Filha de padre guarda segredo por 25 anos para proteger sacerdócio do pai

filha do padre

Publicado na Folha de S. Paulo

Maria Helena de Aguiar N. é uma sobrevivente. Sobreviveu, em silêncio, ao peso de um poderoso estigma, o de ser filha de um padre, da Igreja Católica, que permaneceu na função. Passou 25 dos seus 31 anos soterrada pelo peso da culpa (alheia), até que o noticiário em torno da abertura da igreja para homossexuais e católicos casados fora dos cânones animou-a a prestar este depoimento.

O silêncio produziu feridas, mas não a impediu de formar-se em Relações Internacionais, pela Universidade de Brasília, e de, ironia do destino, tornar-se funcionária da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência -justamente ela a quem o destino negou o elementar direito de dizer “meu pai”. O segundo sobrenome é omitido a pedido dela, que não quer expor o pai.

Depoimento…

Lembro-me bem da luminosidade do dia e do local em que soube que era filha de um padre, um padre que não abandonara o sacerdócio.

Era uma manhã de sol, na varanda do nosso apartamento em Brasília. Minha mãe disse: “É um segredo. Nunca revele a ninguém. Seu pai é padre. Quando lhe perguntarem sobre isso diga que ele é professor universitário. De filosofia. No sul do país”.

Acho que tinha 4 ou 5 anos, no máximo. Nessa idade, acredito, não se questionam ordens. Se obedece. E assim foi feito por cerca de 25 anos.

Os contatos com meu pai eram muito rápidos e feitos por meio de ligações telefônicas a cobrar, três vezes ao ano. Páscoa, aniversário e Natal. Sussurradas.

Talvez como forma de aumentar a culpa pela transgressão à norma e pela minha existência não se optou por romper de uma vez por todas o frágil laço que nos unia.

Na infância, a manutenção do segredo era essencial para minha sobrevivência em um ambiente familiar e escolar absolutamente católico.

Estudar em colégios como Santa Doroteia, Sagrada Família, Marista e outros cuja coordenação pedagógica era administrada por ordens como a salesiana ou pela Opus Dei (uma prelazia), era, para mim, o grande desafio da discrição e do anonimato.
Para além da excelente formação educacional e cultural recebida nesses colégios, formei-me, também, na arte da despersonalização.

Quanto mais calada, mais introspectiva e menos informações pessoais aos colegas de classe, melhor. Em uma época em que filhos de pais divorciados ainda sofriam discriminação, via como verdadeira sentença de morte a possibilidade de ser descoberta como filha de padre.

Características físicas e de personalidade como timidez, discrição, voz baixa, aspecto frágil e doçura foram, na verdade, ativos desenvolvidos como proteção pela sobrevivência nesses ambientes.

Hoje me divirto quando recebo elogios ou críticas nesse sentido. A maioria dessas características permanece.

Brinco com alguns amigos mais íntimos que poderia mandar meu currículo para a inteligência russa em razão desse treinamento intensivo de mentira e de dupla espionagem desde a infância.

As catequeses e as missas dominicais, de igual maneira, eram ambientes inóspitos e muito pouco acolhedores aos quais acabei me adaptando com o passar dos anos e, paradoxalmente, gostando de frequentar.

Essa é hoje a parte da história que mais me assusta. Pensar que, ao mesmo tempo em que gostava de frequentar ambientes e ritos religiosos, acreditava também na ideia de que eu era a materialização do “pecado” pela quebra do celibato.

Isso significou me descobrir alguém que gostava de se sentir punida.

Certo dia acordei de manhã e me vi como a cachorrinha Kashtanka de um dos clássicos de Tchekhov, que largou uma vida confortável no circo e voltou para o “conforto” de seu dono agressor. Tive medo.

Esse meu gosto pelo sofrimento significava, na realidade, a reprodução de uma opção feita pelos meus pais de não abandonarem parte importante da sua identidade cultural –a religião católica– por conta da concepção de uma filha.

A escolha pela negação da identidade de pai e de mãe em função da reafirmação de uma identidade católica –mais forte e dominante.

E a óbvia culpa manifestada inconscientemente em diversas ocasiões.

