Homem de 90 anos é preso por dar comida para moradores de rua

Policiais disseram a Abbott: ‘Largue esse prato agora’ - Reprodução/YouTube
Policiais disseram a Abbott: ‘Largue esse prato agora’ – Reprodução/YouTube

Publicado em O Globo

Um homem de 90 anos pode ficar até 60 dias preso por alimentar moradores de rua, devido a uma nova lei que proíbe que grupos humanitários partilhem refeições com o público em Fort Lauderdale, na Flórida.

Arnold Abbott corre o risco de ser multado em US$ 500 e passar um tempo na prisão após ser apreendido por policiais enquanto estava distribuindo refeições para moradores de rua em um parque no domingo. Ele foi preso e acusado juntamente com dois pastores da Igreja Santuário, que prepara centenas de refeições para repartir toda semana em sua cozinha, enquanto os espectadores gritaram aos oficiais “que vergonha!”.

– Um dos policiais se aproximou e disse: ‘Largue esse prato agora’, como se eu estivesse carregando uma arma – afirmou Abbott. – Estes são os mais pobres entre os pobres, que não têm nada, eles não têm um teto sobre suas cabeças. Como você vai mandá-los embora?

Em 1999, o Sr. Abbott processou a cidade de Fort Lauderdale depois que ele foi impedido de alimentar os sem-teto na praia, e o tribunal considerou que a regra era contra a Constituição. A nova lei – que entrou ou deve entrar em vigor em Seattle, Los Angeles, Phoenix, Dallas e Philadelphia – foi aprovada na semana passada.

Ron Book, um lobista da cidade, disse ao jornal norte-americano “Sun Sentinel”: “Tudo o que desestimula a alimentação das pessoas nas ruas é uma coisa positiva.”

Já Abbott planeja processar a cidade novamente e pretende continuar o seu ato de bom coração.

As novas regras exigem que os grupos estejam pelo menos 500 metros de distância de residências e estabelecimentos de alimentação estão restritos a um por quarteirão, mas instituições de caridade têm criticado as regras como formas de implementação de limpeza social.

Michael Stoops, organizador comunitário na Coalizão Nacional para os Sem Abrigo, disse à emissora americana NBC News: “O desenvolvimento econômico e o turismo não combinam bem com as pessoas sem-abrigo e as agências que os servem.”

Abbott fundou o Love Thy Neighbour em memória de sua falecida esposa Maureen, a fim de continuar o trabalho humanitário que ambos fizeram, realizando regularmente a partilha de alimentos no Holiday Park e na praia de Fort Lauderdale.

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‘Fazer dieta engorda’, diz nutricionista pop que defende até ‘fast food’

dieta
publicado no O Globo

Especialista em neurociência do comportamento alimentar, a francesa diz que dieta engorda. Depois de nove anos nos EUA, ela veio para o Brasil, fez doutorado na USP, deu palestra no TED, e seus artigos sobre alimentação caíram no gosto popular. Atualmente, prepara um livro com receitas fáceis e dá três dicas básicas: não faça dieta, coma alimentos verdadeiros e cozinhe.
Como a dieta afeta o cérebro?

Somos onívoros. Precisamos comer de tudo e, se começarmos a diminuir o que estamos comendo, seja fazendo dieta, seja tirando um grupo alimentar da alimentação, como o dos carboidratos, não estaremos nutrindo nosso corpo. Aí o cérebro entra em estado de alerta, acha que está em perigo, adapta-se ao estresse e aumenta a fome para você comer mais. Como você não está comendo, ele baixa seu metabolismo. E aí impõe uma situação em que é muito difícil continuar a dieta. De 90% a 95% das pessoas que fazem dieta restritiva voltam ao peso inicial ou ganham mais peso. O cérebro não deixa o corpo perder muito peso rápido. É uma adaptação.

Dieta faz engordar?

