Pastor e vereador mineiro ofende professora e diz que “daria um coro nela”

 

Publicado no UOL

O vereador Pastor Altemar (PSDB), de Montes Claros (418 km de Belo Horizonte), fez ofensas e ameaças à professora Iara Pimentel durante entrevista à TV Câmara do município, realizada no último dia 26. O parlamentar estava irritado com as manifestações de protesto da docente em sessões da Câmara.

“Pense numa mulher desclassificada, sem caráter (…) ela vem inferniza, faz as manifestações. Se pudesse eu mesmo dava um coro nela. Pensa numa mulherzinha de baixo nível. É aquela Iara”, afirmou.

Em seguida, Pastor Altemar ataca a professora ao dizer que ela vai à Câmara porque quer “arranjar um marido”. “Tá aí, encalhada, e vem pra cá querendo arranjar um marido. Ou então tá interessada em algum vereador (..) É um lugar público, não é uma zona, um cabaré não. Eu vomito ela (sic).”

O caso provocou revolta nas redes sociais. A professora, que integra movimentos sociais que acompanham as sessões plenárias na Câmara, apresentou denúncia na Casa e pediu a cassação do parlamentar.

Na segunda-feira (9), a abertura de processo de cassação de Pastor Altemar foi rejeitada por 13 votos a nove. Agora, a Comissão de Ética analisa a conduta do vereador.

A reportagem telefonou na noite desta sexta-feira (13) para o gabinete do Pastor Altemar, mas ninguém atendeu.

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Do espírito da ressurreição

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Will, no Ensaios do Afeto

Graças à minha família, sou cristão. Oportunidades não me faltaram para trocar de fé. Estudei com Testemunhas de Jeová e com Mórmons, conheci o espiritismo – li “O evangelho segundo o espiritismo” e alguns trechos do “Livro dos Espíritos” -, aproximei-me de outras expressões de fé como o Budismo, o Islã e a fé Baha’í, mas nunca me vi não cristão.

Quando criança, aprendi na catequese que os grandes problemas do humano são o mal e a morte. Convertido à faceta pentecostal do protestantismo, intensifiquei meu pavor a tais inimigos. Saí do movimento evangélico (ufa!) e aprendi, com a leitura de teólogos católicos e protestantes, filósofos existencialistas e materialistas, ateus e religiosos, que a morte pode não ser um inimigo, e que o mal, esse sim, deve ser combatido – embora seja um produto da finitude, ou seja, tudo que é finito produz mal e bem, bom e mau, inexoravelmente. Bendita ambiguidade.

Há muito, deixei de encarar a morte como a um inimigo, embora entenda quem o faça. Encabeçados por Darwin, teóricos convenceram-me, através da leitura de seus textos e da escuta de suas falas ou de seus estudiosos, de que pra que haja vida, a morte é indispensável. Sim, somos seres finitos condenados à morte. É o ciclo sem fim.

Li que o Rubem Alves, quando perguntado se tinha medo da morte, respondeu: medo não, tenho pena. Faço coro com o mestre. Mas devo confessar que a minha morte não me dá medo, o que me assusta é a morte dos meus queridos. Isso porque a morte é um memorial à saudade e, também, porque com a presença em vida da minha família, a quem mais amo, sinto-me seguro; confesso, tenho medo da saudade. A força, o carinho e a garra da minha mãe e de minhas avós são um alerta diário de que na vida é preciso ter coragem, a sabedoria e a serenidade do meu pai são lembretes pujantes de que a vida carece de calma sem resignação, de que ela passa rápido e é preciso agir. Pra não viver em vão, é preciso deixar um legado.

Não sei, nem quero, definir o que houve com Jesus de Nazaré depois de sua morte, o que nós, cristãos, chamamos de ressurreição. O que sei é que seu testemunho tem sido suficiente pra que ele seja lembrado até hoje e, não somente isto, adorado também. Há milhares de pessoas fazendo o bem, distribuindo amor pelo mundo e lutando, consciente ou inconscientemente, contra processos anti-vida em seu nome. A elas desejo sempre estar junto.

Meu pai disse-me algumas vezes que seu maior objetivo é dar a nós, a mim e à minha irmã, aquilo que meu avô, embora quisesse, não pode lhe dar. Ele não sabe, mas todos os dias lembro disso. Tem servido de fundamento às minhas relações, significado: minhas amizades, que sejam as melhores; namoros e um futuro casamento, que sejam os melhores; no relacionamento profissional, que eu contribua para que o ambiente onde eu estiver seja o melhor etc. A partir do testemunho de vida do meu pai, sou habitado por um desejo intenso de melhora, sede de vida – reconhecendo minhas limitações, buscando superá-las; é o espírito da ressurreição.