Sempre existiu a opção de abandonar a profissão de padre ou a de criar a filha em um ambiente não religioso e livre da culpa católica. A liberdade e a plena consciência são sempre uma opção. Mas optou-se pelo sofrimento e pela culpa. De ambas as partes.

A minha não reação a fatos importantes, como quando soube pela minha mãe que meu pai lhe pediu aborto ou que ela própria tentou se matar em uma depressão pós-parto, são sinais de o quanto o silêncio e a negação de fatos reais sempre foram, para mim, confortáveis refúgios de sobrevivência.

A vitimização e a manutenção do silêncio teriam sido o caminho mais fácil caso não tivesse a sorte de ouvir de uma amiga psicóloga: “Esse segredo não é seu!”.

Aos poucos essa frase foi se solidificando e fui me afastando cada vez mais dos dogmas religiosos e do estigma de ser “filha de padre”.

Ainda hoje, porém, o inconsciente continua me dando algumas rasteiras e, por vezes, me vejo revivendo dores de vazios não preenchidos.

Ouvi recentemente de uma amiga de trabalho que ela e o marido estavam preparando um almoço de casamento para suas famílias. No mesmo instante, ouvi de novo a frase de um funcionário do seminário quando, pela última vez, em 2006, tentei contato com meu pai por meio de ligação anônima e obtive a seguinte resposta: “Ele está de férias com a família”.

Família é conceito difuso. Deveria ser o lugar de acolhimento e de hospitalidade de todo indivíduo.

O lugar no qual todos os membros se sentissem queridos, protegidos, abraçados –não de forma teatral e dissimulada, mas genuína.

Lugar de acolhimento do ser em sua essência –e não de julgamentos pela escolha de parceiros, pela opção sexual, pela renda, pelo tipo físico ou pela vida pregressa dos pais.

Para os filhos de padres, bastardos por decreto da Igreja Católica desde o nascimento, o conceito de família é algo a ser repensado e ressignificado. Caso contrário, é possível que traumas se instalem e se perpetuem por gerações.

Na França, na Alemanha e na Áustria existem associações de filhos de padres, os chamados “Enfants du Silence”. No Brasil não. Talvez pelo amplo moralismo e conservadorismo que ainda permanecem em nossa sociedade. Ou pelo medo.

A Igreja Católica e a sociedade brasileira precisam dar voz a esse segmento de sobreviventes.

Sobreviventes do aborto, do preconceito e, especialmente, de anos de silêncio acerca de sua identidade.

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Eles escolheram esperar: jovens optam por não fazer sexo antes do altar

No Distrito Federal, adeptos contam como enfrentam o preconceito, as piadas e porquê decidiram deixar o sexo para depois do casamento

Publicado no Correio Braziliense

Malu Mascarenhas (23) e Eduardo Eira (21), namoram há 1 ano e 2 meses, frequentam o Movimento de Emaús
Malu Mascarenhas (23) e Eduardo Eira (21), namoram há 1 ano e 2 meses, frequentam o Movimento de Emaús

Eles são jovens como muitos outros. Estudam, trabalham, saem para se divertir e enfrentam os problemas típicos da mesma faixa etária. Mas quando o assunto é namoro, as diferenças ganham evidência e os destacam dos demais: eles optaram – e se orgulham disso – por casar virgens.

O que para muitos é motivo de chacota, surpresa ou preconceito, para eles é uma coisa séria, decisão tomada e seguida à risca. “Eu já fui alvo de piada até entre meus próprios amigos!”, conta Martinelly Flores, de 23 anos, que é estudante de publicidade. “O problema é que as pessoas acham que para nós é um sacrifício o modo como escolhemos viver, mas não é, pois nós somos felizes à nossa maneira”, garante.

Sobre os momentos íntimos do casal, Martinelly admite esforço para se afastar das “tentações”. “Como todas pessoas comuns temos desejos, por isso é necessário precauções. Evitamos momentos a sós ou que nos traga pensamentos sexuais. Tudo isso nos ajuda a impedir de avançarmos o ‘sinal vermelho'”, conta.

