A força dos evangélicos

Como a identificação de Marina Silva com o influente eleitorado evangélico poderá ser o fator de desequilíbrio numa disputa acirrada

849_capa_home Aline Ribeiro, Ruan de Sousa Gabriel e Tiago Mali,  na Época

Vários sinais contundentes mostraram, na semana passada, como as questões morais, de cunho religioso, passaram a guiar os políticos brasileiros – com uma força que só encontra paralelo, entre as grandes democracias ocidentais, com o que ocorre hoje nas campanhas políticas nos Estados Unidos.

Um dia depois de lançar seu programa de governo, a candidata Marina Silva (PSB), hoje favorita a conquistar o Palácio do Planalto, depois de pressionada nas redes sociais pelo pastor Silas Malafaia, um dos líderes da Assembleia de Deus, voltou atrás numa série de compromissos. O primeiro dizia respeito à união civil homossexual. Marina é a favor – e reafirmou isso em vários programas de televisão ao longo da semana. Mas não queria que a união civil constasse, em seu programa de governo, com o nome de “casamento”, um sacramento religioso.

O segundo ponto dizia respeito à lei que torna a homofobia um crime, defendida na primeira versão de seu programa. Essa lei já foi rejeitada no Senado. Religiosos alegaram na ocasião que ela não dizia com clareza se dogmas pregados nos templos, sem intenção ofensiva, poderiam ser classificados como “homofobia”.

Com a atitude, Marina ganhou o aplauso dos religiosos. “Ela teve coerência. Tem coisa que o candidato promete e não dá para fugir”, diz Malafaia. “Tínhamos dificuldades para falar com ela, porque ela dava respostas para agradar a gregos e troianos”, afirma o pastor Marco Feliciano, deputado federal pelo PSC de São Paulo. Feliciano é execrado pelo movimento LGBT, por ter defendido, na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o projeto da “cura gay”. “No momento em que Marina teve de se decidir de fato, ela se colocou como uma cristã de verdade”, diz ele. Marina atribuiu o vaivém a um “erro no processo de editoração” de seu programa.

Percebendo um flanco para atacar contradições da rival, a presidente Dilma abraçou a defesa da lei contra a homobofia – embora ela tenha  recuado na decisão de distribuir material didático a favor da tolerância sexual, tachado como “kit gay” pelas lideranças evangélicas.

O recuo de Marina choca os marineiros “sonháticos”, mas, de um ponto de vista estritamente eleitoral, faz sentido. Embora conserve o título de país com o maior número de católicos do mundo, o Brasil avança com rapidez para se tornar uma nação mais evangélica. Em dez anos, os evangélicos passaram de 15,4% da população para 22,2%, um total de 42,3 milhões. Com 22% do eleitorado, somam hoje quase 27 milhões de votos.

Embora Marina Silva não seja da bancada evangélica e, em sua carreira política, tenha sempre defendido valores laicos, a maioria dos evangélicos vota nela – 43%, contra 32% de Dilma, segundo a pesquisa do Ibope divulgada na semana passada. Um outro dado da mesma pesquisa, que passou despercebido, explica ainda melhor por que é tão importante para um candidato à Presidência não se indispor contra os valores religiosos.

De forma geral, os candidatos evangélicos se opõem – com diferentes nuances de tolerância – ao casamento gay, a mudanças na lei da interrupção da gravidez e à liberação das drogas. A pesquisa do Ibope mostrou que a maior parte dos brasileiros, independentemente de religião, pensa como os evangélicos: 79% são contra o aborto; 79%, contra a liberação da maconha; e 53%, contra o casamento gay.

A mesma pesquisa revela que 75% dos brasileiros são a favor do Bolsa Família. Isso significa que, se é majoritariamente a favor de políticas sociais, a sociedade brasileira é conservadora em temas ligados a família e comportamento.

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Projeto que torna exploração sexual infantil crime hediondo é aprovado

campanha2Mariana Haubert, na Folha de S.Paulo

O plenário da Câmara aprovou nesta quarta-feira (14) o projeto de lei que torna crime hediondo explorar sexualmente crianças e adolescentes. O texto segue para sanção presidencial.

O projeto acrescenta no rol de crimes hediondos o favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança e adolescente ou de vulnerável, que são consideradas as pessoas com deficiência ou enfermidade.

