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Nascido para viver

partitura-4Ricardo Gondim

Há momentos em que me percebo sedento de luzes, com fome de abraços, carente de cores. Instantes em que viro poeta, artista, violinista e declamo versos geniais. Atraído pela beleza, rasgo as etiquetas da formalidade. Revisto-me com a capa dos românticos. Subo em palcos fictícios. Devaneio até conviver com algum boêmio imaginário. Sento até em boteco mal iluminado e rio sem motivo.

Em outros momentos, carrego carências que só um Noturno de Chopin pode aquietar. Tenho abatimentos. Preciso de um olhar manso para ser curado. Em horas assim, meus olhos pedem um Rembrandt ou a delicadeza poética de um Rubem Alves. Não me serve o ritmo forte do pagode. Necessito de uma flauta doce, de um smooth jazz, de uma Norah Jones. Movido por tais forças, consigo emergir dos deserto árido onde habitei.

Em certas ocasiões, permito que o numinoso  - o sobrenatural – me enfeitice. Minha alma demanda as alturas. Perecebo-me doutro mundo, nascido para a eternidade. Vejo-me mariposa tomada de êxtase pela luz. Deixo de me contentar em apenas existir e retorno ao éter luminoso. Sinto a urgência de transcender, criar e transbordar. Prometo a mim mesmo que vou romper fronteiras. Tocado pelo mistério, recuso arrastar-me pelas sendas da vida. Desdenho de todas as cascas que me dessensibilizam. Desperto para o dever de quebrar os caixotes que tentam me prender. A noção da imensidão do divino me leva a desejar mais espaço – atrofio em gaiolas, cercas me angustiam, garrotes me asfixiam. Minha espiritualidade me faz rasgar mapas precisos. Rompo a corrente de qualquer âncora que me paralise.

Chegam dias em que me forço para virar a página da tristeza. São dias de depuração. No silêncio me lavo de cinzas grudadas à pele. Esforço-me para trocar pranto por cantiga. Mas, para voltar a sorrir, preciso aquietar-me. Só na solitude consigo entrever prados verdejantes. Introspectivo, permito que réstias de luz vençam as frestas estreitas de minha alma.Vejo relâmpagos e ouço trovões mesmo se meu céu estiver despido de nuvens. Calado, viajo em reminiscências até alcançar o ar salitroso do mar que banhou a minha infância. Afogo a saudade naquele oceano de verde áspero. Nesse mergulho nostálgico, consigo ressuscitar fantasias infantis. Viro alquimista. Aprendo a dosar certa doçura na melancolia. Afugento espíritos amuados e todo enfado desaparece. Meu mundo se aquarela.Volto a crer na lealdade. Amigos se re-iluminam. Uma nova paz branqueja antigos ódios.

Depois de tudo, desisto de perder o medo da surpresa. Abro mão de imaginar-me timoneiro do universo. Despeço o Atlas que insiste em viver em mim. Passo a desenhar a arrogância pretensiosa de pessoas que ambicionam governar o mundo. Anelo me seduzir pelo incontrolado. Pretendo conviver com a ideia de jamais dominar o futuro. Prometo a mim mesmo que vou me arrepiar, empolgado, diante do imponderado. Almejo continuar amando a vida mesmo consciente de sua oscilações. Em seus momentos diversos, perseverarei diante do insólito. Se for surpreendido por novas dores e se a morte ameaçar, pretendo misturar coragem à ternura. Não permitirei que alguém apague a minha frágil centelha antes da hora. Ainda que tragédias se repitam, sem dar tempo de tomar fôlego, gritarei: não desisto, nasci para viver!

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

Ministério da Cultura indica ‘O Som ao Redor’ para disputar vaga no Oscar

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Publicado no Terra

O Ministério da Cultura anunciou, nesta sexta-feira (20), que o longa O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, representará o Brasil na disputa por uma vaga ao prêmio de melhor filme em língua estrangeira na 86ª Premiação Anual da Academy of Motion Picture Arts and Sciences, o Oscar 2014. A escolha foi divulgada em Brasília pelo secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC), Leopoldo Nunes.

Segundo a nota oficial, a Comissão Especial de Seleção se reuniu no Gabinete da SAv/MinC no fim desta manhã, com o intuito de escolher uma das 14 obras inscritas para a disputa nacional. Além do filme vencedor, a lista foi composta por Cine Holliúdy, Colegas, Cores, Elena, Faroeste Caboclo, Gonzaga de Pai para Filho, Meu Pé de Laranja Lima, O Dia que Durou 21 Anos, O que se Move, O Tempo e o Vento, Porto dos Mortos, Uma História de Amor e Fúria e Xico Stockinger.

