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Eu, Hegel e o Espírito Santo. Entrevista com Slavoj Žižek

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Publicado no IHU

Em certo ponto, Slavoj Žižek faz uma pausa, como se quisesse recuperar o fôlego. Ao contrário, fixa seriamente o interlocutor e intima: “Nunca subestime Chaplin“. Sobre si mesmo, o filósofo esloveno quase se limita a dizer “nasceu, escreve livros, morrerá”. O último evento é inevitável; o primeiro ocorreu em Lubliana, em 1949. Com a frenética atividade que se desenrola em meio a isso, é difícil manter o ritmo.

A reportagem é de Alessandro Zaccuri, publicada no jornal Avvenire, dos bispos italianos, 03-12-2013. A tradução é deMoisés Sbardelotto.

Nestes dias, o autor está na Itália, onde recém-chegaram às livrarias o desafiadorLa visione di parallasse (il Melangolo, 564 páginas), a nova edição do não menos encorpado In difesa delle cause perse(Ponte alle Grazie, 638 páginas) e, finalmente, a primeira parte daquele que o próprio Žižek considera como o seu estudo mais importante, uma atualização do pensamento de Hegel intitulado Meno di niente (Ponte alle Grazie, 700 páginas).

“Eu me considero um materialista teológico – afirma –, mas as minhas convicções não têm nada a ver com as de ateus difíceis como Christopher Hitchens ou Richard Dawkins. Ao contrário, estou convencido de que as questões postas pela teologia são imensamente importantes. Como acontece na música, aliás”.

Eis a entrevista.

Na música?

Sim, claro. Precisamos nos livrar do preconceito de que o pensamento seria uma prerrogativa da filosofia, e a arte se limitaria a expressar emoções. A arte também pensa, mas nos termos que lhe são próprios. Tomemos um compositor como Olivier Messiaen. Grande musicista, grande teólogo. As suas Visions de l’Amen são uma obra de extrema intensidade corpórea e, ao mesmo tempo, de absoluta profundidade espiritual. Messiaen representa para a música o que Krzysztof Kieślowski representa para o cinema.

Ambos são artistas religiosos.

De fato, é por isso que me interessam. Assim como me interessa Paul Claudel, o poeta que mais do que ninguém foi ao centro do mistério cristão. A questão, para ele, não é se o ser humano pode ou não confiar em Deus, mas sim a descoberta de que Deus mesmo, de algum modo, é impotente sem os seres humanos. Tudo gira em torno do escândalo quase monstruoso constituído pelo sacrifício de Cristo. Aliás, você sabe qual é a primeira verdadeira crítica da ideologia?

Eu diria Marx, mas com certeza está errado.

Muito errado. A Bíblia, o Livro de Jó. Deus em pessoa rejeita as leituras ideológicas da dor sugeridas pelos amigos do homem sofredor. E também o discurso final, no qual Deus se dirige a  perguntando-lhe onde ele estava enquanto se desdobrava a obra da Criação, não tem o valor de requisitória arrogante que geralmente lhe é atribuído. A minha interpretação de referência é a de Chesterton, que entrevia nessas palavras uma tentativa de mitigar as penas de . Vê?, lhe diz Deus, todo o mundo sofre, no cosmos se esconde um caos que até o Todo-Poderoso custa a governar.

Desculpe-me, mas você não seria um marxista?

Comunista, mas sem nenhuma nostalgia pelo que foi o comunismo no século XX. Para mim, o primeiro ato de libertação na história da humanidade está na afirmação de Paulo na Carta aos Gálatas: não há mais judeu nem grego, nem escravo nem livre. Hoje está na moda criticar Paulo. Acusam-no de ser o Lenin do cristianismo, o normalizador que oculta a pureza original do Evangelho. Tudo bobagem. O cristianismo nunca foi uma utopia, sempre teve uma concreta dimensão comunitária. Em sentido igualitário, porque essa é a dimensão do Espírito Santo. Mas a Igreja nunca foi uma sociedade de perfeitos. No máximo, é o lugar onde as desigualdades não são mais aceitas. Um espaço socialmente organizado, mas distinto do Estado. Sem organização, aliás, não existe liberdade.