Quem for condenado pela prática fica impedido de obter anistia, graça ou indulto e até de pagar fiança. O condenado tem ainda que cumprir um período maior no regime fechado para poder pleitear a progressão da pena. Se for réu primário, deve cumprir, no mínimo, 2/5 do total da pena e se for reincidente, deve cumprir 3/5 da pena antes de pedir a mudança no regime. A pena para este crime é de 4 a 10 anos de reclusão.

A pena pode ser aplicada ainda a quem facilitar a prática de exploração ou impedir que uma vítima consiga escapar do cometimento do crime. Enquadram-se neste quesito, os donos ou gerentes de bordéis em que ocorrem prostituição. Quem for flagrado praticando sexo com menores de idade que estejam se prostituindo também podem ser condenados por crime hediondo.

A lei de crimes hediondos já estabelece as penas citadas para outros dez tipos de crimes, incluindo estupro de crianças e adolescentes menores de 14 anos e pessoas vulneráveis, latrocínio, sequestro seguido de morte e o genocídio.

Para a relatora da proposta, a ex-ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário (PT-RS), o projeto não tem o objetivo de criminalizar a prostituição de pessoas adultas mas sim de proteger as crianças e adolescentes no país.

Alguns deputados cobraram da presidente Dilma Rousseff agilidade na sanção da proposta para que ela já esteja em vigor durante a Copa do Mundo, que tem início em junho.

No próximo domingo (18/5), um grupo vai realizar manifestação contra a exploração sexual infantil ao lado do Itaquerão (SP). #LevanteEssaBola

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Pai de santo é morto em suposto crime de intolerância religiosa, na Zona Norte de Manaus

Rafael da Silva Medeiros, 28, morreu depois de ser esfaqueado durante uma briga entre vizinhos no bairro Cidade Nova. Moradores de religiões diferentes mantinham desentendimento há anos

O homicídio aconteceu na noite de sábado (3), na rua 93, núcleo 11, bairro Cidade Nova, Zona Norte da capital (foto: Antônio Lima)
O homicídio aconteceu na noite de sábado (3), na rua 93, núcleo 11, bairro Cidade Nova, Zona Norte da capital (foto: Antônio Lima)

Vinicius Leal, no A Crítica

Os motivos para um homicídio ocorrido neste fim de semana em Manaus serão questionados na manhã desta segunda-feira (5), às 8h, na sede do Governo do Amazonas por representantes de entidade que defende os direitos dos povos tradicionais de matriz africana. Rafael da Silva Medeiros, 28, que era pai de santo, foi morto a facadas em crime com supostas motivações de intolerância religiosa.

Na rua 93, núcleo 11, bairro Cidade Nova, Zona Norte, na noite de sábado (3), Rafael tentou apartar uma briga entre duas vizinhas que mantinham um desentendimento por conta da escolha religiosa de cada uma. Ele acabou atingido com dois golpes de faca no pescoço e nas costas deferidos por um homem identificado como “Raizinho”, que seria filho de uma das vizinhas.

“Há mais de duas semanas essa situação estava bastante tensa. A mãe do assassino fez muitas confusões com a vizinhança. Ela é evangélica e a dona da casa onde aconteceu o assassinato é do candomblé. Ele (‘Raizinho’) estava alcoolizado e drogado, e se meteu na discussão da mãe com a vizinha. E deu nisso”, relatou Alberto Jorge, da Articulação Amazônica dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (Aratrama).

A vítima era carioca e, como de costume, segundo a polícia, estava em Manaus de férias na casa de amigos. Durante a briga, “Raizinho” estava armado e teria empurrado a vizinha do candomblé, que carregava uma criança no colo. Rafael foi acudi-la e acabou esfaqueado. “Há gravações no Whatsapp dele pedindo socorro. Esse é sim mais um caso de intolerância religiosa”, disse Alberto Jorge.

Rafael chegou a ser levado ao Hospital e Pronto Socorro Platão Araújo, na Zona Leste, mas não resistiu aos ferimentos. O caso já está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios e Sequestros (DEHS), que ainda não localizou e nem tem o nome completo de “Raizinho”. Familiares de Rafael estão vindo do Rio de Janeiro para autorizarem a liberação do corpo no Instituto Médico Legal (IML).

