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Senador italiano compara ministra negra a orangotango

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Publicado no UOL

Um senador do partido da Liga do Norte comparou Cecile Kyenge, primeira ministra negra da história da Itália, a um orangotango, o que provocou a reação do chefe de Governo, Enrico Letta.

Sábado, durante uma reunião de seu partido em Treviglio (norte), o senador Roberto Calderoli, conhecido por suas declarações polêmicas, declarou que a ministra de origem congolesa Cecile Kyenge “faz bem de ser ministra, mas deveria o ser em seu país (…) Eu me consolo quando navego na internet e vejo as fotos do governo. Adoro animais (… ), mas quando vejo imagens de Kyenge, não posso deixar de pensar em suas semelhanças com um orangotango, mesmo que eu não diga que ela seja um deles”.

Essas declarações imediatamente repercutiram nas redes sociais, provocando uma onda de indignação.

Neste domingo, em um comunicado oficial, Enrico Letta reagiu pessoalmente: “as palavras que apareceram hoje na imprensa e atribuídas ao senador Calderoli sobre Cecile Kyenge são inaceitáveis e ultrapassam qualquer limite”.

Em um comunicado, ele também expressou “sua plena solidariedade e apoio à Cecile”.

O presidente do Senado, Pietro Grasso, exigiu desculpas formais de Calderoli.

Cecile declarou neste domingo à agência de notícias Ansa que “não toma pessoalmente as palavras de Calderoli, mas elas me entristecem por causa da imagem que dão à Itália”. “Eu acredito que todas as forças políticas devem considerar o uso que fazem da comunicação”.

Em 2006, Calderoli precisou renunciar sob o governo Berlusconi após se exibir com um camiseta anti-islã sobre Maomé.

Desde sua nomeação, Kyenge precisou enfrentar várias manifestações hostis por parte da Liga do Norte, um partido aliado ao Povo da Liberdade de Silvio Berlusconi.

Desde sua posse, no final de abril, a ministra foi alvo de agressões verbais e até ameças de morte postadas em sites racistas e em sua página oficial no Facebook.

Dica do Sidnei Carvalho

Einstein: “A Bíblia é uma grande fonte de sabedoria e consolo que deve ser lida frequentemente”

Foto: AP

Foto: AP

título original: Bíblia com dedicatória de Albert Einstein é vendida por R$ 150 mil

Fernando Moreira, no Page not Found

Um exemplar da Bíblia que contém uma dedicatória assinada pelo físico alemão Albert Einstein e a sua esposa foi vendido por R$ 150 mil em um leilão na Bonham’s, em Nova York (EUA).

O livro foi presenteado pelo casal a uma amiga americana, Harriett Hamilton, em fevereiro de 1932.

Na dedicatória, Einstein escreveu que a Bíblia “é uma grande fonte de sabedoria e consolo que deve ser lida frequentemente”, de acordo com o “NY Times”.

O nome do comprador não foi revelado.

Einstein formulou a teoria da relatividade e venceu o prêmio Nobel de Física. Morreu em 1955.

Veja BH: Líder do grupo Diante do Trono, Ana Paula Valadão tornou-se a cantora mais famosa da música evangélica

A artista belo-horizontina costuma atrair multidões para os seus shows e lançar moda entre as religiosas

Ana Paula: “Nunca imaginei aparecer na TV em rede nacional. Só queria divulgar a mensagem do amor de Deus”

Ana Paula: “Nunca imaginei aparecer na TV em rede nacional. Só queria divulgar a mensagem do amor de Deus”

