Marca de uísque é acusada de culpar negros por racismo em rede social

Post na página do Facebook da Johnnie Walker Brasil causou polêmica na rede social (Reprodução/Facebook/JohnnieWalkerBrasil)
Post na página do Facebook da Johnnie Walker Brasil causou polêmica na rede social (Reprodução/Facebook/JohnnieWalkerBrasil)

Leandro Machado, na Folha de S.Paulo

Uma propaganda da marca de uísque Johnnie Walker sobre o Dia da Consciência Negra provocou mensagens de protesto na página da empresa no Facebook.

Agora, seguidores da marca na rede social acusam a empresa de promover o que supostamente tentava combater com a mensagem publicitária: o racismo.

Na quarta (19), véspera do feriado em São Paulo, o perfil de Johnnie Walker publicou uma fotografia de um homem negro. Sobre a imagem, foi escrita a palavra “branco”, além famoso slogan da bebida: “Keeping walking.”

Na parte de baixo, a seguinte frase: “E você, ainda deixa usarem sua origem como obstáculo para o seu progresso? Racismo. Até quando? #vocefazofuturo.”

A publicação, curtida por 27 mil pessoas e compartilhada mais de 2.000 vezes até a tarde desta sexta (21), gerou um longo debate entre seguidores da marca na seção de comentários da página.

Grande parte das mensagens reclama que, com a frase, Johnnie Walker culpa os negros pelo racismo que sofrem.

“Quer dizer que agora a culpa da opressão é do oprimido?”, questionou uma leitora. “Vocês ainda deixam? Não, não deixamos, nossa luta para que nossa origem seja respeitada é diária”, escreveu outra seguidora.

“As publicidades da marca só com pessoas brancas, nórdicas, padrãozinho, vem me falar que são os negros que colocam obstáculos em sua própria existência?”, diz outra.

Outros fãs da marca retrucaram, alegando que os críticos não entenderam a mensagem. “Interpretação de texto manda abraços”, ironiza um leitor.

“Não estão dizendo que os negros colocam obstáculos em sua própria existência, e sim que os negros não podem deixar que os outros coloquem obstáculos, entende?”, pergunta um defensor.

A Folha tentou, desde a manhã de ontem, falar com a Johnnie Walker por telefone, e-mail e mensagem pelo Facebook. Não houve resposta até o fechamento desta edição. Na própria página, a marca respondeu leitores que criticaram a publicação:

“Johnnie Walker sente que o post acima tenha sido interpretado de maneira ofensiva e reforça sua posição de respeito a todas as raças. Isso prova que o racismo é um tema que merece ser debatido de forma séria e respeitosa por todos até que seja uma coisa do passado.”

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Tristeza dura mais tempo do que qualquer outra emoção

foto: flickr.com/hansel5569/
foto: flickr.com/hansel5569/

Carol Castro, no Ciência Maluca

Tom Jobim e Vinicius de Moraes estavam certos: tristeza não tem fim, felicidade sim. Essa tal alegria é breve. Dura apenas 35 horas no seu peito. Já a tristeza… ah, a tristeza, amigo. Essa vai te pentelhar por cinco looooongos dias.

A constatação vem de uma pesquisa encabeçada por dois cientistas da Universidade de Leuven, na Bélgica. Eles pediram a 233 pessoas para rememorar episódios recentes que despertaram alguma emoção. Contaram também quanto tempo esses sentimentos duraram.

E tristeza é de longe a mais teimosa. Entre as 27 emoções avaliadas (entre elas, vergonha, tédio, alegria, inveja, alívio, ódio, desespero, esperança, etc, etc), esse sentimento foi o único a se manter vivo por mais de três dias. São necessárias, em média, 120 horas para você esquecer o abatimento de um pé na bunda. O desespero passa (em 24 horas ele já se foi), ódio vai embora (em 60 horas) e você ainda tem mais 2,5 dias a sós com a tristeza.

Segundo o estudo, é essa nossa mania de ficar remoendo os fatos ruins que faz a melancolia durar tanto tempo assim. A gente desencana mais rapidamente das outras situações, como se fosse mais fácil aceitar, algo do tipo “o que foi já foi, deixa pra lá”. Mas com a tristeza não. Insistimos em analisar por que aquilo aconteceu, repassar cada episódio, pensar em como daria para ter revertido a situação. Grande erro.