Em que sentido?

Agora, a esquerda ocidental está enfeitiçada pelo mito das pequenas comunidades em escala local. Mas tudo isso, para funcionar, precisa de um poder central bem reconhecível, que garanta eficiência e segurança. Se faltam esses requisitos, a liberdade é apenas uma ilusão.

Hegel tem alguma coisa a ver com isso?

Hoje, Hegel é mais atual do que Marx. Para os parâmetros atuais, o proletariado que encontramos no Capital é quase um privilegiado. Ele se mata trabalhando, eu concordo, mas ao menos tem um posto fixo, está inserido em uma hierarquia social que prevê um mínimo de mobilidade. É em Hegel que encontramos a reflexão sobre a plebe, isto é, sobre aquela parte da humanidade excluída de todo benefício. Não sei se nos damos conta, mas no imaginário popular está cada vez mais difundido o dispositivo da cúpula: uma barreira intransponível, que separa os eleitos dos excluídos. Ele se encontra em Stephen King, nos episódios de Os Simpsons, em um filme nem tão bem sucedido como Elysium. Mais do que qualquer outra coisa, ele se encontra na nossa realidade, só que não o percebemos.

Você se considera um filósofo pós-moderno?

Mas nem sonhando. Os pós-modernistas são aqueles que reduzem tudo à análise formal, a reconhecimento histórico. Eu me interesso por uma filosofia que volte a se fazer as perguntas fundamentais.

Quais?

Acima de tudo, a reflexão sobre os bens comuns, que estava na origem do pensamento de Marx. Hoje, a fronteira é ainda maior: desemprego, proteção da natureza, desigualdades sociais, manipulações genéticas. Não é por acaso que o Papa Francisco aborda essas questões cada vez mais frequentemente. Você sabe a quais conclusões a CIAchegou quando começou a estudar seriamente a América Latina?

Não, me diga.

Esqueçam Marx, disseram. Quem vai dar voz aos pobres é a Igreja.

O cristianismo como gnosticismo de doutrina e informação

ceuluzCaio Fábio

Nunca consegui entender que sentimento era aquele que fazia os homens declararem que outros humanos estavam no inferno porque não são da sua religião ou da sua cultura, ou mesmo por nunca terem ouvido uma dada informação gnosticamente salvadora.

E quando você vê uma certa alegria vitoriosa na cara da criatura que faz a condenação?…

Provavelmente trate-se da mais profunda expressão de sadismo, da mais horrenda forma de ânsia de poder, da mais desumana manifestação de arrogância, e da mais satânica de todas as afirmações auto-glorificantes!

Dizer que alguém foi para o inferno porque não conheceu uma certa informação ou doutrinação é a maior expressão do mais DOGMÁTICO GNOSTICISMO!

Sim, é salvação pela iluminação de certo conhecimento objetivo, com nome, endereço, geografia, histórica, moral, cívica, e um bocado de outras coisas! …

Então alguém diz: Mas é pela fé! Não pelo Conhecimento!

Claro que é! Mas se a fé tem que ser produzida por uma Informação histórica, então essa fé é apenas conhecimento, ou seja, gnosis; e, portanto, sendo doutrina que ilumina, é gnosticismo, e não fé.

A fé precede a Informação, embora a fé venha pelo ouvir; e o ouvir a Palavra de Deus!

E como pode ser então?

Ora, a Palavra de Deus não é uma Informação apenas. Informação ela até pode ser, e é também, mas numa escala infinitamente inferior ao que ela é de fato. Sim, pois a Palavra de Deus é Deus, é Pessoa, é Amor, é tudo o que Deus é.

Assim como tudo o que existe, existe da e pela Palavra, do mesmo modo tudo o mais é Palavra de Deus, e somente Deus pode dizer o que não é Palavra Dele.

Eu vejo a Palavra muito mais do que a ouço. Sim, pois ela sempre é mais encarnação do que explanação.