Sabrina Abreu, na Veja BH

Voz, nome e rosto mais conhecidos da música gospel no país, ela atrai multidões para seus shows, lança moda entre as evangélicas e, vez ou outra, desperta a fúria das feministas. Com mais de 10 milhões de discos vendidos, a cantora e pastora Ana Paula Machado Valadão Bessa, de 37 anos, ainda se surpreende com o sucesso alcançado à frente do grupo Diante do Trono, que acaba de completar quinze anos. “Nunca imaginei aparecer na TV em rede nacional. Só queria divulgar a mensagem do amor de Deus”, diz a belo-horizontina, que já se apresentou em todos os estados brasileiros e também no exterior, em países como Estados Unidos, Israel, Suíça e Japão. Nascida em uma família de cinco gerações de protestantes, entre presbiterianos e batistas, ela buscou na religião o consolo para o término de um noivado, aos 19 anos. Estava no chuveiro quando cantarolou pela primeira vez a melodia da canção Diante do Trono. Um ano depois, em 1998, a banda liderada por ela, também batizada de Diante do Trono, lançou de forma independente seu primeiro álbum. “Para garantirmos a gravação, vendemos na igreja vales-CD, no valor de 5 reais cada um”, lembra o pai da cantora, o pastor Márcio Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha.

Do Q.G. do grupo, no bairro São Luís, onde funciona o moderno estúdio projetado pelo arquiteto Renato Cipriano — que tem entre seus clientes a cantora Ivete Sangalo e a banda Jota Quest -, Ana Paula cuida atualmente da produção de mais três discos: Renovo, que foi gravado ao vivo no Expominas, em março, e será lançado no próximo mês; Tu Reinas, com faixas inéditas que serão gravadas no próximo dia 9, em Juazeiro do Norte, no Ceará; e um álbum em inglês, de título ainda não definido, que será veiculado na internet. “Minha equipe é muito capaz, mas tudo passa pela minha mão”, diz ela, confirmando sua fama de centralizadora. Nas palavras dos assessores, a cantora é uma máquina de trabalhar. Além de realizar shows e gravar com o Diante do Trono, Ana Paula se dedica como pastora a um culto mensal só para mulheres, escreve livros (já tem dois publicados) e atualiza pessoalmente suas redes sociais, que atraem milhares de fãs. Só no Twitter reúne mais de 590 000 seguidores. “Tudo o que ela faz, centenas de mulheres copiam”, afirma o cabeleireiro Silvio Nogueira, que cuida de seu visual há dez anos. Foi assim quando, em 2009, Ana Paula resolveu cortar os cabelos curtinhos. Vaidosa, usa nas apresentações figurinos assinados por grifes de luxo como Barbara Bela e Mares. Gosta de um estilo romântico, com organza, seda e renda. Os modelos, porém, não podem mostrar muito o corpo. “Para a mulher bíblica, a sensualidade é vivida toda dentro do casamento. Ela não usa roupas sexy”, explica. Muitas peças precisam ser adaptadas para que Ana Paula possa vesti-las. “Ponho anágua quando a saia é meio transparente e tapa-colo, um clipezinho abotoado no sutiã, para esconder o decote”, conta.

Os conselhos da cantora sobre feminilidade atraem milhares de fiéis à Igreja da Lagoinha. Toda última quarta-feira do mês, o templo, com capacidade para 6 000 pessoas, fica lotado. No culto Mulheres Diante do Trono, a presença de homens é proibida. Do púlpito, com sua Bíblia em mãos, a pastora mescla passagens da própria vida a trechos do Velho e do Novo Testamentos. “Como mulher, você pode trabalhar fora, realizar os seus sonhos, ter diálogos com seu marido, sugerir, decidir com ele, mas tem de respeitar toda figura masculina”, prega. Casada desde 2000 com o pastor Gustavo Bessa, de 39 anos, ela diz que, em casa, deixa de lado a postura controladora que não consegue evitar no trabalho. “Lá, eu tiro o chapéu da liderança.” As pregações dão arrepios em muitas feministas. No fim do ano passado, quando vídeos do culto se espalharam pela internet, o resultado foi uma avalanche de críticas indignadas e zombarias. Ana Paula não se intimidou. “Achei bom. A mensagem foi replicada e chegou a mais pessoas.”