Já para a estudante Larissa Barbosa, de 17 anos, que mora de Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, parte da responsabilidade pela busca do sexo fora do casamento vem da influência gerada por programas de TV e músicas. “Sinceramente não é fácil, pois tudo chama a atenção para o sexo. Quem diz não ao senso comum é considerado ‘fora de moda'”, afirma.

O casal Eduardo Eira, de 21, e Malu Mascarenhas, de 23, estão juntos há 1 ano e 2 meses e escolheram se guardar para o matrimônio. “O casal tem mais tempo de conversar e se conhecer melhor, fortalecendo a relação”, explica Eduardo.

Mas nem sempre o principal inimigo está do lado de fora da relação, acredita a professora Fernanda Salomão, de 25 anos. Ela namora o dentista Antônio Rodrigo, de 25, há cinco anos e conta que foi difícil chegar a um consenso. “A escolha partiu, inicialmente, somente de mim! É necessário muita força de vontade, determinação, conversa e compreensão entre o casal”, assume.

Questionada sobre como se comportar com os desejos mais íntimos, outra jovem que não quis se identificar confessa: “Rezo e peço à Deus para me dar forças e não cometer besteiras. Para ser sincera, algumas vezes eu recorro a masturbação, sei que é errado e vai contra os ensinamentos da minha religião (católica), mas a tentação é grande e isso geralmente acontece quando estou distante de Deus. Sempre que caio na tentação, corro para me confessar”, admite.

De acordo com os ensinamentos da igreja católica, o sexo é: “o instrumento da expressão do amor conjugal e da procriação.

Toda vez que o sexo é usado antes ou fora do casamento, de qualquer forma que seja, peca-se contra a castidade”, conta em uma de seus artigos, Felipe Aquino, apresentador, radialista, professor de História da Igreja no Instituto de Teologia Bento XVI, na Diocese de Lorena, em São Paulo, e escreveu 78 livros, todos baseados na doutrina católica.

Um dos movimentos de maior força no país é o chamado “Eu Escolhi Esperar”, liderado pelo pastor Nelson Neto Júnior. Formado em Teologia pelo Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (Ibad), ele trabalha com jovens e adolescentes há pouco mais de 20 anos. A campanha, lançada em abril de 2011, se espalhou pelo Brasil, agregando pessoas de várias religiões. No Twitter, o movimento conta com 367 mil pessoas. No Facebook, a página oficial do movimento pela castidade mobiliza ainda mais jovens e o perfil já tem mais de 2 milhões de curtidas.

Zagueiro da seleção brasileira e um dos nomes mais comentados da Copa do Mundo 2014, o jogador David Luiz, que namora a portuguesa Sara Madeira, também aderiu ao movimento e postou no Instagram e no Twitter a mensagem da campanha: “Fé! escolhiesperar”

Outro craque que ficou famoso por ter aderido à castidade foi o jogador Kaká. Nascido no Gama, ele deu o que falar quando, ao lado da então noiva Caroline, discursou à favor da virgindade. Em entrevista à revista italiana Vanity Fair, o casal assumiu que não tiveram relações sexuais até a noite de núpcias, em dezembro de 2005. “É evidente que não foi fácil chegar ao matrimônio sem ter estado com uma mulher. Eu e Caroline nos beijávamos e é claro que o desejo existia. Mas nós nos contínhamos. Se hoje nossa vida é tão bela, é porque soubemos esperar”, disse à época o jogador do São Paulo.

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dica do Gerson Caceres Martins

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“Somos apaixonadas por um padre”, desabafam 26 mulheres em carta ao papa Francisco

Jovens padres tocam violão e cantam na Praça de São Pedro, no Vaticano, durante a missa de beatificação dos papas João Paulo II e João XXIII | REUTERS/Tony Gentile
Jovens padres tocam violão e cantam na Praça de São Pedro, no Vaticano, durante a missa de beatificação dos papas João Paulo II e João XXIII | REUTERS/Tony Gentile

 

 

 

 

 

 

 

Publicado no Brasil Post

Vinte e seis mulheres escreveram uma carta ao papa Francisco na qual afirmam ser “apaixonadas por um padre” e pedem o fim do celibato na Igreja Católica Romana. “Nós amamos esses homens, e eles nos amam, e na maioria dos casos, apesar de todos os esforços de renúncia a esse sentimento, não conseguimos abrir mão de um laço tão sólido e bonito”, afirmaram as mulheres, segundo reportagem publicada pelo site Vatican Insider, do grupo de comunicação La Stampa, um dos mais importantes da Itália.