Foi tendo essa noção de Palavra que Paulo usou o Salmo 19 em Romanos 10 ao fazer a Natureza/Criação [salmo 19] proclamar a Palavra de Deus salvadora até aos confins do mundo. De tal modo que até os sem informação não ficariam sem noção.

Ora, quem tem a informação tem que confessar a fé com a boca, crendo no coração, conforme Paulo declarou. Mas quem tem a Palavra sem a informação, esse manifesta a sua fé pelas suas obras, posto que ele não tenha a informação que o faça dar explicação à força de suas certezas imponderáveis e inexplicáveis. Então, por suas obras e prudências e manifestações de amor, ele declara a sua fé, conforme Tiago declarou.

Jesus deixou claro em Lucas 13, Mateus 7 e 25, por exemplo, que os que recebem a informação e o ensino, mas que existem apenas da crença acerca de que ensino e informação são as garantias — ficariam de fora.

Em Mateus 25 Ele diz que foram os que não dispunham de qualquer simbolização “de Jesus”, que fizeram o bem sem saber ou o associarem a Ele, esses eram os que seriam os benditos, pois Ele disse: “A mim o fizeste”. Não que não haja muitos e muitos benditos que saibam da informação, e, por isto, sinceramente, façam o bem segundo o Evangelho como o mais consciente de todos os privilégios.

Todavia, o que se pode dizer é que tanto nas Parábolas, quanto também na Escatologia de Jesus, quem mais corre perigo é quem diz ter a Informação, a Gnosis salvadora como doutrina, a certeza de serem “os filhos do reino”.

É impossível ler-se com honestidade humana os quatro evangelhos, observando os modos de Jesus, os tratos de Jesus, e os Seus ensinos, todos coerentes com Seus modos, jeitos e tratos humanos, e não admitir que digo a verdade.

Ora, chegamos de onde partimos: O que pode gerar tamanha maldade humana tão perceptível no prazer mórbido confesso na sentença ao inferno para o próximo diferente de nós?

O pecado de satanás foi de natureza soberba, gnóstica e narcisística. O poder como conhecimento superior ou qualquer coisa superior, produz tudo o que em satanás o fez tornar-se diabo.

Ora, por isto o conhecimento, a gnosis da fé em Jesus, não é uma Informação primariamente, mas uma formação, uma boa terra que antecede a semente/informação.

O conhecimento salvador decorre da experiência com o amor de Deus expresso como fruto de amor, alegria, paz, bondade, benignidade, longanimidade, mansidão e auto-controle; coisas essas contra as quais não Lei e, digo a você, nem Doutrina alguma.

Um dia ou naquele Dia você me entenderá!

Nele, com toda a eternidade como testemunho no amor,

fonte: site do Caio Fábio

Papa Francisco pode nomear uma mulher cardeal

foto: Alberto Pizzoli/AFP

foto: Alberto Pizzoli/AFP

Publicado no El País [via UOL]

Não se trata de uma brincadeira. É algo que passou pela cabeça do papa Francisco: nomear uma mulher cardeal. Quem o conhece, dentro e fora da Companhia, antes de chegar à cátedra de Pedro, afirma que o primeiro papa jesuíta da igreja está destinado a surpreender a cada dia, não só com suas palavras mas também, e sobretudo, com seus gestos. E ele o está fazendo nos primeiros seis meses de pontificado.

Os que pensam que Francisco, com sua simplicidade de pároco de interior, sua linguagem plana e seu sorriso sempre nos lábios, seja um simples ou um ingênuo se equivocam. Este papa, que não parece papa, chegou a Roma da periferia da igreja com um programa bem concreto: mudar não só o aparelho enferrujado da máquina eclesiástica como também ressuscitar o cristianismo das origens.

O simbolismo de seus gestos começou desde que apareceu na sacada central da Basílica de São Pedro, vestido de branco e dizendo-se “bispo”, pedindo que as pessoas na praça o abençoassem. Não perdeu desde então um minuto para semear de gestos inesperados seus primeiros meses de pontificado, para espanto de muitos, dentro e fora da igreja.

