.

Entre aqueles que não encontraram sua cara metade online, cerca de 22% a acharam no trabalho, 19% através de amigos, 9% em um bar ou casa noturna e 4% na igreja, revelou o estudo.

Mas quem é mais feliz?

Quando os cientistas analisaram quantos casais se divorciaram ao final do período de estudo, eles descobriram que 5,96% dos casais que se casaram após se conhecerem pela internet tinham terminado a relação contra 7,67% dos casais casados ‘offline’.

A diferença foi estatisticamente significativa mesmo após controlar variáveis como ano de casamento, sexo, idade, educação, grupo étnico, renda doméstica, religião e status de emprego.

Entre os casais que ainda estavam casados durante o estudo, aqueles que se encontraram no mundo digital contaram ter maior satisfação conjugal – em média, 5,64% em uma pesquisa de satisfação – do que aqueles que se conheceram fora da web (satisfação de 5,48%).

As menores taxas de satisfação foram reportadas pelas pessoas que se conheceram através de familiares, no trabalho, em bares e clubes ou encontros às cegas.

“Estes dados sugerem que a internet pode estar alterando a dinâmica e os resultados do próprio casamento”, afirmou Cacioppo.

“É possível que os indivíduos que encontram seus cônjuges online possam diferir em personalidade, na motivação de formar um relacionamento conjugal de longo prazo ou algum outro fator”, acrescentou.

Mas nem todos os especialistas acreditam que os namoros online se traduzam em felicidade instantânea.

Eli Finkel, professor de psicologia da Universidade Northwestern, conduziu uma extensa revisão a respeito de pesquisas sobre namoro online no ano passado.

Ele contou à AFP que concordou com as proporções encontradas no estudo da PNAS. Seu estudo mostrou que cerca de 35% dos relacionamentos agora começam na internet.

“O excesso acontece quando os autores concluem que encontrar um parceiro online é melhor do que encontrá-lo fora da rede”, afirmou Finkel.

“Ninguém se surpreende quando um efeito minúsculo alcança significância estatística em uma amostra de 20 mil pessoas, mas é importante que não confundamos ‘significância estatística’ com ‘significância prática’”, argumentou.

Finkel também condenou o envolvimento do site eHarmony no estudo.

“Sempre sou algo cauteloso quando um projeto é totalmente financiado por uma organização privada que claramente tem um interesse evidente nos resultados”, afirmou.

Segundo a psicóloga e escritora Vivian Diller, o estudo realizado ao longo de sete anos foi curto demais para estimar os resultados de longo prazo dos relacionamentos que começam na internet.

“O sucesso no casamento trata-se amplamente de como se negociam as diferenças, não apenas de compatibilidade”, declarou à AFP, acrescentando que o namoro online pode despertar expectativas e resultar em uma infelicidade maior.

“Eu acho que os jovens que usam o namoro online parecem utilizá-lo mais como uma brincadeira, especialmente rapazes que olham os perfis das jovens. Eles veem isto como uma oportunidade de conhecer o maior número possível de pessoas e as mulheres se cansam disso”, concluiu.

Marcha pela família e a liberdade: “quem já viu este filme?”

É difícil não encontrar semelhanças entre o movimento articulado por evangélicos em 2013 e o que foi liderado por católicos em 1964

Magali do Nascimento Cunha, no blog Mídia, Religião e Política

marcha-da-famc3adliaSem “teorias da conspiração” ou paranoias persecutórias, mas a velha expressão popular “este filme eu já vi” não deixa de ser evocada quando se acompanha as movimentações em torno da Manifestação pela Família Tradicional e a Liberdade de Expressão a ser realizada em Brasília no próximo dia 5 de junho. A articulação liderada pelo pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, conta com o apoio de grupos evangélicos de distintas denominações e de segmentos católicos romanos, além de parlamentares não-religiosos, como Jair Bolsonaro (PP). Esta movimentação tem raízes na campanha eleitoral de 2010 mas ganhou potência em 2013 com a indicação do deputado federal pastor Marco Feliciano (PSC) como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, assumindo o lema “em defesa da liberdade de expressão, liberdade religiosa, da família tradicional e da vida” para marcar posição contra o casamento gay, o aborto e o Projeto de Lei 122, que criminaliza a homofobia. Ganha força entre grupos religiosos também com a ação de pessoas ligadas à Frente Parlamentar Evangélica que passam a falar e disseminar materiais redigidos e em vídeo numa retórica do terror de que as famílias estão em risco por conta de ações governamentais federais.

