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Tornado em Oklahoma: John Piper, Papa Francisco e a ateia

No início de 2012, John Piper cunhou uma frase que circulou bastante nas redes sociais: “Uma das maiores utilidades do Twitter e do Facebook será provar no Último Dia que a falta de oração não era por falta de tempo”. O conferencista e escritor costuma usar as redes para espalhar suas convicções e também para alfinetar gente cujo pensamento é diferente dos seus, como no caso do celebérrimo “farewell Rob Bell”.

Com quase 500 mil seguidores no Twitter, Piper deu uma bola fora no microblog após o tornado que devastou Oklahoma. Em vez de consolar as famílias, ele tuitou um trecho do primeiro capítulo do livro de Jó: “Seus filhos e suas filhas estavam num banquete, comendo e bebendo vinho, quando, de repente, um vento muito forte atingiu a casa, que desabou, e todos morreram”.

tuitejpA repercussão foi tão negativa que ele apagou o tuíte e tentou se explicar (em vão) em outro post. Um pouco mais à frente nas Escrituras, texto bíblico adverte: “A palavra proferida no tempo certo é como frutas de ouro incrustadas numa escultura de prata” (Provérbios 25.11 -NVI). #dica

Postura bem diferente teve o Papa Francisco. Ele também usou o Twitter, no entanto o fez para manifestar solidariedade às pessoas atingidas pelo tornado: “Uno-me a dor das famílias que perderam seus entes queridos, muitos deles crianças, no tornado em Oklahoma. Oremos por eles”, escreveu o Papa em sua mensagem em inglês e espanhol.

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Um âncora da CNN também protagonizou um momento constrangedor durante a cobertura da tragédia. No final da entrevista com uma sobrevivente da cidade de Moore, Wolf Blitzer perguntou se ela agradecia a Deus pela decisão correta tomada numa fração de segundo e que a livrou junto com a filhinha de 19 meses. Meio sem graça, Rebecca Vitsmun respondeu que era ateia. E completou: “Nós estamos aqui, e eu não culpo ninguém por agradecer ao Senhor”. Pano rápido.

dica do Nelson Costa Jr.

A faxina do papa Francisco

As tramas e os interesses materiais da Cúria são chinfrins. Superfaturaram até um presépio da praça de São Pedro. Estendem-se sobre obras, eventos, verbas hospitalares, orçamentos de escolas, viagens, mordomias e proteções. 

D. Cláudio (à dir.) durante apresentação do papa Francisco, no Vaticano foto: Valdrin Xhemaj/Efe

Foto: Valdrin Xhemaj/Efe

Escrito por Elio Gaspari na Folha de São Paulo.

O papa Francisco assumiu três reinados. Um, espiritual, alcança 1,2 bilhão de pessoas. Outro relaciona-se com a estrutura mundial da Igreja, com cerca de 3.000 bispos e um milhão de padres e religiosas. Finalmente, vem o Vaticano, com a Cúria Romana.

Certa vez perguntaram a João 23 quantas pessoas trabalhavam na Cúria, e ele disse: “A metade”. São 3.000 pessoas, respondendo a uma dezena de cardeais e a centenas de monsenhores. Apesar da pompa e da fama, a receita da Cúria Romana (cerca de R$ 700 milhões) é menor que a da Prefeitura de Nova Iguaçu (R$ 1,1 bilhão). Ela tem um braço financeiro no Banco do Vaticano, cujo ativo (R$ 16 bilhões) o coloca como um tamborete diante do Itaú (R$ 1 trilhão). Sua força está no poder que irradia.

Os papas mantêm imperial distância em relação a esses negócios, delegando-os a colaboradores próximos. Ao tempo de João Paulo 2º, o monsenhor poderoso na Cúria era seu secretário, Stanislaw Dziwisz, atual arcebispo de Cracóvia. Com Bento 16, veio o monsenhor Georg Gänswein, apelidado de “George Clooney do Vaticano”. Em torno do papa circulam questões espirituais e iniciativas diplomáticas, mas frequentemente ele se vê atropelado por roubalheiras e intrigas municipais numa corte onde o poder dos cardeais vem de conexões típicas da política italiana, a do “bunga-bunga” Berlusconi.

Pela essência espiritual da Igreja Católica e pelo caráter absolutista de sua monarquia, tudo o que acontece no mundo acaba naquilo que se costuma considerar a “crise da Igreja”. Se o arcebispo de Boston ou o de alguma diocese brasileira protegia pedófilos, o malfeito vai para a conta dessa crise.