Sede do Governo

Conforme o representante da Aratrama, os membros da entidade se reuniram no domingo (4) e decidiram cobrar uma atitude do poder público sobre o assassinato de Rafael. “Entramos em contato com o Evandro Melo (secretário de Governo do Amazonas) e denunciamos essa situação de inoperância do Estado, de total falta de interesse e falta de resposta. É uma situação de guerra religiosa, reflexo do que acontece em todo o Brasil”, disse.

“Esse seria apenas um caso se não fosse somado aos três outros incidentes de 2012 e aos dois assassinatos de 2013. Isso foi só o grosso que pegamos”, disse Alberto. Segundo ele, ainda houve um caso de ameaça de morte por intolerância religiosa em 2011, outro de ameaça e um de agressão física em 2013 e um caso de ameaça já em 2014.

Conforme Alberto Jorge, todos os crimes são estudados e as denúncias de intolerância religiosa são enviadas à Secretaria de Segurança Pública do Amazonas e para duas secretarias da Presidência da República: a de Direitos Humanos (SDH) e a de Promoção de Política de Igualdade Racial (Seppir).

Omissão

O representante da Aratrama denuncia, ainda, a omissão do Estado brasileiro sobre crimes de intolerância religiosa. “Ele (Rafael) pediu socorro da polícia e esse socorro não chegou. É omissão do aparelho policial. O Estado tem se feito de inocente. A gente pede ajuda e não tem resposta”, disse. “O povo de matriz africana vem sofrendo e não tomam providências por conveniências políticas. Quem hoje é curral eleitoral? Os evangélicos. O Estado se diz laico, mas no fundo é teocrático”.

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Coronel Paulo Malhães é assassinado na Baixada Fluminense

PA 25/03/2014 - Coronel reformado Paulo Malhaes em depoimento para a comissao nacional da verdade, no predio do arquivo nacional. Foto Pedro Kirilos / Agencia O Globo Pedro Kirilos / Agência O Globo
PA 25/03/2014 РCoronel reformado Paulo Malhaes em depoimento para a comissao nacional da verdade, no predio do arquivo nacional. Foto Pedro Kirilos / Agencia O Globo Pedro Kirilos / Ag̻ncia O Globo

Há cerca de um mês, ele admitiu ter participado de torturas na ditadura. Nadine Borges, integrante da Comissão Estadual da Verdade e responsável por tomar o depoimento de Malhães, cobrou uma investigação célere e que não pode ser tratado como crime comum

Publicado em O Globo

RIO – O coronel da reserva Paulo Malhães, que tomou os noticiários ao contar ao GLOBO como funcionava o centro de tortura clandestino da ditadura em Petrópolis e também revelou o destino do corpo do ex-deputado Rubens Paiva, foi encontrado morto na manhã desta sexta-feira dentro de sua casa, num sítio do bairro Marapicu, na zona rural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, informou o jornal “Extra”.

O militar da reserva teve atuação de destaque na repressão política durante a ditadura militar e, no mês passado, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, assumiu ter participado de torturas, mortes e desaparecimentos de presos políticos.

Segundo Carla, uma das filhas de Malhães, três pessoas entraram na casa do coronel reformado na tarde de quinta-feira, prenderam a mulher dele num aposento e mataram o militar por sufocamento. Na ação, o grupo levou todas as armas que ele tinha em casa.

Segundo informaram investigadores da Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense, que acabam de realizar uma perícia no local, Malhães ficou em poder dos bandidos de 13h às 22h.

– Eu fiquei amarrada e trancada no quarto, enquanto os bandidos reviravam a casa toda em busca de armas e munição. Não era segredo que ele era colecionador de armas – disse a viúva Cristina Batista Malhães, enquanto era conduzida para a Divisão de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) para prestar depoimento

De acordo com apuração do jornal, o caseiro também foi conduzido para a delegacia. Ele ficou trancado em outro cômoda da casa, amarrado. Segundo disse o delegado Fábio Salvadoretti, da DHBF, não havia marcas de tiros no corpo de Paulo Malhães, apenas sinais de asfixia.

– A princípio, ele foi morto por asfixia. O corpo estava deitado no chão do quarto, de bruços, com o rosto prensado a um travesseiro. Ao que tudo indica ele foi morto com a obstrução das vias aéreas.

Nadine Borges, integrante da Comissão Estadual da Verdade e responsável por tomar o depoimento de Malhães há poucas semanas, cobrou uma investigação célere do assassinato. Segundo ela, este não pode ser tratado como um crime comum.

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