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‘Nova classe média’ tem trabalho precário, pouca instrução e moradia inadequada

Inserção do grupo ocorreu principalmente no comércio, serviço e pequenas indústrias, segundo pesquisador

Rosani e Carlos Augusto, com a filha Manuela e o neto Miguel. Donos de um bar, trabalham de 7h às 20h (foto: Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo)

Rosani e Carlos Augusto, com a filha Manuela e o neto Miguel. Donos de um bar, trabalham de 7h às 20h (foto: Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo)

Nice de Paula, em O Globo

As estatísticas não deixam dúvidas. Com o ganho de renda dos trabalhadores nos últimos anos, o Brasil é um país de classe média. Economistas calculam que 55% da população podem ser considerados assim. Mas que classe média é essa?

A acompanhante de idosos Fernanda Nascimento, 25 anos, e seu marido, o pedreiro Carlos Rogério de Oliveira, de 31, não terminaram o ensino fundamental. O casal mora em Nova Iguaçu, com as filhas de 5 e 1 ano de idade. Fernanda e Carlos Rogério não têm casa própria, cartão de crédito nem plano de saúde. Suas filhas não estão em escola particular e o casal enfrenta uma jornada de trabalho de mais de dez horas por dia. Mas a renda mensal da família, de R$ 2.100, faz dela um retrato da nova classe média brasileira. Será mesmo?

— Não — diz o sociólogo Jessé Souza, para quem esse grupo forma uma “nova classe trabalhadora precarizada”. — É uma classe que foi inserida principalmente no comércio, em serviços e em pequenas indústrias. É mais explorada, aceita trabalhar 12, 14 horas por dia. A ascensão dessa classe ao consumo é real. E isso é extremamente positivo, porque antes nem essa possibilidade existia. A sociedade moderna têm dois capitais importantes, o econômico e cultural. Essa visão empobrecida (de classe média) considera apenas a renda.

As sociólogas Christiane Uchôa e Celia Kerstenetzky, da UFF, analisaram os indicadores sociais da nova classe média, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE de 2009. E se surpreenderam ao perceber que 9% dos pais de família do grupo são analfabetos, 71% das famílias não têm planos de saúde e 1,2% das casas (cerca de 400 mil) sequer têm banheiros. “A chamada nova classe média não se parece com a classe média como a reconhecemos” concluem as pesquisadoras.

Criador do conceito “nova classe média”, o economista Marcelo Neri, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vê nas críticas uma reação de sociólogos que, para ele, “se sentem um pouco invadidos”:

— Desde o começo a gente não está falando de classe sociais, mas de classes econômicas. Economistas são pragmáticos, talvez simplifiquem demais as coisas. Mas, entre 2003 e 2011, 40 milhões de pessoas se juntaram à classe C no Brasil, que passou para 105 milhões de pessoas.

No recorte feito por Neri em 2009, eram consideradas como classe média famílias com renda mensal entre R$ 1.200 R$ 5.174 Agora, as faixas foram atualizadas para entre R$ 1.750 e R$ 7.450.

— É claro que essa não é uma classe média europeia ou americana, é a classe média brasileira. Mas não olhamos só a renda, é uma métrica mais sofisticada. Há melhoras em indicadores de educação e, principalmente, de trabalho, que dá sustentabilidade às conquistas. O grande símbolo dessa classe média não é o celular nem o cartão de crédito, mas a carteira assinada. Eu até gostaria de ver mais empreendedorismo — diz Neri.

O empreendedorismo faz parte da rotina de Rosani Pifani, 50 anos, e seu marido Carlos Augusto Ferreira, 53 anos, donos de um bar no Morro do Pinto, onde conseguem uma renda de R$ 2 mil, vendendo de cerveja a detergente, das 7h às 20h. Nos fins de semana, a jornada se estende até 2h.

— Não tenho conforto nem fim de semana, e queria ter um carro. Mas quando olho a pobreza em volta, vejo que pelo menos tenho casa própria, comida e televisão — diz Rosani, que não completou o ensino fundamental.

Com tv a cabo, mas sem escola particular

No andar de cima da casa, vive a família da filha, Manuela Pifani Lago, de 25 anos, seu marido Jonatas Oliveira, de 30 anos, e o filho Miguel, de 4 anos. Com ensino médio completo, os dois trabalham com carteira assinada, ela como caixa numa grande rede de varejo e ele, como técnico de informática. Juntos ganham cerca de R$ 2 mil.