Se o contínuo do prefeito de Nova Iguaçu furtar papéis de sua mesa, isso talvez não chegue a ser notícia nem sequer nos jornais do Rio de Janeiro. Quando o mordomo de Bento 16 varejou sua mesa, o que apareceu de mais estarrecedor foram as queixas do monsenhor Carlo Maria Viganó, secretário-geral da administração da Santa Sé. Por trás da campanha contra o padre estava o dedo do secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone. Pela qualidade e pelo montante envolvido, a irregularidade era um amendoim se comparada ao escândalo dos Legionários de Cristo do padre Marcial Maciel, quindim da plutocracia mexicana e de cardeais sobre os quais aspergia doações, um pedófilo promíscuo, que deixou seis filhos. Sua punição por Bento 16 foi severa, mas poderia também ter sido exemplar se tivesse exposto o exemplo, expondo suas relações em Roma. Bolas como essa estão quicando para o papa Francisco chutar.

Os cardeais italianos que vivem na política da Santa Sé são constrangedoramente municipais. Angelo Sodano, o poderoso secretário de Estado de João Paulo 2º, levou um ano para desocupar o gabinete quando Bento 16 substituiu-o por Bertone, que, por sua vez não fazia seu serviço. Os chefes da segurança do pontífice movem-se com um desembaraço sem similar nas democracias europeias.

As tramas e os interesses materiais da Cúria são chinfrins. Superfaturaram até um presépio da praça de São Pedro. Estendem-se sobre obras, eventos, verbas hospitalares, orçamentos de escolas, viagens, mordomias e proteções. Para limpar Roma, basta jogar detergente.

 

Ativismo autoral

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Marina Silva

Entra em cena a militância 2.0, que está ampliando a democracia no mundo contemporâneo. Tenho falado sobre esse assunto para públicos diversos e noto que as pessoas ligadas à estrutura política institucional têm mais dificuldade para entender o que está acontecendo. Eis porque caracterizo este como um fenômeno “de borda”, pois o lugar que ocupa na cena pública é ao redor do centro.

Nestes dias, porém, a borda invadiu o centro. Primeiro, com a chegada ao Senado de mais de 1 milhão e meio de assinaturas reivindicando o impeachment do presidente recém-eleito da Casa. Segundo, com a visita ao Brasil e a audiência na Câmara da cubana Yoani Sánchez, cujo blog desde Cuba mostra ao mundo suas críticas ao regime político de seu país.

A reação dos que ocupam o centro da política convencional revela uma falta de entendimento que resulta em grave falta de coerência quanto à defesa dos direitos humanos e da liberdade de expressão. No caso das assinaturas contra o presidente do Senado, a falsa indiferença cheia de temor mostra que os dirigentes do Legislativo sabem que estão “mal na foto”, mas desprezam os esforços cidadãos de ampliar a democracia e de criar novas formas de a população influir na política e nas instituições.

O caso da blogueira cubana é mais grave: foi acionada uma campanha difamatória, com atos públicos de rejeição e –ato gravíssimo– impedimentos à sua liberdade de expressão, em que um grupo usou o ambiente democrático para reduzir a própria democracia. O irônico é que o Brasil, hoje chamado de “imperialista” nas ruas da Bolívia, do Peru e de demais vizinhos latino-americanos, parece esquivar-se do dever de qualificar sua democracia, duramente conquistada com a defesa firme da liberdade e dos direitos humanos, também em outros países.

Mas o que chama a atenção é a quebra da estagnação da política convencional feita pelos que espalham sua ação numa rede ampla, com recursos digitais ao alcance de qualquer um: um blog, uma coleta de assinaturas. Não foram pautados por governos, partidos, ONGs ou sindicatos. Começaram sozinhos, sendo autores e mobilizadores de sua proposta e ação.

É claro que o sucesso tem muitos pais; muita gente ligada a diversos organismos institucionais quer, hoje, “dar uma força” a essas e outras iniciativas. Isso, entretanto, só mostra que estão a reboque da nova força que emerge no mundo. Tudo bem, é melhor que tentem segui-la, em vez de impedi-la. Para usar uma saudação à moda antiga: vida longa ao ativismo autoral.

O grande desafio para essa nova forma de prospectar meios atualizados de realização da democracia é transitar do autoral para o coautoral, na defesa dos interesses coletivos, sem o que não há como realizar nenhuma transformação.

fonte: Folha de S.Paulo

As velhas baianas somem da passarela

A ala de baianas da Imperatriz Leopoldinense no carnaval 2008, Rio de Janeiro.

A ala de baianas da Imperatriz Leopoldinense no carnaval 2008, Rio de Janeiro.

 

Elas estão sendo arrancadas das fileiras de suas escolas por igrejas evangélicas, que demonizam o samba e o carnaval

Luiz Antonio Simas, em O Globo

Em um samba belíssimo, que embalou o carnaval de 1984 da Unidos de Vila Isabel, Martinho da Vila fala dos sonhos da velha baiana, “que foi passista/brincou em ala/dizem que foi o grande amor do mestre-sala”.

Poucos versos abordam com mais felicidade a ideia da escola de samba como uma instituição comunitária, forjadora de elos entre segmentos populares que, à margem das benesses do poder instituído, inventaram mundos e, desta maneira, se apropriaram da vida e produziram cultura. A moça passista, que desfilou como componente de ala, chegou ao final da trajetória ungida baiana, matriarca do samba e de sua gente simples.

