Rodrigo Faro exibe entrevista exclusiva com Loemy Marques, ex-modelo viciada em crack (foto: Edu Moraes/Rede Record)

Rodrigo Faro faz ex-modelo viciada em crack desfilar e a envia para clínica

Rodrigo Faro exibe entrevista exclusiva com Loemy Marques, ex-modelo viciada em crack (foto: Edu Moraes/Rede Record)
Rodrigo Faro exibe entrevista exclusiva com Loemy Marques, ex-modelo viciada em crack (foto: Edu Moraes/Rede Record)

Publicado na Folha de S.Paulo

Rodrigo Faro explorou em dois blocos de seu programa deste domingo (30) a história de Loemy Marques, ex-modelo viciada em crack.

Ela se tornou famosa na semana passada, quando foi capa da revista “Veja São Paulo”. Depois disso, houve grande disputa entre as TVs para conseguir a participação da ex-modelo.

O programa “A Hora do Faro” manteve Loemy em um hotel durante a semana. Nesses dias, o apresentador gravou entrevistas com ela na cracolândia, onde ela morava, e nos bastidores da Record. Por fim, ela gravou sua participação no programa, em que reencontrou a mãe e de onde foi enviada para a clínica Grand House, que teve seu site divulgado no ar.

Na entrevista a Faro na cracolândia, ela contou a sua história, desde quando chegou a São Paulo para se tornar modelo até o momento em que foi morar na cracolândia.

Em seguida, apareceu na sede da Record para continuar a conversa, e Faro explicou que a entrevista fora interrompida na cracolândia porque Loemy sentiu cheiro de crack e ficou com vontade de usar a droga, que consumira pela última vez na véspera.

Na Record, depois de arrancar lágrimas da ex-modelo, Faro disse para ela desfilar nos corredores, como se estivesse em uma passarela. “Arrasa”, falou o apresentador para Loemy, que iniciou o “desfile”.

No palco do programa, já maquiada e com os cabelos arrumados, como ressaltou o apresentador, ela se reencontrou com a mãe, e Faro sugeriu que pedisse perdão a ela, o que foi feito. Por fim, um carro a levou à clínica. Faro anunciou que irá acompanhar passo a passo o tratamento, enquanto a legenda na tela dizia “agora só depende dela!”.

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Ricardo Senra, no BBC Brasil

Com mais de quatro décadas de apoio à população de rua do centro de São Paulo e pelo menos duas circulando pela Cracolândia, a assistente social Tina Galvão, de 71 anos, está preocupada: “A exposição dessa modelo só traz mais revolta e frustração para os demais, que vão continuar invisíveis”.

Para Tina, “a figura da Loemy não traz reflexão sobre o resto da Cracolândia. Lá circula gente feia, pobre, desdentada. A estes, que também precisam de ajuda, fica a sensação de que não merecem atenção.”

Tina, que conhece boa parte dos usuários pelo nome e costuma ser recebida com abraços em visitas semanais ao local, se refere à ex-modelo viciada em crack que ganhou fama após ser capa da revista Veja São Paulo no último fim de semana.

Uma fotomontagem que espelha o rosto de Loemy Marques nos tempos de passarela com suas feições atuais, marcadas pelo uso da droga, foi reproduzida em sites, jornais e na televisão. Programas vespertinos dedicaram horas ao tema – um deles, no próximo domingo, promete custear sua internação em uma edição especial sobre a trajetória da moça.

A repercussão causou frisson nas redes sociais. De um lado, elogios e torcida pela “jovem-símbolo” da degradação causada pela droga, “que também pode vitimizar a classe média”. Alguns apontam que o destaque conseguido na mídia pela história da ex-modelo tem o aspecto positivo de aumentar a conscientização da população para as condições enfrentadas pelos dependentes de crack em São Paulo.

Por outro lado, circulam críticas à escolha da “loira magra, de 1,79 metro de altura e olhos verdes”, nas palavras da revista, em detrimento da maioria – que em geral não atende aos padrões tradicionais de beleza.

A assistente social concorda com a última opção.

“Acho tudo isso cruel. Com ela (Loemy) e com os outros”, diz. “Você passa anos invisível e, de um dia para o outro, é disputada por camarins e holofotes. Programas de televisão trazem deslumbramento, mas não oferecem estrutura para quem está doente.”

