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5 mentiras sobre psicologia que você provavelmente acredita

Natasha Romanzoti, no Hypescience

Existe boato sobre quase tudo nessa vida, mas a área de saúde é um terreno particularmente fértil para baboseiras, especialmente a psicologia. Confira cinco mitos psicológicos e a verdade sobre eles:

5. Não existe nenhuma epidemia de autismo

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Você já deve ter ouvido falar que “vacina causa autismo”. Claro que isso é enorme mentira. Os ignorantes que espalham esse boato se baseiam no fato de que há muitas mais crianças autistas hoje em dia do que no passado. Teria alguma verdade nisso?

Sim, seus avós provavelmente nunca conheceram sequer uma criança autista, e atualmente todo mundo já ouviu falar pelo menos de uma. Isso não significa que o autismo não existia antes, e sim que não tinha um nome.

O que pode parecer uma epidemia à primeira vista é, na verdade, um novo conhecimento de algo que sempre esteve por aí. Os pesquisadores não acham que o autismo está em ascensão; eles acham que os pais e os médicos são mais inteligentes e conseguem diagnosticar melhor a condição hoje em dia.

Não estamos exagerando. O autismo foi descoberto em 1943 e, por 20 anos, a condição foi confundida com esquizofrenia e vista como consequência de má educação dos pais (coisas do tipo “seu filho tem 4 anos e ainda não aprendeu a falar? você que não soube ensiná-lo” ou “seu filho tem reações inadequadas a interações sociais? bem, você claramente não bateu nele o suficiente”).

E só em 1980 o guia principal para doenças mentais, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, publicou critérios para o diagnóstico da doença. Ou seja, somente nessa época, finalmente, crianças que já tinham sido identificadas com deficiência mental apesar de sua alta inteligência ou classificadas como mal educadas agora tinham outro diagnóstico possível.

Nós nem sequer começamos a usar a expressão “espectro do autismo” até meados dos anos 90. Isso significa que os médicos na vanguarda da psiquiatria apenas começaram a entender o fato de que há realmente uma grande variedade de sintomas do autismo, e que a condição não é tão simples assim.

Então, não, a vacina não causa autismo, muito menos uma epidemia dele. Para o bem de todos os seres humanos, nós é que estamos nos esforçando para identificar as pessoas que têm alguma dificuldade relacionada à doença e ajudá-las.

4. As pessoas não passam por cinco etapas para superar o luto

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Você já deve ter ouvido falar das “cinco fases do luto”: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Isso aparece em todos os lugares – filmes, livros, seriados, conversas de rua -, e parece que as pessoas não são capazes de ficar em paz com a morte de um ente querido sem passar por esses cinco estágios inevitáveis.

Ai ai ai.

Claro que isso é besteira.

Os cinco estágios foram inventados por uma psiquiatra na década de 1960 para um livro que ela estava escrevendo. Não há nenhuma evidência de que eles existam, eles são apenas fruto de sua observação pessoal durante sua prática – que, aliás, não tem nada a ver com ficar de luto.

Pense bem, que fase parece estar faltando entre essas cinco? Que tal aquela em que a pessoa de luto anseia que o falecido estivesse vivo de novo? Afinal, essa é a emoção que as pessoas mais sentem depois de perderem alguém, o desejo de que ele ainda estivesse com elas.

Mas esse desejo não faz parte da lista porque os cinco estágios na verdade aplicam-se às emoções de doentes terminais, expressas diante de suas próprias mortes.

A psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross entrevistou pacientes terminais que morreram em seu hospital e notou um padrão. Alguns deles estavam com raiva, outros em completa negação, e outros apresentavam um estado zen de aceitação. Enquanto lutava contra a insônia uma noite, Kubler-Ross deu rótulos para esses pensamentos de morte de seus pacientes e os escreveu em um livro intitulado “On Death and Dying” (em tradução livre, “Sobre Morte e Morrer”). Em pouco tempo, psiquiatras e conselheiros começaram a usar esses estágios para ajudar pessoas de luto por entes queridos, uma população completamente diferente daquela a que realmente se destina.

Na realidade, o luto é expresso por cada pessoa à sua maneira, embora um estudo da Universidade de Yale (EUA) tenha mostrado que a maioria de nós aceita a morte de um ente querido imediatamente – a compreensão de que essa pessoa está morta e enterrada para sempre é geralmente a primeira emoção que processamos, e não a quinta.