E o continuará fazendo. Por exemplo, com esse plano de tornar cardeal uma mulher. Ele sabe que o tema feminino dentro da igreja não está resolvido e não pode esperar. Ele o deixou claro com duas frases lapidares em sua última entrevista a “Civiltá Católica”: “A igreja não pode ser ela mesma sem a mulher”. Não é só uma afirmação. É uma acusação. A frase também pode ser lida assim: “A igreja ainda não está completa porque nela falta a mulher”.

Como introduzir na igreja essa peça essencial, sem a qual a igreja “não pode ser ela mesma”? Foi o que disse na mesma entrevista: “Precisamos de uma teologia profunda da mulher”.
E essa teologia, o papa dá a entender, não pode ser construída no laboratório do Vaticano, apadrinhada pelo poder. Está sendo construída pelas mulheres dentro da igreja: “A mulher está formulando construções profundas que devemos enfrentar”, diz.

Francisco quer resolver esse problema durante seu pontificado porque está convencido de que a igreja hoje está manca e coxa sem a mulher no lugar que lhe corresponderia, que seria nem mais nem menos o que já teve no início do cristianismo, onde exerceu um enorme protagonismo. Pelo menos até que Paulo cunhou sua teologia da cruz e hierarquizou e masculinizou a igreja.

O papa sabe que para levar a cabo a revolução que tem em mente precisa “escutar” a igreja, não só a de cima, mas também a de baixo, onde estão se realizando, por parte da mulher, “construções profundas”.

Poderia, entretanto, abrir caminho ele mesmo com alguns gestos que obrigariam a colocar com urgência o tema da mulher sobre o tapete, ou, se se preferir, sobre “o altar”. E um desses gestos seria nomear uma mulher cardeal. É impossível? Não. Hoje, segundo o direito canônico, pode haver cardeais que não sejam sacerdotes, basta que sejam diáconos.

Mas, alguém poderia dizer, hoje a mulher ainda não pode ser diaconisa, como o foi há 800 anos e sobretudo nas primeiras comunidades cristãs. Pois essa é também uma das reformas que Francisco tem na cabeça. Não se trata de um dogma. A mulher poderia ser admitida ao diaconato amanhã mesmo.

Como escreveu Phyllis Zagano, da Universidade de Loyola em Chicago, a maior especialista da igreja nesse tema, “o diaconato feminino não é uma ideia para o futuro. É um tema do presente, para hoje”. E conta que teria abordado o tema com o cardeal Ratzinger, antes de ser papa, que lhe respondeu: “É algo em estudo”. Para Bento 16 ficou na ideia, mas o papa Francisco poderia acelerar o processo. Hoje, as igrejas Apostólica Armênia e Ortodoxa Grega, ambas unidas a Roma, já contam com diaconisas.

Chegada a mulher ao diaconato, o papa já pode, sem mudar o atual direito canônico, tornar uma mulher cardeal com o título de diaconisa. Mais ainda, bastaria mudar a atual norma para permitir que um laico, e portanto uma mulher, possa ser eleita cardeal, já que houve pelo menos dois casos na igreja em que foram nomeados cardeais dois laicos: o duque de Lerma em 1618 e Teodolfo Mertel em 1858.

O cardinalato não pressupõe a consagração presbiterial nem episcopal. Os cardeais são conselheiros do papa, e sua função principal é eleger o novo sucessor de Pedro. Há algum inconveniente em que uma mulher possa dar seu voto no silêncio do conclave? Seu voto valeria menos que o de um homem?

Um jesuíta me dizia: “Conhecendo este papa, não lhe tremeria a mão tornando cardeal uma mulher, e até lhe encantaria ser o primeiro papa que permitisse que a mulher pudesse participar da eleição de um novo papa”.

Quando Francisco, em sua longa entrevista, insiste em que não quer fazer as mudanças precipitadamente e que prefere “escutar” a igreja, é porque essas mudanças, algumas surpreendentes, já estão em sua mente, talvez bem enumeradas. Quer apenas apresentá-las com o aval não só da hierarquia, como do povo de Deus.

