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Deixaram a porta aberta e Deus fugiu da igreja

igreja-620x400Eberth Vêncio, na Revista Bula

A regra é rubra; os dogmas, claros. Abre aspas:  “É vedado aos crentes solteiros desta igreja, não somente se afeiçoarem aos crentes de outras agremiações religiosas que também concorrem a Pimenta-do-Reino dos Céus, assim como contrair com os mesmos chato, bubão ou matrimônio.

É vedado aos casais fazerem amor sobre o harmônio antes do culto, principalmente com as luzes dos castiçais acesas. Se a música e a fantasia libertam, com certeza deve ser pecado.

Cada um no seu quadrado: é vedado às fiéis casadas — sob alegação contribuírem com seus amos para a amortização das despesas domiciliares — trabalharem fora do lar, a não ser para varrerem o terreiro, catarem o coco do cachorro ou dependurarem as roupas no varal. Vão rezar, ó submissas!

Essa vocês vão ter que engolir: é vedado comer a hóstia antes da missa, conquanto ela seja nada mais nada menos que uma abençoada porção de farinha de rosca prensada numa máquina de fazer doidos sob a forma de moedas de cinquenta centavos com a logomarca do Vaticano.

É vedado ao médico, mesmo que ele seja cubano, mesmo investido do sacerdotal labor hipocrático, injetar quéti-chupe nas veias de um crente anêmico moribundo com um pé na cova e o outro no coágulo de sangue. Dizem as escrituras: Não dirigirás uma só palavra a Deus após tomar uma taça de Sangue de Boi.

Quem escreveu eu confesso que não sei quem fui, mas está explícito em letras garrafais num dos infinitos provérbios de Pronomes: é vedado às mulheres depilarem as axilas, as virilhas, o monte de Vênus ou quaisquer outros acidentes geográficos do corpo humano que induzam os varões a flutuarem no mundo da lua, a cobiçarem fazer sexo por mero divertimento, descomprometidos com as sacrossantas finalidades procriadoras de um coito.

É vedado aos crentes desta igreja fazerem o quadradinho de oito sob o pretexto de comemorarem feriados, mortes e aniversários, além de curtirem sozinhos à lapidação com pedras renais de um escriba ateu em praça pública.

É vedado colocar em dúvida o conteúdo dessas escrituras, sob pena de enlouquecer de razão”. Fecha aspas.

Com o apoio de prepostos aqui na Terra, Deus arrebanhou mais uma ovelha para o seu rebanho, e eu perdi um amigo. Vejam vocês, carneirada: era um dia quente de verão nos cafundós de Buraco Azul, quando eu me deparei com o sujeito num ponto de ônibus. Seus sovacos estavam ensopados de suor, e ele tagarelava mais que uma mulher naqueles dias, ao ponto de espumar pelos cantos da boca de tanto salvar o mundo, a pregar vergalhões inúteis no couro duro dos cidadãos que só queriam chegar logo em casa, pregar a bunda no sofá, e acompanharem pela TV o inédito beijo gay entre um ator sem talento e um dramaturgo efeminado da novela das oito. A corrida pela audiência não economiza sensacionalismo: espera-se para os próximos capítulos o incrível parto de um transexual dentro de um aquário.

Dizem que as amizades da infância são as mais longevas. Fiquei tão feliz em reencontrar aquele cara que não hesitei em interromper a sua palestra no deserto, e convidá-lo para um café com palavras numa lanchonete ali perto. Ele declinou, disse que também estava naqueles dias, ou seja, jejuando e cumprindo a inoxidável missão de capturar ovelhas desgarradas, evangelizar transeuntes nas paradas de ônibus e OVNI. Com os olhos vidrados de tanta fé (até porque ele tinha uma bola de gude enorme enfiada num dos cavos orbitários, pois um olho secara de tanto chorar), ele fez uma rápida retrospectiva da sua vida, do quanto teve uma infância cruel regada a maus tratos.

Desde o dia em que ameaçou furar as tripas do próprio pai com a faquinha da manteigueira, porquanto o sujeito não parava de esbofetear a esposa na cara, quase tudo mudou: ele, as irmãos abusadas e a mãe agredida enxotaram o bêbado valentão de casa e se converteram a uma das religiões mais conservadoras e reacionárias que se tem notícia nesse hospício. Antes de tomarmos o último porre de “laranja mecânica” da nossa juventude (um coquetel feito com água de bateria e Crush), meu amigo me chamou de lagartixa, me prensou contra a parede e perguntou: “Você não ouviu o chamado?”. Juro que fiz de tudo para ouvir o tal chamado, até porque amava aquele sujeito como a um irmão.