Um estudo com gêmeos idênticos mostrou que aquele que havia feito dieta era mais gordo que o outro. E, quanto mais deita fazia, mais peso ganhava. O pesquisador concluiu que fazer dieta engorda, é ciência. Tudo o que eu falo é baseado em estudos científicos. Outro estudo mostrou que quem faz dieta restritiva aumenta o risco de ter compulsão. O cérebro fica tão estressado que aumenta os gritos de fome, e a pessoa pode desenvolver compulsão.

A receita de fechar a boca e fazer atividade física não funciona?

Essas duas dicas colocam a pessoa num estado de ganho de peso no futuro. Quando você fala para alguém fechar a boca e aumentar a atividade física, está aconselhando que se façam duas coisas que aumentam a fome. No começo ela vai emagrecer, mas depois tem um mecanismo de adaptação que a coloca em risco de aumento de peso. Emagrecer não é tão simples assim.

Como emagrecer?

É importante respeitar o seu corpo e o seu cérebro e não ficar obcecado com a balança. Também não achar que seu corpo pode ser modelado do jeito que você quer. Em vez de tentar controlar o corpo, é melhor dançar com ele. Mas infelizmente escutamos que podemos fazer o que quisermos com o nosso corpo, e isso não é verdade, ele não deixa.

Contar calorias faz mal?

Não é que faça mal, mas eu não recomendo, porque, quando você calcula calorias, fica obcecado por controlar sua alimentação, então esquece de escutar seu corpo e muda a relação com a sua alimentação.

O que podemos considerar uma dieta restritiva?

É uma dieta que tira um grupo alimentar, uma dieta sem carboidrato ou sem gordura, por exemplo. Ou uma dieta que vai diminuir a quantidade do que você come. Fazer restrição, cortar calorias, diminuir a quantidade, na verdade, deixam a pessoa com fome. Claro que uma dieta saudável, se não é restritiva, não faz o mesmo efeito. Mas dieta saudável que restringe não é saudável. Uma dieta que deixa você com fome não é saudável.

Dietas sem glúten estão na moda. Elas fazem mal?

O problema é que tiram o glúten sem necessidade. É muito difícil fazer dieta sem glúten porque ele está em todo lugar na base da nossa alimentação. No pão, na pizza. Aí a pessoa fica estressada e muda a relação com a comida. Esse é o problema.

E a gordura?

A demonização da gordura foi provavelmente o grande erro da nutrição, porque a gordura é importante no nosso equilíbrio. Ela não faz engordar. As mulheres precisam da gordura para regular seus hormônios. Nosso cérebro é feito de gordura. Toda célula tem colesterol, então nosso corpo precisa de gordura para seu funcionamento. Uma dieta muito baixa em gordura pode aumentar o risco de depressão e também diminui a libido da mulher. Para as crianças, a gordura é ainda mais importante, pois auxilia no desenvolvimento do cérebro.

‘Fast-food’ também está liberado?

Uma vez ou outra não vai alterar o peso nem a qualidade da sua alimentação. Claro que eu não incentivo comer sempre no fast-food, mas, para um adolescente que precisa perder peso, eu não tiro o fast-food, porque faz parte da vida dele. Se eu cortar, ele ficará muito triste. Claro que se 80% do tempo você tem que comer de maneira mais caseira, com alimentos mais verdadeiros, o restante não tem problema. Nunca vou falar que fast-food é veneno. É alimento, mas não vai ajudar a desenvolver uma saúde perfeita se você comer só isso.

O que você considera terrorismo nutricional?

A nutrição de hoje está criando muitas regras rígidas que acabam estressando a pessoa. E isso é terrorismo. De uma hora para outra o glúten não faz bem, todo mundo se estressa com o glúten. Depois é a lactose, a carne vermelha, e por aí vai. Acabamos não sabendo mais o que comer, porque tudo isso é a base da nossa alimentação. Precisamos relaxar com a alimentação, pois, do contrário, podemos desenvolver distúrbios alimentares. E se isso nos afeta, pode afetar ainda mais nossos filhos. É difícil para uma criança saber o que comer, tem tanta regra que fica quase impossível comer bem. Comer bem é comer de tudo, sem culpa e escutando o seu corpo.

