Barbara Gancia [via Folha.com]
Você sente uma onda de felicidade toda vez que vê uma noiva a caminho da igreja? Você chora quando o padre abençoa os noivos? Você se emociona quando vê aquela placa no carro que diz: “recém-casados”?
Pois tome tenência, leitor desmiolado. Sabia que 50% dos casamentos acabam em separação, ou seja, em enriquecimento para os advogados e pensão alimentícia para uma das partes?
E o que acontece com a outra metade dos enlaces matrimoniais, aquela que insiste em se retorcer na lama do purgatório, que permanece unida por falta de dinheiro e/ou coragem de se separar? Antigamente, quando o padre falava “até que a morte os separe”, o processo era bem mais dinâmico.
Os otimistas podiam contar que estariam livres do calvário em uma dúzia de anos. Sujeito casava aos 18 e morria de peste bubônica aos 30.
Eram casamentos lindos, as viúvas choravam baldes de saudades por cinco ou seis anos e depois sucumbiam a uma dor de dente sucedida por infecção generalizada.
Ou então eram estupradas e degoladas por hunos invasores e não se falava mais nisso.
E todo mundo casava de branco virginal porque realmente chegava ao altar fazendo parte da torcida uniformizada. A gente bem sabe que o “Xou da Xuxa”, com menina de cinco anos vestida de lolita, só foi surgir nos anos 1980.
Hoje, a palhaçada obscurantista, o vestido com a grinalda, esse rito de passagem forçado de uma fase para a outra da vida tornou-se quase inviável.
Fingimos não perceber, mas não dá para enganar. Com a vida como ela se apresenta, mulherada se oferecendo na porta de banheiro masculino em balada, ligando para casa de homem sem parar, forçando a barra para caçar os caras no muque, será que faz algum sentido casar de branco?
Claro que sim. Entre gays. A comunidade precisa de ordem, está todo mundo louco para entrar no esquema. Funciona assim: homem e mulher homossexual, não importa, é um bando de Peter Pan que não amadurece nem mesmo sob mira de bazuca.
É uma gente dura feito rapadura de abrir mão da juventude, de conseguir viver o amor sem idealizar romance como se a vida ocorresse dentro de uma história de conto de fadas da Disney.
E agora que estão adquirindo direitos, os gays precisam da oportunidade da oficialização do casamento. Não é uma caretice ao avesso, não. Perguntei ao primeiro casal gay que assinou a união estável entre pessoas do mesmo sexo no Brasil por que acharam necessário se casar.
Um deles (não lembro mais qual, foi no programa da Hebe) me disse o seguinte: “Se estivermos de mãos dadas numa lanchonete e alguém vier querendo nos expulsar, eu tenho um papel que prova que sou tão família brasileira quanto qualquer outro casal”. Acho que nunca vou esquecer a felicidade e o alívio que senti ao ouvir essa resposta.
Mas vai além. Mesmo quem não gerou filhos possui instintos maternais ou paternais. Isso é tão óbvio quanto o fato de que gays têm o direito de cometer os mesmos desatinos que o resto das pessoas. Ou será que o casamento é uma exclusividade apenas dos muitos estúpidos?
Ilustração: Alex Cerveny