Isso é importante de saber, porque se você está com dificuldades de aceitar uma morte, pensar que há uma linha de chegada para essas emoções depois de passar por certos estágios só vai aumentar seu sofrimento. Aceitação parece um excelente primeiro passo, em vez de vir só depois de quatro outras fases dolorosas.

3. Dar poder as pessoas não as transforma imediatamente em sadistas

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Muito provavelmente você conhece o experimento da prisão de Stanford. Em 1971, um professor de psicologia da Universidade Stanford (EUA), Philip Zimbardo, resolveu testar sua teoria de que as pessoas podem se tornar “idiotas” se tiverem poder em suas mãos. Essencialmente, ele pediu a estudantes universitários voluntários que fingissem ser detentos ou guardas em uma prisão falsa no porão da faculdade, para ver o que acontecia.

O que era para ser uma experiência de duas semanas terminou na verdade em seis dias, quando os alunos passaram de jovens universitários normais para torturadores e vítimas. Os guardas não davam comida a seus prisioneiros, os obrigavam a fazer xixi e cocô em baldes, enfim, praticavam todo tipo de abuso.

Naturalmente, Zimbardo chegou à conclusão de que dar a qualquer pessoa poder sobre outra imediatamente a transforma em um sádico. Mas houveram falhas no experimento que não foram levadas em conta.

Por exemplo, Zimbardo não atuou apenas como observador do experimento; ele fez o papel de chefe dos guardas, chegando a dar instruções totalmente imparciais para os alunos fazerem os prisioneiros se sentirem impotentes, por exemplo.

Além disso, Zimbardo não era apenas o pesquisador e mentor sádico do experimento; ele era também um professor, portanto, uma figura de autoridade para os participantes da pesquisa.

Havia uma pressão sobre eles para agradar o pesquisador – primeiro, porque estavam sendo pagos US$ 15 (mais de R$ 30) por dia para participar do experimento, e depois porque sabiam que o departamento tinha gastado muito dinheiro construindo a prisão falsa.
Assim, eles agiram como guardas sádicos provavelmente porque queriam agradar, não porque seu papel profissional simulado os encorajou a agir dessa maneira.

Também, um ex-prisioneiro que serviu como consultor no experimento mais tarde admitiu ter dado aos alunos sugestões de como abusar de seus prisioneiros. Ou seja, pessoas decentes não simplesmente inventaram espontaneamente maneiras de ser abusivas.

Há ainda o contexto do experimento. O verão americano de 1971 foi uma época de confrontos entre manifestantes e figuras de autoridade (por incrível que pareça, os tumultos nas prisões San Quentin e Attica aconteceram logo após o experimento), incluindo motins em Stanford que tiveram que ser abafados com gás lacrimogêneo. Quando esses alunos responderam a um pedido para ajudar um professor a estudar os papéis de figuras de autoridade e suas vítimas, eles sabiam que argumento deveria ser comprovado.

Por fim, apesar dos melhores esforços de Zimbardo para considerar toda a humanidade como má por natureza, vários dos estudantes “guardas” mantiveram sua bússola moral intacta e não abusaram de nenhum prisioneiro. Alguns até fizeram favores para seus detentos. Os bons não receberam muita atenção nos relatórios da pesquisa porque não se encaixavam na hipótese que o professor queria provar: que, no fundo, todos nós estamos apenas esperando permissão para sermos idiotas.

2. O “efeito Mozart” não é o que as pessoas pensam

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As pessoas tendem a acreditar em coisas como o “efeito Mozart” porque elas não querem perder uma oportunidade de dar qualquer vantagem a seus filhos. Provavelmente por isso, no início dos anos 90, os pais começaram a encher os ouvidos de seus recém-nascidos com música clássica, sob o pretexto de que eles ficariam mais espertos. Faz sentido, não? Quantas pessoas inteligentes você conhece escutam música pop o dia inteiro? É bem mais fácil visualizar empreendedores de alta classe ouvindo Mozart, tomando vinho e ajustando seus monóculos, não é?

Infelizmente, o efeito Mozart é só um exemplo de como as pessoas interpretam errado pesquisas científicas, a fim de fazê-las soarem do jeito que querem ouvir.

O estudo original de 1993 feito por Francis Rauscher, de fato, descobriu que ouvir Mozart tem um impacto leve sobre tarefas envolvendo raciocínio espacial. Ao ouvir música clássica, ficamos melhores nessas tarefas, mas o efeito dura aproximadamente 10 minutos. É só isso.