A morte foi ressignificada por Jesus. Morrer não é ir e levar, mas ficar e deixar. A vida sempre prevalece. Todos seremos lembrados por aquilo que fomos. Há uma força que promove o bem e a vida, que só pode ser o Espírito de Jesus, da sua ressurreição. Nele, portanto, oro como São Francisco de Assis:

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor,
Onde houver ofensa , que eu leve o perdão,
Onde houver discórdia, que eu leve a união,
Onde houver dúvida, que eu leve a fé,
Onde houver erro, que eu leve a verdade,
Onde houver desespero, que eu leve a esperança,
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria,
Onde houver trevas, que eu leve a luz.

Ó Mestre, fazei que eu procure mais
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido,
amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se nasce para a vida eterna…

Amém.

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Cajadada?

Felipe Costa, no Mero Cristianismo

Desde que comecei a frequentar uma igreja evangélica ouço o termo cajadada incluso na seguinte expressão: O pastor deu uma cajadada em fulano.

Sempre entendi que essa frase queria dizer que o pastor havia repreendido alguém por ter cometido algum erro. Mas com o tempo percebi que muitos dos que levavam uma cajadada se distanciavam dos outros irmãos, por vergonha ou porque os irmãos passavam a evitar alguém que tomasse a tal cajadada. Não era incomum que com o tempo estes saiam da igreja. Ouvi histórias de pessoas que saíram de gabinetes pastorais aos prantos após uma conversa com algum pastor. O cajado tomou forma de porrete.

Muitas vezes a cajadada era coletiva. Todo mundo dividia o coro que o pastor aplicava do alto do púlpito. Isso muito me lembrava de quando era pequeno e um dos irmãos aprontava, os três apanhavam. Com o microfone numa mão e a Bíblia na outra, alguns pastores costumam descascar fiéis por motivos sérios ou banais, em muitos casos. Já ouvi um pastor cobrar os irmãos de que na reunião anterior havia recolhido pouca oferta e, assim, distribuiu meia hora de cajadada. Nesta ocasião uma pessoa que estava sentada ao meu lado disse, “olha a cajadada!”. E sorriu como que concordando com a repreensão. Afinal de contas, o homem que estava com o microfone nas mãos era “o pastor” e, por conseguinte, o portador do cajado.

No entanto, o Salmo 23 nos diz que o cajado do pastor não é usado para machucar as ovelhas que cometem “delitos”. Este salmo é uma poesia construída em duas experiências diferentes, a do “Pastor e Ovelha” e, a do “Fugitivo e o Anfitrião”. A história do Anfitrião e o Fugitivo (v. 5 e 6) fundamenta-se na experiência de um homem que provavelmente seria condenado pela sua comunidade, por ter violado algum tipo de conduta em seu clã (ver Dt 19:1-7). Às vezes tal individuo fugia errante pelo deserto enquanto a comunidade ainda dormia. Logo pela manhã ao sentirem sua ausência, o clã enviava alguns homens a sua captura, caso ele sobrevivesse a fuga do deserto – como nas histórias de Moisés e Jacó, que fugiram.

O fugitivo chegava quase morto em uma estrutura que havia sacerdotes. Ali era recebido pelo Anfitrião que proporcionava acolhimento integral, no qual depois de um banho, uma taça de vinho transbordava sobre a mesa. Neste lugar tal Fugitivo era honrado com perfume sobre a cabeça. O sacerdote que o recebia em sua casa nada lhe perguntava, simplesmente o recebia, mesmo sabendo que ele estava ali por ter cometido algum delito grave. Quando seus perseguidores se aproximavam e percebiam onde estava, nada poderiam fazer, pois a hospitalidade era sagrada no Oriente e por isto inviolável. Então, o salmista brinca com seus inimigos diante da hospitalidade proporcionada pelo Anfitrião – “prepare-me uma mesa diante dos meus inimigos“.

Depois de alguns dias quando seus perseguidores percebiam que não poderiam captura-lo, iam embora. O sacerdote colocava duas escoltas (homens) para acompanhá-lo a uma nova tribo para que o então Fugitivo iniciasse nova vida. O salmista novamente faz desta escolta a Misericórdia e Bondade do Senhor-Anfitrião que o acompanharão todos os dias de sua vida. E ainda deixa em aberto a possibilidade de ter que desfrutar deste acolhimento em dias futuros. Ou seja, o perdão é renovável.

O cajado do pastor de verdade não machuca. Ele tem duas extremidades: com a circunflexa, resgata a ovelha caída; com a pontiaguda, dá toques leves em suas patas frágeis para que as ovelhas tomem seu caminho e na eventualidade de lobos atacarem, defende as ovelhas. Como disse o salmista “o teu cajado me consola“. Consolo este que vem acompanhado da Misericórdia e Bondade, sem jamais machucar as ovelhas com autoritarismo. Sem as duas escoltas dadas pelo nosso Senhor-Anfitrião, não existe cajado que consola. Apenas cajadadas.

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