Ao se acompanhar essas articulações e a base pública com que se colocam – família e liberdade – não há como não se lembrar do “filme assistido” em 1964 que inclui as manifestações que representaram apoio às articulações que promoveram a ditadura militar que assolou o Brasil e que tem efeitos sobre a vida do país até o presente, levando à criação de uma Comissão da Verdade em 2012 para trazer à tona a memória apagada e silenciada daqueles tempos sombrios.

O “filme” ontem

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade é, na verdade, um título de uma série de eventos realizados em março de 1964 como manifestação contrária à considerada “ameaça comunista” configurada no governo do presidente João Goulart e identificada no comício que ele havia realizado em 13 de Março de 1964, apresentando as Reformas de Base: administrativa, jurídica, econômica, agrária para dar novo fôlego ao país. Essas reformas se opunham aos interesses dos grupos socialmente dominantes, já que envolvia distribuição de bens e terras, o que em muito incomodava os setores sociais hegemônicos.

As Marchas da Família com Deus pela Liberdade foram organizadas principalmente por clérigos católicos romanos e por entidades femininas da sociedade civil e da igreja e congregou segmentos da classe média, temerosos do “perigo comunista”, contrários às reformas e favoráveis à deposição do presidente João Goulart. A primeira dessas manifestações ocorreu em São Paulo, a 19 de março, no dia de São José, padroeiro da família. A marcha contou com a participação de cerca de trezentas mil pessoas, entre elas o presidente do Senado Auro de Moura Andrade, e o governador do Estado da Guanabara Carlos Lacerda. A Marcha começou na Praça da República e terminou na Praça da Sé com a celebração da missa “pela salvação da democracia”. Na ocasião, foi distribuído o Manifesto ao povo do Brasil, convocando a população a reagir contra João Goulart.

“Com ‘vivas’ à democracia e à Constituição, mas vaiando os que consideram ‘traidores da pátria’, os manifestantes se posicionaram defronte da catedral e nas ruas próximas. Ali, oraram pelos destinos do país. E, através de diversas mensagens, dirigiram palavras de fé no Deus de todas as religiões e de confiança nos homens de boa-vontade”. Era um “repúdio a qualquer tentativa de ultraje à Constituição Brasileira e a defesa dos princípios, garantias e prerrogativas democráticas constituíram a tônica de todos os discursos e mensagens dirigidos das escadarias da catedral aos brasileiros, no final da passeata” (Folha de São Paulo, 20/3/1964).

Preparada com o auxílio da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), da União Cívica Feminina, da Fraterna Amizade Urbana e Rural, entre outras entidades, a marcha paulista recebeu também o apoio da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo e do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes). O Ipes foi fundado por empresários paulistas e cariocas, em 1961, logo após a controversa posse de João Goulart, tendo como presidente o general Golbery do Couto e Silva. O Ipes recebeu entre 1961 e 1964 uma alta verba de empresários empenhados em tirar João Goulart do poder. O instituto realizava investigações particulares, um sistema de monitoramento de informações, identificando parceiros e simpatizantes do governo. Foi também o general Golbery responsável por estabelecer relações entre o Ipes e a Escola Superior de Guerra, de onde foi originada a doutrina de “segurança nacional” que deveria garantir o progresso do Brasil, baseado na expansão da economia brasileira que ocorreria apor meio da concentração de renda e do arrocho salarial.

20110317-200364O Senador Padre Calazans discursou na Praça da Sé: “Aqui estão mais de 500 mil pessoas para dizer ao presidente da República que o Brasil quer a democracia, e não o tiranismo vermelho. Vivemos a hora altamente ecumênica da Constituição. (…) Depois, o Pe. Calazans lembrou [que a manifestação é pacífica] que ‘aqui estamos sem tanques de guerra, sem metralhadoras. Estamos com nossa alma e com nossa arma, a Constituição. (…) Coube à profa. Carolina Ribeiro, ex-secretária da Educação, orar ao microfone por São Paulo e pelo Brasil. Todos a acompanharam no Pai Nosso e ouviram-na dizer: ‘Temos que pedir a Deus, neste momento em que nossos corações fervem de indignação, que não caiamos na tentação da revolta, porque só a Deus compete levar-nos pelo caminho certo’. A deputada Conceição da Costa Neves também dirigiu saudação aos brasileiros, dizendo: ‘Aqui, mercê de Deus, se encontra o Brasil unido contra a escravatura vermelha. De São Paulo partirá a bandeira que percorrerá todo o país, para dizer a todos os partidos que a hora é de união, para dizer basta ao sr. presidente da Republica’” (Folha de São Paulo, 20/3/1964).