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Holofotes

Tina ficou conhecida pela população de rua nos anos 1970, quando se mudou de Jaú, interior de São Paulo, para a capital. Desde então, trabalhou com diferentes grupos que vivem em situação de vulnerabilidade na região central.

Primeiro, se aproximou de pessoas que dormiam em praças e sob viadutos. Depois, na antiga Febem (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor), ofereceu apoio a menores acusados de delitos e suas famílias. Mais tarde, dedicou-se às travestis e prostitutas expostas à violência e aos riscos do recém-chegado HIV. Nos anos 1990, conheceu o cotidiano dos usuários de crack da alameda Cleveland – onde até hoje eles se reúnem.

A assistente social ganhou fama no ano passado graças à “terapia do abraço” que implantou na região frequentada pelos craqueiros.

Em passeios noturnos, sozinha, ela passa horas conversando com os usuários e agindo como ponte entre suas demandas e o poder público. Tudo sempre depois de um longo abraço – ela considera o gesto importante para mostrar que “a conversa é de igual para igual”.

Tina, que diz conhecer a ex-modelo “de vista”, afirma temer pelo dia em que “os holofotes se apagarem”.

“Já vi casos parecidos: a família descobre o parente, leva o cara para uma clínica particular com tudo do bom e do melhor, mas não quer saber que tipo de terapia o usuário prefere encarar. Em todos, a pessoa voltou para a rua depois. Quando não parte do usuário, a droga costuma vencer. Por isso o meu lema: quem pita é quem apita.”

Uma pesquisa feita pela fundação Oswaldo Cruz com usuários de crack de todos os estados do país e no Distrito Federal endossa a opinião de Tina. O estudo, divulgado neste ano, indica que menos de 5% dos entrevistados completam seus tratamentos contra a dependência.

Nos últimos 40 anos, Tina Galvão trabalhou com mendigos, menores infratores, travestis, prostitutas e usuários de crack
Nos últimos 40 anos, Tina Galvão trabalhou com mendigos, menores infratores, travestis, prostitutas e usuários de crack

Mulheres

A assistente social lamenta que a discussão não se estenda aos demais frequentadores na Cracolândia – especialmente as mulheres.

“Elas são sempre as mais vulneráveis. Para algumas, vai surgir a esperança de ser a próxima Loemy. Mas a maioria vai sofrer e continuar se prostituindo e se sujeitando a violências. Vão se perguntar: ‘Por que não estão preocupados comigo? Porque eu sou feia, porque tenho o rosto machucado, porque tenho varizes’.”

O estudo da Fiocruz mostra que 20% dos frequentadores de cracolândias são mulheres. Depois de entrevistar e realizar testes com 32.359 usuários, a pesquisa indicou que, entre as mulheres, 8,17% eram portadoras de HIV e 2,23% tinham hepatite C. Entre os homens, respectivamente, os índices foram 4,01% e 2,75%.

A assistente diz concordar “em parte” com o projeto Braços Abertos da prefeitura de São Paulo, que oferece trabalho e hospedagem em hotéis da região para usuários dispostos a abandonar a droga.

“Para as pessoas mais estáveis, com mais autocontrole, vale algo como o Braços Abertos, que retoma a dignidade e traz oportunidades de trabalho e moradia que são raros para quem está na rua. Mas tem uma grande parcela que não tem a menor estrutura psicológica e uma dependência muito grande da droga”, afirma.

Para estes, segundo Tina, é preciso “um trabalho intenso de saúde mental”.

“Mas sempre respeitando as vontades e limites do usuário, do contrário não dá certo”, diz. “É um processo lento, cuidadoso, mas que traz resultado.”

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A ex-modelo viciada em crack e o nosso racismo implícito

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Tony Goes, na Folha de S. Paulo

Dois anos atrás, o “mendigo gato” causou comoção nas redes sociais. Assim que foi postada uma foto do então morador de rua em Curitiba, surgiram pessoas dispostas a ajudá-lo. “Vamos dar emprego, vamos dar abrigo, vamos tirá-lo dali!”, bradavam os internautas. Pela mais prosaica das razões: o rapaz, um ex-modelo viciado em crack, era de fato muito bonito.