Na carta, cada uma das 26 mulheres assina apenas com o primeiro nome e a inicial do nome de família, mas no envelope elas incluíram seus sobrenomes por extenso assim como telefones de contato. Elas afirmam ser apenas uma amostra da grande quantidade de mulheres que “vive em silêncio”.

“Muito pouco se sabe sobre o sofrimento devastador de uma mulher que é profundamente apaixonada por um padre. Humildemente colocamos nosso sofrimento a seus pés na esperança de que algo possa mudar, não apenas para nós, mas para o bem de toda a Igreja”, escreveram.

Segundo as mulheres, quando há uma separação definitiva ambas as partes com frequência sofrem pelo resto da vida. As alternativas seriam o padre abandonar o sacerdócio ou o casal viver a relação em segredo.

“No primeiro cenário (…), queremos que o homem que amamos viva sua vocação sacerdotal inteiramente. Queremos estar ao seu lado e apoiá-lo em seu chamado”, dizem.

“A segunda alternativa significa viver uma vida escondida, frustrada por um amor incompleto, sem esperança de formar uma família, um amor que não vê a luz do dia”, continuam. “Infelizmente essa é frequentemente a única e dolorosa escolha devido à impossibilidade de desistir de um amor tão enraizado no Senhor.”

Na carta, as 26 mulheres apaixonadas pedem para se encontrar com o papa: “Esperamos com todo o nosso coração que o senhor abençoe nosso amor, presenteando-nos com a maior felicidade que um pai pode desejar a seus filhos: vê-los felizes.”

Segundo o Vatican Insider, especializado em cobrir a Igreja Católica, até o momento Jorge Mario Bergoglio, nome de batismo do papa argentino, nunca se posicionou pelo fim do celibato, mas em conversa com o rabino Abraham Skorka publicada no livro ‘No Paraíso e na Terra’, teria admitido que a mudança é possível. “A tradição tem um papel importante. Os ministros católicos gradualmente optaram pelo celibato. Até 1100 d.C alguns optavam por ele, outros não… é uma questão de disciplina, não de fé. Pode ser mudado”, afirmou.

Entretanto, nessa mesma conversa, ocorrida antes de sua escolha como papa, Bergoglio expressou claramente sua opinião contrária a padres viverem vidas duplas: “Se um padre me conta que engravidou uma mulher, eu tento acalmá-lo e devagar começo a explicar que o direito natural à vida vem antes de seus direitos como padre. Portanto, é sua obrigação deixar o sacerdócio e cuidar da criança, mesmo que não se case com a mulher.”

Já no caso de um padre que se diz apaixonado por uma mulher, o argentino diz tentar fazê-lo corrigir o erro: “Viver uma vida dupla não é bom para nós, é falso. Se não é capaz de fazer isso (respeitar o celibato), tome uma decisão.”

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Análises apontam que papiro que fala da esposa de Jesus não é falso

foto: Karen L. King/Harvard University/Reuters
foto: Karen L. King/Harvard University/Reuters

Publicado por AFP [via UOL]

Um pedaço de papiro antigo que contém uma menção à esposa de Jesus não é uma falsificação, de acordo com uma análise científica do controverso texto, declararam nesta quinta-feira (10) pesquisadores americanos.

Acredita-se que o fragmento seja proveniente do Egito e contém escritos na língua copta, que afirmam: “Jesus disse-lhes: ‘Minha esposa…'”. Outra parte diz ainda: “Ela poderá ser minha discípula”.

A descoberta do papiro, em 2012, provocou um rebuliço. Pelo fato de a tradição cristã afirmar que Jesus não era casado, o documento atiçou os debates sobre o celibato e o papel das mulheres na Igreja.