“O último orador a ocupar a tribuna foi o sr. Auro Soares de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional. E disse: ‘Sentimos que hoje é um dia de importância histórica para o Brasil. O povo veio à praça pública para demonstrar sua confiança na democracia. Veio para afirmar perante a Nação que os democratas não permitirão que os comunistas sejam os donos da Pátria. Democratas do Brasil, confiem, não desconfiem das gloriosas Forças Armadas de nossa pátria. Dentro de cada farda, não está somente um corpo, mas também uma consciência e um juramento feito. Que sejam feitas reformas, mas pela liberdade. Senão, não. Pela Constituição. Senão, não. Pela consciência cristã do nosso povo. Senão, não’. E todos os presentes o acompanharam no ‘senão, não’” (Folha de São Paulo, 20/3/1964).

A Marcha da Família repetiu-se em outras capitais, e, após a derrubada de João Goulart pelos militares com o golpe militar de 31 de março, passaram a ser divulgadas como “marchas da vitória”. A marcha do Rio de Janeiro, articulada pela Camde, levou às ruas cerca de um milhão de pessoas no dia 2 de abril de 1964. As marchas de Belo Horizonte e de Curitiba foram vistas pelos militares como um consentimento ao Golpe. Os grupos envolvidos nestas marchas aceitaram a imposição militar, já que era melhor ter seus bens garantidos à custa da ausência de democracia, a perder tudo diante a “ameaça vermelha”, que era o comunismo, já que os militares garantiriam a segurança e a estabilidade do país. Curiosamente foi a última vez, por longas décadas que se seguiram, que as pessoas puderam sair às ruas livremente para expressar suas vontades políticas.

O “filme” hoje

Quase 50 anos depois, como já mencionado aqui, são vistas as articulações por novas manifestações de caráter religioso. As de 1964 e as de 2013 têm em comum se apresentarem como “pacíficas” e defensoras da Constituição. Os temas de 2013 são os mesmos “família” e “liberdade”, também colocados na confrontação de um inimigo. Se no passado o inimigo era o comunista, classificado nas expressões “ameaça comunista”, “tirania vermelha”, “escravatura vermelha”, e identificado nas ações do governo João Goulart, o inimigo do presente é o homossexualismo, classificado na expressão “ditadura gay”, identificado em ações do governo Dilma Rousseff. O apoio de parlamentares afinados com a causa, interessados em frear “reformas” e conquistas de direitos, manifesta-se hoje tal como em 1964.

O que isto quer dizer? O que aprender desta reflexão? Vale transcrever o que já foi indicado no texto publicado neste Blog “Caso Marco Feliciano: um paradigma na relação midia-religião-política”:

“Torna-se nítida uma articulação política e ideológica conservadora em diferentes espaços sociais – do Congresso Nacional às mídias – que reflete um espírito presente na sociedade brasileira, de reação a avanços sociopolíticos, que dizem respeito não só a direitos civis homossexuais e das mulheres, como também aos direitos de crianças e adolescentes, às ações afirmativas (cotas, por exemplo) e da Comissão da Verdade, e de políticas de inclusão social e cidadania. Nesta articulação a religião passa a ser instrumentalizada, uma porta-voz.
(…)
Nesse sentido é possível afirmar que os grupos políticos e midiáticos conservadores no Brasil descobriram os evangélicos e o seu poder de voz, de voto, de consumo e de reprodução ideológica. A ascensão de Celso Russomano nas eleições municipais de São Paulo, em 2012, já havia sido exemplar: um católico num partido evangélico, apoiado por grupos evangélicos os mais distintos. A eleição da presidência da CDH é paradigmática no campo nacional e ainda deve render muitos dividendos a Feliciano, ao PSC, à Bancada Evangélica e a seus aliados. O projeto político que se desenha, de fato, pouco ou nada tem a ver com a defesa da família… os segmentos da sociedade civil, incluindo setores evangélicos não identificados com o projeto aqui descrito, que defendem um Estado laico e socialmente justo, têm grandes tarefas pela frente”.