“Os filmes foram admitidos para a seleção nacional a partir dos critérios da Academia Norte Americana de predominância de diálogos em língua não inglesa e de exibição pública com fins comerciais pela primeira vez no Brasil, por pelo menos sete dias consecutivos no período entre 1º de outubro de 2012 a 30 de setembro de 2013, em sala de cinema comercial”, explicou a nota.

O filme

Dirigido por Kléber Mendonça, O Som ao Redor retrata a vida em uma rua de classe média na zona sul do Recife, que toma um rumo inesperado após a chegada de uma milícia que oferece a paz de espírito da segurança particular. A presença desses homens traz tranquilidade para alguns, mas tensão para outros, em uma comunidade que parece temer muita coisa. Enquanto isso, Bia, casada e mãe de duas crianças, precisa achar uma maneira de lidar com os latidos constantes do cão de seu vizinho.

O cidadão Teletubbie

Pensar pra quê? Ouvir o voto pra quê? Em nosso primário exercício de assimilação, tudo “termina em pizza” e ninguém precisa de juiz. Basta votar em enquete

Matheus Pichonelli, na CartaCapital

O método Telettubies de assimilação política: basta ver uma imagem e repetir “bo-bo, “ban-di-do”, “sa-fa-dos”, “ca-na-lha”

O método Telettubies de assimilação política: basta ver uma imagem e repetir “bo-bo, “ban-di-do”, “sa-fa-dos”, “ca-na-lha”

Há um momento da vida em que o mundo ao redor é um amontoado de signos sem significados. Chama-se infância. Nessa fase, uma pedra não é uma pedra. Não tem sequer nome. É apenas um material disforme que simplesmente existe. À medida que aprendemos que uma pedra é uma pedra e não um ovo, passamos a assimilar a ideia de valor e grandeza. De significado, enfim. Leva tempo.

Mal resumindo, é assim que aprendemos a compreender o mundo, até então uma associação inicial e pouco sofisticada de ideias projetadas em sílabas repetidas vagarosamente. Como numa peça de Lego, encaixamos as sílabas “a” “ma” “re” e “lo” e associamos o borrão apresentado em um cartaz, ou na tevê, ao nome das cores. Vemos o desenho de um arco ascendente e alguém explica ser um “sor-ri-so”. E descobrimos que a bola de fogo a-ma-re-la de-se-nha-da é o “sol”. Daí o sucesso de programas como Teletubbies na formação dos nossos quadrúpedes (porque ainda engatinham) não alfabetizados. Peça por peça, eles aprendem a codificar o mundo. E se tornam adultos.

Nessa nova fase, aprendemos – ou deveríamos aprender – que existe uma infinidade de tamanhos, formas e cores de pedras, algumas com muito mais do que cinquenta tons numa mesma superfície, tenham elas nomes inventados ou não. Umas têm valor de uso, e servem para a guerra. Outras têm valor de troca, e vão parar nos pescoços mais endinheirados. Alguns dirão a vida toda que, não importa o que te ensinam, é sempre bom desconfiar de afirmações categóricas de quem jura que uma pedra é uma pedra e que isto não se discute. E se uma pedra é capaz de provocar tanto embate, o que não se vê e nem se toca é nitroglicerina pura. Ao longo dos séculos, o que dá dentro da gente e e não devia também recebe nome, valor e peso, mesmo sem ter forma nem espessura. Com base nestes nomes, criamos as leis (filosóficas, físicas, jurídicas e até sentimentais). São elas as responsáveis por regular as mais complexas, inconfessáveis, inacabadas, incompletas, mal diagnosticadas e muitas vezes inomináveis relações humanas. Alguns estudam estas leis. Por anos. Pela vida toda. Mais do que qualquer outro bípede, que a essa altura da vida já não engatinha.

