Os limites da pregação religiosa

Para o padre Anísio Baldessin, é melhor atrair pelo exemplo do que pelo discurso

Aline Viana, no iG

A situação é difícil: um colega de trabalho descobre uma doença grave ou perde um ente querido. A intenção é boa: o primeiro consolo que lhe vem à cabeça é de cunho religioso. Mas pode ser ofensivo “evangelizar” alguém neste contexto. E em outros contextos também.

Quem nunca ouviu que religião, política e futebol não se discutem? “Na verdade, esses assuntos não se condenam. Não tenho como julgar a escolha do outro, apenas me cabe respeitá-la”, redefine Janaína Depiné, coach em relacionamentos e especialista em etiqueta.

Para Janaína, os atritos ocorrem quando se desrespeita o direito do outro de pensar diferente ou se fica preso a uma interpretação literal de uma escritura. “Jesus pregava para leprosos e prostitutas. Por isso é estranho ver alguns pastores evangélicos condenando os homossexuais. Mesmo que o Antigo Testamento condene a prática do homossexualismo, a Bíblia também diz para respeitar todos”, pontua Janaína.

Junto ao respeito, há a questão da oportunidade. Por mais que se queira levar a palavra de Deus, Jeová, Ogum, Maomé, etc. a todos, existem hora e lugar certos para fazer isso.

“Usamos muito a expressão ‘a pessoa tal é uma pessoa de Deus’ porque não precisa pregar, as atitudes falam por si mesmas”, observa o padre Anísio Baldessin, autor do livro “Entre a Vida e a Morte: Medicina e Religião” (Editora Loyola). “É melhor atrair pelo exemplo do que pelo discurso, porque se o outro se sentir agredido jamais ficará interessado em conhecer mais sobre a sua religião”, concorda Janaina.

Intolerância ao pé da letra

Paulo Vinicius passou por uma saia justa incomum no velório do pai: em vez de confortá-lo, membro da igreja que ele deixara de frequentar ignorou-o
foto: Gustavo Magnusson/ Fotoarena

No velório do próprio pai, o auxiliar judiciário Paulo Vinicius Mendes Ananias, 29, se sentiu agredido pelo comportamento de um irmão de sua antiga igreja. Ele tinha sido Testemunha de Jeová e, segundo as leis da igreja, os fiéis não podem mais manter contato com quem se afasta.

“No velório do meu pai, estávamos eu, minha mãe e a minha namorada. Chegou um irmão da igreja e cumprimentou todo mundo, menos eu. Apertou a mão da minha mãe, dos outros e passou direto por mim. Só tinha eu de filho lá na hora. E ele é um ancião, uma figura de autoridade da igreja. Eu me senti humilhado e mais triste do que já estava”, relembra Paulo.

Ele pontua que nem todos os religiosos agiram assim na ocasião. “Havia outras pessoas da igreja que me cumprimentaram, conversaram e tentaram me confortar. Mas foi justamente com aquele que não me cumprimentou que eu tive um relacionamento mais próximo, porque foi ele quem me passou os ensinamentos da religião quando eu era criança”, conta. “Hoje eu não vou mais a nenhuma igreja porque não acredito mais em nada.”

O que não fazer

Sugerir um momento de oração em local de trabalho ou de estudo pode ter a melhor das intenções, mas sair pela culatra e criar um clima de isolamento para quem não quer participar. Se uma única pessoa se sente constrangida ou desconfortável, é melhor respeitar e deixar a prática para outro momento.

Dar presentes de cunho religioso sem conhecer bem o outro também é arriscado. Se a pessoa não comunga da mesma fé, pode se ofender.

Convites para cultos também devem ter contexto adequado. Esteja pronto para ouvir um “não”. “O próprio Jesus Cristo sempre propôs: ‘se você quiser me seguir’, ‘se você quiser entrar no Reino dos Céus’…”, diz o padre Anísio.

Mas se uma pregação fora de hora ou de lugar ofender, não responda. Uma discussão não vai mudar a opinião do outro, nem torná-lo mais tolerante. Se isso acontecer, será por meio de um processo mais longo, não de um bate-boca.

Que deselegante!

A ex-primeira-dama Rosane Collor , em entrevista à edição de maio da revista “Marie Claire”, disse que a atual mulher do ex-marido, Caroline Medeiros, foi punida por Deus por ter lhe roubado Fernando Collor. Segundo Rosane, essa é a razão de uma das filhas gêmeas do ex-presidente com Caroline ter nascido com problemas de saúde.