E como acabar com a culpa?

A primeira coisa é parar de fazer dieta. Tenho três dicas básicas: não faça dieta; coma alimentos mais verdadeiros, frescos, caseiros; e volte a cozinhar. Estou escrevendo um livro sobre isso, com receitas simples e nutritivas para o dia a dia. Está todo mundo correndo, mas, quanto mais verdadeiro e caseiro é o alimento, mas você melhora seu peso e sua saúde.

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Mudanças climáticas podem acabar com macarrão ‘al dente’

publicado na Folha de S. Paulo

As mudanças climáticas podem trazer problemas também para a culinária italiana que pode deixar de ter o macarrão “al dente”, revela o estudo “Projeto Ager: pesquisa agroalimentar” realizado na Itália.

O buraco na camada de ozônio poderá alterar o ponto de cozimento do macarrão, ou melhor, o aumento dos gases do efeito estufa estimado em 30% a 40% nos próximos anos.

maca

O aumento de CO2 age como um fertilizante para as plantas, e entre elas o trigo, produto básico do macarrão. Com as taxas atuais de poluição teremos plantações de trigo mais ricas, com um aumento de até 20% na produção, mas pobres em proteínas, fator determinante para manter o macarrão “al dente”, quando a massa está cozida sem ficar mole, mostra o estudo realizado entre 2012 e 2013.

Os dados da pesquisa são resultado da análise de 12 tipos de trigo duro crescidos em condições com uma atmosfera contendo cerca de 570 ppm de gás carbônico, nível que se projeta para o ano de 2050.

O resultado mostra um aumento da biomassa vegetal e de produção, mas com menor conteúdo proteico. Para manter a massa “al dente” é necessário uma redução das emissões ou um grande trabalho genético”, conclui a pesquisa.

O estudo foi realizado pelo Centro de Pesquisa italiano de genética do Conselho para a pesquisa na agricultura (CRA) da localidade de Fiorenzuola d’Arda em colaboração com o Instituto de Biometeorologia do CNR de Florença.

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Novas comidas gourmet são uma forma cafona de distinção social

 

Publicado no UOL

A gastronomia tem hoje, provavelmente, o mesmo peso que atribuímos aos concertos ou às exposições de arte. Sem exagero e do mesmo modo, tanto quanto “parecer” intelectual tinha e tem algum apelo em determinados nichos sociais, ser “entendido” em artes da cozinha e do serviço do vinho, por exemplo, também é um elemento de distinção social.

Ingredientes ou produtos têm sido requalificados como gourmet. Veja o caso de marcadores culturais como a cachaça, que ganha distinção com o selo de premium e deixa de ser associada apenas aos consumidores mais populares. De forma análoga, frequentar determinado restaurante, pagar por isso, observar quem o frequenta e, principalmente, ser visto, é uma experiência de significado muito semelhante ao de ir a uma ópera no século 19.

O lado risível desse processo é a necessidade de muitos em estabelecer a diferença. Por exemplo, o consumo dos produtos da terra não é enaltecido pelos seus valores intrínsecos, como tradição, história ou território – ou terroir, se preferir -, mas por atributos que podem nos distinguir perante a outros consumidores.

A indústria parece ter percebido isso muito rapidamente, destacando determinadas qualidades (legítimas ou não), mas sempre mirando a sanha de consumidores ávidos por se destacarem em seu meio social. Muitas vezes, pelo consumo de produtos que se autodenominam gourmet.

Outros víveres apontam para o “comfort food” de forma exagerada. Pipocas e brigadeiros, que sempre tiveram espaço em nossa memória afetiva, agora são gourmets e marcam presença em festas vips.