O pequeno estudo, com cerca de 36 pessoas – nenhuma delas criança, eles eram estudantes universitários -, não impediu que uma indústria toda se criasse em torno do absurdo de que Mozart era a maneira de tornar as crianças mais inteligentes.

Só que, uma vez que os especialistas começaram a testar cientificamente essa teoria em larga escala, eles concluíram que música pode ajudar, de fato, crianças a se saírem melhor em certas tarefas, mas que esse efeito não é exclusivo da variedade clássica e nem milagroso. Ou seja: force o quanto você quiser seus filhos a escutar Mozart, você vai precisar ensiná-los e incentivá-los em muitas outras coisas se quiser que eles tenham sucesso na vida.

1. Pessoas com QIs mais altos não são necessariamente mais espertas do que os outros

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Quando você descobriu o que um quociente de inteligência era, provavelmente quis fazer o teste imediatamente para descobrir se era um gênio.

Se alguém ouve dizer que a atriz Sharon Stone tem um QI de 154, logo formula uma opinião diferente sobre ela. Se dizem a um pai que seu filho tem um QI de dois dígitos, ele logo assume que a criança está destinada a viver esfregando banheiros ou estrelando um reality show.

Na verdade, ao ouvir qualquer coisa sobre QI, o que você deveria responder é: não tô nem aí. Isso porque esses testes não provam quase nada sobre as pessoas.

A maioria dos testes de QI avalia apenas “lógica simbólica”, o que inclui coisas como resolução de problemas, imaginar como imagens ficariam se giradas ou manipuladas e memória de curto prazo. Se para você isso soa como uma pequena porção do que compõe a inteligência de uma pessoa, deixando de fora coisas importantes como criatividade, parabéns! Você passou no teste final de inteligência, que é descobrir que os testes de inteligência são uma furada.

Qualquer neurocientista que se preze vai alegremente atestar que a capacidade cognitiva é muito mais complicada do que a resolução de problemas em testes de QI. Você poderia ser brilhante em problemas de lógica, mas péssimo em inteligência verbal, que é outra peça do quebra-cabeça da inteligência. Ou você poderia ter uma memória excelente, mas nenhuma habilidade lógica. Aliás, as pessoas em sua vida que você considera mais inteligentes podem apenas ser boas comunicadoras ou carismáticas, ou ainda ler muito.

De qualquer maneira, seu QI não é nada de especial porque ele mede apenas uma coisa: quão bom você é em fazer um teste de QI]. [Cracked]

13 Coisas inusitadas e bizarras que com certeza você já fez!

publicado no Criatives

Todos já passamos por algum momento inusitado no qual precisamos resolver as coisas de uma maneira rápida e prática não é mesmo? Assim como também já reaproveitamos alguma coisa em algum momento por pensar “ah é um disperdício isso ir para o lixo”.

Alias, QUEM NUNCA? Bem na verdade o ser humano é muito diferente, porém certos costumes todos temos em comum. Quem quer desperdiçar dinheiro? Acho que ninguém… Então você pode pensar: compro um copo de vidro e um requeijão, ou… Um requeijão de vidro que depois vira copo HAHA. O

lha que tão mais prático! E as pets então, quem nunca reaproveitou, nem que fosse a garrafa de água mineral comprada mesmo? O fato é que todos já usamos a nossa criatividade para algo que fique engraçado, seja por simplesmente querer reaproveitar algo ou então por tentar solucionar um problema incomodo. E você, com qual se identificou?

Israel rejeita crítica do Brasil a ação em Gaza e diz que país é ‘irrelevante’

Diogo Bercito, Natuza Nery e Carolina Linhares, na Folha de S.Paulo

O governo de Israel reagiu duramente nesta quinta-feira (24) às críticas feitas pelo Brasil à operação militar na faixa de Gaza.

À Folha, a Chancelaria de Israel afirmou que o “comportamento” do Brasil “ilustra a razão por que esse gigante econômico e cultural permanece politicamente irrelevante”. Além disso, o governo disse que o país escolhe “ser parte do problema, em vez de integrar a solução”.

O “comportamento” ao qual Tel Aviv se refere é um comunicado distribuído na noite desta quarta (23) em que o Itamaraty condena o “uso desproporcional da força” por parte de Israel e não faz referência às agressões de palestinos contra israelenses.