Com este papa, como dizia Federico Fellini, “la nave va”. Com Francisco, os pilares da igreja começam a se mover. E muitos começam a tremer. De medo. Dentro, e não fora da igreja. Fora começam a ressoar as notas do estupor e até da incredulidade. “Com este papa quase está me dando vontade de me tornar católica”, escreveu ontem uma leitora neste jornal.

Algo se move, e talvez irreversivelmente na igreja, justamente no momento em que no mundo laico e político, no campo da modernidade, os relógios parecem ter parado, todos ao mesmo tempo.

tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Juíza norte-americana muda nome de criança batizada como Messias

"A palavra Messiah é um título e é um título que só foi recebido por uma pessoa e essa pessoa é Jesus Cristo", disse a juíza.

“A palavra Messiah é um título e é um título que só foi recebido por uma pessoa e essa pessoa é Jesus Cristo”, disse a juíza.

Publicado originalmente por BBC News

Uma juíza americana ordenou que o primeiro nome de um bebê fosse mudado de Messiah (Messias, em inglês) para Martin, argumentando que o único e verdadeiro messias é Jesus Cristo.

Os pais do bebê de sete meses Messias DeShawn Martin tinham ido ao Tribunal no estado americano do Tennessee para tratar da mudança do sobrenome da criança.

Mas a magistrada da vara de apoio à criança, Lu Ann Ballew, ordenou que o primeiro nome também mudasse, segundo a reportagem da emissora local WBIR-TV.

De acordo com a administração do departamento de Segurança Social, somente no ano passado mais de setecentos bebês receberam o nome Messiah em todo o território americano.

Para o cristianismo, Jesus é Messias, enquanto no Judaísmo o termo significa o salvador esperado dos judeus.

Várias definições de dicionários apontam para qualquer um visto como salvador ou libertador.

“Nenhuma escolha”

A juíza do Condado de Cocke disse que o nome Messias poderia causar dificuldades para o menino se ele crescer em uma área predominantemente cristã:

“(O nome) poderia colocá-lo em conflitos com um monte de pessoas e, ao nascer, ele não teve escolha sobre qual seria seu nome”, disse a juíza Ballew.

A juíza pôde fazer a alteração porque os pais já estavam na vara de apoio à criança para serem ouvidos em uma disputa sobre qual deveria ser o sobrenome de seu filho.

Ela determinou que o bebê teria seu nome mudado para Martin DeShawn McCullough, que incluiu o sobrenome de ambos os pais.

“A palavra Messiah é um título e é um título que só foi recebido por uma pessoa e essa pessoa é Jesus Cristo”, disse.

A mãe do bebê, Jaleesa Martin, disse à reportagem da WBIR que iria apelar contra a ordem da juíza.

“Não acho que um juiz possa mudar o nome do meu bebê por causa de suas crenças religiosas”, disse ela.

A mãe disse que escolheu o nome não por suas conotações religiosas, mas porque ela gostava de como soava com os nomes de seus outros dois filhos, Micah e Mason.

O nome Messiah está na posição 387 na lista dos nomes de bebês mais populares nos EUA em 2012, contra 633 em 2011.

dica do Gustavo K-fé

‘No cristianismo, amor não é mero afeto, mas a ação que nos faz existir’

Cena do filme "Amor Pleno", dirigido por Terrence Malick e estrelado por Ben Affleck, Olga Kurylenko e Rachel McAdams.

Cena do filme “Amor Pleno”, dirigido por Terrence Malick e estrelado por Ben Affleck, Olga Kurylenko e Rachel McAdams.

título original: A noite escura de Terrence Malick

Luiz Felipe Pondé, na Folha de S.Paulo

“Amor Pleno”, novo filme de Terrence Malick, é um exemplo do que o místico espanhol do século 16 San Juan de la Cruz chamou de “noite escura da alma”. Não é à toa que o padre (Javier Bardem) tem um discurso muito colado ao do místico espanhol. Ele é o personagem central da narrativa. Como sempre, sem teologia e filosofia, não se entende Terrence Malick.