O consumo dos produtos da terra não é enaltecido por valores como tradição, história ou território, mas por atributos que podem nos distinguir perante a outros consumidores

O mesmo se aplica às varandas, que agora são “gourmets” e ao fenômeno recente das cozinhas que norteiam projetos de arquitetura, pois cresce a percepção de que a cozinha é o elemento principal da casa.

Tudo isso pode ser muito cafona, e nos coloca em saias justas quando refletimos sobre o que torna um produto gourmet ou o que significa a palavra gourmet para nós.

Entre a nascente burguesia brasileira, essa expressão começou a fazer mais sentido nas décadas de 1960 e 1970, quando começam a aparecer chefs franceses representantes da nouvelle cuisine. Ele começaram a revitalizar e popularizar a gastronomia francesa, menos codificada, mais livre e, principalmente, calcada na excelência dos ingredientes.

Curiosamente, o que de mais importante esses chefs nos legaram, para além das técnicas gastronômicas, foi a valorização de nossos alimentos típicos, seu frescor, sua versatilidade. E mais: fazer com que as pessoas se atentem à origem dos alimentos. Cuidados que favorecem não só a saúde e a qualidade de vida, como também a ideia poderosa e legítima de que alimento é cultura. Por que precisamos que estrangeiros nos digam isso?

O movimento Slow Food é um dos inúmeros exemplos de esforços nesse sentido. Nele, algumas ideias se destacam: o bom -qualidades organolépticas dos alimentos-, o limpo -produtos orgânicos, sazonais e livres do uso de agrotóxicos (somos campeões mundiais no consumo desses venenos)-, e o justo – defende o agricultor, valorizando seu trabalho.

É preciso valorizar alimentos e bebidas que sempre foram nobres quanto ao cuidado com que são feitos, contam com ingredientes de excelência e que são identificados com a nossa cultura

Coincidentemente, em uma justa homenagem, 2014 é o Ano Internacional da Agricultura Familiar, e um dos principais eventos do de gastronomia do país, o Semana Mesa São Paulo, terá como tema a conexão entre o produtor familiar e a cozinha.

Penso que está na hora de valorizarmos determinados procedimentos culinários e produtos da terra. Alimentos e bebidas que sempre foram nobres quanto ao cuidado com que são feitos, contam com ingredientes de excelência e, principalmente, que são identificados com a nossa cultura. Tais produtos são gastronômicos, independente da nossa voracidade por rótulos. Nossos chefs têm trabalhado arduamente nisto, precisamos dar visibilidade a essas iniciativas.

O termo gourmet pode também significar a valorização da denominação de origem, coisa que os europeus há muito já fazem. É o reconhecimento da importância da produção artesanal e de excelência, que começa a ser certificada e destaca aquele que efetivamente produz esse tipo de alimento, muitas vezes, o pequeno produtor.

Pagar mais por tais produtos pode trazer outro tipo de satisfação: dar sustentabilidade econômica, preservar sabores, difundir culturas e defender biodiversidades. Há um enorme caminho a trilhar para que isto se efetive amplamente.

Voltando ao meu exemplo inicial, a cachaça. Quando Lima Barreto (ou um de seus personagens), no início do século passado pedia uma “Paraty”, ele não estava se referindo a uma cachaça gourmet ou prime, mas à tradição de excelência na produção de uma cachaça artesanal. Fruto da simbiose entre terra, homem e seu saber fazer.

Em outras palavras, à tradição dos antigos engenhos de cana-de-açúcar, ao clima daquela região específica e ao conhecimento acumulado ao longo de séculos de produção desse destilado legitimamente brasileiro. Quer expressão melhor daquilo que hoje identificamos como gourmet e expressão autêntica de seu terroir?

Nosso famoso literato -crítico da república velha e autor de obras como “Os Bruzundangas” e “Triste Fim de Policarpo Quaresma”- queria na realidade pedir uma cachaça, mas que tinha o gosto da nossa história, tradição e território. Enfim, tudo isso que desde aquela época já era considerado chic!

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