O dever de submissão ao marido não é sua única opinião polêmica. Ela é contra o casamento gay e não esconde seu ponto de vista. “Se há um cristão falando por aí que é a favor da homossexualidade, ele não é um cristão de verdade”, afirma. Mas garante que os homossexuais são bem-vindos em sua igreja. “Tenho um grande amigo ex-gay.” Também não se constrange ao abrir o coração e falar das próprias dores a seus fãs. “Na gravação do CD Esperança, em 2004, ela contou no palco que não conseguia engravidar”, lembra o pai. Mais de 1 milhão de pessoas ouviram a cantora  — hoje mãe de Isaque, de 7 anos, e Benjamin, de 4 – falar sobre seus problemas de fertilidade.

A líder da banda Diante do Trono em apresentação em Manaus: ela já fez shows em todos os estados

A líder da banda Diante do Trono em apresentação em Manaus: ela já fez shows em todos os estados

Ela credita seu sucesso às letras inspiradas em versículos bíblicos e nas suas experiências de fé. “As pessoas se identificam com os versos que falam de cura interior”, diz ela, que começou a compor quando ainda era criança. “Da passagem do cometa Halley até a aids, tudo o que via na TV ou na escola virava tema”, conta, às risadas. Os comentários de um adulto, no entanto, a desanimaram. “Ele disse que eu não tinha jeito para a coisa e acreditei. Fiquei sem escrever dos 13 aos 18 anos.” Nesse período, resolveu apostar na carreira de intérprete. Cantava no King’s Kids, grupo evangélico de dança e música para adolescentes, e no El-Shamah, coral adulto da igreja, que se apresentava aos domingos. “Eu era nova para o grupo. Só me deixaram entrar porque eu realmente tinha talento”, explica, revelando certo incômodo com insinuações sobre ter tido privilégios por ser filha do líder da igreja. Em 1996, depois de abandonar a faculdade de direito da UFMG e mudar-se para Dallas, nos Estados Unidos, onde foi estudar música, finalmente se sentiu livre. “Lá ninguém se importava com meu sobrenome.” Disputando uma vaga com outros 100 alunos, foi selecionada para a banda da escola. Disciplinada, impressionava os professores pela dedicação à rotina pesada dos ensaios.

Graças à boa vendagem de seus discos e shows (ela já tem apresentações marcadas para os próximos doze meses), hoje fatura alto com sua música, mas não revela quanto ganha. Só informa que doa parte considerável de sua renda a projetos filantrópicos. Pastora da maior igreja batista do Brasil – a Lagoinha tem mais de 54 000 fiéis -, Ana Paula se preocupa em ser um bom exemplo, uma pessoa de comportamento recatado, irrepreensível. Quando está em turnê com a banda e chega a um hotel, espera uma assessora vistoriar seu apartamento antes de entrar. “É para prevenir armações, como um homem lá dentro para causar escândalo, a exemplo do que já aconteceu com pastores e políticos nos Estados Unidos”, justifica. As bebidas alcoólicas são retiradas do frigobar dos quartos de todos os integrantes do grupo. Embora procure ser generosa com os fãs – chega a ficar até duas horas depois dos cultos dando autógrafos e posando para fotos -, poucas pessoas podem se considerar realmente íntimas da pop star gospel. “Não tenho muitos amigos próximos”, reconhece. Se sobra um tempo livre, ela quer mesmo é ficar com a família em sua espaçosa casa no bairro São Luís. É difícil ver Ana Paula em lugares públicos da cidade. Quando isso acontece, geralmente ela está almoçando ou jantando em algum de seus restaurantes preferidos: o português Res­taurante do Porto, o japonês Udon e o italiano Dona Derna.

Tem pouquíssimos interesses fora da igreja. A fotografia é o único hobby da cantora, dona de uma Leica, sofisticada câmera alemã. “No dia a dia, uso o iPhone mesmo, para não perder o momento.” Como toda mãe coruja, está sempre fotografando seus dois filhos. Ser mãe, diz Ana Paula, é uma bênção ainda maior do que conquistar o país com sua música. E não há dúvida de que ela o conquistou. Contratada da gravadora Som Livre desde 2009, a filha do pastor Márcio é hoje o nome mais conhecido da família. E vai longe o tempo em que precisava vender vales-CD para realizar seus projetos.