No dia 17, comunicado similar afirmava condenar “igualmente” os bombardeios israelenses e os ataques de Gaza. Daquela vez, o Brasil também expressava “solidariedade” com vítimas “na Palestina e em Israel”. Agora, fala somente no “elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças” deixado pelos ataques israelenses.

Também nesta quarta, o governo brasileiro chamou o embaixador de Israel em Brasília, Rafael Eldad, para expressar seu protesto, e convocou o embaixador brasileiro em Tel Aviv, Henrique Pinto, de volta a Brasília. Na linguagem diplomática, o protesto feito a Eldad e a convocação de Pinto são sinais fortes de desagrado.

Em seu site, a diplomacia israelense acusou o Brasil de fornecer “suporte ao terrorismo” e afirmou que isso, “naturalmente”, afeta “a capacidade do Brasil de exercer influência”.

Na nota, Israel se diz “desapontado” com a convocação do embaixador brasileiro e observa que a atitude “não reflete” o nível das relações entre os países, além de “ignorar o direito de Israel de se defender”. “Israel espera o apoio de seus amigos na luta contra o Hamas, que é reconhecido como uma organização terrorista por muitos países ao redor do mundo”, afirma.

Horas após a forte reação israelense, o chanceler brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, minimizou a crise, dizendo que a “discordância entre países amigos é natural”. Em visita a São Paulo, ele disse que o comunicado do Itamaraty nesta quarta –e que contou com aval da presidente, segundo a Folha apurou– não apaga as críticas feitas anteriormente ao Hamas só porque não as menciona. Ele afirmou ter escrito o texto.

“O gesto que tinha que ser feito foi feito. O Brasil entende o direito de Israel de se defender, mas não está contente com a morte de mulheres e crianças”, explicou.

Sobre a crítica de Israel, Figueiredo disse que o Brasil não é um “anão diplomático” e mantém relações com todos os países da ONU.

Fontes ouvidas pela Folha afirmam que o Itamaraty e o Palácio do Planalto ainda estudam a melhor reação para um comentário considerado “tão duro”. Se, de um lado, alguns diplomatas brasileiros alertam para que não se “bata boca” com Tel Aviv, outros analisam ser necessário uma resposta enérgica da própria presidente da República para responder a crítica à altura.

GAZA

Em Gaza, o gesto brasileiro foi recebido com festa. Palestinos se aproximaram da reportagem da Folha para expressar gratidão ao governo Dilma Rousseff. “Obrigado por convocar seu embaixador”, disse Tawfiq Abu Jamaa, em Khan Yunis. “O Brasil é melhor do que os países árabes, como o Egito, que não fazem nada.” Outro palestino, Sabri Abu Jamaa, disse que “a população civil, em Gaza, não precisa de recursos. Precisa de palavras de apoio, como as brasileiras”.

O porta-voz do Hamas Ihab al-Ghussein confirmou à Folha, em Gaza, ver com bons olhos o gesto diplomático brasileiro. “O passo do Brasil é muito importante. O Brasil está sempre ao lado da justiça”, disse. “Pedimos que todos os países façam o mesmo.”

A facção palestina Fatah, que controla a Cisjordânia, louvou também a atitude do Itamaraty, mas fez ressalvas à abrangência da medida. “O Brasil entende que a responsabilidade da comunidade internacional não é apenas emitir notas”, afirmou o porta-voz Xavier Abu Eid. “O que foi feito pelo Brasil é um de diversos passos que todo Estado deveria tomar.”

Desde que a operação israelense batizada Margem Protetora começou, no último dia 8, mais de 700 palestinos -na maioria civis- foram mortos. Do lado israelense, foram 32 militares e três civis, sendo um cidadão tailandês. O intuito da operação é desmantelar o movimento radical islâmico Hamas, que governa Gaza.

Maioria das pessoas tem dificuldade de ficar a sós com seus pensamentos, diz estudo

O gerente Mateus Escudero, 33, não gosta de ficar sozinho e não lembra qual foi a ultima vez que ficou completamente sozinho em seu apartamento. Fabio Braga/Folhapress

O gerente Mateus Escudero, 33, não gosta de ficar sozinho e não lembra qual foi a ultima vez que ficou completamente sozinho em seu apartamento. Fabio Braga/Folhapress

Juliana Vines, na Folha de S.Paulo

Você prefere ficar sozinho, sem nada para fazer, ou levar pequenos choques? A pergunta pode parecer absurda, mas, de acordo com uma pesquisa publicada neste mês na revista científica “Science”, muita gente prefere levar choques a enfrentar alguns minutos a sós com os próprios pensamentos.