Além de deselegante, a declaração não encontra respaldo no próprio pensamento religioso. “Deus não conserta um erro com outro erro. No Antigo Testamento, pensava-se que doença era um castigo. Mas no Cristianismo é inconcebível que os pais cometam um erro e que os filhos paguem por ele”, diz o padre Anísio.

Segundo Anísio, as dificuldades da vida serão as mesmas para os fiéis de qualquer religião – e para quem não tem nenhuma. “Ter ou não ter uma religião não livra da doença, do desemprego. E religião não é para resolver o problema de ninguém, mas sim para pôr Deus em contato com as pessoas”, conclui.

dica do Fábio Davidson

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Dez coisas irritantes que o Facebook herdou do Orkut

Leonam Bernardo, no Blog da Vejinha

A sentença oficial saiu no início deste mês, pelo Ibope: o Orkut foi, finalmente, ultrapassado pelo Facebook em números de usuários no Brasil. Os dados indicam que, em agosto, a rede social de Mark Zuckerberg chegou a 30,9 milhões de visitas únicas, enquanto o Orkut ficou com 29 milhões.

Os números comprovam um movimento percebido há algum tempo: a galera do Orkut migrou, mesmo, para o Face, com direito a joguinhos, correntes e fotos na frente de espelhos. A máxima, enfim, tornou-se verdade: você pode ter saído do Orkut, mas o Orkut não saiu de você.

A seguir, uma lista com dez coisas que colaboram com a orkutização do FB:

1. “O que devo fazer hoje?”
Que tal começar sem postar essas coisas no seu mural?

2. Brincadeirinhas (ou “a coisa mais boba do mundo”)
“Olhe para os amigos que estão nas fotos ao lado e monte o elenco de sua novela mexicana.” Coisas do tipo têm pipocado em nossos murais nos últimos meses. Qualquer semelhança com os joguinhos das fatídicas comunidades do Orkut não é, obviamente, mera coincidência.

3. Postagens de signos
OK, você acredita na influência dos astros e estrelas em sua vida. Mas publicar DIARIAMENTE o que seu horóscopo promete parece um pouco exagerado, convenhamos. Faz assim: quando a Susan Miller soltar algo bombástico sobre o seu signo, você conta para os amigos. E isso é só uma vez por mês.

4. Desenhos feitos com caracteres
Se pelo menos o sujeito tivesse passado horas elaborando aquele ursinho feito com números e letras, vá lá, até justificaria postar o bicho na timeline da galera. Mas não. Ele simplesmente copiou de alguém que, muito provavelmente, também importou a “arte” do Orkut.

5. Correntes
“Cole isso no mural de 192.312.512 amigos para que o seu sonho se realize em tantas horas.” Gente, sério: não façam mais esse tipo de coisa. Modos.

6. Fotos no espelho
Reparou na quantidade de gente que tem aparecido com esse “estilo” de imagens no Facebook? Cliques no espelho do shopping, na balada, no banheiro de casa… Conclusão: a menos que você seja a Scarlett Johansson, evite tirar e, principalmente, postar fotos assim.

7. Publicações de joguinhos
Sim, os jogos já existiam no Facebook. Mas a turma do Orkut abraçou tanto a causa que não hesita nem um pouco em mandar convites e solicitações aos amigos. Além, é claro, de publicar tudo o que acontece em sua fazendinha, cidadezinha ou qualquer-coisinha do tipo.

8. Gente de outros carnavais (ou micaretas)
É um movimento que ganhou força nos últimos meses: pessoas que, sabe-se lá por que, você um dia adicionou no Orkut e que agora também te encontrou no Facebook. Neste caso, temos, basicamente, duas opções: ignorar o convite de amizade — você provavelmente não vai mais encontrar essa gente, mesmo — ou aceitar e imediatamente ocultar as publicações deles em seu mural.

9. Convites, convites e mais convites
Para festas, chás de bebê, eventos fechados e ao ar livre, casamentos de príncipes e funerais, e marchas, protestos, passeatas, carreatas e manifestações. Eles não foram necessariamente importados do Orkut, mas que estão orkutizados, estão.

10. Sua vida não é TÃO interessante assim…
…para que você publique em tempo real tudo o que faz. Contar o que comeu, que passeou com o cachorro ou assistiu a “Malhação” são informações altamente dispensáveis, mesmo que você seja o Neymar. E mais: ao contrário do mundo real (lembra dele?), dizer “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” TODOS OS DIAS nas redes sociais não é sinal de educação. É ser chato.

Foto: Thinkstock

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