Agora a história se repete – só mudou o sexo da protagonista. Loemy Marques teve seu drama revelado pela revista “Veja São Paulo”, e jornalistas de diversos órgãos partiram imediatamente em seu encalço. Equipes de TV disputaram quase que a tapa o privilégio de levá-la a seus programas.

Tudo muito bonito, claro. E também não resta dúvida de que a moça mereça toda essa atenção. Mas aí, surge a pergunta que não quer calar: por que só ela?

A cracolândia paulistana é povoada por gente oriunda de todas as classes sociais, mas a imensa maioria não tem o apelo midiático de Loemy. Nenhum deles gerou um mutirão de solidariedade, nem atraiu para si as câmeras da televisão. Por que muitos deles são pobres, são feios, muitas vezes desdentados – e, muitas vezes, negros.

Loemy Marques e Rafael Nunes, o “mendigo gato”, foram reconhecidos como “um dos nossos” por boa parte do público com acesso à internet. Não deveriam estar dormindo ao relento, muito menos se prostituindo para poder comprar a droga. Precisamos resgatá-los, e rápido!

Ambos são louros de olhos azuis. Ambos eram modelos antes de decaírem. Desvios imprevistos de rota levaram-nos à marginalidade. Pelo curso natural das coisas, deveriam estar morando em casas confortáveis e fazendo carreiras de sucesso.

Ainda mais poderosa que a beleza dos dois é a raça. Duvido, mas duvido muito, que uma ex-modelo negra tivesse a mesma sorte que Loemy. No máximo, ela ganharia uma reportagem num desses programas vespertinos sensacionalistas. Afinal, adoramos conhecer a desgraça de quem um dia esteve bem, mas já não está mais.

Essa curiosidade mórbida justifica parte do circo armado ao redor de Loemy (na segunda, 24, a matéria da Folha sobre ela foi a mais lida de todo o UOL). Mas não explica a avalanche de solidariedade que a ex-modelo vem recebendo.

No próximo domingo, ela será exibida feito um troféu num programa de auditório. Estará de banho tomado, penteada, maquiada e usando roupas novas. Mas não, não estará curada: nenhuma clínica de reabilitação oferece resultados em menos de uma semana.

Mesmo assim, teremos a gostosa sensação de missão cumprida. Mais uma beldade loura que foi salva de uma vida de desespero. Mais uma branca de “boa aparência” que foi reconduzida ao bom caminho.

Enquanto isto, milhares de “nóias” negros e mulatos permanecem nas ruas.

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Reprodução/Instagram/rodrigofaro

Ex-modelo deixa cracolândia e grava programa de TV com Rodrigo Faro

Reprodução/Instagram/rodrigofaro
Reprodução/Instagram/rodrigofaro

Publicado na Folha de S.Paulo

A ex-modelo Loemy Marques, 24, saiu das ruas da cracolândia nesta segunda (24) e deve passar por reabilitação.

O apresentador Rodrigo Faro, da TV Record, postou foto com a jovem em seu perfil numa rede social, com um pequeno texto em que afirma ter passado a tarde com ela gravando o programa que será transmitido no próximo domingo (30).

“Que história essa menina tem… Passei o dia com a modelo Loemy, que hoje é usuária de crack e vive nas ruas da cracolândia”, escreveu.

No domingo passado (23), um dia após ter sua história contada pela revista “Veja São Paulo”, produtores de TV a procuraram na cracolândia, oferecendo a possibilidade de participar de um programa que incluiria a ida para uma clínica de reabilitação. Amigos dela confirmaram à Folha que ela havia sido enviada para uma unidade de reabilitação como parte do programa de Faro.

A emissora não confirma o conteúdo do programa de domingo, mas Faro afirmou em seu perfil que o futuro de Loemy “será diferente”.

Vinda de Mato Grosso para tentar a carreira de modelo, a jovem ficou viciada em crack há cerca de dois anos. Passou a viver em meio aos viciados nas ruas da cracolândia (região central de São Paulo) e chegou a se prostituir para bancar o vício.