Já os sentimentos que duram pouco tempo, como tédio ou surpresa, vêm acompanhados de eventos pouco importantes. Dá uma olhada na tabela dos pesquisadores:

(Da direita para a esquerda: tristeza, ódio, alegria, desespero, esperança, ansiedade, desapontamento, contentamento, inveja, alívio, entusiasmo, admiração, gratidão, relaxamento, culpa, estresse, orgulho, se sentir emocionado, raiva, tédio, surpresa, irritação, compaixão, humilhação, medo, vergonha, desgosto)
(Da direita para a esquerda: tristeza, ódio, alegria, desespero, esperança, ansiedade, desapontamento, contentamento, inveja, alívio, entusiasmo, admiração, gratidão, relaxamento, culpa, estresse, orgulho, se sentir emocionado, raiva, tédio, surpresa, irritação, compaixão, humilhação, medo, vergonha, desgosto)

Bem injusta essa vida, não?

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Deputado estadual da Bahia culpa Parada Gay por seca em São Paulo

Questionado sobre o motivo da seca em São Paulo, ele voltou a afirmar que a culpa é dos homossexuais.

isidorio

Publicado no UOL

O deputado estadual baiano Pastor Sargento Isidório (PSC) iniciou uma campanha de oração por chuva em São Paulo que amenize a estiagem que ameaça os reservatórios do Estado. Nessa segunda-feira (3), ele gravou e publicou um vídeo pedindo as orações e culpando a Parada Gay pela seca no maior Estado do país.

“O livro de Reis 8, 35 e 36 diz o seguinte: quando os céus se cerrarem, e não houver chuva porque o povo pecaram, aí estou falando da grande Parada Gay que se dá em São Paulo. A maior parada gay do mundo está ali dentro de São Paulo. Mas todo paulista é gay? Claro que não! Ali tem homens mulheres de Deus, (…) que não praticam o mesmo pecado da homossexualidade. A Bíblia diz se esse povo se converter do seus pecados (…), Deus perdoará e abrirá a chuva na terra”, afirmou, segurando uma bíblia e pedindo cinco dias seguidos de oração.

Em conversa com o UOL, o pastor disse que a falta de chuvas é um “castigo de Deus” por causa de “pecado.”

Ele ainda afirmou que as chuvas que começaram na segunda-feira (3) já foram fruto das orações de sua campanha.

“Fiz essa campana pedindo que todos os evangélicos e cristãos de outras religiões orem para mover o coração de Deus e perdoar os motivos pelo qual ocorre a falta de chuva. Graças a Deus choveu. Só tenho a agradecer”, afirmou.

‘Culpa dos homossexuais’

Questionado sobre o motivo da seca em São Paulo, ele voltou a afirmar que a culpa é dos homossexuais.

“A Bíblia diz que os vossos pecados fazem divisão entre vós e vosso Deus. Quando os homens resolvem mudar a natureza de Deus, enfrentam Deus, aí ele tranca a torneira do céu. Essa coisa de homem querer virar mulher. Homem nunca vai ser mulher! Nem mulher vai ser homem. A língua de homem é grossa, a da mulher é fina. O buraco do homem tem cocô dentro, o da mulher tem gordura, coisa boa”, disse.

O pastor disse ainda que a escolha de Deus pela seca em São Paulo ocorreu por conta do sucesso de público dos atos da comunidade LGBT. “Gay tem todo canto, mas o Estado que mais faz propaganda e impulsiona isso é São Paulo. E Deus escolheu lá onde tem a maior parada gay do mundo. E acho que vem coisa pior por aí, se não arrependerem, se não acertarem suas contas. Todos nós, inclusive eu”, disse.

Em 2014, a Parada Gay de São Paulo reuniu 100 mil pessoas. Nela, foi pedida a “criminalização da homofobia”.

O deputado baiano ainda fez uma previsão pouco otimista para o Brasil, caso os homossexuais “não deixem o pecado”.

“Veja a escala Ritccher. Minas e outros Estados já estão tendo tremores de terra. Isso é terremoto. Do jeito que as coisas estão, nós sofreremos também esses e outros desastres da natureza. O homem foi criação de Deus, e estão negando a natureza de Deus. A Bíblia diz que devemos considerar a bondade a severidade de Deus”, afirmou.

O presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira, disse que o discurso do deputado já é conhecido a Bahia pela prática de homofobia.

“Ele é um sensacionalista, um oportunista que fica causando esse tipo de debate absurdo, falando coisas da idade média para semear o ódio e fazer propaganda contra homossexual. Não quero ficar falando muito para não ficar promovendo ele”, disse.

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Pedófilo relata tentativas de tratar a doença e o medo do descontrole

G1 teve acesso a depoimento exclusivo em que homem fala do transtorno.
Especialistas comentam a falta de tratamentos que podem evitar crimes.