Um marco histórico
O CD do Diante do Trono está entre os vinte mais vendidos no país

Com seus hinos de fé e louvor a Deus, Ana Paula Valadão conseguiu um marco inédito na música gospel: figurar na lista dos vinte discos mais vendidos no Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), Preciso de Ti, o quarto álbum da banda Diante do Trono, gravado no Mineirão e lançado em 2001, vendeu mais de 2 milhões de cópias, o que lhe garantiu a vigésima posição no ranking. Apesar dos números grandiosos, a cantora não gosta de ser rotulada como estrela gospel. Prefere se definir como “líder do ministério de louvor”. Diz ela: “Presto um serviço, que é a música feita para adorar a Deus”.

2 000 000 de cópias do álbum lançado em 2001 foram comercializadas no Brasil

Lobão e João Barone: roqueiros historiadores

Lobão e João Barone lançam livros em que revisam a história do Brasil. Será que eles têm credenciais para isso?

Luís Antônio Giron, na Época

Qualquer pessoa pode escreve o que quiser da forma que puder. Não me 42109234espanta que dois dos mais representativos músicos do rock brasileiro dos anos 80 estejam lançando livros. E que os livros tratem de momentos da história do Brasil. São eles João Barone, baterista da banda Paralamas do Sucesso, e o cantor e compositor Lobão. Barone lança 1942 – O Brasil e sua guerra quase desconhecida (Nova Fronteira, 288 páginas, R$ 35,90), um compêndio que conta a história e analisa a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Lobão envereda pelo ensaísmo cultural em Manifesto do nada na Terra do Nunca (Nova Fronteira, 248 páginas, R$ 39,90). Os dois chegaram à maturidade, estão com 50 anos, e agora podem tentar uma segunda carreira, ainda que tardia, na área cultural. Devem estar cansados de fazer as músicas de sempre. Conseguirão?

Minha dúvida é se Lobão e Barone possuem de fato credenciais para tratar dos respectivos assuntos a que se dedicam. Estarão eles cultural e intelectualmente preparados para isso? Entre os avatares do passado tropicalista, Caetano Veloso realizou o sonho de ser crítico cultural, lançou um ensaio importante – Verdade tropical – e ganhou um coluna semanal no jornal O Globo. Ora, virar intelectual é possível. Até mesmo os roqueiros coetâneos de Barone e Lobão já partiram para a literatura. É o caso de Tony Bellotto, que redige romances policiais de relativo êxito há mais de uma década. Bellotto tem pelo menos o consolo de ser um escritor péssimo, mas não pior do que sua atuação como integrante da banda Titãs. Contrariamente a Bellotto, Barone e Lobão são músicos de boa qualidade. O problema é que a comparação entre suas obras musicais e suas empreitadas analíticas pode ser desvantajosa para estas últimas.

Examinemos a obra “reflexiva” dos dois. Barone tornou-se fanático em Segunda Guerra Mundial por devoção ao tema e amor ao pai, que foi pracinha. Lobão dedica-se a praticar a difícil arte de polemizar a qualquer custo – e tem obtido sucesso em brigar com Deus e o mundo.

Barone revela-se dócil, domesticado. Ele se debruça sobre a participação dos pracinhas com interesse. Mas não se sai bem, já que não tira todas as consequências da pesquisa que realizou. Entre suas teses, a mais curiosa é a que afirma que cidadãos nascidos no Brasil lutaram dos dois lados da Guerra.. Mas ele não vai fundo. Em um tom de enciclopédia estudantil, passeia pelos fatos, arrola dados, apresenta caixas com informações pitorescas. E não sai disso. Conclui seu estudo afirmando que os pracinhas, “caboclos brasileiros”, foram bravos e deixaram boas lembranças entre a população do Sul da Itália. Uma conclusão sem graça. Sua obra é a de um louco louco pelo assunto. O livro poderia ter sido sobre a saga da bateria, o instrumento que Barone conhece como poucos. Talvez tivesse sido mais útil – e menos divertido para ele.