No mundo ideal, seria prudente ouvi-los antes de tomar posição. Mas, no mundo real, ainda estamos conectando peças de Lego, as sílabas jogadas por variações de um mesmo Teletubbie que nos ensinou a falar quando nossa manifestação verbal era ainda gutural. Tornamo-nos bípedes, mas continuamos babando, repetindo com a boca e os olhos hipnotizados, com vozes vacilantes, as associações criadas neste grande programa Teletubbies que é a televisão, o rádio, a revista, o jornal, o meme de duas frases do Facebook e o e-mail da tia indignada: “ban-di-do”, “im-pu-ni-da-de”, “is-so-é-u-ma-ver-go-nha”, “cor-ruP-Tos”, “cu-ba-nos-mal-va-dos”, “va-mos-a-ca-bar-como-a-Ve-ne-zu-e-la” (custa crer que alguns aprenderam a repetir as sílabas dos “embargos infringentes” sem a ajuda do lexotan).

As associações, muitas vezes, são criadas por cores ou rostos. Não é preciso saber o que é massa nem energia nem teoria nem relatividade para associar Albert Einstein a valores como “in-te-li-gên-cia”, “ge-ni-a-li-da-de”. Não é preciso sequer formular uma frase inteira. Basta repetir uma ideia pronta. Ou praguejar. Dizer se é bom ou ruim sem explicar os porquês. E dar sequência às reações coletivas, de manada, diante do vermelho. Ou do azul. Ou da foto um ex-presidente com barba. Ou de um ex-presidente sem barba. Não é preciso ler jornal, só a primeira frase do título; basta reagir diante de uma foto. Não é preciso sequer analisar o conteúdo. Nem diferenciar uma Constituição de uma capivara. Operamos, afinal, com símbolos prontos, acabados, imutáveis. E, assim, basta ao rockeiro boa-pinta colocar um nariz de palhaço para, como um bom Teletubbie, se comunicar com a sua plateia de Teletubbie: “bo-bo, “ban-di-do”, “sa-fa-dos”, “ca-na-lhas”.

Pensar pra quê? Ouvir o decano, ou quem quer que seja, para quê? Não importa o que se diga, nem em que se embase. No fim a única associação que conseguimos fazer do amontoado de palavras voadoras de significantes sem significados durante o voto de um ministro da Suprema Corte é que tudo é só uma grande “piz-za”. Ou uma vitória da “de-mo-cra-cia”. Ou uma resposta aos “gol-pis-tas”. Ou uma “in-fâ-mia” à opinião pública que grita, sonolenta, “A-cor-da-Bra-sil” e sonha com o dia em que o Congresso e o Judiciário se transformem em um grande estacionamento privado. No país do “que país é este”, os porta-vozes da suposta maioria se ressentem pela “o-fen-sas” constantes de uma corte de 11 juízes que usam as leis para afrontar a “jus-ti-ça” e proclamar a “im-pu-ni-da-de”. Ou de 594 parlamentares, “pa-gos-às-nos-sas-cus-tas” para, “on-de-já-se-viu”, criarem leis. Leis para quê? Dependesse dessa maioria de pensamento binário, todas as contradições e penas e direito de defesa se resumiriam a uma grande enquete. “Se você acha que eles erraram e devem morrer, curta. Se acha que devem ser linchados, compartilhe. Participe. A sua opinião é muito importante. O final, você decide”. Nesta forma curiosa de aprimoramento democrático, pensar é dispensável, mas grunhir, feito porco, é exercício pleno de cidadania.

dica do Jénerson Alves ‏

Facebook vira sabor de sorvete na Croácia

foto: Mashable

foto: Mashable

Publicado no Olhar Digital

Qual será o sabor de uma rede social? Uma sorveteria na Croácia diz ter conseguido encontrar o sabor do Facebook e já comercializa sorvete com a marca da página de Mark Zuckerberg.

A Valentino Ice Cream, localizada em Tisno, na ilha de Murter, passou a oferecer aos seus clientes um tipo de sorvete azulado, lembrando as cores da rede social.

Segundo um de seus donos, Admir Adil, a ideia surgiu quando ele viu sua filha de 15 anos viciada na rede social. Então ele pensou em criar um sabor de sorvete para atingir o público obcecado por acessar o Facebook.

O sabor não é nada realmente muito especial, já que é apenas xarope azul sobre um sorvete de baunilha com uma plaquinha com o logotipo do Facebook em cima. Uma porção custa 1 euro (R$ 3,01) e tem gosto de chiclete.

Contudo, mesmo com tanta simplicidade e sem autorização oficial da empresa, o sorvete tem sido um sucesso entre os transeuntes que percebem imediatamente o logotipo da rede social e se interessam no produto.

Via Mashable

dica do Jarbas Aragão