Então, nunca mais nos vimos, até aquela tarde modorrenta em Buraco Azul. Como diria Dona Genoveta, a passadeira: os anos e as malas de roupas se passaram. Acho que meu coração ficou velho antes do tempo. Será? Que nada. Bobagem. Hoje, aos 48 anos, meu miocárdio está tão usado quanto o fígado e a vesícula, só que mais amargo, apesar de não bombear a bile.

O cérebro, não. Dependendo do sujeito, o cérebro pode ser o primeiro órgão do corpo humano perfeito a se tornar imperfeito, a definhar, pois ele é o sítio onde a amargura cria limo, o cárcere ideal cuja complexa rede de teias, traças e sinapses resulta, ora em euforia, ora em desterro, com uma evidente tendência à tragédia, como é o meu caso. Então é só isso: de certo modo, os meus neurônios se amarram numa melancolia. Ai, como dói perder um amigo.

Adolescentes altruístas têm menos chances de sofrer depressão, diz estudo

Engajar-se em atividades sociais em vez de autocentradas pode contribuir com o bem-estar

Para pesquisadores, prazer relacionado a recompensa é mais intenso na adolescência (foto: Thinkstock)

Para pesquisadores, prazer relacionado a recompensa é mais intenso na adolescência (foto: Thinkstock)

Publicado na Veja on-line

Uma pesquisa americana mostrou que adolescentes de 15 e 16 anos que consideram prazeroso engajar-se em atividades sociais têm menos chances de desenvolver depressão. O artigo foi publicado na última semana, no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas).

O estudo analisou a atividade de uma região cerebral chamada estriado ventral, que regula a sensação de prazer relacionada à recompensa. Pesquisas anteriores mostraram que a atividade dessa área tende a ser mais intensa em adolescentes, indicando que nessa idade a experiência de prazer e recompensa é mais acentuada do que em adultos ou crianças.

Uma das explicações para essa diferença pode ser o fato de que a adolescência é também uma fase de maior busca por riscos, o que pode estar relacionado à sensibilidade a recompensas. “Da infância para a adolescência, as taxas de mortalidade e morbidade aumentam de 200 a 300%, quase completamente devido a esse comportamento de risco”, afirma Eva Telzer, professora da psicologia da Universidade de Illinois e principal autora do estudo.

Procedimentos — Os pesquisadores mediram a atividade no estriado ventral de adolescentes enquanto eles realizavam uma tarefa em que podiam doar dinheiro a outras pessoas, ficar com ele ou tomar uma decisão financeira mais arriscada, na esperança de conseguir uma quantidade maior.

A equipe estudou sintomas de depressão nos participantes no início do programa e depois de um ano, e concluiu que a atividade do ventral estriado poderia indicar se os sintomas depressivos dos participantes se tornariam mais leves ou mais intensos ao longo do tempo.

Os adolescentes que mostraram maior atividade na área de recompensa ao tomar uma decisão financeira arriscada tinham mais chances de desenvolver sintomas depressivos acentuados com o tempo. Já naqueles que mostravam atividade maior na tarefa social (doar o dinheiro), a depressão diminuiu. “O estudo sugere que se nós pudermos redirecionar os adolescentes de recompensas que envolvam correr riscos ou estejam muito centradas neles mesmos para atividades mais sociais, podemos causar um impacto positivo em seu bem-estar”, afirma a pesquisadora. “É interessante que a mesma área do cérebro pode prever prejuízos ou incentivos ao bem-estar, dependendo do contexto.”

Estudo mostra que bom humor melhora a saúde e a inteligência

Florence Williams, no The New York Times [via UOL]

Rir relaxa os vasos sanguíneos, melhorando a circulação, de forma similar ao exercício aeróbico (foto: Getty Images)

Rir relaxa os vasos sanguíneos, melhorando a circulação, de forma similar ao exercício aeróbico (foto: Getty Images)

Um bebê engoliu uma bala calibre 22. Chorando, a mãe corre à farmácia. “O que devo fazer?” E o farmacêutico responde: “Dê a ele um frasco de óleo de rícino, mas não o aponte para ninguém”.