Ocorre hoje, porém, um problema da maior gravidade nas escolas de samba, amplamente comentado no meio e, infelizmente, pouco repercutido na imprensa: a velha baiana corre o risco de desaparecer, arrancada das fileiras de sua escola pela conversão às igrejas evangélicas que, cada vez mais fortes, demonizam o samba, o carnaval e suas práticas.

O problema atinge, sobretudo, as escolas mais pobres, que contam basicamente com os componentes das próprias comunidades para fazer o carnaval. São inúmeros os casos de passistas, ritmistas e, sobretudo, baianas, que abandonaram os desfiles atendendo a determinações de pastores. Diversas escolas de pequeno porte já entram na avenida perdendo pontos, pois o regulamento dos desfiles exige um número mínimo de baianas para o cortejo. Onde elas estão? Nas igrejas, ouvindo pregações apocalípticas contra a festa.

Atribuindo ao carnaval um perfil maligno, fundamentando suas críticas em uma arraigada noção de pecado e em uma vaga ideia de redenção, estes líderes religiosos retiram do ambiente das escolas personagens que, até então, tinham ali construído seus elos comunitários mais bonitos. É pecado sambar?

É evidente que tal prática se inscreve numa disputa pelo mercado da fé, cujo motor é o combate pelo maior número possível de fiéis. É óbvio, também, que as escolas de samba têm fortes raízes fincadas nas religiosidades afro-ameríndias, notoriamente na Umbanda e no Candomblé. Sabemos, por exemplo, que algumas baterias de grandes escolas desenvolveram seus toques característicos a partir dos ritmos consagrados aos orixás. A guerra aberta às escolas de samba deve ser compreendida, portanto, em um panorama mais amplo: é um capítulo da guerra santa travada por fundamentalistas cristãos contra as práticas culturais e religiosas dos descendentes de africanos no Brasil.

O efeito é perverso. Ao construir um discurso de salvação, alicerçado em promessas de tempos melhores, os fundamentalistas da fé buscam matar exatamente o que, durante muito tempo, deu a estas pessoas a noção de pertencimento. Não basta, para os arautos do fanatismo, construir uma nova referencia; é necessário matar o que veio antes, arrasar a terra, negar o outro, destruir a tradição. Conhecemos este filme e o final não é feliz.

Resta botar a boca no trombone e torcer para que no peito da velha baiana do samba do Martinho, aquela que cresceu, amou o mestre-sala e envelheceu dentro de sua escola, o arrepio do surdo de marcação, a harmonia do cavaco e os desenhos dos tamborins superem as trombetas da intolerância. Afinal de contas, não é pecado sambar e celebrar a vida.

Luiz Antonio Simas é professor de História

dica do João Marcos

Fotógrafo cria cenas surreais de animais silvestres em mercados

Agan Harahap fotografou animais em três zoológicos de Cingapura. Imagens foram mescladas com fotografias de supermercados.

Guilherme Tosetto, no G1

Imagens inusitadas de animais silvestres dentro de mercados, próximos a gôndolas de frutas e bancas de carne e peixe fazem parte do último trabalho do fotógrafo indonésio Agan Harahap. As cenas surreais da série intitulada ‘Garden Fresh’ chamam atenção por os animais estarem deslocados de sua realidade.

Zebra em foto da séria 'Garden Fresh'. (Foto: Agan Harahap)
Zebra em foto da série ‘Garden Fresh’ (Foto: Agan Harahap/Divulgação)

As imagens dos animais foram feitas em três visitas a zoológicos de Cingapura, onde o fotógrafo fez sua residência artística em 2012, conta em entrevista por email ao G1. Usando programa de edição Agan juntou as fotos dos animais com imagens de arquivo feitas em supermercados.

A ideia surgiu durante uma residência artística em Cingapura, “eu não sabia o que fazer e andava pela cidade procurando alguma inspiração. Fui em um zoológico e observando os animais presos tentando se adaptar em seu novo habitat, tive a ideia para desenvolver a série.”

Foto da série 'Garden Fresh' (Foto:  Agan Harahap/Divulgação)
Foto da série ‘Garden Fresh’ (Foto: Agan Harahap/Divulgação)

Baseado neste contexto Agan criou a série ‘Garden Fresh’, cujo título foi copiado de uma seção de vegetais em um mercado. “Estas fotos não se referem apenas aos animais, mas também quando somos colocados em uma nova realidade.”

Foto da série 'Garden Fresh' (Foto:  Agan Harahap/Divulgação)
Foto da série ‘Garden Fresh’ (Foto: Agan Harahap/Divulgação)
Pelicano na séria 'Garden Fresh' (Foto: Agan Harahap/Divulgação)
Pelicano na séria ‘Garden Fresh’ (Foto: Agan Harahap/Divulgação)