O jornal do Vaticano declarou que o papiro era uma farsa, juntamente com outros estudiosos, que duvidaram de sua autenticidade baseados em sua gramática pobre, texto borrado e origem incerta.

Nunca antes um evangelho se referiu a Jesus como casado, ou tendo mulheres como discípulos.

Mas uma nova análise científica do papiro e da tinta, bem como da escrita e da gramática, mostrou que o documento é antigo.

“Nenhuma evidência de fabricação moderna (‘falsificação’) foi encontrada”, declarou a Harvard Divinity School em um comunicado.

O fragmento provavelmente remonta a uma data entre os séculos 6 e 9, mas poderia ter sido escrito até mesmo no segundo século da Era Comum, segundo os resultados do estudo publicados na Harvard Theological Review.

A datação por radiocarbono do papiro e uma análise da tinta utilizando espectroscopia Micro-Raman foram realizadas por especialistas da Universidade de Columbia, da Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

“A equipe concluiu que a composição química do papiro e os padrões de oxidação são consistentes com papiros antigos, ao comparar o fragmento do Evangelho da Esposa de Jesus (Gospel of Jesus’ Wife – GJW, em inglês) com um fragmento do Evangelho de João”, declarou o estudo.

“O teste atual suporta, assim, a conclusão de que o papiro e a tinta do GJW são antigos”, esclareceu.

Origem desconhecida

A origem do papiro é desconhecida. Karen King, historiadora da Harvard Divinity School, o recebeu de um colecionador – que pediu para permanecer anônimo – em 2012.

King, uma historiadora do cristianismo primitivo, declarou que a ciência mostrar que o papiro é antigo não prova que Jesus era casado.

“A questão principal do fragmento é afirmar que as mulheres que são mães e esposas podem ser discípulas de Jesus – um tema que foi muito debatido no início do cristianismo, num momento em que a virgindade celibatária se tornou cada vez mais valorizada”, explicou King em um comunicado.

“Este fragmento do evangelho fornece uma razão para reconsiderar o que pensávamos que sabíamos, ao se perguntar o papel que as declarações sobre o estado civil de Jesus desempenharam historicamente nas controvérsias cristãs sobre casamento, celibato e família”.

O fragmento mede quatro por oito centímetros.

King declarou que a data do documento – escrito séculos depois da morte de Jesus – significa que o autor não conhecia Jesus pessoalmente.

Sua aparência bruta e os erros gramaticais sugerem que o escritor tinha apenas uma educação elementar, acrescentou.

Leo Depuydt, professor de Egiptologia da Universidade Brown, escreveu um artigo, também publicado na Harvard Theological Review, descrevendo por que acredita que o documento é falso.

“O fragmento do papiro parece perfeito para um esquete do Monty Python” (famoso grupo de comediantes britânicos), declarou.

Ele apontou erros gramaticais e o fato de as palavras “minha esposa” parecerem ter sido enfatizadas em negrito, o que não é utilizado em outros textos coptas antigos.

“Como um estudante de copta convencido de que o fragmento é uma criação moderna, sou incapaz de fugir à impressão de que existe algo quase engraçado no uso das letras em negrito”, escreveu.

King publicou uma refutação às críticas de Depuydt, dizendo que o fato de a tinta estar borrada era comum e que as letras abaixo de “minha esposa” eram ainda mais escuras.

dica do Ailsom Heringer

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Fran Fisher: “A religião não pode se basear no celibato”

A sexóloga inglesa Fran Fisher foi freira na juventude. Agora, entrevista religiosas para entender a interferência do catolicismo na sexualidade

EX-NOVIÇA REBELDE A sexóloga Fran Fisher em seu consultório, nos Estados Unidos. Abaixo, uma fotografia de quando ela acabara de entrar no convento (Foto: Christopher Thomond/The Guardian e arq. pessoal)
EX-NOVIÇA REBELDE
A sexóloga Fran Fisher em seu consultório, nos Estados Unidos. Abaixo, uma fotografia de quando ela acabara de entrar no convento (Foto: Christopher Thomond/The Guardian e arq. pessoal)