Achar essa piada engraçada depende de mais variáveis do que provavelmente você possa supor. Depende de uma compreensão cultural comum das propriedades técnicas do óleo de rícino. Como muitas piadas e qualquer aluno do quarto ano pode comprovar, depende de sua delicadeza em relação às funções corporais. De forma menos óbvia, o senso de humor também depende da sua idade, gênero, QI, inclinação política, grau de extroversão e da saúde do seu circuito de recompensa de dopamina.

Se você acha toda essa análise pouco engraçada, [o escritor norte-americano] E.B. White estaria com certeza lhe apoiaria. Ele escreveu um dia que desmontar piadas é como dissecar sapos: poucas pessoas se interessam e o paciente sempre morre no final.

Felizmente, o neurocientista cognitivo Scott Weems não tem medo de parecer sem graça. O humor merece um estudo acadêmico sério, ele argumenta em seu livro, “Ha! The Science of When We Laugh and Why” (Há! A ciência de quando rimos e por quê, em tradução livre), porque produz vislumbres de como nosso cérebro processa um mundo complexo e como isso, por sua vez, nos transforma em quem somos.

Mais tempo rindo

Embora animais riam, os humanos passam mais tempo rindo do que exibindo qualquer outra emoção. Porém, o que confere a algumas pessoas um senso de humor melhor do que o de outros? Sem surpresa, os extrovertidos costumam rir mais e produzir mais piadas; contudo, em testes que medem a capacidade de escrever legendas de charges, as pessoas mais neuróticas, agressivas, manipuladoras e dogmáticas eram as mais engraçadas. Como diz o velho ditado, os melhores humoristas são tristes.

Talvez, escreve Weems, as pessoas infelizes são “mais propensas do que as outras a falar de forma desajeitada ou não aceitável socialmente para fazer uma boa piada”. Ou como pessoas de Aristóteles a Gertrude Stein ressaltaram, a infelicidade pode gerar a criatividade, e as melhores piadas exigem ginástica intelectual e uma observação astuta da natureza humana.

Analisar o humor às vezes exige dissecar piadas. Weems desmonta as piadas da “compreensão” em três componentes básicos: construção (examinar conhecimento relevante, experiência e expectativas), avaliação (descartar nossos erros e expectativas errôneas) e resolução (chegar a uma conclusão satisfatória e muitas vezes surpreendente). Veja como seu cérebro rapidamente faz essas três coisas ao ler o seguinte título merecedor de ser citado pelo apresentador Jay Leno: “Doutor testemunha em julgamento de cavalo”.

Para Weems, essas três etapas são as mesmas que usamos para solucionar problemas diários, quer logísticos, interpessoais ou existenciais.

Segundo ele, “interpretar nosso mundo é um evento criativo”. Em sua raiz, as piadas têm a ver com conflitos e “detectar erros é a forma pela qual nossos cérebros transformam conflitos em recompensas”. Sem essa capacidade, não seríamos capazes de tomar decisões, aprender novos truques ou nos darmos bem com os outros. Continue lendo

Seu cérebro esquece coisas cuidadosamente e de propósito

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Publicado no Gizmodo

Às vezes nos sentimos estranhos por não conseguir lembrar alguns rostos, nomes e detalhes, mas o esquecimento é uma parte importante do cérebro para não nos tornarmos cognitivamente sobrecarregados. E, aparentemente, o cérebro tem uma abordagem bem específica para lidar com isso.

Na verdade, os processos envolvidos no esquecimento não são muito bem compreendidos, então o fato dos cientistas terem encontrado uma proteína – chamada musashi – ativamente envolvida no processo de perda controlada de memória é de certa forma um avanço.

A pesquisa, publicada no diário Cell, explica como o desempenho da memória aumentou significativamente em nematódeos que foram modificados para sofrerem de alta da proteína musashi em comparação com amostras controladas. Os autores acreditam que essa é a primeira vez que o esquecimento foi mostrado como processo ativo, e não passivo.

Na verdade, parece que a proteína impede o corpo de produzir moléculas que normalmente estabilizam as sinapses – as lacunas entre neurônios que estão envolvidos em cimentar memórias. O estudo também identificou uma proteína chamada aducina que, em contraste à musashi, estimula o crescimento de sinapses e ajuda a formar as memórias.

Os pesquisadores alegam que é o equilíbrio entre essas duas proteínas que determina se as memórias permanecem ou não. É cedo para dizer com certeza qual será o impacto deste estudo na humanidade, mas talvez um dia um inibidor de musashi possa ajudar no tratamento de condições como Alzheimer. [Cell via Popular Science]

Quer ser mais inteligente? Corra!