Por consequência, o filme está próximo do texto bíblico “Cântico dos Cânticos”, peça fundamental da literatura mística ocidental, influência marcante no místico espanhol: “Onde Te escondestes que não Te encontro, meu Deus?”. No “Cânticos”, o amor entre Deus e a humanidade é representado pelo amor entre um homem e uma mulher, suas agonias, prazeres e ausências. “A Noite Escura da Alma” é, como “Cânticos”, um texto erótico.

“O amor de Cristo pela sua igreja é como o amor de um homem e uma mulher”, diz Bardem. Eis a chave para entendermos o poema místico que é “Amor Pleno”. No cristianismo, amor não é mero afeto, mas a ação que nos faz existir. Sem ele, a vida esvazia.

Nesta chave, o amor entre Ben Affleck e “suas” duas mulheres está também “sob” o véu da noite escura da alma, assim como está o amor do padre por Deus e o mundo. Ele é incapaz de amar, elas sofrem por isso.

O filme encerra com a imagem do Mont Saint-Michel, na França, local onde o casal vai no começo de seu amor. Esta abadia é símbolo da vida monástica medieval. Os filósofos vitorinos (Hugo e Ricardo da Abadia de São Vitor, século 12), em sua teoria sobre o amor, entendiam que o amor, posteriormente dito romântico, era da mesma substância do amor de Deus.

Assim como é difícil para nós mantermos o amor por Deus, é difícil sustentarmos o amor entre um homem e uma mulher. Nossa natureza “caída” não suporta o “peso” do amor. Este “peso” assume várias formas, entre elas, o compromisso com ele, principalmente no vazio que o cotidiano instaura em nosso coração e corpo sedentos.

Nossa natureza tende “para baixo”, para o tédio e a insatisfação, como diz a mulher francesa no filme quando se refere às duas mulheres que existe nela: uma tende para o amor, para o alto, a outra para baixo, para a terra.

Não é à toa que ela, a francesa, após uma longa conversa com a amiga italiana, niilista e entediada, chega ao adultério, símbolo máximo do tédio e da degradação do amor. Quando nos distanciamos do amor, nos dissipamos num desejo que nos leva ao nada.

Mas, o que vem a ser esta “noite escura da alma”? Quando falamos de mística, pensamos normalmente em êxtase, em “gozo místico”. Mas, a “noite escura” é o momento em que a alma, conhecedora de Deus, deixa de senti-lo no seu cotidiano, o que a leva à solidão, ao desespero e à dúvida. Uma verdadeira mística da agonia.

Neste momento, o padre lembra a máxima do Evangelho: “Você deve amar”, portanto, o amor não é mero sentimento, mas sim uma ação, como é dito no filme. Agir com amor, mesmo que não sintamos o amor. Para ele, continuar cuidando dos doentes, para o casal, continuar a cuidar um do outro, porque longe do amor, somos todos doentes, umas criaturas da noite que vagam numa escuridão sem fim. No escuro, não é só o outro que desaparece, mas nós também.

O padre chega mesmo a lamentar o fato que, em seu ministério, ele deve “fingir” sentimentos que não tem, assim como um casal deve continuar a amar (esta é a condição do amor como “ação” e não mero sentimento) mesmo quando a paixão desaparece.

Quando nos sentimos longe do amor (de Deus), vemos nosso nada, isso deixa nossa alma inquieta, sedenta. Como é dito em “Árvore da Vida”, filme anterior de Malick, a vida sem amor “flashes by”, apenas passa. Esta é a chave para passarmos do “Árvore da Vida” ao “Amor Pleno”. A responsabilidade dos que “amam menos”, como diz o padre, se referindo a ele e a Ben Affleck, é maior, porque são eles que enxergam melhor o vazio no coração da vida.

Os ecos da “noite escura” atingem toda a existência, para além da teologia, adentrando a solidão nossa de cada dia. O drama maior não é não ser amado, mas ser incapaz de amar.