Ilustrações de Mariana Leme
Ilustrações de Mariana Leme

Giovana Sanchez e Bruno Machado, no G1

Como foi a reação quando o senhor contou para a sua esposa?
– Nossa, ela ficou arrasada. Na hora, ela não falou nada. Ela não teve palavras. Eu consegui conversar com ela na semana seguinte, já na prisão.
– O senhor tem alguma religião? Procurou ou já tinha?
– Eu já tinha, eu já era evangélico. Ajuda não tinha pedido para ninguém. É muito difícil pedir ajuda. Se eu falasse “eu sou ladrão” era mais fácil. Pedófilo não, porque o pedófilo já é estigmatizado mesmo. É um criminoso. Não é um doente, é um criminoso.

Marcos* tem 52 anos, dois filhos adolescentes, uma esposa e um emprego. Ele também tem culpa – a culpa de quem cometeu um crime e teve que ir para a cadeia para perceber que precisava de ajuda. A culpa de quem tem uma doença que é associada quase automaticamente a um crime: pedofilia, termo médico para o desejo sexual por crianças.

Com a voz trêmula, Marcos agradece a Deus por ter a família perto. No depoimento obtido com exclusividade pelo G1, ele fala do medo de não conseguir se controlar, “de virar um pervertido”. O impulso começou na adolescência. “Eu achava que era normal para todas as pessoas.” Há cerca de dez anos, Marcos passou a acessar mais a internet e tudo piorou. “Fiquei um viciado nesse tipo de site. Como eu posso dizer? Eu virei um visitante, comecei a colecionar figurinhas. Comecei a ver vídeos de sexo envolvendo crianças.”

Rastreado pela Polícia Federal, Marcos foi preso em flagrante por ter vídeos de pedofilia em seu computador. Segundo dados da PF fornecidos pela ONG SaferNet Brasil, de 1999 a 2013 ocorreram 333 prisões por esse delito. Só no ano passado, foram 860 inquéritos e 134 prisões em flagrante por posse ou consumo de pornografia infantil.

Marcos ficou na cadeia por pouco mais de um ano – a pena por esse crime vai de 1 a 4 anos de prisão. Ao ser solto, procurou ajuda. “Era muito constrangedor. Nas primeiras sessões, até para falar com o médico era muito difícil”. Hoje ele toma quatro tipos de medicação (antidepressivos em geral), além de fazer acompanhamento psiquiátrico.

“Foi muito importante, tanto o tratamento ambulatorial quanto o psicológico. Eu era compulsivo, assistia aos vídeos compulsivamente, masturbação compulsiva também. Acabou tudo isso”, explica ele.

O desejo sexual por crianças é catalogado nos manuais médicos como uma doença da família das parafilias – transtornos de preferência sexual que incluem, por exemplo, incapacidade de consentir com o ato e humilhação do parceiro. A pedofilia afeta menos de 1% dos homens e entre 0,2% e 0,3% das mulheres – assim haveria algo como 997 mil homens e até 311 mil mulheres no Brasil. A doença é diagnosticada a partir dos 16 anos em pessoas que apresentam frequentes ou intensas fantasias, atividades ou práticas sexuais com crianças ou jovens menores de 13 anos.

O imaginário social geralmente toma todo agressor de crianças por pedófilo. Mas, segundo os médicos, nem todo pedófilo é agressor de crianças, e nem todo agressor de crianças é pedófilo.

Há dez anos, o psiquiatra Danilo Baltieri fez uma pesquisa para seu doutorado com agressores sexuais de crianças em uma penitenciária de São Paulo. De todos, 20% eram pedófilos diagnosticados. Segundo a literatura internacional, a porcentagem de transtornos mentais entre agressores sexuais de crianças pode variar de 30% a 60%. “Esses 20% [de pedófilos] estavam lá sem tratamento, sem abordagem, nada”, diz o psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina do ABC, que comanda o único centro que atende especificamente parafilias de forma voluntária e gratuita no Brasil.

“Não é um transtorno de fácil diagnóstico. É difícil, não basta uma única consulta”, explica.  O tratamento é feito inicialmente com psicoterapia em grupo de um tipo específico: a cognitivo-comportamental, com foco no comportamento “sexualmente desviado” do paciente.

No ambulatório do ABC, Baltieri atende de forma gratuita 20 pedófilos – 19 homens e 1 mulher. Alguns já foram presos por abusar de crianças ou por consumir pornografia infantil – e há quem não tenha cometido crimes. “Muitos indivíduos com pedofilia de fato não atuam, eles apenas fantasiam sexualmente e às vezes até se casam com mulheres. […] A pedofilia não é crime, a pedofilia é uma doença. O que é crime é estupro de vulnerável, é o ato. Alguns indivíduos com a doença atuam contra a criança e são criminosos. […] Existe a tendência a dizer ‘pedofilia é crime, denuncie’. Isso é um absurdo total que só prejudica os pacientes que precisam de tratamento”, explica Baltieri, que trata pedófilos há 15 anos.