Fazer exercícios aeróbicos regularmente pode ser uma das melhores maneiras de turbinar o QI, a memória e lutar contra o envelhecimento do cérebro, mostram estudos

(Foto: Renato Faccini)

(Ilustração: Renato Faccini)

Christie Aschwanden, na New Scientist [via Galileu]

Quem achou que ia cochilar na palestra do psiquiatra John Ratey ficou decepcionado. Ele fez seu público, composto por 1.100 dos principais educadores do mundo, exercitar-se ali mesmo. “Corremos sem sair do lugar por 20 segundos, depois descansamos 10 segundos e então repetimos isso mais quatro vezes”, diz. Parece um começo estranho para a apresentação de um professor da Escola de Medicina de Harvard numa conferência sobre educação. Mas Ratey sabia que esse “aquecimento” jogaria a seu favor: todos ficariam mais atentos e talvez até guardassem melhor o que estavam prestes a ouvir. Na verdade, foi um início perfeito para uma palestra sobre como usar nossos corpos para melhorar nossas mentes.

A ideia de que os exercícios físicos reduzem o risco de doenças cardíacas, de certos tipos de câncer e até previnem contra diabetes tipo II é bem aceita entre os cientistas. Só que estudos mostram que os exercícios também podem turbinar a mente. Não estamos falando apenas daquele bem-estar vago sugerido por ditados como “mente sã, corpo são”. O que Ratey e outros pesquisadores estão descobrindo é que a atividade física tem profunda influência em uma série de capacidades cognitivas que definem seu QI.

Os primeiros estudos a sugerir essa ligação vêm dos anos 1960, mas foi na década de 1990 que Fred Gage, geneticista do Salk Institute (EUA), descobriu que fazer exercícios parecia estimular o crescimento de novos neurônios em camundongos. Na mesma época, o psicólogo Arthur Krame, da Universidade de Illinois, publicou um artigo na revista Nature demonstrando que adultos antes sedentários, ao seguir um plano de exercícios de seis meses, melhoravam o desempenho em testes mentais que exigiam controle executivo. Esse controle é o tipo de concentração que nos ajuda a alternar tarefas sem cometer erros, fundamental para a inteligência.

Desde então, várias pesquisas confirmam e aprofundam esses resultados. Boa parte examina idosos, cujas habilidades mentais tendem a decair com o passar dos anos. Um grande estudo da Universidade de Munique, por exemplo, acompanhou 4.000 idosos durante dois anos. Aqueles que raramente faziam atividades físicas tiveram mais do que o dobro de chance de sofrer algum comprometimento cognitivo se comparados aos que faziam jardinagem, natação ou ciclismo algumas vezes por semana. Outro grande estudo publicado no periódico The Lancet, que seguiu um grupo de quase 1.500 pessoas durante 20 anos, mostrou que esses efeitos podem ser duradouros. Os indivíduos que se exercitavam pelo menos duas vezes por semana já adultos tinham menos chance de desenvolver demência quando passavam dos 60 anos. Os resultados são um alerta para os preguiçosos: formar hábitos saudáveis hoje pode atrasar o declínio mental décadas no futuro.

Pesquisas com jovens são mais raras, mas há evidências de que as atividades físicas fortalecem a saúde cerebral em todas as fases. Uma delas analisou crianças de 5 a 14 anos em escolas públicas na cidade de Nova York. Em testes cognitivos, os 5% de alunos que estavam mais em forma tiveram notas 36% superiores que o grupo menos em forma. Outro levantamento sobre registros de condicionamento físico de 1,2 milhão de homens que se alistaram nas forças armadas da Suécia entre 1950 e 1976 chegou a uma conclusão semelhante. A pesquisa, que seguiu os dados dos jovens dos 15 aos 18 anos, indicou correlação entre boa forma física na adolescência e o melhor desempenho em testes de inteligência e habilidades cognitivas aos 18 anos.

TER O HÁBITO DE SE EXERCITAR HOJE PODE ATRASAR O DECLÍNIO MENTAL E PREVENIR A DEMÊNCIA DÉCADAS NO FUTURO (Ilustração: Renato Faccini)

TER O HÁBITO DE SE EXERCITAR HOJE PODE ATRASAR O DECLÍNIO MENTAL E PREVENIR A DEMÊNCIA DÉCADAS NO FUTURO (Ilustração: Renato Faccini)

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