— Temos plano de saúde, graças à empresa, e alguns confortos, como TV a cabo. Mas escola particular para o Miguel ainda não dá — conta Manuela.

O publicitário Renato Meirelles, do Instituto Data Popular acha que o brasileiro tem uma visão errada de sua própria condição.

— Quem se considera de classe média está na ponta da pirâmide, é mais intelectualizado, mais erudito. Temos pesquisa mostrando que 35% das classes A e AB se consideram de classe média. No Brasil, o 1% mais rico têm renda per capita de R$ 6 mil por mês e há um monte de gente que faz parte deste 1%, mas jura que é classe média. Mas não se pode dizer que classe média é só quem concluiu o curso superior e gosta de música erudita.

Ex-babá e hoje sócia de uma loja de decoração em Copacabana, Evangelina Ribeiro, de 40 anos, diz que só passou a se sentir de classe média depois de concluir seu curso superior em pedagogia.

— Um mundo se abriu. Almoço em casa, compro o que quero e visto o que eu gosto. Infelizmente, a sociedade ainda tem muito preconceito, e a primeira impressão é o que você tem e o que você compra — diz ela, dona de renda mensal que varia de R$ 2.500 a R$ 3 mil, e que já pensa em cursar outra faculdade, de gastronomia.

Abra a porta para 2013 e permita que as mudanças fluam

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Ana Celia Aschenbach, no Mulher 7×7

Aproveite o início de um novo ano para dar uma sacudida na vida. Afinal, o que tira a gente do conforto faz pensar, refletir e definir caminhos.

Na hora de fazer os pedidos de ano novo nem sempre nos lembramos de que, para os desejos se realizarem, precisamos dar nossa dose de contribuição.  Se quisermos mudar qualquer coisa, necessitamos sair do conhecido e aventurarmo-nos no desconhecido. Claro, isso implica em correr riscos e muitas vezes não fazemos ideia se seremos capazes de controlar a situação. Por isso a tendência natural é nos acomodarmos na velha e conhecida zona de conforto, ou seja, tudo aquilo com o qual estamos acostumados a fazer, pensar ou sentir.

Já ouviu falar que se a gente não muda, vem a vida e, de repente, não mais que de repente, muda tudo?

Um ótimo exemplo dessa mudança está na natureza, que muda o tempo todo, a toda hora, toda estação. Na filosofia indiana, essa mudança também é sentida nos períodos em que o universo é criado, se mantém durante certo tempo, depois é destruído. Brahman, o deus absoluto, é quem atua criando o universo, depois vem Vishnu que o mantém e Shiva que o destrói. Depois, Brahman se manifesta, o universo começa a surgir novamente, iniciando-se um novo ciclo.

Muitas vezes quando as mudanças acontecem na nossa vida, temos vontade de praguejar Shiva. Como esse cara vem e desfaz as coisas assim? Estava tudo tão bom, tão certinho, tudo tão dentro dos conformes?! Claro, ninguém quer sair da zona de conforto. Mudanças induzidas em ritmo acelerado exigem muito foco e “fé” no nosso interior. Com ou sem Shiva ajudando a destruir a nossa zona de conforto, o medo pressentido é o da destruição.

Mas até chegarmos a isso, as nossas birras internas, os nossos bloqueios, medos e, principalmente, a nossa autossabotagem criam um escudo que não nos deixa enxergar o quão bom pode ser essa virada impulsionada pela vida, por Shiva. Por isso sempre acabamos por correr para a nossa zona de conforto, onde não existe qualquer possibilidade de mudança.

Hellooooo, já pensou que o Universo vive em mutação? E, de novo, se você não mudar, o Universo muda você. Simples assim. A vida é essencialmente dinâmica. Por isso é preciso adaptar-se continuamente às mudanças que ocorrem. Tudo é impermanente. Para cada existência, a verdade básica é que tudo muda. Ninguém pode negar essa verdade e todo o ensinamento do budismo está condensado nela.

Para dar uma forcinha, que tal praticar o ritual do desapego? Pode ser um bom começo para aceitar a lei da impermanência, essa arte de dizer adeus com elegância, fazer as pazes com o mundo e se preparar para 2013. Escreva num papel tudo o que você não quer mais para a sua vida: ideias, sentimentos, pessoas… Tudo o que você quer deixar ir embora. Faça uma oração e queime esse papel. Depois escreva em outro papel tudo o que você deseja para o ano que vai entrar. E repita o ritual da queima.

Feliz 2013, feliz impermanência, feliz renascer, feliz novo ciclo.