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A ex-modelo Loemy, 24, anda pela cracolandia no centro de Sao Paulo a procura de pedras de crack (foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

Viciada em crack, ex-modelo vive nas ruas de São Paulo

A ex-modelo Loemy, 24, anda pela cracolandia no centro de Sao Paulo a procura de pedras de crack (foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
A ex-modelo Loemy, 24, anda pela cracolandia no centro de Sao Paulo a procura de pedras de crack (foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

Publicado na Folha de S.Paulo

Loemy Marques, 24, não para quieta. A abstinência está no auge. Observa duas fotos suas na capa da revista “Veja São Paulo”. Na primeira, aparece linda, nos tempos de modelo. Na segunda, a imagem atual, após dois anos de vício em crack e morando na rua.

“Você precisa decidir qual das duas você quer ser”, diz um amigo, tentando impedi-la de voltar ao fluxo -nome dado à aglomeração de viciados que hoje fica na esquina da rua Helvétia com a alameda Cleveland, na cracolândia, região central de São Paulo.

“Estou confusa, quero fumar”, diz ela.

É tarde de sábado (22). Loemy senta-se e levanta-se várias vezes de uma cadeira de plástico na sede do Recomeço, projeto do governo estadual para tratar dependentes, enquanto é disputada por equipes de programas de TV.

A ex-modelo que virou craqueira ficou “famosa” a partir da divulgação de sua história, naquele mesmo dia.

Ela contou à revista que começou a fumar crack em 15 de setembro de 2012, quando teve dois celulares e R$ 800 roubados por dois bandidos.

Foi então que alguém colocou um cachimbo com a droga na boca dela, e veio uma sensação descrita como “uma tomada para carregar”.

Vítima de abusos do padrasto na infância, voltou a sofrer abuso na cracolândia. Para manter o vício, também chegou a se prostituir.

Loemy Marques, 24, que vive hoje na cracolândia, tentou carreira de modelo em SP (foto: Divulgação/Skin Model)
Loemy Marques, 24, que vive hoje na cracolândia, tentou carreira de modelo em SP (foto: Divulgação/Skin Model)

PROPOSTA

“Não viemos explorar a tragédia dela”, diz um produtor de TV. “O que estamos oferecendo é uma proposta de final feliz, ela vai para um hotel, para uma clínica. Mas queremos exclusividade.”

Enquanto isso, o funcionário de outra emissora se oferece para comprar um maço de cigarros para ela. Para irritação do primeiro, ela sai por alguns minutos com o homem. Quando volta, segura um Marlboro vermelho e um chocolate Diamante Negro.

Uma das equipes oferece que Loemy vá para um hotel.

“Não quero. Não consigo ficar sozinha lá”, diz. “Estou acordada há dois dias. Vou ficar acordada até apagar e depois me interno no Cratod [centro estadual de referência de álcool e outras drogas].”

Da última vez que a preparadora de modelos Debora Souza, 36, viu Loemy, já a encontrou na casa de um amigo em “estado deplorável”. “Mas não sabia que ela tinha ido parar na rua”, afirma.

Loemy passou por cursos na Skin Model, onde Debora trabalha. “Foi em meados de 2012. Ela estava crua ainda”, conta. “Mas tinha todo o potencial do mundo, uma beleza estilo anos 80.”

Debora conta que começou a receber queixas de indisciplina. “Ela ficava muito revoltada de não ser aprovada no casting [seleção] e tinha comportamentos súbitos de gritar com as pessoas”, diz. “Outra vez, gostaram dela, mas no meio da prova de roupa ela saiu para fumar e voltou com a roupa cheirando cigarro.”

Longe das passarelas, Loemy chegou a tentar se internar e voltar para o interior de Mato Grosso, onde vive a família. No fim, sempre acabava voltando à cracolândia.

No domingo (23), Loemy continua no fluxo.

Quando não está fumando crack, anda de um lado para o outro e, às vezes, abaixa-se para procurar algo no chão.

Poucos ali a conhecem, mas muitos se identificam com a história dela.

“Eu era engenheiro mecânico até um ano e meio atrás. Saí com uma prostituta, fumei uma pedra e hoje não consigo sair daqui”, diz um homem de 36 anos, ao ser questionado se a conhecia.

Apesar do 1,79 m de altura, Loemy passa despercebida no meio dos demais viciados.

Com o cachimbo na mão, não quer conversa. Enfia-se entre as dezenas de barracas onde os viciados fumam e desaparece de vista.

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