42110391Lobão merece atenção mais demorada pela pretensão e a destemperança que exibe. Adota o tom apocalíptico desde o prólogo versificado. O início parece promissor. Com a intenção de “mergulhar na alma do brasileiro”, define o Brasil como “pocilga” e manifesta o seu ódio à intelligentsia nacional. Em seguida, porém, descamba. Ao modo de um velho polemista à direita de Átila, o Huno – Olavo de Carvalho -, Lobão exala todo seu rancor para fenômenos como o da música popular brasleira dos anos 60 e 70. Diz ele que Gonzaguinha é, ao lado de Edu Lobo, “uma das figuras mais insuportáveis da nossa MPB. Talvez o ser mais emblematicamente MPBístico que já habitou este país, músicas politicamente engajadas, uma certa alteridade sexual e alguns sambões maníaco-depressivos. Música para se ouvir comendo linguiça com cachaça”. Os brasileiros não passam de “um bando de frouxos”.

A única coisa interessante produzida no Brasil, segundo Lobão, foi o modernismo, e, ainda assim, “terminou por se fixar como a doutrina dominante”. O ponto máximo do livor é o diálogo que ele trava com o escritor Oswald de Andrade (1890-1954), por quem ele nutre “carinho e admiração”, a fim de entender por que ele foi banido e “por que a gente é assim”. O diálogo resultante só podia ser de surdos egocêntricos: Oswald vomita seus manifestos para Lobão revomitá-los com constatações do tipo: “você ficaria apavorado ao testemunhar a asfixia intelectual, cultural e ideológica, o ufanismo vagabundo, descabido e paralisante, a morte da complexidade, da vontade, da ousadia, da excelência, da memória em detrimento do simplório”. Em Lobão, não há análise, apenas erupções de ódio com o Brasil No final, Lobão convida Oswald para beber no centro de São Paulo. Assim, Lobão nos presenteia com mais uma manifestação de frouxidão intelectual. Ele tem punch, mas não argumentos. Lamento muito. Teria dado um ótimo polemista.

Ainda que Barone e Lobão pareçam ter preparo intelectual para qualquer tipo de reflexão, nem um nem outro se mostra intérprete confiável dos universos que aborda. Eles são a prova de que envelhecer não traz sabedoria nem prudência a ninguém. Em vez de oferecer uma interpretação sobre o passado brasileiro, apresentam não mais que preconceitos e esboços mal delineados de ideias ligeiras sobre os assuntos. Por isso, vale fazer uma última pergunta: por que editoras de grande porte estão lançando esses títulos, ao mesmo tempo que refugam obras fundamentais de história ou romances importantes?

A resposta é pueril: as editoras creem que a mera menção de nomes de ídolos do rock é capaz de vender livros. E pode ser que os livros da dupla vendam como sucessos do iTunes. É menos pelo conteúdo das obras do que pelo sucesso popular de seus autores. Ou seja, Lobão e Barone poderiam se dedicar tanto a publicar livros como a vender cebolas, ou tomates, com suas marcas. Fariam sucesso de qualquer maneira.

Barone e Lobão me surpreenderam, embora negativamente. Cada um à sua maneira, mostram fragilidade e falta de formação. O fato de ser famosos credenciou-os a publicar suas obras. No entanto, não possuem pré-requisitos mínimos para lançar ensaios estéticos e historiográficos nem para se arvorar em intérpretes do Brasil. Barone é um historiador ruim. Lobão prega no vazio, o que o desautoriza como o autor controverso que gostaria de ser. Os dois produziram textos amadores. Agiram como fãs – logo eles que têm tantos fãs e não precisam passar para o lado de lá e muito menos cometer pecadilhos literários. Não se trata de menosprezar um e outro, e sim de reclamar da leviandade dos editores. Para usar o chavão, o leitor é que perde – o leitor desavisado, bem entendido.

Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas

Acima o Rabino Harold Kushner

Acima o Rabino Harold Kushner

Ricardo Guerra, no Estadão

O Rabino Harold Kushner é uma das autoridades religiosas mais respeitadas do mundo. Seu best-seller, Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas, já vendeu mais de 4 milhões de cópias. O livro foi escrito após a morte trágica de seu filho, que aos três anos de idade foi diagnosticado com uma doença degenerativa raríssima. A obra trata de assuntos referentes à vida, ao sofrimento humano e à onipotência de Deus. Seus livros têm sido uma fonte de inspiração para milhares de pessoas em todo o mundo. Veja aqui a entrevista que me foi concedida esta semana na qual Kushner fala sobre diversos assuntos, entre eles, a tragédia que atingiu Santa Maria.

Pergunta Blog: O seu best-seller foi uma fonte de inspiração e de consolo para milhões de pessoas que passaram por momentos difíceis em todo o mundo. O que motivou você a escrever este livro com tanta sabedoria e discernimento? Será que foi a experiência trágica que você enfrentou com o seu filho?

Harold Kushner: Foi sim. Sem dúvida.

Pergunta Blog: Você gostaria de comentar sobre essa experiência?

Harold Kushner: Vou contar-lhe toda a história. Eu cresci sempre acreditando em um Deus Todo Poderoso e onipotente. Porém, se não pudéssemos entender porque Deus permitiu o Holocausto e o nascimento de Hitler, ou que pessoas inocentes morressem sofrendo de dores agonizantes por meio de um câncer, então seria a nossa interpretação a respeito da função Dele que seria limitada, pois não foi Deus que permitiu tais coisas. Não podia ser Deus. Ele não faz isso, não escolhe tão arbitrariamente entre uma pessoa e outra. A minha formação como rabino no seminário, foi muito influenciada por essa linha de raciocínio. Quando descobri que meu filho inocente estava condenado a uma vida de sofrimento, ou eu tinha que parar de acreditar em Deus e deixar de ser um rabino, ou eu tinha que passar a entender o papel de Deus, a função dele no mundo de uma forma diferente. E foi aí que vi que Deus estava do meu lado, que Deus não queria que estas coisas acontecessem comigo. O que aconteceu com o meu filho foi uma fatalidade, foi simplesmente uma aberração da genética. Mas uma vez que isso aconteceu e nós soubemos o diagnóstico do nosso filho, minha esposa e eu não sabíamos se íamos ser capazes de lidar com tal desafio e, no entanto, conseguimos. De alguma forma encontramos a força, a sabedoria e a coragem para fazer exatamente o que tinha de ser feito: fomos capazes de criá-lo e de fazer o melhor possível perante uma situação trágica. Ele encontrou os recursos e as forças para lidar com o desafio que estava diante dele. E foi essa experiência que mudou completamente minha visão – eu não estava mais com raiva de Deus, e poderia novamente voltar a contar com Ele e pedir sua ajuda em momentos difíceis. Eu poderia continuar com a minha fé Nele para ajudar outras pessoas com os seus problemas, e isso mudou tudo.

Pergunta Blog: Em seu livro, você argumenta contra a crença de que Deus é uma força onipotente. Você poderia apresentar aos leitores uma introdução a este tema?

