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Moldar barro e soprar vida não é mais mito, agora é Ciência

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Carlos Cardoso, no Meio Bit

Embora ocorra em outras culturas bem mais antigas, o mito judaico-cristão da criação do Homem através do barro é o mais conhecido no ocidente. Não deixa de ser poético, é inclusive uma boa alegoria para as poças de lama onde a Vida surgiu, 4 bilhões de anos atrás, mas agora essa história perdeu o status de mito.

Cientistas do Brigham and Women’s Hospital, em Boston fazendo experiências com células-tronco descobriram que utilizar nanoplaquetas de silicato sintético (ou, em termos leigos, plaquinhas de argila) como base de cultura de células-tronco induz essas células a se transformarem em tecido ósseo.

Isso mesmo. Células-Tronco + Barro = Osso. Se moldarmos uma costela estamos a meio-caminho de uma mulher.

Os cientistas estão falando em usar isso para biofiltros, matrizes injetáveis de reparação de tecidos e até engenharia de tecidos ósseos. Basicamente em 20, 50, ou até mesmo 15 anos alguém com um câncer ósseo terá o osso escaneado em alta resolução, uma impressora 3D criará um modelo em nanosilicatos, uma cultura de células-tronco criadas à partir das próprias células do sujeito será aplicada ao modelo e em alguns dias/semanas teremos um osso zero bala. Uma cirurgiazinha básica e pronto, adeus câncer. Sem precisar de imunossupressores.

É ficção científica? Com certeza, mas até ontem animar barro também era pura lenda.

O peso da noção de pecado nas culturas islâmicas

Rui Luis Rodrigues, no Facebook

Entre as muitas reflexões que o belo filme A Separação (foto), dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2012), despertou em mim, uma tem a ver com a maneira pela qual as culturas islâmicas foram permeadas pela noção de “pecado”. Já se falou e escreveu muito sobre o que representou, para essas sociedades, não terem se beneficiado do fermento crítico da Ilustração (São Voltaire, rogai por todos nós!). Opinião muito eurocêntrica, de fato, e ainda ancorada na ideia antiga e errônea de que os desenvolvimentos da civilização ocidental teriam sido “padrão” e que todas as demais culturas deveriam experimentar seus desdobramentos. Obviamente, não concordo com essa ênfase; mas, como ocidental que sou, não posso deixar de respirar aliviado por ver que, em nossa civilização, os encaminhamentos da história nos conduziram a uma profunda (e benéfica) relativização desse conceito religioso.

O elemento religioso é apresentado no filme com extrema sutileza, como convém a um diretor que trabalha sob as condições específicas de um país onde a voz dos aiatolás é decisiva; não há, portanto, nenhuma crítica direta – mas o expectador atento pode, sem dúvida, lê-la “nas entrelinhas”. No Irã, a religião exerce um peso asfixiante sobre o tecido social.

Boa parte do drama gira em torno do temor que uma das personagens tem de ser “castigada” por fazer algo “pecaminoso”. Para questões cotidianas, ela chega a telefonar a um tipo de aconselhamento especializado em dizer se tal coisa é ou não pecado; a presença dessa casuística mostra como a noção é, naquele contexto, uma construção socialmente densa. (Situação análoga, aliás, à vivida pelo Ocidente a partir da segunda metade do século XVI, quando a ênfase no confessionário – e o trabalho dos jesuítas – geraram toda uma casuística quanto ao “pecado” e um pastoralismo bastante policialesco.)

“Eu tenho medo de que algo aconteça com nossa filha, se eu fizer isso ou aquilo” – é como a personagem do filme expressa, em dado momento, o seu temor. O que não é afirmado, mas se subentende, é o mais grave e triste: o temor dessa fiel que não sai à rua sem seu xador é que Alá mate sua filha (com uma dessas doenças graves que roubam a infância, por exemplo) como represália pelo pecado da mãe.

Como cristão que sou, não posso negar que muitos irmãos de fé relacionam-se com Deus dentro da mesma lógica sombria. Muitos anos atrás li um relato onde um seminarista norte-americano, desesperado, atribuía o tumor cerebral de seu filho de cinco anos ao fato de que ele, pai, era viciado em pornografia. “Deus me puniu”, dizia o pai.

Minha perplexidade talvez seja também a sua: como pode alguém crer que Deus, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; o Deus que aparece representado, numa das mais conhecidas parábolas de Jesus, como um pai sempre à espera do retorno de seu filho perdido; como pode alguém crer que esse Deus seja capaz de semelhantes atos? Como pode alguém ter tão distorcida em si a imagem de Deus a ponto de enxergá-lo dessa forma?

Ontem perdi a paciência no Facebook. Alguém postou um desenho infeliz (um “dedo divino” tocando a proa do navio Titanic para fazê-lo afundar) cuja legenda dizia mais ou menos: “É o que acontece com quem zomba de Deus”. Já se falou demais sobre a tal frase, presumidamente dita por ocasião da viagem inaugural do Titanic (“Nem Deus afunda este navio!”). Não sei se essa frase é autêntica; mas sei que tem gente que realmente acredita que o desastre do Titanic, onde centenas de vidas inocentes se perderam, teria sido represália divina por sua “honra” maculada.