Por Margarida Telles, na Revista Época

Quando a irmã Jane Frances de Chantal fugiu do convento em que morava, na Inglaterra, sabia que deixava para trás sua vida religiosa. Ela não imaginava que se tornaria especialista em sexo. Hoje, Fran usa seu sobrenome de casada, Fisher. Atende na Califórnia pacientes com problemas sexuais. A mudança de carreira ocorreu décadas depois de Fran sair do convento, onde viveu entre os 18 e os 20 anos. Ela se casou e teve dois filhos. Diz que só entendeu como a religião limitara seu prazer quando foi estudar sexologia, depois dos 40 anos. Decidiu, então, investigar a vida íntima de outras mulheres que abandonaram o hábito. O resultado está no livro In the name of God, why? (Em nome de Deus, por quê?), lançado nos Estados Unidos no fim de 2012.

ÉPOCA – Por que a senhora decidiu entrar para um convento?
Fran Fisher –
 Meus pais imigraram da Irlanda para a Inglaterra. Eram católicos fervorosos com pouquíssima educação. A escola em que fiz o ensino médio era católica. As freiras vinham conversar com as alunas, para sondar se alguma tinha interesse em entrar para o convento. Aos 15 anos, me senti atraída por esse estilo de vida. Tinha um interesse pessoal pela espiritualidade e era muito religiosa.

ÉPOCA – Em seu livro, a senhora relata que, aos 14 anos, acreditou estar grávida. Como esse momento influenciou a decisão de entrar para o convento?
Fran – 
Tive um encontro com um rapaz e não houve sexo, apenas preliminares. Não entendia muito bem como a gravidez ocorria. Tive medo de estar grávida e procurei minha mãe. Em vez de me acalmar, pois a gravidez naquele caso seria impossível, ela disse que eu poderia estar grávida. Disse ainda que eu fizera algo muito errado, que Deus desaprovaria. Fiquei apavorada e envergonhada. A partir daquele momento, passei a achar que o sexo arruinaria minha vida. Naquele dia, tornei-me muito mais religiosa.

ÉPOCA – Como era sua relação com a sexualidade enquanto estava no convento? A senhora lidava bem com eventuais desejos físicos?
Fran – 
Não tinha nenhum desejo, estava dormente. Num único momento, tive noção de minha sexualidade durante meus anos no convento. Quando nosso padre ficou doente, um substituto passou a vir ao convento para fazer a missa diária. Ele era jovem, e me lembro de sentir atração, mas não fiz nada a respeito. Não se podia discutir nada ligado ao corpo com as outras freiras. Tudo era reprimido.

ÉPOCA – A senhora se lembra de algum exemplo de repressão que sofreu?
Fran –
 A repressão estava no cotidiano. Por baixo do hábito, usávamos uma anágua feita de algodão bem pesado. Dessa forma, quando estávamos limpando o chão, poderíamos levantar o hábito para não sujá-lo. Lembro uma vez em que estava limpando uma escadaria com meu hábito enrolado na cintura, quando meu padre confessor apareceu inesperadamente. Eu me levantei para saudá-lo e fui repreendida por outra freira por estar com meu hábito levantado. Para ela, eu estava seminua.

ÉPOCA – Por que decidiu abandonar o convento?
Fran –
 Por uma série de razões. Tínhamos uma madre superiora paranoica e muito rígida. A pressão me deixou doente. Tive pneumonia duas vezes, perdi peso e sofri muito. O controle mental que nos impunham era muito difícil para mim. As perguntas que eu fazia eram consideradas inaceitáveis por minhas superioras. Lembro uma vez em que perguntei como Maria poderia ser virgem até sua morte, se pariu um filho. A madre superiora ficou chocada. Disse que aquilo era um desrespeito. A gota d’água foi quando minha irmã se casaria e me disseram que eu não poderia ir ao casamento, mesmo que comparecesse somente à cerimônia religiosa, com uma acompanhante. Todo esse dogma e paranoia foram demais para mim. Fugi enquanto todos estavam na missa da manhã.