Harold Kushner: Algumas pessoas encontram muita dificuldade em aceitar ou lidar com a ideia de que existe aleatoriedade no universo. Elas procuram razões e justificações para tudo o que acontece. No entanto, coisas boas e ruins podem acontecer sem qualquer motivo aparente. Quando um motorista bêbado dirige seu carro sobre a linha central de uma estrada, colidindo com um Chevrolet verde e matando os passageiros daquele carro, em vez do Ford vermelho 50 metros mais distante, não há qualquer razão específica para a perda de uma vida ao invés de outra. Esses eventos não refletem as escolhas de Deus. Deus não escolhe de que forma acabar, tão arbitrariamente, com uma vida em vez de outra. Porém, diante de tal cenário, muitos dos que acabam de sofrer uma tragédia sentem raiva de Deus, porque Lhe atribuem a culpa do acontecido. Ficam convencidos de que Ele é cruel, ou de que são pecadores e responsáveis pelo que aconteceu, ao invés de aceitarem a aleatoriedade que existe no universo. O que eu proponho nos meus livros é que encaremos a posição de Deus em nosso mundo de uma maneira completamente diferente.

Pergunta Blog: Você poderia explicar o assunto com maior profundidade?

Harold Kushner: O psicanalista Carl Jung tem uma teoria de que as crianças sempre procuram acreditar que seus pais são todo-poderosos, isto é, que os pais podem consertar qualquer coisa que estiver errada ou com algum defeito e que eles podem protegê-los de qualquer coisa. E elas ficam completamente desiludidas quando descobrem que eles não possuem a capacidade de protegê-las em todas as circunstâncias. Assim como as crianças, as pessoas direcionam essa crença de um protetor todo poderoso para seus líderes religiosos e políticos: como o rei, o presidente ou o papa. Desse modo, quem quer que seja essa figura, se torna o novo onipotente, o sábio, que irá fazer tudo o que é certo. Quando descobrimos que essa figura também é apenas um ser humano, projetamos esta crença em Deus. Desta forma, nenhum ser humano pode ser todo-poderoso, mas Deus pode! Deus diz: “Espere um minuto! Nunca foi minha ideia ser o Todo-Poderoso. Essa é a sua maneira de evitar suas responsabilidades, depositando-as sobre de mim”. Deus diz: “Meu poder não é controlar o que aconteceu. Meu poder está direcionado para que você tenha as forças necessárias para responder ao que aconteceu. Meu poder é intervir após o fato, após o acontecimento. E ajudá-lo a lidar com o que aconteceu”. Na minha opinião, é aí que está a força, o poder que Deus tem, não para controlar os fatos, mas para que possamos lidar da melhor forma com o que aconteceu.

Pergunta Blog: Como você sabe, na semana passada uma tragédia atingiu o estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, quando mais de 234 vidas foram perdidas em um incêndio em uma boate. Diversas famílias foram destruídas, e os familiares, inconsoláveis, encontram-se na difícil situação de ter que encontrar forças extraordinárias para continuar vivendo sem os seus entes queridos. Como pode alguém, filosófica e teologicamente, começar a tentar lidar com uma tragédia tão terrível como essa?

Harold Kushner: Eu tenho conhecimento do que aconteceu e me solidarizo com os brasileiros neste momento muito difícil. A função de Deus é de nos dar a força de vontade e a coragem para continuar a vida até mesmo diante de um episódio tão trágico como este. Seus entes devem saber que Deus não teve nenhuma responsabilidade em tirar a vida dessas pessoas inocentes, e ele não é responsável pelo que aconteceu. A única coisa que podemos pedir a Deus é para nos guiar e nos dar a força para lidar com essa tragédia terrível. Ele vai estar lá para ajudar e guiar os seus parentes que no momento se encontram inconsoláveis após esta terrível tragédia.

Pergunta Blog: Em diversas ocasiões, usei alguma da sabedoria exposta em seus livros para tentar consolar os inconsoláveis. No entanto, muitas vezes as pessoas que possuem forte fé nas doutrinas de suas religiões se sentem ofendidas quando alguém questiona a onipotência de Deus. O que você tem a dizer sobre isso?

Harold Kushner: Eu entendo o problema e sei que isso às vezes acontece. Se uma pessoa se sente satisfeita com a compreensão tradicional sobre a função de Deus no universo, eu não tenho intenção nenhuma de mudar a crença dela. Eu respeito a posição de cada um e incentivo as pessoas a fazerem ou a acreditarem naquilo que seja mais saudável para elas. Continue lendo