Como pode um cristão crer num “deus” orgulhoso, violento e cruel, capaz de tais ações? Como podem as pessoas deixar de perceber que um “deus” que agisse assim agiria contra a própria essência da mensagem do evangelho?

Na fé cristã, felizmente, o peso da noção de “pecado” já foi bem relativizado. Sei que ainda há muitos que, infelizmente, ainda vivem e sentem essa noção na mesma lógica da fiel iraniana do filme. Ainda precisamos crescer muito na compreensão de que o evangelho é libertação, não escravidão; e que Deus, o verdadeiro Deus que se revelou em Jesus Cristo, não coloca tumores na cabeça de crianças para punir as escorregadelas de seus pais.

Conheço pouco a teologia islâmica. Mas creio que, se ainda não começou a experimentar, essa fé irá provar algo como a redescoberta de que “Alá é misericordioso!”; um movimento que, brotando de dentro dessa religião milenar, ajude seus fiéis a perceberem Deus de forma mais humana. Não acredito que o Islã deva ser esticado no leito de Procusto da Ilustração, mas desejo, de todo o coração, que movimentos dessa natureza tornem-no mais afável e acolhedor. Foi o que aconteceu, e ainda está acontecendo, com nossa própria fé cristã; pelo que fico profundamente grato.

dica do Moyses Negrão Monteiro

Feliz 2012 ou um 2012 possível

Rio de Janeiro - Foram mais de 16 minutos de fogos em Copacabana  Foto: Ascom Riotur/Divulgação

Priscila Emerich Souza

Que nossas matas não se convertam em eucaliptos, acácias até que não sobre mais nada, que a comida não seja envenenada por agrotóxicos, que a humanidade não seja exterminada por um inimigo real em nossos pratos matando nossos familiares e amigos de câncer.

Que a medicina se torne mais humanizada de uma vez por todas, que as novelas da rede globo parem de deseducar e alienar nosso povo, que as massas acordem e exijam cultura de qualidade na TV banindo esse lixo tóxico e violência das casas brasileiras que forja um comportamento padrão.

Que a revista Veja entre outros meios de comunicação fechem suas portas e sejam punidos por crime de difamação e desinformação, que os torturadores de outrora e de hoje, sejam presos sim, que a memória política seja recuperada sim. Que as propagandas de carro e de banco sejam ridicularizadas e seus marketeiros sejam obrigados a assisti-las presos a uma cadeira com os olhos abertos por horas a fio.

Que haja política pública decente para os sem-terra, sem-teto, sem-lar (inclui-se aqui índios), que o Brasil encontre uma forma de “avançar” sem deixar um rastro de alagamento.

Que as Universidades públicas continuem de qualidade sim contra todos seus detratores, possibilitando a divergência de opinião. Que o mundo do pensamento único seja questionado já na 1ª série do maternal estimulando a fantasia das crianças a pensarem que um outro mundo é possível sim.

Que nossa língua pátria e mesclada de tantas belas culturas volte a ser praticada, escrita, falada, conhecida, amada e respeitada.

Que o consumismo voraz e desenfreado seja varrido e vigiado nas cidades e culturas seculares e milenares e não permitam reduzir tudo a um grande shopping center a céu aberto.

Que o direito à cidade não se converta na pobreza do espetáculo de uma árvore de natal artificial que um banco ou uma empresa dá de migalha.

Que meus amigos que andam de bicicleta continuem pedalando sãos e salvos!

Que um tribunal de filósofos, cientistas sociais, humanistas, intelectuais, poetas engajados julgue os crimes de humanidade: guerra, chacina, tortura.

Que nossos juízes letrados, senadores, deputados, tenham vergonha de seus salários e todas as regalias frente ao povo que governam como reis a seus súditos. Que o povo sinta raiva e não resignação. Que o povo estude e não seja evangelizado. Que o povo leia ao invés de repetir o que diz o jornal nacional.

Que os ursos polares parem de tomar coca-cola!

Que o próximo tsunami atinja apenas a ilha de caras e a casa do big brother!

Que rappers, metaleiros e reggeiros assumam os cerimoniais de fim de ano da TV, pelo-amor-de-Deus.

Que não se extermine o último salmão nos mares, o último mangue da costa, o último panda das florestas, nem a última onça ou lenta tartaruga que atravessa nossas BRs.  Que o abandono e maltrato de animais e crianças seja punido. Que se volte a acreditar na alegria e espontaneidade das crianças sem prescrição de bulas de remédio.

Que a montanha de lixo na praia, nas ruas, nos aterros, envergonhe a todos como um espelho refletindo uma vida miserável de produção de cada vez mais supérfluos. Que cada adulto aprenda que um pouquinho de solidariedade e gentileza não faz mal.

Que a gente não se acomode, que eu não me acomode nessa zona de conforto e parafernália tecnológica com tanta miséria batendo à porta.

Feliz 2012 meus queridos amigos.

foto: Terra

dica do Beto Ramos