O resultado do estudo, que envolveu 220 voluntários em 11 testes, surpreendeu até seu coordenador, o psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia (EUA).

“Antes do estudo, pensei que éramos capazes de usar nossos cérebros para gerar pensamentos agradáveis, recuperar lembranças felizes. Mas não foi assim”, disse ele à Folha.

Quando desafiadas a ficar de seis a 15 minutos sem companhia (nem mesmo do celular), 57% das pessoas afirmaram ter dificuldades para se concentrar, 89% disseram que a mente vagou e 49% não gostaram da experiência. Em outro teste, 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram levar choques a ficar sós.

“Parece que há uma dificuldade para se distrair com a própria mente. Suspeito que a popularização da tecnologia e dos smartphones é ao mesmo tempo um sintoma e uma causa dessa dificuldade. Hoje temos menos oportunidade para refletir e desfrutar dos nossos pensamentos”, complementa Wilson.

O gerente Mateus Escudero, 33, não gosta de ficar sozinho e não lembra qual foi a ultima vez que ficou completamente sozinho em seu apartamento
O gerente Mateus Escudero, 33, não gosta de ficar sozinho e não lembra qual foi a ultima vez que ficou completamente sozinho em seu apartamento

Para Mateus Escudero, 33, gerente no mercado financeiro, oportunidade não falta, mas vontade sim.

“Moro sozinho, mas não gosto de ficar só. Chego em casa e já ligo a televisão para ter um barulho, então pego o celular e procuro alguém para conversar”, diz.

De acordo com a psicóloga Lívia Godinho Nery Gomes, professora da Universidade Federal de Sergipe, a onipresença da tecnologia soma-se a outro fenômeno, que também ajuda a deixar os momentos reflexivos mais raros: a necessidade de estar sempre disponível.

“Há um apelo muito grande para estar em rede, compartilhar. Quem está de fora sente que está perdendo alguma coisa.”

SEM PENSAR

Para o psicólogo Roberto Novaes de Sá, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), a tecnologia pode até criar mais obstáculos para quem quer ficar só com os próprios pensamentos, mas o fato é que isso nunca foi fácil para a maioria das pessoas.

“Nossa noção de realidade, de estabilidade e segurança é construída socialmente, através das relações com os outros e das ocupações. Quando não estamos inseridos em alguma atividade há um sentimento de não realização, fragilidade e angústia”, afirma.

Segundo a pesquisa, esse sentimento parece afetar mais os homens do que as mulheres, o que não surpreende o sociólogo português José Machado Pais, autor de “Nos Rastos da Solidão” (sem edição no Brasil).

“Homens gostam menos de ficar sós e tendem mais à solidão. As mulheres são mais comunicativas, muitas delas não têm dificuldades em falar ‘sozinhas’. A solidão surge quando não há capacidade de comunicação com os outros ou consigo. O estar só não significa estar em solidão se você está de bem consigo mesmo.”

Mateus concorda que os homens têm mais dificuldades para lidar com a solidão. “Eu já cheguei a ficar mais de três anos em um relacionamento que não era bom porque pensava: ‘Se for para ficar sozinho, melhor ir levando’”, afirma.

A última vez que ele ficou sozinho de verdade, até sem a companhia da TV, foi durante uma noite de insônia. “Tentei não fazer nada, mas comecei a pensar em problemas e piorou. Só consegui dormir quando liguei um filme”, conta.

Não gostar do rumo dos pensamentos é uma das hipóteses levantadas pelos autores do estudo para explicar seus achados.

“É como se a mente nos dominasse e fôssemos absorvidos pelas ideias”, diz a neurocientista Elisa Kozasa, pesquisadora do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein. Para ela, a reflexão só é benéfica para a saúde mental se tiver um método e um objetivo, como na meditação.

Já para a psicóloga Luci Helena Baraldo Mansur, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, tentar ficar só sem se sentir sozinho é fundamental.

“O tempo do silêncio e da quietude é um tempo que conduz à criatividade e não a esse vazio tão temido. É quando podemos ouvir nossa voz interior”, afirma.