O sol sobre o pântano

foto: Alexandre Catan/Divulgação

foto: Alexandre Catan/Divulgação

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

“Somos todos leprosos!”, afirma o Monsenhor no livro “O Casamento”, de Nelson Rodrigues, muito bem adaptado e dirigido por Johana Albuquerque, em cartaz no teatro Tuca (foto).

O que quer dizer esta afirmação exagerada “Somos todos leprosos”? No romance adaptado existe uma personagem leprosa, e ela se torna, na fala do Monsenhor, o paradigma da humanidade em nossa humanidade. Todos necessitamos de misericórdia porque estamos “em pedaços”, e estes pedaços “desfilam” pelo palco, gemendo de prazer e dor.

Nelson Rodrigues é um desses clássicos que todo mundo fala mas pouca gente conhece de fato. Como ele é “cult”, dizer que ele é o “máximo” é algo esperado em jantares inteligentes, afora, é claro, os ignorantes que o acusam de “machista” ou, na versão mais moderninha da mesma bobagem, “sexista”.

“Um Anjo Pornográfico”, título da excelente biografia escrita por Ruy Castro, é uma forma precisa de descrevê-lo. Porque, mesmo sendo pornográfico, ele ultrapassa o discurso sobre sexo para falar do “miserável tédio da carne” que não fala especificamente da carne, mas sim da carne como pele da alma e não do corpo. Seus textos parecem confissões de agonia da alma diante do pecado, na mais velha tradição cristã do começo do cristianismo.

Nelson não é um mero autor de sacanagem (Nelson não é um Sade pernambucano), mas sim um autor espiritual, no sentido mais forte da palavra, talvez, o melhor teólogo que o Brasil já produziu, já que nos últimos anos a teologia brasileira é mais autoajuda do que qualquer outra coisa.

Se formos situá-lo na tradição ocidental, eu o colocaria no encontro entre três gigantes: Freud (sexo como centro dilacerante da alma), Dostoiévski (a alma só sobrevive numa atmosfera de misericórdia porque seu elemento natural é o perdão) e Santo Agostinho (a consciência de que todo drama do corpo é em si um drama da alma). A obra rodriguiana faz de Freud um teólogo.

A expressão “Sol sobre o pântano”, que descreve muito bem o efeito causado pela montagem de Johana Albuquerque, é um modo presente na fortuna crítica para nomear a obra dramatúrgica de Nelson: sua obra ilumina nossa miséria. A expressão foi usada por Léo Gilson Ribeiro, nos anos 1960, num texto no qual ele diz ser nosso maior dramaturgo um expressionista brasileiro.

Nelson era um obcecado por sexo, adultério, sífilis, crime passional, homossexualismo (pederastia), cunhadas gostosas, todas umas Lolitas cariocas. “Em cada esquina do subúrbio carioca existe uma Anna Karenina e uma Emma Bovary”, dizia Nelson. No Brasil, a tragédia anda de lotação.

No mesmo artigo, Léo Gilson Ribeiro cita a famosa passagem na qual Nelson, comentando sua peça “Bonitinha, mas Ordinária”, afirma que “a nossa opção é entre a angústia e a gangrena. Ou o sujeito se angustia ou apodrece. E se me perguntarem o que eu quero dizer com a minha peça, eu responderia: que só os neuróticos verão a Deus”.

Nelson ri dos idiotas que ainda afirmam que no sexo há redenção e que a revolução sexual nos salvará do tédio. Não, o sexo como sentido da vida é tédio puro. Só idealiza o sexo quem não faz muito sexo. No “Casamento” não é outro o sentido do suicídio de Antônio Carlos, o comedor de todas a mulheres do mundo.

As risadas artificiais desvelam o vazio que carrega os personagens arrastados por protocolos: “Não se adia um casamento na véspera só porque a noiva está menstruada!”, de novo, decreta o Monsenhor, o oráculo do romance.

No sexo da mulher, o sangue menstrual que escorre pelas suas pernas define sua feminilidade. A mulher é mulher porque sangra e sangra porque pode ser fecundada no coito e, quando não mais sangra, se sente menos mulher.

Este mesmo oráculo que diz que o sexo é uma mijada (afinal, o órgão sexual é o mesmo que mija, tanto no homem como na mulher e na mulher também sangra), enuncia a diferença final entre nós e os animais: “a culpa faz de nós humanos”. A dor da alma é que nos mantém de pé.

Se na teologia clássica é dito que só os pecadores verão a Deus, na teologia rodriguiana só os neuróticos verão a Deus.