A ideia de que o pedófilo é um doente e precisa passar por tratamento é compartilhada pela dona de casa Débora*, de 29 anos, do interior de SP. No final de julho, ela estranhou o fato de sua filha de nove anos ter recebido um convite de amizade no Facebook de um jovem que pedia para ela instalar um aplicativo de mensagens temporárias.

“Monitorei, tirei ela do Facebook e fiquei falando com ele como se fosse a minha filha. E ele se manifestou. Ele perguntava se eu já conhecia sobre sexo, se queria aprender, que ele queria fazer. Mandava fotos dos órgãos. Aí eu insistia em falar que era uma criança, porque tinha que caracterizar pedofilia, e ele falava que não tinha problema, porque já tinha visto todas as fotos e gostava dela assim mesmo. Foi aí que eu fiz todos os boletins de ocorrência e fui atrás da Polícia Federal”, afirmou ela em entrevista ao G1.

A mãe descobriu que o homem é um ex-aluno da escola da filha, em Piracicaba (SP), de 18 anos. Ela entrou em contato com a mãe dele e marcou um encontro com os dois. “Foi um encontro triste pra mim, a mãe dele estava ali, junto, muito desesperada, sem conseguir acreditar no que acontecia. Eu vendo o sofrimento daquela mãe, eu sendo mãe também, eu sofri muito”, disse Débora. “Ele precisa de tratamento. Porque ele não vai mudar da noite pro dia.”

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Lula: roubar banqueiro é chato, mas não faz falta

foto: Ricardo Stuckert / InstitutoLula21)
foto: Ricardo Stuckert / InstitutoLula21)

Josias de Souza, no UOL

Num desses surtos de loquacidade que costuma acometê-lo sempre que se depara com um microfone e uma plateia, Lula criou na noite de quarta-feira (24) uma espécie de assaltômetro. Por esse medidor metafórico, a aversão aos assaltos diminui conforme o nível de riqueza de suas vítimas. Se o assaltado for um banqueiro, aí mesmo é que a culpa do assaltante deve ser atenuada.

Lula discursava em Santo André, no ABC paulista, num comício do seu candidato ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha. A cena foi transmitida pela internet. Em dado momento, a pretexto de criticar o governador tucano Geraldo Alckmin, o orador falou sobre (in)segurança pública. “Agora, a coisa tá tão grave que é pobre roubando pobre”, disse o padrinho de Padilha.

“Eu, antigamente via: ‘bandido roubou um banco’. Eu ficava preocupado, mas falava: pô, roubar um banqueiro… O banqueiro tem tanto, que um pouquinho não faz falta. Afinal de contas, as pessoas falavam: ‘quem rouba mesmo é banqueiro, que ganha às custas do povo, com os juros. Eu ficava preocupado. […] Era chato, mas era… sabe, alguém roubando rico.”

Quer dizer: na visão de Lula, o problema dos assaltos em São Paulo é que a oferta é menor do que a procura —no sentido de que há mais assaltantes procurando assaltáveis do que assaltáveis com dinheiro para ser assaltado. O sábio do PT deu um exemplo dos efeitos da crise que se abateu sobre o mercado dos assaltos.

“Essa semana, a Joana, que trabalha comigo, é irmã da Marisa [Letícia, mulher de Lula], na frente do hospital perto de casa, […] oito horas da manhã, o cara encostou um negócio nas costas dela e falou: ‘É um assalto, eu tô armado. Continua andando normalmente, me dá o celular e me dá o seu dinheiro. A coitada teve que dar sessenta reais pro ladrão…”

A solução, disse Lula, é simples: “Se o Alckmin não tem competência pra fazer as coisas que o governador tem que fazer, nós temos que dizer pra ele: Alckmin, você já está há muito tempo aí. Saia. E deixa o jovem Padilha governar esse Estado para as coisas começarem a melhorar.”

Enquanto o PT tenta combinar com os russos, resta constatar que há na praça dois Lulas. Um financiou suas campanhas com doações milionárias dos bancos. Eleito, propiciou à banca lucros nunca antes vistos na história desse país. Outro desfruta da condição de ex-presidente voando em jatinhos de empreiteiros e recebendo honorários de bancos por palestras feitas à sombra. Sob holofotes, desanca nos palanques as elites assaltáveis desse país.

O carregador de postes do PT ainda não se deu conta. Mas, pelos critérios do seu assaltômetro, Lula é, hoje, um milionário perfeitamente assaltável. Tem tanto que, um pouquinho que for suprimido decerto não lhe fará falta.

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