ÉPOCA – Qual é sua relação com a religião hoje em dia? Ainda é católica?
Fran – 
Não me considero mais católica. Pessoalmente, não gosto de religiões organizadas. Se você atribui tanto poder a uma organização, ela se torna corrupta. Minha relação com Deus hoje em dia está cada vez mais forte e pura. Mas não é o Deus punitivo da minha infância.

ÉPOCA – Por que decidiu estudar sexualidade?
Fran –
 Quando me interessei por sexualidade, meu casamento já tinha 25 anos. Sua única área problemática era o sexo. Conheci uma sexóloga numa conferência. Fiquei fascinada, porque nunca tinha ouvido falar dessa profissão. Ela sugeriu que eu fosse a um curso. Achei que seria interessante. Fui e fiquei chocada com o que ouvi naquele fim de semana. Jurei que nunca voltaria. Acabei voltando, mesmo com medo, porque a curiosidade foi maior.

ÉPOCA – Quais eram os problemas relacionados ao sexo em seu casamento?
Fran –
 Fui educada para ficar de boca fechada e não expressar minha opinião. A raiz disso estava no lugar destinado às mulheres na sociedade em que fui criada e na religião católica. Infelizmente, me casei muito cedo, aos 22 anos, menos de dois anos depois de sair do convento. Não tinha aprendido a ser dona de meus próprios pensamentos com convicção. Depois de ter meus filhos, passei a ter relações só por obrigação. Minha resposta-padrão para qualquer sugestão de inovação sexual era “não”. Quando decidi estudar sexualidade, meu marido ficou animadíssimo. Passei a ser tão curiosa quanto ele, e, no lugar de dizer não, quando ele sugeria alguma coisa, eu pedia para ele me contar mais sobre aquilo.

ÉPOCA – Em seu livro, são entrevistadas outras ex-freiras. O que as histórias dessas mulheres têm em comum com a sua?
Fran –
 A principal similaridade entre todas era o silêncio sobre o sexo durante a infância. As mulheres que saíram cedo do convento, como eu, se casaram rapidamente. A proibição do sexo antes do casamento ainda era muito forte, então a maioria acabou se casando com o único homem com quem se envolveu, como eu. Aquelas que ficaram muito tempo no convento acabaram tendo vida sexual lá, com padres ou fiéis. Duas das 69 ex-freiras que pesquisei se relacionaram sexualmente com outras freiras. Quando uma freira se envolvia com um padre, havia uma dinâmica de poder, em que a mulher deveria ser subserviente. Uma delas me contou que só ela fazia sexo oral no padre. A contrapartida nunca ocorreu em muitos anos de relação. A exceção foi uma mulher que adorava sexo e estava na faixa dos 50 anos.

ÉPOCA – O perfil das jovens freiras mudou?
Fran –
 As freiras continuam vindo de onde sempre vieram, de países muito pobres, onde mulheres veem na Igreja sua única oportunidade de uma boa educação e de escape de uma existência difícil. Na minha infância, uma grande quantidade de freiras católicas vinha da Irlanda. Quando o país entrou para a União Europeia e mudanças econômicas poderosas ocorreram por lá, a vocação religiosa diminuiu. Agora, as noviças quase não existem mais, e os conventos estão fechando.

ÉPOCA – O que a senhora acha do celibato?
Fran –
 É inconcebível que a Igreja ainda tente basear sua religião numa premissa tão pouco natural quanto o celibato. A maior parte das pessoas gosta muito de sentir prazer, mesmo devotando sua vida a Deus. A ideia de que a Igreja consegue controlar a sexualidade das pessoas acabou gerando reações contrárias. Existem muitos homossexuais em conventos e mosteiros. Se você é muito religioso e gay, para onde mais pode ir?

ÉPOCA – A senhora costuma atender em seu consultório pessoas com problemas sexuais ligados à religião?
Fran –
 Recebo muitos pacientes justamente por causa do meu histórico. É importante respeitar a crença em Deus, mas separá-la do que foi doutrinado durante a infância. Quando se fala de sexualidade, muitos continuam com os mesmos medos, julgamentos e restrições da infância. Não os superamos só porque nos tornamos adultos. É um aprendizado rever esses conceitos. E um desafio.

 

 

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